O Arco Do Tempo

Eu, Humberto (meu irmão), Sr. Ortega (meu pai), Marisol (minha irmã) e Eustáquio (meu avô paterno), sentado.

desço os olhos para as linhas que desenham
rostos e paisagens em fotos de décadas
repassadas em cores e descores
cumpro o destino da flecha atirada por Chronos
personagens dos quais sou um
e mais nenhum
papai vovô irmãos
sonhos em desvãos
que nunca foram realizados
os meus indecifráveis
vivia fora do mundo aceitava
sem sorrisos que cedo morreria
quase obsessão aos 33 de Cristo
aos 40 de John aos 27 de Morrison
sempre haverá quem morra jovem
em cada uma das idades
aos borbotões a toda hora
ainda não foi a minha agora
se for antes dos 80 morrerei contente
não sei de amanhã vivo o presente
lembro que vovô me amava
me achava inteligente
antes de partir cuidei dele
banhava o ajudava a comer caminhar
pedi perdão porque sabia que não cumpriria
as suas ambições não queria ser homem importante
influente intendente industrial comerciante
buscava ser simples despojado pés no chão
me sentia desmembrado desmemoriado
de um passado que sabia existir
vidas passadas realidades não alcançadas
já entendia que o futuro não contava
mas ainda cultuava a esperança um país diferente
múltiplo raças misturadas riqueza distribuída
hoje morro todos os dias às vezes de hora em hora
a grandeza desmesurou-se em sentido contrário
nos apequenamos repugnantes ruminantes
de mentiras e contradições
dos templos ocupam-se os vendilhões
crenças transformadas em crendices
fé em feitiçarias em salões dourados
em palácios de mandatários
estamos nos finais dos tempos
mais um tempo de finais
no eterno ciclo de decadências
e de mercados baratos na venda de consciências…

Meu pai, eu e meu irmão, em Foz do Iguaçu, à caminho de Missiones (Argentina), onde vivia a minha avó paterna (1985)

Velhinho

eu acordei velho hoje
quase sempre acordo jovem
e só restabeleço o que sou
ao surgir do outro lado do espelho
sonhei que era criança
foi um sonhinho-lembrancinha
menino pequeno queria ser crescido
ficava indignado egoísta queria
me sentar sozinho no banco do ônibus
minha mãe puxava para o colo entre
suas pernas de pelos mal aparados
pinicavam deixa os outros se sentarem
queria ficar na janela vendo o mundo
passar rápido mais rápido menos rápido
às vezes o mundo parava
minha mente continuava antecipava
surpresas

voltei velho fui à feira
quando garoto gostava de falar com velho
o velho de hoje puxa assunto quase
ninguém lhe responde olham
desconfiança ou indiferença
na banca de frutas um velho de longos
cabelos e barbas brancas puxa fumaça
de um apequenado cigarro de palha
seu olhar é mais profundo
do que uma fossa oceânica de tantas turbulências
acalmadas na escuridão
passo por um bar velhos jogam dominó
perdem partidas ganham idade
um deles olha para as peças
como se fossem pedaços da vida
que insistiram em não serem encontradas
respira pesado
ar que pouco permanece e se esvai
mais um ser antigo caminha
com seu velho cão
comem do mesmo pão
são amigos pais filhos irmãos
qualquer um que partir antes
levará consigo seu ente querido
darão adeus às mútuas lembranças
esquecidos

desconsolado desço a angélica
por uma travessa chego ao portão lateral
cemitério da consolação
me movo entre pedras me perco
revisito jazigos pássaros cantam
persigo ruelas ventos sopram
pareço ouvir vozes dos que se foram
admiro mausoléus árvores respiram
o sol ilumina o tempo construções desabam
em silêncio registro estátuas vivas os mortos falam
piso sobre lágrimas que já secaram
acalmo os meus pensamentos divago
tropeço em mim busco solução
os eternos moradores respondem desde o chão
calma… tudo está em dissolução…

BEDA / Anti-Sinais

sinais são importantes
a eles devemos ficar
atentos
caetano
               perguntado se respeitava sinais disse
claro
          são sinais
                          pergunto
por que queremos desrespeitar
                                                  o que nos sinalizam?
propaganda de cremes anunciam
serem anti-sinais
como se quiséssemos
apagar
                                               a nossa trajetória
aos meus 14
                     uma senhora disse para seu filho
no ônibus
                 deixa o moço passar
fiquei espantado
                           eu me tornara um moço
barba branca no rosto
atendentes me chamam
                                      de moço
sei que é uma maneira
                                     de afagar a vaidade
estratégia de recepção ao cliente
mas o meu espanto persiste
sou velho demais
                             para ser chamado
                                                          de moço
cabelo rareado
                         redemoinho falhado
para suavizar discrepâncias
raspo a cabeça
                         cheia de mentais
                                                     reentrâncias
reafirmo a queda inevitável
palavras caducam?
tenho evitado escrever algumas…
sempre
              e
                 nunca
tenho as considerado definitivas demais
aliás
         tenho tentado evitar também
                                                        demais
aliás
         também
                       e aliás
e sempre
               é logo mais
o nunca
              nunca mais
porque viver nos ensina que marcar
coisas como definitivas
não pertence
                      ao nosso mundo
imediatista
                   impermanente
se me contradigo aqui
é por falta de opção
                                 como não há opção
para a morte do corpo
                                    como sei que a energia
é infinita
                enquanto este universo existir…

Foto por SHVETS production em Pexels.com

Participam do BEDA: Suzana Martins / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Darlene Regina

BEDA / Corpo Matutino

Noite de calor, manhã morna
Dormimos sem tirarmos os nossos fluidos
Os seus do meu, os meus do seu corpo
Acordo para a labuta
E antes de sair percorro os meus olhos
Pela pele que lhe recobre
Tento compreender a magia que faz
Com que me traga tantos e imensos prazeres
Mesmo depois de tantos anos a percorrê-la
Com a minha boca, mãos e pontas dos dedos
A penetrá-la com a minha impetuosidade
Saio do quarto sem beijá-la, sem tocá-la
Quase fujo
Para cumprir os compromissos do dia…

Foto por Angela Roma em Pexels.com

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Darlene Regina / Mariana Gouveia / Suzana Martins