A cabeceira (pequena demais para os meus sonhos);
o estrado (forte o suficiente para segurar o peso do colchão e de dois corpos);
o suporte lateral (firme e teso);
a base (onde os meus pés sequer conseguiam tocar) — uma cama…
Seria bege… amarela… madeira esmaecida…
Não me lembro da cor original…
Não importa…
Tudo foi feito no escuro…
Ele vinha silente,
penetrante,
o horror noturno…
Gostava tanto de ir para o sítio
e lá ficar com as minhas bonecas
e os meus bichos…
O monstro adormecia distante,
em São Paulo,
com os seus negócios
e a sua arma em riste…
Gostei tanto quando ele morreu!
Dizem que foi do coração…
Disso, duvido…
Mamãe também morreu…
Acredito que sufocada…
engasgada
com a palavra que nunca proferiu:
Não!
Categoria: Poemas
Descaminhos
cabeça ombro joelho e pé
joelho e pé
olhos ouvidos boca e nariz
cabeça ombro joelho e pé
crescemos brincamos partes do corpo
se nos são retiradas um a um
e recolocadas pouco a pouco
seres humanos descremos
crescidos decrescemos
nossa consciência corporal de estarmos bem
nos recusam viver
nos acusam pelo prazer
são contra as leis contra o coração
desde sempre retirado de nosso peito
modelos feito bonecos sem emoção
de integridade desintegrada finalmente
jogados no meio da calçada
como objetos descartados lixo último nicho
sem cabeça para ficar…
sem pés para onde ir…
Cedo

Acordo…
Logo, me levanto…
Sinto os pés no piso, a procurar os chinelos…
Antes que os alcance, me invadem sensações
inesperadas, mas conhecidas…
Em meu corpo, quente, tremores…
Na alma,
gelo
e medo…
Cedo,
cedo à minha incapacidade de lutar
contra aquele sentimento de impotência,
tão particular quanto evidente…
Sozinho que estou,
ninguém saberá o que passo…
Ainda que estivesse rodeado por muitos,
mesmo assim, me sentiria só,
a beber a água suja do fundo do poço…
Neste dia de verão,
voltarei para a cama,
a tremer de frio n’alma…
Fecharei as janelas,
cerrarei as cortinas,
cobrirei o meu corpo com pesadas
mantas…
me manterei quieto,
como se quisesse voltar
para o útero de minha mãe…
Talvez, renasça em algum momento…
De Lírios E Outros Devaneios
Eu estava limpando a casa e organizando o lugar para que não parecesse tão bagunçado, deslocando objetos daqui para ali. Não sei se pelo meu trabalho profissional, sinto que o meu senso espacial é bem apurado. Consigo colocar sem muito pensar as coisas nos seus devidos lugares. Se houvesse um nome que poderia escolher para o que eu faço é o de aprovisionador efêmero — soluções precárias para momentos oportunos ou que costumo chamar de provisórias permanentes. É bem verdade que quase tudo é passageiro. Algumas coisas além de passageiras, são lindas. Como os lírios que floresceram aqui em casa. Não fosse esta imagem roubada, ficaria apenas o registro da minha memória — talvez a coisa mais fugaz que eu tenho.
Bom dia para você, rolinha, que decidiu fazer seu ninho no cacho de bananas quase no ponto de ser colhido! Escolheu bem o lugar – terá o que comer ao alcance do bico — para você e para seus filhotes. E por ter escolhido uma casa onde as pessoas respeitam a vida — perderemos às doces bananas, mas ganharemos lindas companhias…
Voltava, madrugada alta, e ao olhar para a direita, uma porção de água refletia luzes de barcos estacionados ao longo do horizonte sem fundo da noite. Achei por bem registrar o que queria o que fosse a cena do confronto do branco com o preto, oscilantes. Quando fui buscar as imagens, vi fogo sobre a água e um bastão luminoso como se fosse o cetro da Rainha D’Água emergindo contra a negritude. Mais um devaneio entre tantos…
A insônia não me impede de sonhar. As últimas luzes de ontem, então, brotam em plena madrugada, como planta irrigada por devaneios aquosos. A tarde se faz, tarde da noite quente, seca e escura. Assim, amanheço…
Por onde eu estava, passou uma noiva com o noivo, acompanhados por damas de honra, todos devidamente paramentados. Enquanto uma senhora sorriu e expressou que amava ver noivas, outra falou baixinho: “Que ridículo!”… Eu, que só achei a cena bonita, senti que qualquer coisa pode ofender a alguém quando a pessoa está de mal com a vida.
Tempo seco.
Vida umedecida.
Horizonte dividido
em céus.
Todos meus.
Cores sedentas.
Tarde emudecida.
Coração agradecido…
A nossa boa e saudosa Penélope tinha o mesmo hábito — onde quer que estivéssemos, se postava estrategicamente no meio do caminho. Atualmente, é a Dominic que se põe na passagem. E o que muitos de nós, seus cuidadores, fazemos? Nada. Passamos meio de lado ou por cima, com todo o cuidado para não atrapalharmos o descanso da inconveniente presença. Certo ou errado, é o meu comportamento.









