B.E.D.A. / Cão Perdido No Espaço*

Laika, primeiro terráqueo vivo a ir para o Espaço, em 1967, pelas mãos do homem.

Quando ela se foi,
silenciosa feito um raio sem trovão —
Oyá calada — comecei a cheirar o chão
pelo qual ela teria passado…

Em busca de seu cheiro —
cão perdigueiro —
perdi meu dom,
me perdi…
Fiquei sem casa,
sem dona,
sem domínio
sobre o meu caminho
de perseguidor de seu odor.

Todas as noites,
uivava para as luas
presas aos postes das ruas,
tentando alcançar as estrelas
de seu corpo,
os cometas em seus cabelos,
os asteroides de seu olhar…

Cercado de escuridão,
senti-me como Layka
só na imensidão infinita —
corpo encapsulado,
sem elo
com a Terra de onde provinha,
a não ser pela gravidade
que a ela me prendia…

Sonhei que pela poderosa atração
de seu corpo,
reentrava na atmosfera
em que ela respirava — invasão
em forma de fogo
e risco de luz — pedaço de metal
incandescente
a penetrar na pele da amada… 
Saudade que se apagava
em choque e explosão,
amor e paixão… 

A energia e o ar de meu módulo
aos poucos se esvai…
Por meus pelos,
o calor se retira da pele,
começo a sentir o frio a me invadir,
até que o frio se torna meu,
antes que deixe de respirar…
Ser sem vigor, aberta sorte,
circulo pelo Espaço a conhecer
o belo mistério da morte…

*Em 3 de novembro de 1957, um mês após a missão do Sputnik 1, os soviéticos mandaram o primeiro ser vivo ao espaço: a cadela Laika. O Sputnik 2 deu 2.570 voltas à Terra e ficou 162 dias em órbita. Queimou-se ao tocar na atmosfera terrestre em 14 de Abril de 1958.

Participam do B.E.D.A.:

Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Claudia Leonardi / Darlene Regina / Mariana Gouveia / Adriana Aneli

B.E.D.A. / Pai

Vou à padaria — prosaicos
pãezinhos recém-saídos do forno
iniciariam o meu dia na casa vazia.
Mesmo depois de acordar,
visualizar-responder às mensagens,
caminhar,
só me é dada à luz dos olhos
depois de um gole de café,
com pão e manteiga — homenagem
aos meus primeiros cinquenta
anos de vida com mamãe.
Seu rosto marcado e cabelos prateados
ainda passeiam por trás das minhas retinas
dez voltas em torno do sol depois
de cumprir a nossa sina…


No retorno aos muros de meu recolhimento,
um anónimo bêbado insone,
àquela hora da manhã
tropeça em si mesmo,
lata de cerveja à mão,
olha para todos os lados,
como se esperasse alguém chegar,
um abraço a lhe abraçar…
Seria a esposa,
um amigo,
irmão,
um filho,
ninguém?
Apenas o próximo fantasma a lhe assombrar?
Um pai sem filhos?
Um filho sem pai?
Um dia dos pais
sem paz,
sem par,
sem possibilidades-passos-pessoas
a lhe aguardar?…


Eu me projeto em sua condição.
Porém, só me embriago de sonhos.
Acordado, carrego à mão
o nada ser,
o nada a acontecer,
o nada gestar…
A não ser versos sem rima,
arrítmicos,
textos-tropeços em palavras tísicas,
quedas em si-abismo…


Mas sou pai…
num país de filhos
e pais mortos,
sem cerimônias de adeus…
Não consigo escapar ao presente
e ébrio de insensatez,
compadecido,
lanço ao desconhecido:
Bom dia, pai!
Ele sorri desdentado
e ainda que talvez tivéssemos
a mesma idade, responde:
Bom dia, filho!…

Participam do B.E.D.A.:

Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Mariana Gouveia
Adriana Aneli

B.E.D.A. / Inacessível

Ainda que não acreditasse,
quanto mais eu busco
me interiorizar,
mais sinto me abrir.
Quanto mais eu procuro
me explorar,
mais consigo me conectar
ao resto de mim —
que são todos,
que são tudo.
No entanto,
alguns mistérios permanecem —
alguns lugares em minha alma
estão inacessíveis…
Tem sido mais fácil chegar ao Sol

Participam do B.E.D.A.:

Lunna Guedes / Cláudia Leonardi / Mariana Gouveia /

Darlene Regina / Adriana Aneli /

Roseli Pedroso

Espelhos*

Espelho de outros tempos, na academia…

Neste jogo de imagens
que é a vida,
o nosso corpo
é apenas uma miragem
que se desvanece
entre outras…
Todos os anos nos deparamos
com as mesmas datas
a se repetirem na folhinha,
na agenda da bolsa,
no calendário do celular,
em marcas de nossa pele…
Costumam variar os dias da semana,
mais velhos,
o Sol nos recebe cotidianamente.
Os espelhos
insistem nos mostrar
diferentes versões
de quem imaginamos ser…
Que importa?
Espelhos foram feitos
para serem quebrados
e nós,
para sermos amados,
ainda que não nos reconheçamos…

*Poema erigido de cacos de palavras ao longo dos anos 10 do terceiro milênio.