Última Primeira Vez

Por uma última vez,
peço mais uma primeira vez
voltar ao centro do mundo…
Ainda que o nosso mundo se restrinja
ao quarto de um quarto de um quarto
de uma casa sem paredes,
no canto de nossas mentes,
para onde fugimos
no último quarto de um eterno minuto…

Quero você,
ainda que neurastênica,
irritada e irritante,
misofônica e barulhenta,
inconstante e desesperada
por amor sem pudor,
que tento recusar por temor
de me perder de mim para sempre.

Mas que adianta me preservar,
se sem você sou menos do que um logro
que se esconde sob a fama de louco?
Por que me recusar a amar profundamente
se o pouco que me resta é menos do que um pouco?

Temos outros em nossas vidas,
mas a história de cada um de nós dois
não importa se nela não tiver nós dois…
Quero uma última primeira vez…
Quero que me dê e se dê,
que se doe a quem se doará por inteiro
ainda que doa, porque doerá.
Sei que não sobreviverei,
mas antes morrer de amor,
que é melhor do que morrer —
é viver por um instante que seja
o que importa viver…

Astronauta

Meu amor,
estou a me sentir como um astronauta
fora da nave,
a fazer um passeio no espaço…
Deixo a minha mente vagar
e sinto que não me importaria se as amarras
que me unem ao módulo
se desprendessem…

Sei que a sensação de plenitude,
provocada por nosso amor,
me acompanharia nesse voo sem volta pelo Infinito…
Eu seria mais uma infinitesimal partícula que o compõe,
a participar do concerto silencioso
da imensidão sem fim –
Universo em expansão…

Um dia, o meu corpo congelado
talvez entrasse em órbita de algum planeta frio…
Ao cair no solo seco e estéril,
a semente do nosso amor
viria a se reproduzir em
vida, seres
estações climáticas,
chuvas,
dias,
noites,
crepúsculos,
luares,
frutos, seres
em multiplicação –
borboletas,
abelhas
em flores
e namorados ardentes,
a se beijarem em bancos de praças
sob árvores frondosas…

Há milhões de milhas da Terra,
o nosso amor ressuscitaria
e pariria
um planeta…

Foto por Pixabay em Pexels.com

Ser Cereja

Que cereja o que Deus quiser!
Que assim cereja!
Quer tenha sido,
quer venha a ser,
quer cereja!
Hoje, acordei assim,
sendo cereja!
De vermelho translúcido,
uma frutinha!
Tão apetitosa, que me comi!

Foto por Bruno Scramgnon em Pexels.com

Brenda*

Brenda, a minha homenageada…

Esta é a Brenda…
Há quanto tempo ela está conosco,
nos acompanhando?
Há 13, 14, 15 anos?
Hoje, está na casa vizinha,
com a minha irmã.
Vou visitá-la.
Ao me aproximar,
a amiga abana o rabo
e tenta erguer a cabeça.
Percebo a sua dificuldade
e me agacho
para acariciar o seu dorso magro
de pelos duros e embranquecidos.
Passo a mão delicadamente,
sabendo que a sua estrutura
enfraquecida
sente os toques de meus dedos
com o peso dos anos,
apesar do amor.
Antes de sair,
ainda a ouço emitir um latido fraco,
de despedida…
Ela se foi pouco tempo depois
desse nosso último encontro…

*Texto de 2016

Cópula

Estou a flutuar
como um espírito despregado
de seu corpo…
No entanto, sou eu, ali…
a pairar sobre outro corpo,
a penetrar o seu colo…

Momento
em que a matéria se faz etérea
e a alma se percebe pesada…
Transição entre mundos,
entre gemeres,
entre quereres
entre entes…
Entre mentes…

Entrementes,
somos nós,
entre nós
e ataduras,
a nos libertar…
Livres,
somos vivos,
somos deuses,
somos pós…
Presente,
passado
e futuro…

Foto por Farzad Sedaghat em Pexels.com