Paraisópolis

Paraisópolis

Paraíso – jardim da criação.
Pólis – cidade-estado, em grego.
Referências antigas, da idade
da civilização.
Caminhos da humanidade,
os becos sinuosos,
as vielas dos piedosos,
dos incréus e dos cruéis,
das batidas – funks e policiais.

Postos a acelerar,
o grupo, de andamento alegro
passou a largo,
até parar definitivamente…
Clássico final – a parede,
o gradil,
a porta fechada.
Uma fuga sem saída –
a última nota…
silêncio.

Espelho E Sombra

espelho-e-sombra.jpg

Estou diante do espelho,
face redescoberta a cada mirada-admiro-me,
insensatez à flor da pele –
reflexo do segundo passado
que se diz presente.
Abro passagem para que meus olhos apreciem
o anteparo em branco.

O que percebo é – ao mesmo tempo –
imagem e contra imagem,
espelho e miragem
visão e ilusão,
perda e aquisição.

Apreendo pelo olhar,
o corpo pela projeção:
luz-objeto – espelho-parede,
sombra-dureza – matéria-evanescente:
interpretação sensorial,
deleite da percepção.

Anteponho
a arte involuntária e bela
à verdade feia da realidade arquitetada…
Fonte de devaneios e viagens circulares,
enveredo pelos descaminhos
e me perco no ponto infinito
do que nunca foi,
ainda que seja…

Morreria feliz se fosse agora…

Gente Do Bem

Gente do Bem
Há quem
a nossa vaidade prefira chamar
de gente do bem.
Essa gente é de fácil identificação:
são aquelas pessoas que só nos dizem amém.
É gente que não nos contraria.
Que estão sempre do nosso lado,
principalmente nos momentos mais suaves.
Elas nos fazem mal com sua docilidade…
São indivíduos que nos tratam como crianças mimadas.
Para elas, tudo nos parece lícito.
Cada maldadezinha é perdoada.
Cada deslize é explicável.
Cada desvio de caráter é bem vindo.
Tenham medo de quem sempre aceita
os nossos piores defeitos.
Essa concordância só pode ser desprezo
por quem somos.
A desonestidade dessa gente do bem
nada tem a ver com o Bem verdadeiro.
Quem é de bem, valoriza o que é correto.
Quer o melhor para a nossa vida.
Nos contrapõe com a veracidade.
Gente de bem
defende que não há nada valoroso nesta Terra
que se consiga sem trabalho,
esforço
e enfrentamento dos problemas de frente.
Desconfie de quem sorri diante
de sua ação prejudicial,
da atividade mal realizada,
mal-acabada.
Afaste-se de quem trata a ética com desdém.

Larga Vida

Larga Vida

Larga

Vida larga
Sempre a se impor
Sobre a morte amarga
A corajosa largatixinha
Larga a antiga casa
Larga a vidinha
Rasa
Berço que a detinha
E se torna
Do seu destino
Rainha.

Amar

AMAR
Um outro tipo de amor – em 1987, Maria Julieta morreu aos 57 anos vitimada por um câncer. Muito apegado à filha, doze dias depois, Drummond também se foi, vitimado por um infarto.

“O amor e a paixão são exercícios diários. É isso que falta nos casais. Por isso, se cai na mesmice. Somos artistas da arte de amar. Aplauso é bom e gostamos!” – já disse alguém. Drummond disse que gostamos que se repita sempre “eu te amo!”, em QUERO. Quando é dito “eu te amo para sempre”, a explodir na boca como se fosse uma necessidade de respirar, não duvido que seja sincero. Vinícius soube sintetizar como poucos ao proclamar “que seja eterno enquanto dure”… O termo “para sempre”, nesse caso não é uma locução temporal, mas de intensidade. O amor, naquele momento, tem a força da eternidade. E, ainda que acabe, a energia daquele sentimento viverá infinitamente.

QUERO
Carlos Drummond de Andrade

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.