Quando acordo, ele se olha no espelho.
Por alguns segundos fica a especular se fará ou não a barba.
Como não quer parecer um ser mais monstruosamente feio do que é, raspa os pelos hirsutos e branqueados que lhe daria uma aparência de velho monstruoso.
Não bastasse ser envilecido.
São tantos os defeitos que enumero mentalmente que me torna ridículo e maledicente,
que desisto de contá-los. Se o fizesse, seria por pura vaidade:
a especular se há alguém pior pessoa do que eu?
Sou meu monstro favorito.
Desvendado o segredo da vida, insisto em me afastar do meu bem-estar.
É como se eu sentisse que não merecesse ser melhor e feliz.
E, por isso, vou morrendo por dentro, tornando tudo um deserto inóspito.
Só pedras e areia fina, quase componentes do ar.
E são lindas as pedras — pontiagudas, afiadas e duras feito diamantes — minha verdadeira fortuna.
Quem por esse terreno vier a andar — meu peito atravessado de mágoas — certamente ficará ferido, com as artérias carregadas de pó, respiração ofegante e degenerada, quase uma tuberculose, com catarros espessos e corrosivos.
Ponho a roupa mais leve possível, pois o deserto que eu sou me faz suar e me reduzo a um ponto seco no canto obscuro no assento da cozinha, onde tomo café e alimento uma pessoa comum…e má…
Foto: arquivo pessoal.
Categoria: Prosas
15 / 10 / 2025 / Professar
Eu professo. Não como profissão, ainda que seja uma profissão de fé no espargir do conhecimento. Sempre que posso, tento transmitir o que sei, o que aprendi, mas não deixo de conjecturar que seja uma imposição de “saberes” aos quais a quem atinjo com a minha suposta sabedoria não requerida. Fico pensando que o meu entendimento possa ser mal compreendido como algo supérfluo. Ou que eu mesmo o transmita de modo a parecer uma imposição. No entanto, há professores que agem com arrogância por atingir um patamar de conhecimento certificado. Antes, eram tratados como semideuses em uma sociedade que respeitava o estudo. Ao mesmo tempo, com o passar dos tempos e as mudanças sociais e tecnológicas, há quem olhe para o estudo como algo anacrônico numa época em que o acesso à Internet transformou as relações de acesso ao “saber” imediato.
Algo que é mais recente, a IA, em menos de dois anos revolucionou a identificação da realidade com a possibilidade de certo grau de ficcional. Se tudo é possível, quase nada possa ser afiançado como verdadeiro. Distinguir entre o que é relevante e o que não é num cenário que passa a ser suspeito de manipulação, ultrapassa os limites aceitáveis de estabilidade social em que as disputas políticas atingem níveis extremos de radicalização. Ou seja, as versões ganham patamar de suspeição de lado a lado. O conhecimento perde valor dessa maneira, porque é manipulável como, aliás, sempre foi. Apenas que a manipulação atingiu um nível de ciência nunca antes alcançado. Ou seja, chegamos ao paradoxo de que desenvolvemos tanto conhecimento tecnológico que, num apertar de botões, podemos torná-lo obsoleto como meio de vivenciarmos a realidade.
Como me chamam de um sujeito professoral e que, em última instância seria a profissão pela qual gostaria de ser reconhecido — Professor — homenageio àqueles que têm a dura tarefa de transmitir a seus alunos as condições necessárias para que possam escolher o caminho que queiram tomar entre tantas variantes atraentes, mas suspeitas de serem insatisfatórias para as suas vidas.
Foto por Pixabay em Pexels.com
13 / 10 / 2025 / As Chaves*
“Tenho tido pequenos lapsos de memória. Tenho me dispersado frequentemente ao realizar tarefas básicas. Eventualmente, tenho até esquecido de comer. No entanto, a não ser que tenha sido levada por seres alienígenas ou tenha entrado por uma porta interdimensional, uma coisa eu garanto: as minhas chaves de casa estão em algum lugar sobre a face da Terra!” — 2014.
Escrito a 11 anos, no parágrafo acima descrevo uma circunstância comum na vida muita gente, de tal forma que as respostas dadas a ele relatava vários casos como esquecer o óculos de leitura na própria cabeça, trocar os itens de compra no supermercado por outros que já tinha em casa, deixar o celular perdido em algum ponto. Quando eu ainda tinha telefone fixo, uma das suas únicas utilidades (além de receber propagandas) era o de ligar para o celular para saber onde o havia deixado. Outros brincavam dizendo que era a idade que provocaria esses lapsos.
Pode até ser que estivesse piorando, mas o que sei é que sempre fui disperso. Isso me propiciava diversas situações embaraçosas que faziam com que me isolasse cada vez mais. Preferi evitar conviver mais de perto com as pessoas para não criar pretextos para discussões. Era usual eu me perder em divagações em meio a conversas com parentes e amigos. Na escola, buscava me concentrar o máximo possível e, no meu trabalho, descobri que conseguia manter a atenção redobrada, levando tudo a bom termo. Na escrita também ficava tão envolvido que todas as experiências vividas ou intuídas fluíam em prol da sua elaboração. Os textos, após ser entregues, os esqueço. Aos relê-los depois um tempo, muitos ressurgem como se fossem inéditos para quem os escreveu.
Minha dispersão é estimulada algumas vezes pelo encantamento por palavras ditas ou lidas a esmo, além de cacos de lembranças ou visões que me levam para longe — um efeito reverberante, inexplicável e imprevisível. Até provar para o meu interlocutor que minha desatenção não é proposital, o estrago já está feito. Ao mesmo tempo que saiba que isso possa ser prejudicial às minhas relações, eu receio que ao tentar reverter esse sintoma (seja lá de que forma for) me ajuda na redação meus textos, tornando-se quase uma dependência.
O isolamento provocado pela Pandemia de início propiciou o tempo necessário para escrever. Porém, a falta de contato com a vida em movimento foi reduzindo paulatinamente os estímulos que colaboravam para um melhor desenvolvimento de meus temas. Receber referências indiretas — por livros, filmes, músicas, artes plásticas — são desejáveis igualmente, mas sempre preferi beber na fonte do cotidiano humano que apreendia através da minha percepção. Passei por uma crise criativa, muito parecida por ocasião da doença e morte de meu pai, três anos antes.
Encontrar as chaves que possam deixar abertas as portas da minha percepção como escritor enquanto consiga conviver sem parecer alguém com sintomas escapistas inconciliáveis requer um esforço grande, mas necessário. Ainda que me sinta desconfortável em compartilhar minhas embaraçosas idiossincrasias pessoais, praticar a escrita ao revelá-la torna-se um duplo exercício de criação e auto perdão que me trazem prazer e certa redenção.
10 / 10 / 2025 / Luar*
Alta madrugada, mais ou menos 3h da manhã, desliguei as luzes de casa, mas estranhamente, os móveis permaneceram iluminados por uma cintilação tênue que entrava pelas janelas. Curioso, abri uma delas e vi a Lua projetando o seu brilho prateado sobre tudo. Não resisti e saí para vê-la. Como o céu estava limpo, as estrelas também podiam ser vistas a queimar quietamente no firmamento. As Três Marias permaneciam perfeitamente perfiladas uma ao lado da outra, como por todo o sempre. Lembrei de minha infância, em que tendo me mudado para a periferia, tive a oportunidade de começar a apreciá-las de “perto”. Pensei que, nesta vida de momentos fugazes, na quantidade de vezes que deixamos de voltar os nossos olhos para o eterno. Tentei registrar àquele instante. Como se pode (quase) ver, não foi da maneira que queria. Mas talvez a imagem obtida venha a calhar, por sua aparência onírica. Tudo não passa, mesmo, de um sonho…
*Texto de 2014. Hoje, a Lua continua a brilhar, mas a sua luz está obliterada pelas nuvens carregadas que despencam em forma de chuva.
04 / 10 / 2025 / Se…

Um dia, estive tão perto da Igreja…
Se… tivesse persistido em caminhar pelo franciscanato,
teria me tornado frei e não conheceria as minhas filhas.
Eu não pratico o “se” em minha vida como a conjecturar
possibilidades, alternativas, caminhos não tomados.
É algo que não serve para nada.
Se desenvolvesse teorias que excluíssem as existências de pessoas
tão queridas, atuaria contra os meus preceitos que abençoa a vida.
Eu estava sem horizontes à minha frente.
O meu desejo à época era servir às pessoas.
Eu fui batizado, fiz a primeira comunhão e durante o tempo
informar a religião que professava era usual, respondia: católico.
Mas como sempre gostei de História, a mancha da Inquisição me fez perceber
o quanto a instituição Igreja era contraditória.
A trajetória de Francisco de Assis, uma pessoa sã e santificada, calou fundo quando a conheci
mais de perto. O filme “Irmão Sol, Irmã Lua“, de Franco Zeffirelli, de 1972, fiz questão de assistir
no cinema. Com forte influência do movimento Flower & Power, apresentava um visual impactante e colorido. Sempre que era repetido nas Sessões da Tarde da vida ou mesmo de madrugada, lá estava eu a acompanhá-lo. Sabia que a vida monástica não seria um mar de rosas, que enfrentaria percalços e dúvidas, mas principalmente não cria na “santa Igreja Católica” o chamado Credo (símbolo de Fé na Igreja). Talvez, o Frei José Luiz tenha percebido essa questão, já que rezava o “Pai Nosso“, mas não o Credo. O meu propósito era usar
os recursos materiais da Igreja para empreender o meu propósito de auxiliar o próximo.
Se… tivesse ido pelo caminho do monastério, a minha vida seria diferente, mas segui o meu coração. Não me arrependo…



