BEDA / Vidas*

Em minha vida, vivi muitas vidas… E morri, outras tantas vezes… E não é incomum, mesmo tento a idade que tenho, viver todas as minhas idades ao mesmo tempo. Em muitas ocasiões, eu tenho que tomar cuidado para que o homem maduro não venha a retroagir cinquenta anos e se veja desamparado diante de algumas situações, como se novas fossem. Em contrapartida, acontecimentos que me surpreenderiam pelo ineditismo assumem feições de déjà-vu, como se ouvisse um disco arranhado. Bem, esta última imagem já denuncia a minha experiência no atual formato.

Diante dessas sensações, o nome que assumo – Obdulio – carrega um traço em comum – a saudade – tanto do que passou, quanto de um futuro irrealizado. Entre o menino sorridente que brincava na praça e aquele que se vê no espelho, fotografado por um moderno aparelho de (in)comunicação, se passaram cinquenta anos pela face do homem. O corpo se modificou tantas vezes – cresceu, engordou, emagreceu, adoeceu – enfim, sofreu as intempéries físicas e mentais a que somos submetidos ao nos vestirmos de uma identidade humana.

Ainda que as alternativas não vividas prometessem múltiplas e promissoras perspectivas, eu me sinto muito bem com que se passou comigo. Seria injusto com quem compartilhou da minha vida (e comigo mesmo) que viesse a repudiar tudo o que vivi até hoje. Aprendi a estipular as minhas vivências como únicas e valorosas. O que sofri, sinto que foi para o meu bem. Contudo, o sofrimento de quem amo me é mais pesado do que se acontecesse comigo. Assim como não me sinto totalmente feliz diante das duras provas pelas quais passam tantas pessoas em minha volta, no meu bairro, na minha cidade, país e planeta. Mesmo assim, me sinto grato pelo papel que assumi como se fosse uma dádiva oferecida a mim pelo Diretor que dirige este incrível espetáculo universal no qual todos nós nos apresentamos.

*Texto de Julho de 2016

Lua De Sangue*

Tenho um horário irregular de sono devido à minha atividade profissional. De sábado para domingo, fui dormir às 7h30 e acordei às 13h. Tentei segurar o máximo que pude, mas dei uma fatídica cochilada por meia hora antes de me deitar, o suficiente para me fazer perder o sono. Como a 1h da madrugada ainda não havia encontrado Morfeu, fui ver o céu. E foi ótimo! O espetáculo natural foi lindo e, ainda que tentasse, não consegui registrar devidamente toda a beleza da Lua de Sangue. Durante meia hora fiquei imerso nas pequenas oscilações dos efeitos da sombra avermelhada da Terra sobre o nosso satélite no céu limpo até que as nuvens toldassem o seu corpo. Logo depois, deitei e dormi profundamente. Por meu turno, acho excelente que em vez de acidentes ou fatos escabrosos, as pessoas voltassem seu olhos e registrassem mais vezes os fenômenos do Universo e da Natureza da qual fazemos parte de maneira quase desprezível, mas o suficiente para estarmos destruindo um planeta inteiro com a nossa sanha inescrupulosa…

*Texto de de Maio de 2016

DIA DOS ENAMORADOS

Meu bem querer, distante como está (fisicamente), disponho da memória e da imaginação para lhe alcançar a pele ao toque de minha mão. Sei que pode parecer uma desculpa oportunista, mas fico a imaginar se consigo fazer com que saiba que eu a desejo para mim. Egoísmo? Sim! Quando queremos algo ou alguém, pensamos apenas no que isso possa oferecer de bom, de belo, de prazeroso, de transcendente para além do aqui e do agora. Mas o tempo passa e sofremos pela ausência mútua de nossos corpos se unindo, bocas se entretendo de volumes e reentrâncias, invadindo abismos ao som de frequências guturais.

Há namorados e os enamorados. Os primeiros se sentem eternos, mas passam. Os segundos apreciam a sensação de permanência dessa energia ao sentir o amor ultrapassar as fronteiras do tempo e do espaço. A lembrança é como se fosse a própria presença na ausência. A saudade é pungente, dói. Quando a matamos, renovávamos o seu poder. E sofremos. Lágrimas substituem o suor. A dor se faz onipresente como se fosse corroer nossos corações, por amarmos.

Qual seria a alternativa? Deixarmos de nos ver, de nos ter, de nos entregarmos? Ah, meu bem querer, neste dia comercial, prefiro ser aquele que é enamorado de você, um sentimento de permanência, sinónimo de estabilidade. O que é uma contradição. Porque quem ama vive na corda bamba. Isso não é desejável, mas compõe a vivência de quem se apaixona. A paixão é explosiva e deixa um rastro de mortos pelo caminho. Só sobrevive quem a ultrapassa para entender que esse fogo queima, mas também nos regenera a alma encarnada. Estamos vivos e voltaremos a nos encontrar sentir peito contra o peito os corações a bater. As línguas a falarem a linguagem do amor.

Feliz Dia dos Enamorados!

Foto por Sergio Fdez em Pexels.com

Sou Filho De Darth Vader

Sou filho de Darth Vader. Não, não sou Luke Skywaker, mas seu irmão bastardo. Ou seja, nem herói posso ser considerado. O meu pai quando estava presente, fazia questão de me considerar inapto para quase todas as coisas no qual ele era capaz. Talentoso com as mãos em termos de carpintaria, que aprendi o observando, enveredei pelo trabalho artesanal, mais artístico — também desenhava e pintava. Sempre gostei de escrever e quando percebi que ao fazê-lo, conseguia inventar o meu próprio mundo, (nele, eu era deus), deixei de me expressar pelas artes plásticas. Quer dizer, de certa maneira “puxei” esse lado delirante de grandeza.

Porém, ao contrário de meu pai, que destruía mundos inteiros, fazia procriar personagens em meus textos. Percebi cedo que não era difícil encontrá-las pelo meu caminho tempos depois, como se antecipasse o futuro. Vivia isolado dos outros garotos com os quais convivia. Dois deles eram mais próximos, mas um deles enveredou para o lado obscuro da Força. Hoje, estamos definitivamente rompidos. Também conversava com seres oníricos em meus sonhos e os reencontrava quando desejava. Até que com o meu crescimento físico e “amadurecimento” mental, os deixei fugir pelos tempos alternativos da minha vida.

Na falta de mestres, elegi Machado de Assis como o meu Obi-Wan Quenobi. Eu o lia como os outros apreciavam os gibis, que eu também gostava, mas cedo percebi as regras do Capitalismo imiscuído em suas histórias, principalmente nos de Walt Disney. Isso, me afastou do estilo até conhecer outras versões na manufatura de HQs. Maurício de Souza ajudou a resgatar o modelo, mas ao conhecer os mais ousados e adultos, percebi que a expressão por esse estilo de arte poderia vir a ser revolucionária, se o texto (ainda que muitas vezes prescindisse disso) viesse a se casar com a criatividade do desenhista.

Bem novinho, eu comecei a tocar violão, por influência de meu pai, mas desisti mesmo acertando as notas certas das antigas canções que ele me ensinava. O violão era de adulto e as cordas, de aço. Doía os meus dedos para que isso acontecesse. Hoje reconheço que deveria persistir. Que eu deveria aprender a manipular o sabre de luz sónico com perseverança a ponto de vir a dominar o mundo. Mas a escrita me dominava como a um espírito de Mestre Jedi. Que até então não havia se materializado em corpo e alma. O meu pai talvez tenha começado a me rejeitar desde então porque eu passei a não seguir mais as suas orientações.

Mas a principal discrepância era de ordem ideológica. Não porque não comungasse de suas ideias básicas a respeito de Política, mas porque via com clareza que a proposição de uma vanguarda que levasse o povo a se armar para resistir à Ditadura não tinha futuro. Certa ocasião, lhe disse que isso nunca aconteceria porque o brasileiro foi sendo desinformado com o tempo pelo Sistema que, baseado na formação escravagista de sua História, o tornou apático quanto à mudança da realidade que impunha uma sociedade de castas que imprimiu na mentalidade da nação uma postura conformista. Nesse caso, o meu Darth Vader era um idealista que queria destruir a Estrela da Morte.

Mas como todo idealista, viajou na ideia que conseguiria alcançar a massa para esta se revoltasse contra exércitos e os agentes pagos e os não pagos — a população — afeita ao cotidiano que informava que os comunistas comiam criancinhas. Quando são os “pacíficos” que são os verdadeiros degenerados sociais. Preferem que a Sociedade continue o seu show ilusionista de Deus, Família e Propriedade. Propõem que a família deva ser preservada, a mesma que desenvolveu doentes mentais que se matam entre si em busca do “sucesso” representado por aquisições de bens. Querem ser chamados de “bons” assim que os obtêm, não trabalham para o bem comum e não toleram quando um desvalido alcança um patamar social mais elevado em termos econômicos. Enfim, meu pai queria destruir o Império, ao contrário do Darth Vader original. Talvez, por causa disso, ainda possa perdoá-lo, por ser tão sonhador quanto eu…

18 / 12 / 2025 / O Solitário Cão

O Humberto e eu encontramos o Beto pelo caminho e, junto a um muro, paramos para prosear um pouco. Um metro à frente, percebi um cão encostado a um pequeno portão . Parecia nos ouvir, interessado, como se sentisse falta da voz humana. Depois de algum tempo, comecei a conversar com ele que, com um olhar demasiado humano, agradecia a minha atenção, abanando o rabo. Olhei para o grande terreno em que morava e fiquei sem saber se era um espaço ocupado ou não. Terminada a conversa, nos despedimos, nós do Beto, e eu, também do cão solitário.

Já separado do meu irmão, na minha rua, um outro cachorro solitário começou a me acompanhar, para logo se adiantar. Ele sabia para onde ia, mas parava aqui e ali, sob a condução de seu faro em busca de algo interessante que o atraísse. Independente, livre de amarras e gradis, permanecia com o rabo empinado, confiante. Em casa, os “meus” cães (ou que moram conosco) me receberam com a festividade costumeira e, por algum motivo, senti vontade de me demorar um pouco mais nos afagos que lhes agradam tanto. Assim como a mim, que me identifico tanto com os solitários…