DIA DOS ENAMORADOS

Meu bem querer, distante como está (fisicamente), disponho da memória e da imaginação para lhe alcançar a pele ao toque de minha mão. Sei que pode parecer uma desculpa oportunista, mas fico a imaginar se consigo fazer com que saiba que eu a desejo para mim. Egoísmo? Sim! Quando queremos algo ou alguém, pensamos apenas no que isso possa oferecer de bom, de belo, de prazeroso, de transcendente para além do aqui e do agora. Mas o tempo passa e sofremos pela ausência mútua de nossos corpos se unindo, bocas se entretendo de volumes e reentrâncias, invadindo abismos ao som de frequências guturais.

Há namorados e os enamorados. Os primeiros se sentem eternos, mas passam. Os segundos apreciam a sensação de permanência dessa energia ao sentir o amor ultrapassar as fronteiras do tempo e do espaço. A lembrança é como se fosse a própria presença na ausência. A saudade é pungente, dói. Quando a matamos, renovávamos o seu poder. E sofremos. Lágrimas substituem o suor. A dor se faz onipresente como se fosse corroer nossos corações, por amarmos.

Qual seria a alternativa? Deixarmos de nos ver, de nos ter, de nos entregarmos? Ah, meu bem querer, neste dia comercial, prefiro ser aquele que é enamorado de você, um sentimento de permanência, sinónimo de estabilidade. O que é uma contradição. Porque quem ama vive na corda bamba. Isso não é desejável, mas compõe a vivência de quem se apaixona. A paixão é explosiva e deixa um rastro de mortos pelo caminho. Só sobrevive quem a ultrapassa para entender que esse fogo queima, mas também nos regenera a alma encarnada. Estamos vivos e voltaremos a nos encontrar sentir peito contra o peito os corações a bater. As línguas a falarem a linguagem do amor.

Feliz Dia dos Enamorados!

Foto por Sergio Fdez em Pexels.com

Sou Filho De Darth Vader

Sou filho de Darth Vader. Não, não sou Luke Skywaker, mas seu irmão bastardo. Ou seja, nem herói posso ser considerado. O meu pai quando estava presente, fazia questão de me considerar inapto para quase todas as coisas no qual ele era capaz. Talentoso com as mãos em termos de carpintaria, que aprendi o observando, enveredei pelo trabalho artesanal, mais artístico — também desenhava e pintava. Sempre gostei de escrever e quando percebi que ao fazê-lo, conseguia inventar o meu próprio mundo, (nele, eu era deus), deixei de me expressar pelas artes plásticas. Quer dizer, de certa maneira “puxei” esse lado delirante de grandeza.

Porém, ao contrário de meu pai, que destruía mundos inteiros, fazia procriar personagens em meus textos. Percebi cedo que não era difícil encontrá-las pelo meu caminho tempos depois, como se antecipasse o futuro. Vivia isolado dos outros garotos com os quais convivia. Dois deles eram mais próximos, mas um deles enveredou para o lado obscuro da Força. Hoje, estamos definitivamente rompidos. Também conversava com seres oníricos em meus sonhos e os reencontrava quando desejava. Até que com o meu crescimento físico e “amadurecimento” mental, os deixei fugir pelos tempos alternativos da minha vida.

Na falta de mestres, elegi Machado de Assis como o meu Obi-Wan Quenobi. Eu o lia como os outros apreciavam os gibis, que eu também gostava, mas cedo percebi as regras do Capitalismo imiscuído em suas histórias, principalmente nos de Walt Disney. Isso, me afastou do estilo até conhecer outras versões na manufatura de HQs. Maurício de Souza ajudou a resgatar o modelo, mas ao conhecer os mais ousados e adultos, percebi que a expressão por esse estilo de arte poderia vir a ser revolucionária, se o texto (ainda que muitas vezes prescindisse disso) viesse a se casar com a criatividade do desenhista.

Bem novinho, eu comecei a tocar violão, por influência de meu pai, mas desisti mesmo acertando as notas certas das antigas canções que ele me ensinava. O violão era de adulto e as cordas, de aço. Doía os meus dedos para que isso acontecesse. Hoje reconheço que deveria persistir. Que eu deveria aprender a manipular o sabre de luz sónico com perseverança a ponto de vir a dominar o mundo. Mas a escrita me dominava como a um espírito de Mestre Jedi. Que até então não havia se materializado em corpo e alma. O meu pai talvez tenha começado a me rejeitar desde então porque eu passei a não seguir mais as suas orientações.

Mas a principal discrepância era de ordem ideológica. Não porque não comungasse de suas ideias básicas a respeito de Política, mas porque via com clareza que a proposição de uma vanguarda que levasse o povo a se armar para resistir à Ditadura não tinha futuro. Certa ocasião, lhe disse que isso nunca aconteceria porque o brasileiro foi sendo desinformado com o tempo pelo Sistema que, baseado na formação escravagista de sua História, o tornou apático quanto à mudança da realidade que impunha uma sociedade de castas que imprimiu na mentalidade da nação uma postura conformista. Nesse caso, o meu Darth Vader era um idealista que queria destruir a Estrela da Morte.

Mas como todo idealista, viajou na ideia que conseguiria alcançar a massa para esta se revoltasse contra exércitos e os agentes pagos e os não pagos — a população — afeita ao cotidiano que informava que os comunistas comiam criancinhas. Quando são os “pacíficos” que são os verdadeiros degenerados sociais. Preferem que a Sociedade continue o seu show ilusionista de Deus, Família e Propriedade. Propõem que a família deva ser preservada, a mesma que desenvolveu doentes mentais que se matam entre si em busca do “sucesso” representado por aquisições de bens. Querem ser chamados de “bons” assim que os obtêm, não trabalham para o bem comum e não toleram quando um desvalido alcança um patamar social mais elevado em termos econômicos. Enfim, meu pai queria destruir o Império, ao contrário do Darth Vader original. Talvez, por causa disso, ainda possa perdoá-lo, por ser tão sonhador quanto eu…

18 / 12 / 2025 / O Solitário Cão

O Humberto e eu encontramos o Beto pelo caminho e, junto a um muro, paramos para prosear um pouco. Um metro à frente, percebi um cão encostado a um pequeno portão . Parecia nos ouvir, interessado, como se sentisse falta da voz humana. Depois de algum tempo, comecei a conversar com ele que, com um olhar demasiado humano, agradecia a minha atenção, abanando o rabo. Olhei para o grande terreno em que morava e fiquei sem saber se era um espaço ocupado ou não. Terminada a conversa, nos despedimos, nós do Beto, e eu, também do cão solitário.

Já separado do meu irmão, na minha rua, um outro cachorro solitário começou a me acompanhar, para logo se adiantar. Ele sabia para onde ia, mas parava aqui e ali, sob a condução de seu faro em busca de algo interessante que o atraísse. Independente, livre de amarras e gradis, permanecia com o rabo empinado, confiante. Em casa, os “meus” cães (ou que moram conosco) me receberam com a festividade costumeira e, por algum motivo, senti vontade de me demorar um pouco mais nos afagos que lhes agradam tanto. Assim como a mim, que me identifico tanto com os solitários…

08 / 12 / 2025 / O Regresso

A chefe de redação me designou para fazer uma matéria sobre Tarot. Sabendo que eu era avesso a jogos de adivinhações e sortilégios, achou que seria interessante contrapor a minha descrença a algo que ela acreditava. Na verdade, ela cria em Madame Blue. De antemão, a consultou antes sobre a reportagem em que submeteria seu trabalho a um escrutínio materialista. Madame Blue não apenas aceitou como se sentiu especialmente impelida a demonstrar a conexão com o intangível para um céptico. Eu, por meu turno, adoro um desafio e lá fui encontrar a velha senhora que consultava em uma casa em Moema, numa dessas ruas com nome de pássaro.

A linda residência era uma das muitas da região que ainda não havia se transformado em espaço comercial ou derrubada pela especulação imobiliária. Ainda que eu considerasse essa coisa de jogo de Tarot uma atividade que visava arrancar dinheiro de incautos, estava disposto a realizar uma entrevista isenta. Apertei a campainha e me atendeu um homem alto e bonito, um tipo africano com a tez negra como a noite sem luar. Anunciou-se como Maurice e me levou até a sala onde Madame Blue já me esperava. Não se tratava de uma velha senhora, porém uma mulher que devia ter a minha idade, uns 35 anos, se tanto. Seu nome se fazia entender pelos profundos olhos azuis que me fulminaram assim que entrei.

Sem dizer muitas palavras, me pediu para sentar e que tocasse as Cartas do Destino, as embaralhasse, as dividisse e as reagrupasse. Após o que sacou uma a uma — “Mundo, Temperança, Sacerdotisa, Carro”. O que significava? Segundo Madame Blue, o retorno de uma mulher de minha vida que se afastara no tempo. Normalmente, eu não ligaria para aquele presságio, se não fosse o tom estranhamente grave empregado pela atraente vidente. Durante uma pausa que pareceu bastante longa, fiquei especulando sobre qual mulher seria, dentre tantas que conhecera. Retroativamente, fiz minha memória retornar do último afeto, meses antes, até às anteriores. Meu passeio pelo passado foi interrompido pela voz de Madame Blue que me chamou até sua presença azulada. Perguntou se, após a demonstração pessoal do seu afazer, não gostaria de realizar o questionário que preparei.

Ainda um tanto perturbado com o que a vidente dissera, continuei a perscrutar a minha lista bastante grande de antigos amores. De fato, apenas uma, dentre todos os bem-quereres, eu gostaria de reencontrar — uma menina do tempo de escola que havia me tocado especialmente. Uma que, como Madame Blue, tinha o céu nos olhos. Um pouco depois, apesar de certo temor inspirado pela figura a minha frente, mergulhei no mar de seu olhar. Nesse momento, foi a bela mulher que pareceu se incomodar. Parece ter visto algo que não esperava e me senti como que atravessado, como se ela buscasse algo através de mim. Perguntei o que estava acontecendo. Ela respondeu que via uma estrada de terra, longa e sinuosa, por trás da parede. Respondi que havia uma estrada de terra como essa na cidade onde nasci, no interior de São Paulo.

̶  Eu a percorria para ir à escola todos os dias. A minha casa ficava em uma de suas entradas. Eu estava justamente me lembrando dela agora. A sua predição da volta de uma mulher que amei me levou de volta à Dourado  ̶  a “Cidade Coração”.

Madame Blue pareceu ficar um tanto desconcertada. Baixou os olhos e repetiu: “Cidade Coração…”.

̶  Sim! O pessoal da região chama Dourado dessa maneira. Ela fica no centro geométrico exato do Estado.

̶  Você amou uma moça de lá?

̶  Não amei… Eu a amo. De certa maneira, o que disse sobre a volta de uma mulher importante me fez pensar a respeito. Dentre todos os relacionamentos que tive, apenas o que senti por minha vizinha de sítio valeria a pena reviver. Era um amor puro. Éramos muito jovens. Praticamente crianças. Mas foi tão intenso… Foi por causa dela que comecei a escrever. Quando vim para São Paulo, trocamos algumas cartas, porém fui me desfazendo dos meus laços com Dourado. Quando voltei para o funeral do meu pai, dez anos depois, Valquíria já havia partido para destino desconhecido.

Eu, enquanto falava, me ausentei de tal maneira que não havia percebido que os olhos de Madame Blue haviam se transformado em espelhos d’agua. Estranhei seu comportamento. Perguntei se estava passando mal. Ela acenou afirmativamente e perguntou se não poderíamos continuar em outra ocasião. Respondi que sim, que teríamos tempo. A reportagem estava programada para uma semana depois. Marcamos para dois dias adiante.

Na data marcada, fui recebido novamente por Maurice. Desta vez, seu rosto de deus africano estava iluminado por um sorriso indescritível. Caminhei até a sala que estava bem diferente da primeira vez que a vi. As amplas janelas estavam totalmente escancaradas, deixando a mostra um belo jardim interno. Madame Blue estava em pé, de costas, olhando para ele. Eu a chamei e ela se voltou lentamente. Sorria um sorriso familiar. O cabelo, solto e despenteado, me lembrou uma pessoa. A mesma da foto que ela me passou assim que me aproximei — meu amor douradense. Ainda que tentasse me conter, meu coração desembestou feito o alazão Corisco com o qual brincávamos. Eu reconheci a menina na mulher adulta. Lágrimas desceram feito as cascatas do Rio Boa Esperança. Valquíria e eu nos abraçamos. Nossas bocas com gosto salgado nos lábios se embebedaram de nós. As cartas haviam cumprido sua previsão, resgatando o meu passado e inaugurando o meu futuro…

07 / 12 / 2025 / Crianças

Fim de tarde, o rabo do sol se escondia por entre as árvores, criando sombras e formas inusitadas. Passávamos o final de semana no sul de Minas, região em que as linhas retas não compareciam no cenário, a não ser pelas linhas do chalé e por furtivos fachos de luz por entre os montes, feito show de rock. Eu e um grupo de amigos, decidimos ficar nesse recanto afastado para um contato mais íntimo com a Natureza. Acendemos o fogo da lareira e quatro lampiões e saímos para caminhar um pouco até uma pedra mais elevada para ver o entardecer, 250 metros acima.

Passados uns 20 minutos, a escuridão baixou quase que instantaneamente. Ficamos cegos, a não ser pela luzinha vinda do chalé, como se fosse uma estrela fora do céu. Por iniciativa aprovada por todos, havíamos deixado os celulares no chalé. Percebemos que não havia sido uma boa decisão. Quisemos ser naturalistas sem saber que a Natureza tem regras que fogem ao conhecimento de gente da cidade.

Fora tudo tão repentino que de início não nos demos conta de que estávamos num mato sem cachorro. Brincamos com negrume do ambiente e sobre a possibilidade de começarmos a sentir o toque de bichos estranhos a envolverem nossos corpos. Para não passar a sensação de que estivéssemos perdidos, decidimos nos sentar no vazio até encontrarmos o chão. Agora estáveis, começamos a especular sobre o que faríamos.

Éramos como crianças sem pai nem mãe. O frio começou a aumentar de uma hora para outra e a ansiedade pouco a pouco surgiu, evidenciado pelo tom de voz cada vez mais alterado. Seis adultos  ̶  três casais  ̶  perdidos no nada, indecisos se deviam ou não empreender a jornada de volta, curta, mas perigosa pela irregularidade do caminho. Até vermos uma luz bruxuleante saindo do chalé e vindo em nossa direção.

̶  Aqui, aqui, aqui!  ̶  gritamos todos.

Era Ricardo, o filho de sete anos do Arnaldo, que ficara na cabana, brincando. Ao escurecer, o menino deve ter percebido que demorávamos e quis nos encontrar com a bravura que toda criança tem e que falta a muitos adultos. Empunhava um dos lampiões e caminhava resoluto. Arnaldo e Tatá, com a aproximação do filho, foram abraçá-lo. O resto de nós, pulamos feito seus companheiros de escolinha. Nós nos achegamos uns aos outros o suficiente para que o lampião erguido por Arnaldo cobrisse a nós de luz amarela. Nesse instante, pude perceber o quanto estava apaixonado por Clara, com as linhas do rosto fracamente clareada sob o caminho de estrelas da Via Láctea.