Ontem, eu estava a trabalho na cidade de Santo André e, ao sair para exterior do salão onde sonorizávamos um evento, olhei para o oeste, onde o sol se escondia… Já um pouco mais escuro, percebi dois pontos luminosos distantes quase nada um do outro. Esses pontos se assemelhavam à estrelas, mas a luzinha de baixo dava a impressão que se deslocava em minha direção, enquanto a outra continuava no mesmo lugar. Passado algum tempo, com a permanência dos seus posicionamentos, concluí que se tratava de um balão meteorológico. O estranho é que seria um balão anômalo, com a parte de baixo maior que a de cima, que o sustentaria. Quase cheguei a “ver” uma linha que os unia… De qualquer forma, caçador de horizontes que sou, saquei uma imagem.
Hoje, ouvi falar que os planetas Vênus, que rege o meu signo (Libra) e Júpiter estão em alinhamento, algo tão raro que apenas se repetirá em 12 de fevereiro… de 2056! Daqui a 40 anos! Eu havia presenciado esse fenômeno. Para mim, esse recado dos céus foi claro — somos uns bostinhas, mas podemos viajar pelo Espaço em um piscar de olhos! Somos seres breves que podemos testemunhar a eternidade no encontro tão encantador quanto o de planetas inteiros na retina de nossos olhos. Somos míseros seres a caminhar pela superfície de um planetinha do Sistema Solar, mas podemos nos tornar infinitos tanto quanto do tamanho do Universo. Esta noite, que sejamos esses seres transcendentes e que olhemos para o Céu noturno. Nele, estará escrito que apesar de pequenos, somos universais…
*Texto de 27 de Agosto de 2016 — incluso em meu livro de crônicas REALidade, pela Scenarium Livros Artesanais
Os sentimentos humanos são características supostamente restritas ao Homo sapiens. Mas a relação que desenvolvemos ao longo de milênios de interação com os outros animais demonstra que a energia criada pela interação entre nós e outras espécies gera relacionamentos em que o amor que sentimos ultrapassa as fronteiras interespécies. Ao longo dos anos, estabeleci a crença que assim como nós, seres humanos, os outros seres estão em desenvolvimento da autoconsciência. Quando retornei do afastamento dos meus companheiros não humanos, percebi o quanto sofreram. A Bethânia, com a qual tenho uma conexão mais íntima, começou a me vigiar com os olhos por onde ia. Já foi tema de uma das crônicas de REALidade, um dos meus livros, em que discorro sobre o seu Ciúme. Amar seres supostamente mais simples diz mais sobre nós do que sobre eles. Mas creio que amá-los os ajudam a se desenvolverem na senda mais complexa da Vida. E não duvido que se torna um ciclo virtuoso que também nos ajuda a nos tornarmos seres mais evoluídos.
Nesta imagem acima, realizada em 2021, se deu o reencontro com a Bethânia, uma das minhas filhas de quatro patas após as quatro Luas de Fevereiro daquele ano. Estive fora para ajudar uma amiga das minhas filhas num projeto de alimentos leves. Participei entregando as encomendas com uma bicicleta — já que não dirijo automóveis — o que me ajudou bastante na recuperação da crise de ansiedade que desenvolvi naquela época. A minha atividade profissional, ligada a eventos, foi a mais prejudicada naquela época em foram suspensas todos as reuniões de pessoas em ambientes fechados. Foi uma medida necessária a qual apoiei. Mas isso não evitou que tivesse uma sensação em que eu adoeceria como havia acontecido outras vezes. Sou uma pessoa que desde pequeno, somatiza. Foram vários eventos em que joguei para o corpo as dores mentais. Percebi que o fato da falta da atividade profissional, para além da cessação de ganho econômico, enfrentava um contexto político em que via a revelação de um País que me agrediu a consciência tornou todo o contexto que vivíamos então uma espécie de pesadelo. Sabe-se agora que os 700.000 mortos foram subnotificados. Provavelmente, ocorreu o triplo de casos mortais. Fora a questão política em que o Negacionismo representou um retrocesso como se voltássemos para mais de um século antes em que houve a Revolta da Vacina, em 1904. O choque que adveio com tal quadro de recuo histórico só não foi pior em consequências piores para mim porque pude escrever um livro em que expunha as circunstâncias do que ocorria — Curso De Rio, Caminho o Mar — que representou um suporte terapêutico.
Decidi reler livros de minha autoria, que são cinco e o sexto foi Alice — Uma Voz Nas Pedras — de Lunna Guedes, que me impressionou por ser tão pungente quanto radical ao adentrar na mente de quem sofreu abuso por ser “apenas uma mulher”. Sobre um dos capítulos, escrevi um texto, o chamando de “O Capítulo Perfeito“.
No último parágrafo do meu texto escrevi: “Ao encontrar a autora hoje, a parabenizei por criar-reproduzir uma Alice que poderia ser tantas. Fazer uma resenha de um capítulo apenas parece estranho, mas esse que termina na página 93 me surgiu perfeito. Resume uma vida inteira em suas linhas. Proclama o desamor e faz inspirar amor, cuidado, atenção aos pormenores e ao sentido de ser-estar-ir-partir. Continuarei com Alice em mãos e, agora, no coração. Vou cuidar dela com todo o desvelo, sabendo que vivi em sua casa antes que soubesse que lhe pertencia”.
Em “Confissões” pretendi repassar a minha vida tentando ser o mais sincero e franco possível até as raias da auto preservação. Revela muito da minha relação com o Sr. Ortega, meu pai. Ainda voltarei a ele em outra oportunidade em forma de livro. Mas além dele, a minha família participa como dados de relação pessoal. Percebi que eu os usei para falar mais de mim do que sobre ela, incluindo a personagem central do nosso grupo, a Romy, minha primogênita que, devido à sua condição de saúde, foi moldando o nosso funcionamento como família. Mas ainda assim é um livro do qual gosto, porque consegui estabelecer uma escrita fluída.
Sobre o “RUA 2“, acabei por receber através de uma amiga o comentário de um rapaz para quem ela o emprestou: “Nossa! É muito interessante a forma como ele vagueia com os contos sobre a rua em que ele morava. Ele traz as cenas cotidianas, suas gentes, os lugares… E cada conto ou capítulo traz o número da casa, achei isso maravilhoso. Cada personagem tem uma história… e os vários fragmentos da vida dele e da trajetória que ele traz. Tinha algumas palavras que eu não conhecia e aí pesquisei o significado o que me auxiliou até em enriquecer o meu vocabulário Um livro muito interessante e bonito!”
Eu comecei a publicar o que eu escrevia nas redes sociais, principalmente no Facebook. Obtive uma boa repercussão e as respostas me deixaram animado a publicar mais com observações do cotidiano das pessoas ao meu redor, meu meio social e sobre situações de grande visibilidade. Mas as histórias reais eram a minha maior motivação para jogar luzes sobre detalhes às vezes não notados, mas que sinalizam as sutilezas que tornam a vida interessante.
“Senzala” é uma novela que me desafiou a ir mais profundamente na obscura alma humana. Criei situações em que o ser humano usa o outro por pura vaidade. O poder é baseado no desejo básico, quase animal, de satisfação sexual. Quando a personagem central se sente traída em sua vaidade, responde com o poder sobre a vida, a suprimindo.
Prestes a ter uma séria crise de ansiedade, me desloquei para o Litoral Norte e passei quatro Luas junto ao Mar. Ao mesmo tempo escrevi este livro que me trouxe alívio e, por ele, tenho imenso carinho. São relatos que mostram o quanto a Pandemia influenciou em nosso cotidiano, que coincidiu com uma espécie de abertura da Caixa de Pandora ou diria da tampa do esgoto da expressão mais canhestra de boa parte do povo brasileiro. A decepção que senti ajudou a tornar meu equilíbrio psicológico mais precário. No entanto, após essa estadia em Ubatuba, voltei renovado, trazendo o seu Mar cálido dentro de mim. Salvei-me…
Trabalho em eventos, normalmente realizando a sonorização e a iluminação de shows. Como costumo dizer, faço parte da tradição do Circo e dos artistas mambembes, se deslocando de lugar em lugar, montando equipamentos para os artistas se expressarem.
Nesse ínterim, a depender do lugar, aproveito para relaxar. Como ocorreu no último dia do ano, em Caraguatatuba. O contato com a Natureza me restabelece as forças, enquanto mergulho no Mar ou caminhe pela areia. Assim, me despedi de 2025.
Registro lateral da apresentação da banda para os presentes nas festa do Réveillon
Já no primeiro dia de 2026, depois de passar o dia com a família, aproveitei o silêncio da noite para adentrar nos mundos de Stranger Things — o Invertido e o Direito — na eterna luta do Bem contra o Mal. O principal dilema ficou por conta do direito de escolha — entre um e outro — porque, de fato, é isso que ocorre no mundo “normal”. Caso contrário, não estabeleceríamos regras e leis para a mútua convivência para os seres humanos entre si e entre nós e os outros animais, porque em última instância, nos esquecemos que somos todos filhos de Gaia. E o mínimo que podemos e devemos fazer é respeitar as diferenças entre nós.
A série foi lançada há alguns anos, mas decidi acompanhá-la apenas neste 2025 que se encerrou há dois dias. Além do enredo entremeado por teorias físicas que são muito atraentes para mim, a questão moral e das discussões cadentes como homossexualidade e aceitação de diferenças comportamentais de quem está adolescendo — a fase mais difícil para qualquer pessoa — pois é quando descobrimos as contradições entre ser e não ser, no momento em que apenas “estamos”.
A série termina em 1989, ano de nascimento da minha primogênita e sinaliza o término da rica década dos 80, principalmente em termos musicais, com a trilha baseada nos temas de então. O que é interessante pois marcou para mim a entrada na vida adulta com o casamento e a chegada das três filhas. Além relembrar a grandíssima Kate Bush, a série reservou para o último episódio o artista musical mais criativo da década — Prince — um dos meus favoritos, ao qual dediquei um capítulo em meu livro de crônicas — REALidade, com “A Revolução de Prince Em Minha Vida”.
Ah! Apenas para pontuar: “I believe!”…
Na madrugada do 1º dia do ano para o dia 02, eu e o Bambino assistimos ao último episódio de Stranger Things…
Na saída do Terminal, na pista oposta, em direção ao Centro, jazia o corpo recém atropelado de um pequeno cão. Ao seu lado, pedindo para que os carros parassem, alguém que provavelmente o retiraria do asfalto, cena que não presenciei, já que o meu ônibus havia partido.
No dia seguinte, uma faixa colocada entre dois postes pedia, aliás implorava, que na eventualidade de alguém encontrar uma cadelinha com determinadas características, seria bem recompensado, caso a devolvesse. Ao final do apelo, o motivo recorrente: “criança doente, família desesperada”.
Só mais tarde, vinculei um fato ao outro, já que as características da cadelinha perdida eram bem próximas a do bichinho estendido no chão, pelo que eu pude perceber à distância no dia anterior, pela janela do ônibus. Seria uma, a outra? E a proximidade, o sumiço, e a morte, todos itens do mesmo episódio?
Passei a especular sobre as várias possibilidades relativas à história. Na versão mais feliz, a cachorrinha seria encontrada, a criança ficaria bem, a família estaria contente e alguém acabaria recompensado. No entanto, um cãozinho morrera, de qualquer forma. A quem pertencia, provavelmente faria falta a sua companhia e o sentido de perda persistiria. Na pior versão, aquele corpo que jazia no cinza era o objeto de estimação perdido e, nesse caso, perdido para sempre. Restaria a lembrança eterna na memória de quem conheceu Jully…
*Texto que compõe REALidade, meu primeiro livro de crônicas, lançado em 2015, pela Scenarium Livros Artesanais.