BEDA / Scenarium / 8 Ou 80, Revisitado

80 tiros charge

Há fatos que se sucedem em avalanche uns sobre os outros de tal maneira que mal conseguimos respirar, se a opção for a de nos mantermos atentos aos tempos que correm. Porém, o mais comum, é que esqueçamos o que se passou há uma semana, há um mês, há um ano antes. Como no caso sobre o qual escrevi em 2019, neste mesmo mês de Abril – o mais terrível dos meses – segundo o poeta T.S. Eliot. Olhando em perspectiva, podemos perceber elos que se encadeiam a explicitar o momento político-social que vivemos. A chegada da Covid-19 apenas pôs a mostra a chaga aberta no Estado brasileiro. Muitos não enxergam. Precisamos, mais uma vez, descobrir o Brasil.

Somos o País do tudo ou nada. Ou quase nada de tudo, se esse “tudo” for o melhor possível. Por outro lado, apresentamos o pior de tudo, muitas vezes.

Se podemos escolher nossos dirigentes, votamos nos mais inaptos. Se temos uma empresa entre as maiores do mundo, será uma que arranca sua riqueza da forma mais mortal e predatória. Se temos um dos maiores movimentos de emancipação GLBTQIA+ do planeta, ao mesmo tempo somos os que mais matamos os seus participantes. Se temos uma das maiores populações afrodescendentes fora da África, apresentamos as mais persistentes ações discriminatórias da Terra perpetradas por uma sociedade hipócrita ao se proclamar igualitária.

Se for para matar um homem preto, que despejemos oitenta tiros sobre ele. Oito, não bastam – a média de projéteis lançados por cada um dos dez atiradores que confundiram o alvo-negro-no-carro-branco com um suposto assaltante. Condenado por engano – se for para nos enganarmos que seja por muito – por um juízo de valor eivado de preconceitos, incompetência e poder de fogo, um pai de família foi fuzilado em plena luz do dia, diante de testemunhas, por armas que atiram projéteis 7.62 à velocidade de oitocentos metros por segundo, a uma curta distância. Fico a imaginar se houve tempo de Evaldo pensar na segurança de uma amiga e da família que também ocupavam o carro – sogro, filho e esposa – antes de ser assassinado…

Quando tudo aconteceu, há um ano, uma segunda-feira, havia trabalhado o dia todo em ambiente fechado. Soube no dia seguinte, depois de ter dormido quatro horas desde a sexta anterior. Acordei com a repercussão da notícia propagada pelo rádio despertador de cabeceira. Como muitas vezes acontece, pareceu que estava sonhando. Não era possível, mesmo para o “País do 8 Ou 80” que aquilo fosse real. A “notícia boa”, diante de tamanha gravidade foi que dos cinco alvos do alvo veículo que carregava seus ocupantes a um chá de bebê, apenas o músico foi atingido. Isso significa que a munição descarregada sobre ele não foi a esmo, mas dirigida. Os ferimentos no sogro, um efeito colateral. Luciano, um catador de papel que tentou alertar os atiradores sobre a família, também alvejado, morreu dias depois.

Em uma sociedade organizada, as funções de cada instituição são delimitadas de maneira que uma não invada a outra. Membros das Forças Armadas não deveriam exercer a função de Polícia. “O Exército tem como missão preservar e garantir a defesa da Pátria, zelar pelo cumprimento pleno da Constituição e pela manutenção da Lei e da Ordem. Em tempos de Paz, uma das principais funções do Exército é defender as fronteiras brasileiras, garantindo a Soberania nacional.” Foi o caso daquela segunda-feira?

Houve ordem de prisão contra os elementos envolvidos na ação. Só não ficou esclarecido quem teria sido o mandante do crime. Um soldado cumpre ordens. Faz parte do espírito da corporação militar obedecer a cadeia de comando, assim como existe uma natural sequência na cadeia alimentar. Vitórias e derrotas se sucedem dessa maneira. Assim como a sobrevivência das espécies. O triste é que os brasileiros parecem sobreviver caminhando sobre os corpos ensanguentados dos mais vulneráveis…

Um mês depois, os meios de comunicação anunciaram: “O Ministério Público Militar denunciou doze militares que dispararam contra o carro de uma família que se locomovia para um chá de um bebê, causando a morte do músico Evaldo Rosa e do catador de material reciclado Luciano Macedo, ferido enquanto tentava ajudar a família em Guadalupe, no Rio de Janeiro. Os militares foram denunciados pelo homicídio dos dois e pela tentativa de homicídio do sogro de Evaldo, Sérgio Gonçalves de Araújo, ferido na mesma operação. Também estavam no veículo a esposa, o filho e uma amiga do músico, que não foram atingidos.”

Em maio, o STM decidiu liberar os atiradores.

Passado um ano, após as sucessivas tragédias que vivemos, incluindo a que estamos vivenciando atualmente, Evaldo e Luciano foram poupados de verem crescer os efeitos da infestação dos vírus que tomaram conta do corpo brasileiro…

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Independência Ou Morte*

Tiradentes
Há de se perder a cabeça para se tornar herói…

Neste feriado de 21 de Abril (não tem sido todos os dias, feriados?), alusivo à Inconfidência Mineira, comandada pelo traído Tiradentes, discorro sobre a Proclamação da Independência do Brasil. Esse texto está em REALidade*, meu primeiro livro, lançado pela Scenarium Plural – Livros Artesanais, em 2017. REALidade reúne crônicas que tratam sobre fatos “maiores e menores”, a discernir sobre uns e outros em sua real grandeza, a depender de pontos de vistas individuais.

“Todos os brasileiros que frequentaram a escola carregam gravado na memória o momento em que se deu a declaração da Independência do Brasil.

Desde a mesma tenra idade, nos é ensinada a História de como tudo aconteceu. Fizeram filmes e programas de televisão, escreveram livros e pintaram quadros em homenagem àquele ato decisivo, a mostrar D. Pedro – então Príncipe Regente do Brasil, ligado à Coroa Portuguesa — com a espada empunhada, a gritar às margens do Riacho do Ipiranga: ‘Independência ou Morte!’…

A Morte, no entanto, é a única possibilidade de Independência que podemos, de fato, vivenciar em um mundo cada vez mais atado a palavra do momento: globalização… que une mercados e informações, como se fôssemos vizinhos de muro. Um espirro dado na China é capaz de deixar o mundo todo gripado. Os Estados Unidos elegem um imbecil e as Bolsas de Valores enfrentam uma onda de desvalorização. O Estado Islâmico, — ilhado em um autodenominado Califado —, menor que a maioria dos Estados brasileiros, faz explodir homens-bomba no Oriente Médio… e corpos e ideologias se espalham em ondas pela crosta terrestre. Uma criança morre afogada nas águas da costa da Europa e todas as pessoas se compadecem como se seus pais fossem.

O tráfego de notícias é tão intenso que, se fôssemos nos ater detidamente a tudo o que acontece no planeta, ficaríamos presos em nossos casulos, a sofrer… encurralados pelas dores alheias e, em algum momento, nos esqueceríamos de nós mesmos. Recentemente, o assunto do momento girou em torno das ‘fatídicas’ eleições municipais. Eu — como tantos outros eleitores — fui obrigado a escolher um representante na seara de candidatos, que se dedicaram a apresentar suas ‘fórmulas mágicas’ ao longo da campanha.

Tarefa cumprida, acredito ter feito a minha parte e, se for imitar a maioria, posso me considerar livre para reclamar: do transporte, da saúde pública, educação… o cinza que cobre o grafite, a praça arrumada com ‘obras esquisitas’.

Acredito que, realmente, seja possível escapar das circunstâncias que restringem a liberdade… mas, para isso, é necessário um exercício diário de paciência… lutar contra os condicionamentos e conceitos — e não nos limitarmos ao lugar comum. Renovar-se e estar sempre pronto e disposto a questionar o novo, e também o velho. Estar receptivo aos processos…

Não é nada fácil dar o nosso grito de ‘independência ou morte’, afinal, quando chegamos à realidade, muita coisa já ‘estava pronta’. E nos acostumamos aos valores que nos são passados — impostos — sem questioná-los: somos ensinados a apenas repeti-los, até a Morte.”

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BEDA / Scenarium / Horizonte

HORIZONTE

Enquanto um pterodátilo carrega o sol no bico para o outro lado do mundo, eu percebo o quanto o manto verde da minha vila foi tomado pelas construções humanas. A antiga fazenda loteada, se transformou em um bairro populoso e com problemas no escoamento do trânsito em suas ruas tortuosas. O que nos salva da aridez total é o horizonte ainda visível a partir de pontos mais elevados, como onde estou. Um dia, no entanto, os edifícios mais altos, que se aproximam à esquerda, começarão definitivamente a fazer parte da paisagem humana e talvez não haja como evitar a extinção dos bichos que passeiam no fundo da minha imaginação…

Beda Scenarium

 

BEDA / Scenarium / Reconciliação

RECONCILIAÇÃO

Naquele dia, acordei muito triste. Já pensava em como aquele sentimento poderia me ser útil na conversa sobre a última briga que tivemos. Isso e também dois pequenos cortes em minha perna causados pelos estilhaços provocados pelo copo jogado em minha direção que se espatifou no piso, após uma altercação com ela e minhas duas filhas.

Tudo começou quando eu admoestei a mais nova por não ser previdente ao planejar com antecedência os seus interesses, deixando para a última hora assuntos que, no final das contas, eu me sentia na obrigação de resolver. Quando percebi que teria que usar o tempo livre de que dispunha, já escasso, para me dedicar àqueles pequenos problemas, comecei a ficar irritado, o que fez com que a minha voz saísse embalada por tons cada vez mais aumentados a cada frase.

Passei a vociferar contra a imprevidência da caçula, quando a mais velha começou a defender a irmã. Era uma situação em que eu usava uma força desmedida para a pouca gravidade do motivo. Mas jogar o copo de suco em minha direção talvez não dissesse respeito apenas àquela briga. Alguma outra coisa mais parecia estar por trás daquele ataque da minha mulher.

De alguma forma, aquela ação poderia ser usada para tornar a minha retórica mais emocional quando a confrontasse – ela me atacou naquele dia tão “importante”. A tensão começou antes, quando já havia discutido igualmente com a caçula, pelo desdém que demonstrara ao ter que comparecer à cerimônia de minha premiação. Nas duas ocasiões, devo ter me aproximado um pouco mais do sentimento que assomava a meu pai quando, em vez de estar salvando o mundo do Capitalismo, ele era forçado a fazer frente às pequenas necessidades de seus filhos, sempre tão solicitantes. A diferença entre mim e ele, é que por mais que esperneasse, eu sempre estaria presente.

Tanto minha mulher quanto eu não conseguíamos ficar tanto tempo sem sexo e por mais que quisesse puni-la com a minha abstinência, bastava que ela apresentasse uma atitude mais receptiva para que eu me deixasse levar por meus impulsos Eu já lera em algum lugar que temos uma cota de autocontrole que podemos suportar. Em algum momento, falhamos em manter uma disciplina férrea sobre todos os aspectos da vida. Além disso, deixando de fazer sexo, punia a mim mesmo.

Foi o que aconteceu no dia do quebra-pau. Contava que o sono e o cansaço me vencesse antes que acontecesse qualquer coisa. O sono não veio e como ela reclamou do frio, apesar das três cobertas que usava, me aproximei de seu corpo por trás, para aquecê-la. Costumeiramente, deitávamos nus. Dentro de instantes, o meu desejo começou a se manifestar. Contra a minha vontade, a lubricidade comandou meu pênis. Mais um pouco, pus-me a cutucá-la por trás, que iniciou um leve movimento de aceitação. Levantei-me, fechei a porta do quarto à chave e impetuoso, arranquei as cobertas e puxei para a beira da cama. Eu a pus apoiada sobre os joelhos-mãos e, sem preliminares, a invadi encontrando um percurso intensamente lubrificado. Alguns minutos depois, em movimentos cada vez mais frenéticos, irrompi em um gozo-fluxo estupendo e surpreendente. Deitada de bruços sobre a cama, o meu corpo sobre o seu, percebi que começou a chorar baixinho até cair em francas lágrimas. Enquanto eu, egoísta e vaidoso, pensava em como fora perfeito – ejaculei na hora certa e havia demonstrado uma perfeita sincronia de tempo e impulsividade.

– O que foi, querida?

– Eu não gosto de brigar com você! Não gosto quando você maltrata a mim e às meninas… Quando fica irritado por coisas tão pequenas, sinto que algo o incomoda, que você não está satisfeito com o nosso casamento e família. Que falta alguma coisa para que você seja feliz…

Com certeza, havia um problema. Como alguém que não acredita na felicidade pode ser feliz? Não, naquelas condições, aprisionado ao corpo que tinha, ao tempo que vivia, com os compromissos que aceitei cumprir, preso à armadilha a não ser eu mesmo, a falsear a minha conduta…

Completou:

– Eu não gostaria de me sentir tão presa a você, tão dependente…

Com a convicção de quem exprimia a verdade daquele momento, a interrompi:

– Eu te amo, querida!

– Eu também te amo! – respondeu.

Como eu gostaria de acreditar nela…

Sem dizer mais nada, seu choro definhou até cessar em um forte ressonar. Adormeceu. Deitados de lado, lambuzados e colados um ao outro, a acompanhei para a escuridão sem sentidos…

 

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Selfie-Espelho

SELFIE

Quando me olho no espelho, vejo o meu contrário imagético. Me penteio, me invento-maquio, me expresso inversamente à figura que mostro aos outros. Mesmo assim, não deixo de ser verdadeiro. Afinal, sou mais real quando não sou exatamente quem penso que seja.

Como em um jogo de espelhos, o que de mim se mostra exteriormente, na realidade, acabo por ser. Se enxergar com muito cuidado, em mim tudo está dito, tudo mostrado, sem bem que nem sempre desvendado. Não falo especialmente da imagem que mostro, mas da mensagem que tento transmitir – sentimentos, visões, o que ouço, tateio, experimento o gosto – enquanto, interiormente, monto um discurso mentiroso sobre o que apreendo sobre mim para a satisfação do meu ego. E como um monstro que se projeta para além de meus limites mentais, procuro aviltar o espelho revelado-revelador.

Para não parecer tão ultrajante, prefiro me projetar nos crepúsculos, mais do que nas auroras – vida nascente. Pois ao terminar o dia, identifico neles, a morte redentora.

 

Beda Scenarium