Projeto Fotográfico 6 On 6 / Viagem Literária

O tema proposto para este 6 On 6 me deixou um tanto desconcertado. “Viagem Literária” era mais ou menos a sensação que eu tinha antes de empreender viver a vida literal. Eu era um sujeito fora do mundo “real”, em que cada dia surgia como um capítulo de um livro escrito página por página a cada hora. Viver, de certa maneira, era bastante penoso porque as personagens envolvidas se expressavam de maneira irregular em enredos aparentemente sem sentido, ainda que eu acreditasse que nada fosse por acaso.

O meu “texto” inventava uma realidade que não batia com a dinâmica humana. Aceitar que a maioria das circunstâncias apresentavam razões impenetráveis para um autor que tentava escrever sua própria história só se resolveu quando abandonei a escrita e comecei a trajetória de homem casado, com filhas para criar. Ganhei uma apresentação de capa que me habilitou a ser considerado “normal”. Durante alguns anos, vivi a “vida louca” de um cidadão comum. até que as redes sociais me possibilitaram voltar a expressar minha visão de mundo sem compromisso, de uma forma menos formal.

A minha viagem literária passa pelos textos que apresentei ao longo anos, porque ainda que tentasse escapar da formalidade, o escritor voltou a ganhar peso e que em 2015 acabou por ingressar num projeto — da Scenarium Livros Artesanais — que desde então me estimula a assumir o compromisso de me tornar o melhor escritor que eu possa ser.

Neste dia Dia de Reis de 2021, recebi de presente, em papel transparente, uma “sensação de estranhamento feliz”. À primeira vista, esta fruta que encontrei no jardim, parecia um pequeno abacate. O abacateiro que tínhamos se foi há algum tempo. Após lavá-la, ao posicioná-la para a foto, quase a confundi com uma pera. Ao toque, devido a lisura de sua casca, ficou evidente tratar-se de um maracujá mesmo já que, além das mangas (no final da safra), jabuticabas e goiabas, só temos mesmo um maracujazeiro em plena produção. A sua forma inusitada, causou aquela sensação nomeada acima. Um pequeno bálsamo em relação à antípoda “sensação de estranhamento infeliz”, tão em voga em 2020. Feliz Dia de Reis!

Imagem de 6 de Janeiro de 2016

Discos que não serão mais tocados
Céus que não serão mais riscados
Por pipas, aviões, ovnis, seres alados
Amores que não serão mais amados
Por você, por mim, por nós, passados
Todos, pela moenda dos sonhos dourados…
O Tempo!

Este ano esta mesma imagem ocorreu igualmente, mas esta é de 2013…

Da janela do meu quarto, se alcança as frutas. Este ano, houve uma superprodução de mangas, o que as minhas cachorras muito agradece! Quase sempre vejo um cão chupando manga e eu acho lindo! Durante todo o dia, se ouve o som do baque das filhas que abandonam as pencas mais amaduradas e elas se aproveitam, incontinentes. Nós, os humanos, a aproveitamos in natura, em suco e até para fazer sorvete. Estas aqui ainda estão verdes, mas por pouco tempo…

Meu quarto livro lançado pela Scenarium… em maio de 2021

No início de 2021, estava sentindo as consequências de me abrir para o mundo. Tudo me atingia. A situação do País em meio a uma Pandemia, envolto pelas sombras de um Reacionarismo que se autointitulou de Conservadorismo, como se devêssemos conservar todas as mazelas não de um passado recente, mas do Colonialismo — poder aos brancos, homofobia, misoginia, massacre dos originais da terra, exploração predatória de um país em que se plantando tudo dá. Pindorama sendo novamente devassada por usurpadores que acreditam que não existe lei ou pecado abaixo da Linha do Equador. Curso De Rio, Caminho Do Mar desaguou em páginas da Scenarium Livros Artesanais e me salvou de afogar em tanta angústia. Nele, tento manter a cabeça fora d’água, mas não deixei de mergulhar em águas profundas.

Em 17 de Maio de 2016, escrevi: “Pois, é!… Aconteceu de novo… A Tânia e a Romy se compadeceram de uma doidinha de saudade perdida na região… Uma pediu, a outra a resgatou… Agora, Bethânia parou de chorar, sentada em meu colo… A academia adiada, enquanto descansa de seu sofrimento a nova fêmea da família, pelo menos por um tempo…”. Hoje, a Bethânia cresceu, mas nem tanto. Gosta de agir como se fosse uma gata e, apesar de suas perninhas curtas, salta a mais de um metro de altura, subindo em muretas, telhados, pias e, eventualmente, em mesas. Destruiu praticamente sozinha um conjunto de sofás e vez ou outra acusa travesseiros e almofadas de atacá-la, os rasgando. Sofre bastante com o frio, odeia roupinhas e prefere ficar debaixo das cobertas nas camas que a aceitar. Quando a Romy foi resgatá-la perguntou para uma senhora que estava próxima se era dela. A resposta que ouviu foi: “ninguém quer isso daí, não!”. Nós quisemos “isso daí”, bicho ciumento que ganhou um capítulo no meu primeiro livro pela Scenarium Livros Artesanais — REALidade — por essa característica. Teimosa, late sem parar normalmente quando a Lívia está em reunião no Home Office. É meio difícil explicar a forte personalidade dessa “pessoa”…

Este poema eu escrevi para uma apresentação no lançamento das publicações da Scenarium Plural – Livros Artesanais, em agosto de 2016, ao qual infelizmente não pude comparecer. Trata sobre um tipo que se sente depreciado e que se auto denomina “O Segundo”. Estranhamente, a linha final parece atual e premonitória (da época do golpe do Congresso Nacional sobre a Dilma e a assunção do vice, Temer), se bem que o entendimento possa tanto ser utilizado em relação ao personagem quanto à contagem do tempo.

O SEGUNDO

Ser protagonista não é o meu papel.
Sou o escada no número de humor.
Sou o segundo do lutador.
Sou o amigo tímido do namorado.
Era reserva do goleiro no time de futebol.
A opção confiável, mas nunca escolhida.
Ficava com as sobras da comida.
Eu me tornei o primogênito,
porque o meu irmão mais velho morreu…
Casei porque a minha mulher foi deixada
e eu estava lá para a consolar…
Na cama, os gemidos dela nunca foram para mim…
Certa vez, o nome do outro foi murmurado…
Sigo sendo servidor de segundos…
Outros segundos tempos…
O meu consolo é saber que a História
dos tempos
é contada por segundos…

Participam: Mariana Gouveia / Silvana Lopes / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Claudia Leonardi

Tempo, Temporal…

As últimas notícias vindas de Londres informam sobre a ocorrência de um frio excepcional como há muito tempo não se registrava. Aliás, as sucessivas notificações nos últimos tempos demonstra que os parâmetros climáticos tem se alterado sucessivamente nas últimas décadas, dando picos positivos e negativos nos termômetros de temperatura. Mas isso seria como avaliarmos a saúde de uma pessoa através do peso, sem a avaliação do estado geral do organismo. No caso do Clima da Terra, o padrão qualitativo demonstra significativa decadência da normalidade que indica este planeta como amplamente habitável. É bem possível que grandes faixas dos cinco continentes se tornem inóspitos nas próximas décadas pela intervenção direta dos habitantes que se colocam como acima de quaisquer outros seres que que habitam o terceiro planeta desde o Sol.

Há dez anos, em 2014, publiquei no Facebook um comentário acerca das notícias sobre a variação climática de então: “Reclamação total contra o excesso de calor, enquanto no Canadá as pessoas morrem de frio dentro de suas casas! Prefiro muito mais os nossos 33ºC positivos (em SP) do que os 17ºC negativos do país do Norte. Eu sou um cara que ama o calor. Suo com gosto, sabendo que esse é um processo natural do nosso corpo para refrigerar a pele e reequilibrar a nossa temperatura. Uso o ventilador apenas para afastar os pernilongos, ávidos por meu sangue que será usado na reprodução de seus descendentes. Não gosto de venenos que alterem o cheiro ao meu redor. Ou seja, sou um chato! De qualquer forma, alguns reclamam do calor, porque ainda não perceberam que a razão é outra — ainda não se encontrou um aparelho que ventile a dor… de sermos humanos…”.

A Libélula

Ao abrir a porta que dá para a garagem, me deparei com uma libélula que, feito um helicóptero animal, parou no ar por uns três segundos e pareceu avaliar o que seria aquele ser diante dela. Desceu ao chão e repentinamente tomou o seu rumo incógnito. Era um inseto bem mais escuro e maior do que eu já vira e, mesmo em casa de tantas plantas, bastante incomum. Aliás, eu não me lembro de tê-las visto antes por aqui. Como seus voos podem durar de alguns minutos como dias, acredito que fosse do tipo migratório e que tenha vindo de uma reserva da Mata Atlântica, que fica a uns 3Km de onde moro.

Fui lá pesquisar sobre a libélula:

“A libélula, também conhecida popularmente como tira-olhos ou libelinha em Portugal e como lavadeira ou jacinta no Brasil, é um inseto alado pertencente à subordem Anisoptera. É considerado um dos primeiros insetos a surgir na Terra. Os registros fósseis de libélulas mais antigos foram encontrados na França e datam do período Carbonífero, há cerca de 300 milhões de anos. No Brasil, os fósseis datam do período Cretáceo (há aproximadamente 100 milhões de anos). ”. Wikipédia

Ou seja, é um inseto que carrega consigo o peso das idades terrenas, que vive de 5 a 56 dias. Devido ao seu processo de mutação (dentro e fora d’água), está relacionado a mudanças, transformações e capacidade de adaptação. Em alguns países, como no Japão, a libélula é associada à felicidade, coragem e prosperidade. Na América, o inseto significa a renovação nos períodos de dificuldade.

Na Bíblia, as libélulas são mencionadas em passagens como Êxodo 10:19 e Isaías 34:14. Essas referências podem ser interpretadas como símbolos de transformação, proteção divina e ação de Deus na Natureza.

“O termo ‘libélula’ pode ter se originado de dois termos latinos: libellules, o diminutivo de ‘livro’ (liber) – devido à semelhança de suas asas a um livro aberto – ou libella, que significa balança – enquanto voam, as libélulas parecem uma balança, se mantendo em perfeito equilíbrio.

As libélulas são insetos predadores que pertencem à ordem Odonata. A estrutura corporal das libélulas permite que elas sejam caçadoras implacáveis. Elas voam mais rápido do que a maioria dos outros insetos. E, podem mudar instantaneamente a direção do voo, pairando no ar como minúsculos helicópteros. Por permitirem uma visão panorâmica (360 graus), seus grandes olhos são capazes de localizar presas acima, abaixo, em frente, atrás e de ambos os lados. Esses animais exercem papel importante no controle biológico de pragas e atuam como bioindicadores de qualidade ambiental. Além disso, são protagonistas de numerosas crenças e tradições que habitam a imaginação popular há muitos séculos.

Em uma delas, são chamadas de pequenos dragões: “em inglês, as libélulas são conhecidas como dragonflies. Segundo uma lenda Xamânica, a libélula era um dragão sábio e dotado de magias que, durante a noite, difundia luz com sua própria respiração de fogo. Um dia, para enganar um coiote, o dragão aceitou o desafio de se transformar em uma libélula, tornando-se prisioneiro de seus próprios poderes. Depois disso, além de perder suas magias, o dragão ficou preso em seu novo corpo para sempre”. eCycle

Que essa visita inesperada tenha surgido diante de mim neste penúltimo dia de 2023 foi simbolicamente importante, além da beleza de seu voo que a fez desaparecer assim como surgiu, feito uma visão mágica, assim como considero mágica a expressão da Natureza. De certo que vejo a maioria dos movimentos da vida como algo de milagroso, quase sempre conspurcado pelas mundanas ações humanas. Nada de religioso, mas sim de religiosidade, de conexão com as energias invisíveis. Ainda que as guerras – grandes e pequenas, diárias – não obedeçam ao determinismo do calendário, continuando à sua faina de ceifar vidas todos os dias e trazendo sofrimento e dor, que 2024 possa ser um período de renovação para melhor. Assim seja!

Foto por Sandhy Prasetyo em Pexels.com

Entulho*

Quando eu era mocinho, faziam “bulling” com o meu nome, Obdulio, o relacionando com bagulho, com entulho ou embrulho. Como gostava dele, por ser incomum, segurava a onda numa boa. Hoje, sei que a questão do entulho é muito mais importante que qualquer brincadeira com nomes e que corremos o risco de sermos todos engolidos pelo lixo, de nos tornamos apenas bagulhos.

É muito comum encontrarmos aqui na Periferia locais onde são despejados entulhos – restos de materiais de construção, móveis velhos, utensílios indesejados de todos os tipos. Esses objetos são depositados nas calçadas e esquinas (feitos despachos), muros e jardins das nossas ruas e avenidas. Essas ações, normalmente, não são realizadas por seus (ex)proprietários, mas por intermediários que recebem um dinheirinho para descartá-los. No entanto, quem paga até vem a imaginar, pelo pouco valor envolvido e veículos utilizados (muitas vezes, carroças de tração humana), o destino que será dado ao seu entulho. Porém, a partir do momento que o entrega, não quer mais saber para onde será encaminhado… Não deve ser incomum ocorrer de o sujeito ver a sua própria privada, onde sentou tantas vezes ou o sofá, onde deitou outras tantas, jogados no caminho para pegar o seu ônibus ou atrapalhando a passagem de seu carro…

Essa questão de nosso lixo é, para mim, primordial para identificarmos a quantas anda tanto o nosso nível educacional institucional como o familiar e, antes de tudo, da nossa consciência particular e coletiva. Reflexo direto do que somos como povo, especulo que não merecemos representantes melhores do que temos, mesmo porque é em nosso seio que eles surgem. Escolher aqueles que tem genuína preocupação com a Ecologia tem sido a minha preocupação nas últimas eleições. Se há representantes que, em vez de fazerem promessas mirabolantes, simplesmente se comprometerem com a efetivação de uma Educação de qualidade, bem como o saneamento básico irrestrito, terá o meu apoio.

Da Educação ampla, se desenvolvem os instrumentos para o conhecimento que leva quem a detém, a melhorar a sua vida e de todos ao redor; a de desenvolver a consciência de que temos responsabilidade coletiva com o bem comum; a entender de que a nossa casa não termina no portão para a rua; que o meio ambiente vem a sofrer com o nosso descaso; que, sem sabê-lo saudável, ficaremos (como estamos) igualmente doentes.

Quando falo em saneamento básico, o relaciono à preservação de mananciais, com o tratamento total de nossos esgotos, com a consequente oferta de água potável para todos, o que diminuiria bastante o gasto com a Saúde, já que o uso de água de qualidade evitaria o surgimento das doenças mais comuns, mas não menos graves, por serem endêmicas. Um povo educado valorizaria a geração de energia limpa, eficiente e de oferta quase ilimitada, como a solar e a eólica e veria com desconfiança a ideia de reserva de mercado para combustíveis fósseis que favorecem mais a uma empresa sob a direção de homens que manipulam números dentro do País, enquanto guardam outros fora dele, acima dos interesses da nação.

Eu sei que este possa vir a parecer um pronunciamento partidário, mas desisti de deixar de me colocar à parte das principais discussões que envolvem o nosso modo de vida, para além da observação dos pequenos (apesar de definidores) detalhes da vida cotidiana. Política é a arte da convivência e as pessoas a tem transformado na arte do confronto.

O dono do espelho quebrado terá sete anos de azar, assim como todos que jogam lixo na rua, assim como todos nós, que vivemos neste País. Enquanto isso, utópico, fico a lutar pela salvação pelo Sol, a favor dos moinhos de vento…

*Texto de 2015

Vida Normal*

Dia de folga de um dezembro corrido. Passaram muito rápido todos os meses de 2017. Vou ao Correio, passo no supermercado, me desloco para uma visita técnica, levo um aparelho para o conserto. 

Escritor em busca de temas que sou… por onde passo encontro personagens. O clima de final de ano de pinheiros e decorações típicas de tempo frio, se faz presente a cada quadra que caminho. É o assunto principal das pessoas nos ônibus e trens de Metrô.

No Correio, tenho que devolver um produto que veio com defeito. Pelos corredores e gôndolas do supermercado, cenas cotidianas igualmente explicam nossa triste realidade. Uma menina sentada no carrinho de compras, recebe de seu irmão um saco de salgadinhos. O menino, com idade suficiente para saber que fazia algo indevido, o abre com o cuidado necessário para não ser percebido. Um ato de amor… escuso. A mãe, ao lado, finge que não vê.

A caminho da reunião, uma mulher conversa ao celular. Explica ao interlocutor que não poderá encontrá-lo naquele dia porque “o seu amigo está desconfiadíssimo!”. Quem caça, às vezes, veste roupas claras, quase diáfanas.

Depois da visita técnica, me desloco à região da Santa Efigênia. Visito algumas lojas, enquanto espero o reparo do aparelho. Em uma delas, acredito reconhecer o senhor por detrás do balcão… um cantor tal de uma banda de sucesso anos antes — o próprio… levantou a cabeça, a olhar para um ponto indefinível, talvez o passado. Exibiu um sorriso enigmático. Soube que ganhou muito dinheiro, bateu muita cabeça, perdeu prestígio, deixou de ter visibilidade e voltou a trabalhar na loja do Seu Gaspar — onde teve o primeiro emprego. Ele ainda canta aos finais de semana, em um barzinho — voz e violão, público cativo, que sabe as letras de suas antigas canções. Percebo, no entanto, que não tem mais a ilusão do sucesso. O cumprimento e saio cantarolando uma de suas músicas.

A pé, vou encontrar minhas filhas e mulher, no bairro de Santa Cecília. Caminho pelas ruas do Centrão, pelo qual tenho paixão de viajante. A arquitetura variada, em épocas e formas, é como se fosse um palimpsesto em alto relevo. Presencio o entrechoque de identidades diversas. A mudança de paisagem humana é drástica, de um lugar para outro. Parece que há sempre um novo ângulo a ser explorado, personagens a serem encontradas, histórias a serem contadas.

Ao chegar ao apartamento de minha filha, levo para passear o cachorro de sua amiga que vez ou outra fica hospedado por lá. Toddy é carinhoso e alegre.  Por algum motivo, lembro do Desinquieto, nome dado por um morador de rua do Centrão ao companheiro de jornada. Ele o carregava no carrinho e a pessoa de quatro patas agia como se fosse um marajá em sua liteira. A diferença entre os dois, Toddy e Desinquieto, era total, tanto em conformação física quanto em condição social. Porém, o olhar dos dois era a de seres que se sabiam amados, sendo amáveis. Toddy faz amizade por onde passa. Exceto por uma enciumada cadelinha de andar arrogante que quis lhe atacar.

Compro bolo de cenoura, tomo o chá da tarde com a família e percebo que tenho cumprido o mandamento pessoal de viver um dia de cada vez. Vivo o primeiro terço de um dezembro de um feliz ano velho, que foi intenso, pleno de acontecimentos, grandes e pequenos, que trouxeram a mim a certeza que a vida segue seus dramas, seus prazeres e dores, desafetos e amores independentemente das efemérides que promulguemos.

Em meu passeio com o Toddy, ouvi o trecho da conversa entre duas mulheres. Uma delas diz que odiava àquela época do ano e que não via a hora de janeiro chegar. Eu agradeço se puder viver apenas o próximo dia.

*Texto que compõe o Coletivo Feliz Ano Velho, de 2017, pela Scenarium Livros Artesanais.