Confissões*

Senhor, confesso que pequei… e continuo a pecar. Registrei uma parte em livro.

Eu nem me lembro se já fiz um diário. Talvez eu tenha feito. Mas para ter certeza, teria que revirar os meus papéis antigos, guardados em alguma caixa de papelão jogada em algum canto da casa.

Onde devem estar reservados vários livros antigos, degredados da biblioteca oficial, estabelecida em uma das salas. Devido ao estado um tanto precário de alguns — encardidos, com páginas rasgadas, comidas por cupins ou traças — vivem escondidos dos olhos de quem julga um livro pela capa.

Tenho alguns defeitos e vou enumerá-los aos poucos. Um deles é ter apego a esses velhos companheiros. Fui catador de papéis e outros materiais descartáveis quando moço, junto com o meu pai, aos sábados e domingos. Utilizávamos a Gertrudes, a nossa Kombi, para carregar o que conseguíamos. Vários desses livros são dessa época. Foram jogados fora, alguns reconhecidos clássicos da Literatura. Outros, recolhi do lixo do colégio no qual fiz o Segundo Grau, expulsos da antiga biblioteca, então demolida. Muitos, doados por ex-estudantes ou colaboradores que têm os seus nomes neles registrados.

Se há rastro de algum diário, estará entre esses papéis… inúteis para tantos.

*Lançado em 2019, pela @Scenarium Livros Artesanais.

Nós & Eles

A publicação acima foi extraída do Instagram e mostra uma situação que eu vivenciei de perto. Eu trabalho com eventos. Em muitas ocasiões, “invado” espaços que normalmente não frequentaria pela sofisticação do lugar. Aliás, fugiria deles se fosse me dado escolher.

Nasci na Maternidade de São Paulo, já demolida, onde várias personalidades da cidade também nasceram, não que me considere uma. Vivi o começo da minha vida na região do Largo do Arouche, mas depois a minha família e eu, fomos caminhando para os extremos da Capital Paulista. Primeiro à Leste, em seguida ao Norte. Onde até hoje vivo, aliás. Em uma casa, em uma rua com outras casas, um sistema antigo e em extinção nesta Sampa da “grana que ergue e destrói coisas belas”. Prevejo um futuro onde todos viveremos encastelados em edifícios cada vez altos.

Mas, voltando ao assunto inicial, a Ortega Luz & Som foi contratada para sonorizar uma banda para o batismo de uma criança, filha do dono de uma universidade particular. Fomos um dia antes e vários operários estavam ainda montando o local onde se daria a cerimônia e, logo após, seria servido o jantar durante o qual a banda se apresentaria para animar/distrair os convidados. Era uma imensa plataforma colocada em cima da piscina, com compartimentos que faria inveja a várias casas — capela com pia batismal, uma sala enorme para a mesa também imensa, banheiros bem equipados, corredores para a passagem de garçons e outros funcionários. Fiquei pensando que aquilo era grande demais para o valor que havia cobrado.

Montamos o equipamento, testamos, deixando tudo pronto para o dia seguinte. Várias personalidades, entre artistas e poderosos de ocasião, compareceram ao evento e todos pareciam encantados com a suntuosidade do espaço e a pompa da cerimônia de batismo, levada a termo por um padre da moda. Talvez por meu provincianismo ou por ter uma mentalidade crítica urdida no estudo de História, eu achei tudo exagerado. Interpretei (cabe ressalva) que aquilo não foi pela fé do pai e da mãe, mas pelo espetáculo proporcionado. Demonstração de poder. De qualquer forma, também não foi por esse motivo que decidi escrever este texto.

Tudo aconteceu antes. Quando chegamos para a montagem, o rígido sistema de segurança começava pela chegada do veículo que nos transportava, que parou em uma “caixa” onde tivemos os equipamentos vistoriados e nós, revistados. Liberados, chegamos junto ao “cenário” da cerimônia para descarregarmos o equipamento e montá-lo. Foi quando aproximaram três grandes carros pretos. Do primeiro e do terceiro desceram vários seguranças que se posicionaram junto à porta do carro do meio. Dele, saiu o gestor da universidade, protegido como se houvesse uma ameaça por perto, entrando rapidamente na residência. Olhei para além dos muros altos e sequer tinha um prédio naquela região do Morumbi, onde poderia se instalar um atirador de elite que pudesse feri-lo.

Foi quando me dei conta. A ameaça éramos nós — prestadores de serviços —, simples mortais e, eventualmente, uma possível ameaça à integridade física de alguém tão importante. Por sermos de uma casta inferior, nossas mãos e ferramentas de trabalho poderiam ser usadas como armas para agredir o plenipotenciário senhor de um negócio que prosperou na ausência de uma política pública de apoio à Educação de qualidade.

Objetivamente, eu não tinha como odiá-lo por ele ser um homem rico financeiramente. Ele era apenas mais um “esperto” que utilizou o vazio proposital deixado pelos mandatários eleitos por nós para que fossem ocupados por agentes do sistema de castas que impera no Brasil desde sempre. Se não fosse ele e assim como ele, seriam tantos outros que também transitavam pelo salão artificial que, desmontado, daria lugar à exuberante piscina abaixo. Junto à mansão e à grande casa adjacente, ladeada pelo canil onde se “hospedavam” os cães da bela família apartada em seu mundo da constante intimidação do resto da nossa “perigosa” população.

Mentiroso*

A Hora Tardia (1959), de Edward Hopper

Eu aprendi a mentir por amar
Por uma paixão fora de hora
Fora de quadro
Sempre a procura de um quarto
Por pelo menos um quarto de hora
Para devorar e ser devorado
Urgentemente…

Ah, amor sem perdão
Devotado à perdição
Total
Irremediável
Inadiável
Verdadeiro, minto
Para tê-lo
Senti-lo
Sê-lo…
Sou uma mentira que ama!

*Poema de 2015b

Atividades Na Pandemia*

Está postagem veio à público durante os tempos tenebrosos da Pandemia de Covid-19 em sua fase mais “próspera”. Que seria, por si só terrível, se não tivesse a ajuda de um governante que a chamava de “gripezinha”. O Ignominioso Miliciano, além de evitar comprar vacinas para imunização, fez de tudo para aumentar as aglomerações em suas aparições para incentivar os ataques às Instituições da República em seu sonho insano em se tornar ditador.

“Depois do jardim, que ainda não acabou, entramos pela casa e a sala é o próximo alvo. Eu sempre gostei de atividades caseiras mais sofisticadas, envolvendo reparos, construção e afins. Mas ao contrário das mais simples — lavar louça, varrer, limpar e até lavar roupa — devo confessar que nunca foram a minha especialidade.

Ainda reverbera a frase desencorajadora do meu pai, Sr. Ortega, muito talentoso nesse quesito: “Você cola as coisas com cuspe ou amarra com barbante”. Ele talvez não apreciasse que eu gostasse de ler o que caísse às minhas mãos ou ficasse horas escrevendo em folhas soltas, as quais guardava em caixas de sapato.

Se não há tentativa, não ocorrerá o erro, porém muito menos haverá o acerto. E se há algo de certo nesta vida é que o conhecimento se constrói de erro em erro, até aprendermos a fazer. Além disso, é uma terapia incrível, fora eu me sentir produtivo em tempos de intervalo na minha atividade profissional.

*Postagem de 10 de Dezembro de 2020

#TBT Do #TBT

No Dia das Bruxas e da Poesia (em homenagem ao nascimento de Drummond) de 2011, fiz uma pequena postagem que achei pertinente. Desde então, sinto que não mudou muito o meu estado mental.

À época, há exatos doze anos, fazia o 5°. Semestre do curso de Educação Física na UNIP-Marquês. Escrevia algumas crônicas postadas no Facebook, mas por respeitar muito a função da escrita, apesar de meu espírito de escritor, eu não me assumia como tal.

“Gosto de pensar enquanto ando. Hoje, pensei bastante… Coisas do coração… Ainda bem que temos a cabeça para tal mister! Como já disse Pessoa, ‘se o coração pensasse, pararia’.”

Em 2015, ao ser chamado por Lunna Guedes para compor o time da Scenarium, “saí do armário” para me anunciar como escritor. O que significa transformar em palavras a vida que acontece. Registros que podem cair no ostracismo por falta de qualidade ou por exigir o esforço da leitura e da interpretação. O que é uma construção mental. Em tempos em que a distração é o objetivo, focar seus olhos e pensamentos em desenvolver uma interação, vai contra a modernidade de simplesmente ver a vida acontecer, sem se envolver. Levamos a arte do voyeurismo à quintessência. E dá-lhe fórmulas prontas e imagens manipuladas para nos dirigir a atenção…