BEDA / Certo & Errado*

Somos o casal errado,

a viver um amor ilegal…

Porém, no momento certo,

porque para amar

é sempre o tempo ideal…

Vivemos a paixão exata

para esta era incerta –

turbulenta,

absurda,

contumaz…

Porque estar apaixonado

é viver sem um traço de paz…

Sentimo-nos rejuvenescidos

pelo fogo que nos forja…

Queimamo-nos em nossa fuga

pontual – data marcada –

instante fugaz,

ainda que eternizado…

Entre o certo e o errado,

batemos como o pêndulo

de um relógio orgânico,

de um lado para o outro,

ao ritmo de nossos corações,

à espera da hora que expiremos

o nosso último fôlego…

*Poema de 2016

Participante do BEDA: Blog Every Day August

Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Bob F / Suzana Martins / Roseli Pedroso / Claudia Leonardi / Denise Gals

BEDA / Deseducação

De acordo com uma reportagem de O Globo, “O Governo de São Paulo recusou livros didáticos do MEC para usar apenas seu próprio material digital em alunos do 6º ao 9ºano do Primeiro Grau. O Estado alegou que possui material didático próprio para manter a ‘coerência pedagógica’ e que escolas têm a orientação de providenciar a impressão do conteúdo digital sempre que houver necessidade.

O governo de São Paulo decidiu não aderir ao Programa Nacional de Livros Didáticos (PNLD), do triênio de 2024 a 2027, para o segundo ciclo do ensino fundamental (entre o 6º e o 9º ano). Segundo Ângelo Xavier, da Associação Brasileira de Editores e Produtores de Conteúdo e Tecnologia Educacional (Abrelivros), essa é a primeira vez que isso acontece desde a criação do programa, há mais de 80 anos. Com isso, os estudantes de São Paulo, a partir do 6º ano, só terão material digital. Para os anos iniciais, material digital com suporte físico; nos anos finais e ensino médio 100% material digital”.

Lembrando que não há custo do Estado no recebimento do material didático, foi decidido aderir apenas à compra de obras literárias para o PNLD e do material didático para a educação de jovens e adultos (EJA). Foi uma tomada de decisão unilateral, sem consulta às escolas ou especialistas, pelo Secretário da Educação paulista, Renato Feder. Obviamente, alinhado à orientação do Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

O carioca e bolsonarista Tarcísio foi uma invenção do ex-presidente brasileiro para concorrer ao Estado que se constitui no segundo orçamento nacional, atrás apenas do Brasil. Antes de ser colocado no jogo, não conhecia São Paulo e não saberia distinguir localizações tão distantes quanto São José dos Campos e São José do Rio Preto. Eleito pela população paulista majoritariamente conservadora do Interior, está tentando implementar uma visão programática à Direita.

O sujeito disse a que veio ao trazer a visão belicista à Segurança Pública inefetiva no Rio de Janeiro. Permitiu e abençoou uma operação gigantesca, utilizando uma força composta por 600 homens na invasão a uma favela no Guarujá, em resposta à morte de um PM da ROTA. Até o momento, a operação gerou 14 mortos e contando, com a acusação recorrente de moradores na prática de torturas para obtenção de informações e execuções.

No Litoral Paulista, devido ao Porto de Santos, grandes traficantes com ramificação internacional, mantém o domínio de comunidades que recorrentemente foram deixadas de lado pela Administração Pública com relação aos investimentos em melhorias da infraestrutura. Seria o caso de uma operação que envolvesse a utilização de inteligência policial (o que no Brasil parece ser uma contradição em si) do Estado e da Polícia Federal. Mas Tarcísio pretende que São Paulo se torne um enclave opositor às políticas governamentais do Governo Federal.

O que parece contraditório é que o avanço tecnológico no combate à letalidade na condução da segurança – o uso de câmeras nos uniformes policiais pretende impor o material didático virtual como única alternativa de ensino.  No caso da Educação, o que parece ser um avanço, esbarra na precária rede de Internet nas escolas, além da falta pura e simples de tablets, laptops e computadores de mesa suficientes para todos os alunos nos próprios escolares. Mas quando ocorre uma ação dessa turma dessa magnitude, não podemos deixar de perceber que o custeio de novos apetrechos terá um gasto bastante atraente para alguns agentes da área digital ligados ao financiamento da sua campanha ao governo paulista.

Eu conheço um pouco da realidade de escolas estaduais na Capital e sei que ainda que sejam fornecidos aparelhos suficientes, a estrutura digital é deficiente para atender a esse plano que visa, prioritariamente, o afastamento da orientação do Governo Federal na área didática. É uma guerra ideológica escamoteada pelo termo “manutenção da coerência pedagógica” paulista. Sei que o futuro será a utilização cada vez maior de recursos digitais. O que não quer dizer que seja exatamente um progresso humano, mas o subdesenvolvimento de funções mentais, físicas e psicológicas de nossos jovens.

A experiência sueca, que buscou a mesma orientação agora preconizada, deu meia volta, já que os índices de aprendizagem caíram drasticamente. A começar com a quase extinção da escrita à mão, já referenciada como excelente para o desenvolvimento motor e cognitivo. Uma decadência de mão única para a queima virtual de bibliotecas inteiras e tentativa do controle absoluto sobre o comportamento humano, finalmente condicionado à virtualidade.

Texto participante de BEDA: Blog Every Day August

Bob F / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Claudia Leonardi

BEDA / Varrição

varrer o quintal
tarefa enfadonha?
para mim um ritual
faço com o prazer escatológico
de quem reúne estrelas na varrição
restos de galáxias que se chocam
em auto consumação apocalíptica
no chão jaz restos biológicos
vestígios da morte etapa da vida
renovada em movimentos necessários
imprecisos distantes de nosso controle
em meia hora passeio pela existência
presença passagem passageira
do feto à caveira num átimo
em reinícios etapas a cada passo
transfiro as folhagens para novo canteiro
reposição de matéria orgânica
imponho o ciclo natural do qual participamos
aceito…
a eternidade é um estado de espírito…

Texto de participante de BEDA: Blog Every Day August

Claudia Leonardi / Lunna Guedes / Mariana GouveiaRoseli Pedroso / Suzana Martins / Bob F

Forcadas

A Ingrid, minha filha do meio, me perguntou sobre a origem da parte espanhola da família, do lado de minha mãe. Recorri aos meus primos mais velhos para ter conhecimento exato dessa informação. Uma delas, a Arilda, me enviou a página do documento que meu tio-avô, Juan Nuñez Blanco que, segundo a minha irmã, foi meu padrinho de batismo, lhe foi outorgado pelo Cônsul da Espanha Em Santos. Os seus filhos chegaram a visitar o local do nascimento do irmão do bisavô, Juan e do próprio bisavô, Antônio, meu avô. Eu, por algum motivo obscuro, nunca tive o desejo de “rever” as terras de onde um dia vieram. Agora, estou quase mudando de ideia. Provavelmente essa mudança se deve à pesquisa que realizei para me informar.

Documento do meu tio-avô, Juan Nuñez Blanco

Ao me transportar por imagens para a região, fiquei como que conectado aos lugares, querendo saber das histórias dos seus habitantes e e pisar o chão que pisaram. No documento, surge o nome Orense, mas o nome oficial no idioma Galhego é Ourense, já que fica na Galícia, quase fronteira com Portugal. Seu nome pode derivar de Auriense — cidade do ouro — abundante na região. Ou, devido aos muitos pontos de águas termais características da região, pode advir do latim “Aquae Urente”, denominação surgida na época da dominação pelos romanos.

Na pesquisa que realizei sobre Forcadas, o lugarejo original de meu avô, me deparei com uma história incrível.  Na mesma localização geográfica tive contato com cidade-fortaleza medieval de Granadilla — uma cidade fantasma. Os eventuais visitantes podem ultrapassar portas adentro, explorar os quartos vazios, caminhar pelas ruas assentadas e ver a cidade do alto do castelo. Mas ninguém mora lá desde que todos os moradores foram expulsos. Num projeto surgido na ditadura do General Francisco Franco, que governou com mão de ferro a Espanha de 1936 a 1975, decidiram construir o Reservatório Gabriel y Galán, no Rio Alagón. Em 1955, as autoridades decretaram que Granadilla, fundada pelos mulçumanos no Século IX, estava na planície que ia ser inundada pela obra e a evacuaram durante a década dos anos 60.

Visão de parte do povoado de Granadilla desde o alto da fortaleza.

Os seus habitantes alertaram às autoridades que a cidade ficava num ponto mais alto que a barragem e que a água não a invadiria. Foi em vão. Ao longo de 10 anos, de 1959 a 1969, os mil moradores foram despejados à força, muitos deles realocados para assentamentos de colonização próximos à cidade. Quando a água começou a subir em 1963, cobriu todas as vias de acesso à cidade, exceto uma, transformando-a em uma península. Mas a cidade em si nunca foi coberta. Ainda atendendo ao decreto do antigo ditador, mesmo depois de sua morte, os moradores não foram autorizados a retornar até hoje.

Parte do conglomerado de casa de Forcadas

O povoado de Forcadas, que originou a minha busca, continua a sua existência de cidade milenar, de construções de pedra, pessoas de ferro e coração quente. É um lugar  onde se pode alugar quartos ou casas para estadia. Na região pode-se usufruir de fontes termais e templos antigos, além de reservas naturais.

Meu tio-avô Juan foi o primeiro da família a vir para o Brasil. Algum tempo depois, trouxe o seu irmão, meu avô Antônio que, um ou dois anos após, trouxe a mulher, minha avó Manuela, com os seus cinco filhos. A minha mãe, Maria Madalena e Benjamin, nasceram em terras brasileiras.

Seus pais, meus avós e filhos fugiram da pobreza e das condições políticas instáveis que acabaram por gerar a Guerra Civil Espanhola, que foi usada pelos alemães para testarem as suas armas de aniquilação. Foi uma época da união de regimes autoritários para ascenderem ao poder, não importando a forma e o número de mortos que gerassem. Aqui, no Brasil, os efeitos da Segunda Guerra também atingiu a Família Nuñez Blanco, assim como todos os brasileiros. Foi uma época de escassez de alimentos, com racionamento forçado. Mas estando num dos teatros da conflagração —  Espanha — certamente teriam perdido as vidas. Graças à saída de seu local de origem, posso escrever agora sobre o que aconteceu.

A benção, meus avós!

Pecinhas

Passei o sábado a resolver pequenos problemas de casa, junto com o Geraldo, um rapaz que me chama de senhor, apesar de lhe pedir que me chamasse pelo nome. A Lívia disse que era porque eu não quisesse parecer mais velho. Respondi que não me importava com isso. O que eu queria era estabelecer um tratamento que nos igualasse. Todas as vezes que ele vem em casa para fazer alguma obra, atualmente restrito à manutenção, conversamos bastante acerca das condições de trabalho e as atividades que envolvem o seu ofício. Procuro saber dos mecanismos de atividades que são básicas, mas muito mal remuneradas.

Tentando escapar do trabalho pesado da construção civil, Geraldo decidiu ser porteiro. Ficou apenas dois dias no emprego. Suas funções, descobriu, não se atinha somente em abrir e fechar o portão da garagem para carros e dos pedestres para as pessoas. Deveria receber pacotes, fazer listas para as serventes da limpeza, vigiar as crianças no playground, não demorar demais – dois segundos que fosse – para obedecer a alguma ordem dada pelos moradores e outros frequentadores. O acordado não havia sido aquele e o salário não valia a pena. Sujeito bem-intencionado, frequentador de igreja cujo pastor, ciente das maledicências do mundo, instrui aos seus apascentados seguir a palavra do Senhor, incluindo não aceitar a aceitar a equanimidade entre os gêneros, não consegue entender da razão de haver pessoas que o tratam como se fosse um anónimo, feito uma simples peça na engrenagem.

Tentei lhe explicar o processo da Escravidão como modelo de produção que perdurou por quatro séculos, impregnando as relações humanas de tal maneira que abraça as suas tramas invisíveis na alma do brasileiro. Poderia lhe falar do vazio afetivo que o Patriarcado causou aos homens, além do imenso mal causado à mulher. Entendo que talvez fosse demais para ele, mas não consegui me segurar. Ele me olhava desconfiado como a imaginar que eu estivesse totalmente rendido à patroa, na guerra declarada pelo controle absoluto de um ou de outra – como parecia encarar o casamento – em que o rei sente o poder ameaçado pela rainha.

Passamos boa parte do dia desde as 8h da manhã, a resolver o vazamento no quarto da Lívia, trocar uma torneira de jardim, uma mangueira rompida e a colocação de uma torneira elétrica na pia da cozinha. Os problemas que surgiram para uma tarefa e outra, foram as pecinhas – detalhes que faziam a diferença entre o sucesso e o insucesso na execução do trabalho. O veda-rosca, o conector de louça para a ligação elétrica, o extensor para se adequar o aquecedor entre a cuba e a parede, a torneira de duas esferas, o engate de mangueira flexível, a luva ¾ e o retentor ½ polegada, o selador de silicone – nomes extensos para pequenos itens.

Além dos grandes movimentos que devemos fazer como componentes da Sociedade para alcançarmos melhores relações humanas, temos que no propor à prática dos pequenos gestos, da palavra de apoio, do diálogo entre os membros de uma comunidade de semelhantes. Na experiência que teve no condomínio, Geraldo encontrou os típicos “senhores” que se aprazem em serem assim chamados. São pessoas que precisam rebaixar aos outros para se levantarem ao rés do chão. O funcionário, antes de um colaborador, é tratado como uma espécie de inimigo, alguém que precisa ser colocado em seu devido lugar – uma pecinha. Fundamental, mas que precisa se sentir desimportante para que o Sistema continue a sobreviver com o apoio inconsciente de quem dele participa.

Imagem: Foto por pawan pandey em Pexels.com