O Dia Em Que Fui Dado Como Morto

No dia 1º de Fevereiro, completou quatro anos que o meu pai nos deixou fisicamente mesmo mês da partida da minha mãe, em 2010. Como tínhamos o primeiro nome bem parecido, com apenas um prosaico “b” mudo a nos diferenciar depois do “O” e entre o “d“, várias pessoas acharam que seria eu a ter partido desta para melhor. Fiquei um tanto chateado principalmente pelo meu texto ter sido mal interpretado. Como escritor, essa é uma das coisas que mais me aborrece. Se bem que seja comum eu querer mais confundir do que explicar em vários dos meus escritos, porém não seria ao tratar desse assunto que faria isso. Estando “morto”, recebi demonstrações de carinho e espanto com a indefectível pergunta: “morreu do que?”. Se fosse atualmente, a Covid-19 seria uma possibilidade, mas isso se deu em 2018. Gostaria que vocês mesmos avaliassem se dei essa chance de anunciar por palavras a minha morte, feito um bilhete de suicídio. Devido à repercussão, fui obrigado a divulgar uma “Nota de Esclarecimento”, que divulgo abaixo da primeira.

1º de Fevereiro de 2018 – sepultamento de Odulio Ortega

NOTA DE FALECIMENTO

Anuncio a parentes, amigos e aos que conheciam o meu pai, Odulio Ortega, que ele faleceu no início da madrugada de hoje, no Hospital São José, no Imirim, onde estava internado há alguns dias. Devido ao horário, dificuldades com a documentação (que ficou pronta apenas às 13h), indecisão quanto a determinação do local do enterro e pouco tempo para o velório (apenas três horas e meia), não tivemos oportunidade de avisá-los. Uso este meio para tal tarefa, junto a um pedido de desculpas por essa desfeita sem intenção. O féretro foi acompanhado por seus filhos Obdulio, Marisol e Humberto — netas, noras, amigos próximos e a companheira dos últimos trinta anos, Maria Nazaré. Pedimos orações e compreensão pela difícil situação. Agradecemos a solidariedade.”

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Não fui eu, Obdulio Nuñes Ortega, que desencarnou na madrugada de ontem. Mas sim meu pai, quase um homônimo — Odulio Ortega. Morrer é um fenômeno natural, assim foi a ocorrência da Super Lua, de quarta para quinta. Um dia, morrerei. A vida só é enigmaticamente tão bela porque temos a morte a nos cortejar para um romance eterno, vida após vida. Quanto ao meu pai, ele foi um homem que viveu plenamente e se foi calmamente aos quase 86 anos de idade. Um abraço forte em todos que se preocuparam com a minha condição de órfão tardio ou de defunto precoce.”

A Mariposa

Logo no primeiro dia em que estava na praia um simplório episódio me impulsionou a voar. Conversava com a minha sobrinha. O meu braço se estendia em direção às ondas do mar. A brisa chegava em invisíveis frequências sonoras quase surdas. Eu devia estar falando alguma insensatez. Eis que em voo tracejado pelo destino, estacionou em minha pele sob o sol, um tipo de mariposa soube em pesquisa por imagem feita pela Verônica.

Rapidamente, recolheu as asas abertas internas sob a externa, de proteção. Talvez ela tenha sentido que tenha chegado a um porto seguro, tão longe da vegetação. O leptóteno pousado em meu braço pareceu não querer se mover. Depois de um minuto, delicadamente eu coloquei o indicador sob as suas patinhas e a transportei para o cabo do guarda-sol.

Eu a deixei e fui às águas como o menino que me torno, enfrentar as vagas em mergulhos curtos como um golfinho-criança ou um jacaré-mirim. Quanto ao ser que vive de mariposar, ao voltar já havia me esquecido. Naquele momento. Depois, por algum motivo, ela começou a adejar pelo meu pensamento. Busquei simbolismos que pudessem me indicar alguma mensagem. Encontrei que, a depender das cores, elas simbolizavam possíveis acontecimentos, bons ou ruins. Assim como tanto pode ser o nome dado a uma joia ou pode ser outra designação dada a quem pratica a prostituição.

Achei pertinente a sua associação com a vida carnal — nascer, se desenvolver e morrer — e os ciclos na vida desse inseto, que nos remeteria não apenas a superação às limitações físicas, mas também às espirituais. “A morte, no contexto da mariposa, simboliza o fim de um ciclo ou de alguma limitação que já não precisa fazer parte da nossa vida”. O que sei é que me senti distinguido. Sou assim. Tento transcender em vida, tento elevar o meu sentimento para além do comezinho cotidiano. Isso não significa que haja assim o tempo todo. Sei distinguir as realidades. Sou funcional. E sou espiritual.

Eu me permito sair de mim de vez quando. Faço por onde me colocar no lugar do outro. Sofro muito. Mas não conseguiria agir de outra maneira. Sei que também devo proteger as minhas asas internas assim como a minha capacidade de voar sem me alienar. Essa é uma batalha que luto desde garoto. Depois de ultrapassar as fronteiras do imediato, não há como retornar, ainda que possa acontecer de surgir dúvidas e tentações de ser menos do que podemos ser.

O pequeno ser me enviou um recado. Viajei? Sim, para além de mim, em dia quente, Sol a pino, sabendo que as nuvens toldariam a luz, as chuvas se precipitariam, as ondas se enfureceriam, as tempestades ocorreriam. São os ciclos que devemos superar. É a vida que continua a voar…

Projeto 52 Missivas / Eu Me Lembrei De Você, Em Mim / Memória De Sonhos Não Realizados

Dias desses, eu me lembrei de você, em mim… Mentira, eu lembro de você, de mim, de nós, todos os dias. E sabe o que é mais estranho?… Tenho saudade de nossos sonhos não realizados. Viveríamos à beira do mar, teríamos uma vida simples, criaríamos os nossos filhos, fossem eles adotados ou não. Formaríamos um vínculo eterno no tempo terrestre e além. Quando estava com você, sentia vontade de cantar. Músicas de Alceu Valença nos representavam. Lembra quando a conheci, numa tarde junto ao mar? Você olhava para o horizonte e quando cruzei com você, vi o azul do céu e do mar em seus olhos. Sem querer, falei baixinho ou apenas pensei, não sei: “la belle de jour…”. Você parece ter ouvido, sorriu e respondeu: “adoro essa música!”… Fiquei enrubescido… Você sorriu mais ainda: “você ficou vermelho! Que gracinha!”… E começamos a conversar. Percebi que seus olhos eram, na verdade, castanhos esverdeados, às vezes mais claros, às vezes menos, e que tinha a capacidade de resplandecer o sol, fundir o azul do céu e do mar, o verde da vegetação, avermelhar-se com os últimos raios do entardecer, como descobri ao ficarmos sentados em uma pedra, conversando, até anoitecer… Quando voltamos a nos encontrar, lhe cantei “Anunciação” porque a letra fazia todo o sentido. Na mesa do restaurante, eu me voltei assim que entrou pela porta. Brinquei: “eu escutei os seus sinais…” / “Sou tão barulhenta assim?” / “Não! O meu coração bateu tão forte que cheguei a ouvi-lo…”. Seus olhos furta-cores se expandiram e você me beijou. Ficamos juntos por maravilhosos dois anos, fazendo planos para o futuro, cantando músicas do Alceu, assistindo aos seus shows, saindo pela noite cantando “mar e sol… gira, gira, gira, gira, girassol…”, flores que teríamos no jardim de nossa casa à beira-mar, com as nossas roupas quarando no varal. Até que… algo aconteceu. Você parece ter despertado do nosso sonho. E disse que ele havia acabado. Simples assim… Não quis explicar, talvez não quisesse me magoar por dizer que não gostava mais de mim. Ou que se apaixonara por outro. Eu devia ter escutado as mensagens enviadas por seus olhares, ainda que a boca não se pronunciasse. Eles começaram a ficar nublados como a estação chuvosa. Mas do que valeria? A dor seria a mesma. Sei que tudo passou. Prefiro que seja assim. Será um sonho eterno, realizado somente em minha mente. Guardarei o seu olhar-sorriso-ladrão-de-corações em minha lembrança. Aquele sorriso que foi só para mim, aquelas cores que foram só minhas… Adeus, meu sonho!

Imagem: Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Participam:
Mariana Gouveia
Lunna Guedes

Notas Sobre A Vida Em Janeiros Passados

SOBRE OS JESUÍTAS (2019)

Este painel se encontra à esquerda do saguão de entrada da Casa de Portugal. Mostra o jesuíta português Manoel da Nóbrega entre os gentios da terra, em postura de força impositiva, apesar de apresentar, humildemente, os pés descalços. Se visitarmos um estabelecimento oficial espanhol em São Paulo, lá encontraremos a figura do espanhol José de Anchieta, a catequizar os nativos dos Campos de Piratininga. Oficialmente, os dois jesuítas foram os responsáveis pela fundação desta cidade que hoje completa 465 anos de nascimento, na inauguração da choupana que servia de escola e moradia. Por uma confluência de fatores, São PauloSampa, para os íntimos — tornou-se o que é. Qualquer definição que se dê a ela, em pouco tempo deixa de ter sentido, pois a metamorfose permanente é seu único traço definitivo e definidor. Em São Paulo nasci, vivo e espero morrer, a saber que já fui muitos e serei outros tantos até o fim — quando dispersarei meus átomos por esta terra que me formou.

SOBRE IMAGEM (2019)

Subo ao coletivo, passo a catraca, me sento junto à janela, a qual deixo entreaberta para sentir o vento e me refrescar neste dia quente. Começo a suar mais do que devia e percebo que a janela do meu lado estava fechada. Imaginei que tivesse acontecido pelo movimento do ônibus. Voltei a abri-la. Mais alguns minutos, a vejo novamente fechada. Estranhei e olhei para o banco de trás, onde havia uma moça que sorriu amarelo e murmurou: “o vento estava bagunçando o meu cabelo…”. Realmente, ela estava com os fios retos postos lado a lado como se fossem desenhados. Sorri de volta, outro sorriso amarelo. Não tive coragem de dizer a ela que a sua maquiagem, devido ao calor, estava escorrendo um pouco…

IN PLANET OF THE APES (2020)

“A primeira foto data de 2014. Treinava regularmente. Faz três anos, justamente em janeiro, que não entro em uma academia. O ritmo de trabalho aumentou tanto que não tive mais tempo para sentir a dorzinha gostosa da atividade física regular. Quando estou em casa, me dedico a escrever ou a realizar tarefas caseiras. Quando subiu a primeira imagem, de seis anos antes, percebi que usava a mesma camiseta — uma das minhas favoritas. Registro feito, não imaginava que a camiseta fosse tão velha. Já o velho, tenta viver um dia de cada vez. In Planet Of The Apes…”. Dois meses à frente, o mundo pararia…

463 ANOS (2017)

Nesta imagem, homenageio a minha cidade. Eu a produzi às 6h da manhã do horário de verão, ao passar pela Ponte da Freguesia do Ó. Quis captar a Lua, em sua fase crescente. Quase não conseguimos percebê-la. As luzes das Marginais roubam a cena, separadas pela escuridão do leito do Rio Tietê. De forma indireta, é uma maneira de reunir símbolos importantes desta metrópole — um rio morto pela poluição, vias de locomoção que estão normalmente congestionadas, luzes que nos confundem em vez de revelar, a beleza dos astros, esmaecida pela fumaça. Contudo, não viveria em outro lugar.

CLIMÁTICA (2017)

E o dia entardece como ontem. Depois de um dia nublado e/ou chuvoso, a luz deu o ar de sua graça sobre a terra paulistana dos quatro elementos e diferentes climas cotidianos.

FILME NOIR (2015)

Ao lado do Hotel Manchete, a Lanchonete E Bilhar Ideal. Com esse aspecto de filme noir dos anos 40 ou 50, já imagino que o cidadão sentado à frente da entrada seja um exímio jogador à espera do próximo “pato” a ser depenado em uma aposta — “bola sete na caçapa do meio!”.

SOBRE O LIXO (2016)

Sem cabeça para ficar… Sem pés para onde ir…

NOTAS SOBRE JANEIRO DE 2022

É bem significativo e nada contraditório (no Brasil) que o Carnaval seja transferido para o dia em que se comemora o enforcamento e esquartejamento de um homem que lutou pela liberdade. Assim como seja tradicional que Judas seja malhado no Sábado da Aleluia por ter cumprido o percurso da Paixão daquele que pregou o perdão.

Prestes a ser comemorado o aniversário da cidade de São Paulo, podemos ver a reprodução atualizada dos grupos de homens e mulheres da terra, nômades se reunindo em coberturas em torno do Pátio do Colégio. A diferença é que há 468 antes, elas eram eficientes por ser o estilo de vida que as comunidades dos originais da terra conheciam. Atualmente, as tendas são moradias improvisadas, a única maneira que os desvalidos da terra encontraram para se abrigarem das intempéries.

Como a conta sempre chega, os não vacinados ou com vacinação incompleta contra a Covid-19 ocupam mais de 80% dos leitos de UTI e Enfermagem, retirando espaço de outros tratamentos. O Negacionismo ocorre em todas as frentes — social, econômica e psicologicamente — o que não impede que a realidade sempre se imponha, não sem muitas dores.

Poder Particular

talvez digam que eu não saiba amar…
talvez me considerem um imaturo
ser 
que desperdiça o olhar
em coisas desimportantes
talvez…
o que eu sei
é que tenho o meu poder
particular 
o de enxergar o planeta
Terra
numa banqueta
de bar…