Coleção “As Idades” / Aos 52 / Recomeços*

Da esquerda para a direita: Sr. Ortega, Dona Madalena, eu, Tânia, Sr. Manoel e Dona Floripes, em 1989.

Segunda-feira, a Tânia e eu fomos retirar no Cartório de Santana, uma cópia renovada de nossa certidão de casamento, a propósito de dar encaminhamento a um trâmite burocrático. Em maio, completaremos 33 anos de celebração da união oficial, mas como coloquei no texto de 2014*, que reproduzo abaixo, essas efemérides documentam linhas retas de uma história plana, sem os intermédios da vida dores, sobressaltos, alegrias, tristezas, festas, doenças, altos e baixos, passamentos e nascimentos fins e recomeços.

“Estará para completar, em 2014, 25 anos. Foi em 13 de maio de 1989 que celebramos a nossa união oficial, Tânia e eu. Já tínhamos um laço indissolúvel a nos unir, pois a Romy já estava sendo gestada há cinco meses em seu ventre. Para mim, assim era. Não fazia questão de cumprir as convenções formais de declarar um fato que já estava sacramentado. Mas as respectivas famílias faziam questão e como não ligava para formalidades, igualmente não objetava em cumpri-las. Dessa forma, satisfazia às pessoas ao meu redor. Foi a decisão mais acertada que tomei em minha vida. Nunca usei anéis, mas me emocionei em colocar um em minha companheira dali por diante e de ter recebido outro em meus dedos.

É bem verdade que não o usei por muito tempo, já que devido ao trabalho, acabei por torná-lo em um objeto octogonal. Tive que guardá-lo, mas uma aliança material não suplanta uma mental e espiritual. Tudo o que passamos desde então, entre altos e baixos, nos provou que estamos vivos e funcionais, qual um gráfico de eletrocardiograma nos indica. Nunca registramos um traço e, por isso, aprendemos encontrar momentos de plenitude e estabilidade em meio às variações de todas as ordens físicas, mentais, espirituais e econômica-materiais.

Conforme propago sempre que posso e que alguém já deve ter exemplificado em algum ensaio por aí, no tempo e no espaço, prometer qualquer coisa diante do altar é sempre temerário. Quem promete naquele instante não é mesma pessoa tantos anos depois para afirmar que um relacionamento seja eterno. Apesar de o ser, para mim, ainda que o compromisso seja desfeito um dia. Afinal, o que vivemos nos influenciará pelo resto de nossas vidas. As pessoas se modificam no decorrer da existência. Um casal modifica um ao outro e a identidade do casal como tal também sofre mutações diante dos acontecimentos cotidianos. A boa surpresa é que, mesmo com todas as modificações e desequilíbrios pelos quais passamos, é possível nos apaixonarmos por aquela nova pessoa, como se uma nova pessoa fora, se bem que, naquela altura da vida, os corpos apenas se parecem com os antigos corpos que carregam o mesmo RG.

Além disso, chegam os filhos. Ora, os filhos! Com a chegada deles, aprendemos a dedicar o nosso tempo para outras pessoas que não nós mesmos. Eles são fontes de alegrias e preocupações e, quando crescem, saudavelmente fazem questão de contestar a nossa autoridade e refutar os nossos ensinamentos, Ainda que advertidos, cometem os mesmos erros que nós quando tínhamos as suas idades.

Para encerrar, me sinto compelido a dizer que o meu relacionamento com a Tânia já passa dos 25 anos oficiais que o ano de 2014 contemplará. Ele começou quando a vi pela primeira vez, magérrima e petulante, dois anos antes. Nós nos estranhamos desde o início. Recomeçou quando encetamos a conversar como gente civilizada, alguns meses depois. Recomeçou quando nos beijamos pela primeira vez, meses à frente. Recomeçou quando recebi a notícia da vinda da Romy. Recomeçou, mais uma vez, quando nos casamos. Recomeçou todas as vezes que veio à luz cada uma das nossas outras crias a Ingrid e a Lívia. E a partir do momento que decidi viver um dia de cada vez, recomeça todos os dias”.

Monkey’s Motel

Garoto, há um pouco mais de 50 anos, íamos pela principal avenida da Vila Nova CachoeirinhaDeputado Emílio Carlos em direção à Barra Funda, onde eu estudava na Canuto do Val e meus irmãos, ainda antes dos 6 anos, ficavam no Parque Infantil Mário de Andrade. Depois, eu também era levado para o Mário de Andrade e lá passava o resto do dia, até nossa mãe vir nos buscar depois do trabalho. Projeto educacional dos Anos 30 implementado pelo mesmo Mario de Andrade que o nomeia, o então Secretário da Educação acreditava num ensino abrangente em tempo e profundidade — alfabetização, teatro, música, artes plásticas, esportes e jogos-brincadeiras.

Na ida e na volta, passávamos pelo Monkey’s Motel e curioso como sou até hoje, minha mãe não sabia o que responder quando lhe perguntava o que representava os três macaquinhos e o que era aquele lugar com uma entrada tão atraente, uma espécie de boca de caverna pela qual se adentrava em um mundo novo e divertido. Então, a nossa região era isolada e o asfalto era raro, exceção feita a da “Deputado” desde o Largo do Japonês. Quase à mesma época, começou a construção do Hospital Maternidade Escola de Vila Nova Cachoeirinha, com uma concepção futurista para a época. A distância dos dois estabelecimentos não era grande, cerca de trezentos metros. A região parecia progredir. O antigo estábulo no Largo deu lugar a uma construção que abrigou mais tarde um banco e o asfalto começava a chegar a algumas ruas abaixo, incluindo a minha. Nessa época, vivia dias de emoção descendo com carrinhos de rolimã por ela desde a atual Avenida Ministro Lins de Barros. Apesar do perigo das quedas, que não eram poucas, havia mais segurança, já que circulavam poucos carros e as carroças em maior número eram lentas. Como dado adicional para comprovar que a vida era outra, as entregas de leite, frutas, legumes e verduras eram feitas antes da abertura dos estabelecimentos comerciais, mas ninguém tocava nos produtos.

Por meu turno, continuava com a minha ingenuidade à flor da pele. Porém, cheguei à adolescência sabendo do que se tratava um motel (da maneira que é utilizada essa denominação no Brasil) um lugar de encontros sexuais. Ficava imaginando a razão das pessoas irem a esse estabelecimento a não ser pelo fato de encontrar condições mais favoráveis do que teriam em casa. Até que a “revelação” de que ali não somente pessoas com “laços oficiais” praticavam o sexo. Normalmente, com a aparência de algo proibido, de fato, a grandíssima maioria que frequentava o Monkey’s não eram casados, a não ser com outras pessoas. Se consideram que a minha inocência fosse incomensurável, concordo. Tinha uma visão romântica da vida e o meu senso do certo e do errado era totalmente irreal. Mais tarde, entendi o que os três macaquinhos queriam demonstrar: que ali, quem entrasse, teria a sua intimidade preservada — nada seria visto, ouvido ou dito — sobre os encontros que testemunhassem.

No entanto, na tradição da sabedoria budista, os três macaquinhos representam características comportamentais exemplares que nos levariam à elevação de caráter. Iwazaru, o que tapa a boca, significaria “não falar o mal”. O que cobre os olhos, Mizaru, expressaria: “não ver o mal”. E Kikazaru, o que tapa os ouvidos, revelaria que deveríamos “não ouvir o mal”. Que nossa boca jamais fale o que possa prejudicar os outros. Que meus olhos nunca vejam nada além das boas intenções. Que jamais possamos dar ouvidos ao que atente contra a nobreza espiritual. De uma forma um tanto enviesada, mas totalmente afeita às características sociais de nossa civilização, os macaquinhos se prestam às nossas contradições, carregadas de regras religiosas e normas de conduta morais que engessam a manifestação da liberdade da pulsão mais poderosa que carregamos — a sexual ou libido — enquanto quase que diariamente é estimulada a pulsão agressiva em nossas atividades formais para “vencermos na vida”. O outro, em vez de ser a possibilidade de um encontro amoroso, é considerado um inimigo em potencial.

Essa característica de algo que passeia por nossas questões psicológicas, desejos e fantasias, se estendem a nomes de vários motéis: Álibi, Obsessão, Delírio’s, Êxtase, Frenesi, Romance, Éden, Feitiço, Fuego, Secreto Amor, Sigilus, Paixão, Sonhos, C Q Sabe, Devaneio, Libidus, Paraíso, Sedução, Nirvana, Planeta Sex, Swing, Posições, Yes Bumbum. De fato, quem vai a um motel dificilmente será para fazer outra coisa que não seja a prática de sexo. As modalidades variam, o número de participantes, assim como os gêneros envolvidos. O motel é um local de celebração da vida. Para corroborar o quanto se identificava com a cidade, nos últimos anos, um mural homenageava monumentos paulistanos. No Monkey’s, eu nunca fui e nunca irei. O imóvel está sendo demolido. Em seu lugar, surgirá um condomínio residencial. Com o tempo, o local que ficava num ponto afastado da cidade, tornou-se cercado de farmácias, supermercados, um outro condomínio, residências de bairro. Foi perdida a sua natureza reclusa. Ficará em minha memória o encantamento infantil com os macaquinhos, a estranheza adolescente da descoberta de seu caráter proibido e sua posição social de atividade adulta.  

No mural, se lê: “Motel Monkey’s dedica esta obra à cidade de São Paulo

Os Solitários

Fred & eu, em 2019…

Há exatos dois anos antes, escrevi:

“Hoje, volto para São Paulo e me despeço deste meninão, Fred. Jovem, três ou quatro anos, já passou poucas e boas – atropelamento, tentativa de homicídio – mas segue em frente, com sua voracidade de viver. Saía à noite com ele para andar junto ao mar e para explorar as redondezas. Farejava cada recanto e marcava a sua passagem com seu cheiro (não sei de onde retira tanta urina). Não gosta de outros cães e muito menos de carros e motoqueiros, demonstrando seu ressentimento contra essas máquinas – lembranças de seu sofrimento. Porém, gosta de gente que encontra à pé, portanto, desarmada. Foge de casa sempre que pode, mas volta tempos depois de dar as suas voltas, às vezes machucado por brigas com outros cães. É um ser contraditório como todos nós, humanos. Como dois solitários que estávamos ou somos, passamos a nos compreender. Até a volta, meu amigo!”.

Atualmente, Fred é meu vizinho em São Paulo. Mora na casa ao lado, com a minha irmã, Marisol. Tanto ele, quanto Marley, que se juntou a ele no ano seguinte, foram trazidos-resgatados da casa que estavam – nossa própria casa – ocupada por invasores. A propriedade da Praia Grande contém duas casas. Nós ficávamos na casa de trás. A da frente estava sendo ocupada por um pessoal que não admitia sair depois que solicitamos a sua devolução. Deixaram um sujeito dormindo no local para demonstrar que alguém do grupo residia ali. Como o caso foi parar na Justiça, não a deixariam até que fosse assim decretado.

Eu voltava sempre que podia, uma tradição pessoal que se repetia nos três primeiros meses do ano, desde a minha adolescência. Minha mãe, a deixou equipada da maneira que sempre quis para receber a família no verão. Ver aquele espaço profanado com desdém pelos invasores era não apenas difícil, mas bastante ofensivo. Porém, com a Pandemia e as resolução que impedia o despejo de imóveis nesse período, tínhamos que esperar que tudo passasse.

Em meados de Março de 2020, quando cumpria mais uma suposta pequena temporada na Praia Grande, desta vez durante a vacância causada pelo que supúnhamos ser um momentâneo intervalo no cronograma de nos nossos eventos pela Ortega Luz & Som, foi decretado o controle de idas e vindas de pessoas e veículos entre as cidades. Acabei ficando mais tempo do esperava, o que acabou sendo bom para o Fred e o Marley. Voltei em outras oportunidades nas quais aproveitei para andar bastante de bicicleta, fazer caminhadas, escrever e cuidar dos dois. Nesses períodos, eu alimentava os “meninos” e eles dormiam comigo dentro de casa. Eram momentos de escape da rotina interminável de serviços caseiros entre acordar e dormir. Mas o entrechoque com os invasores foi aumentando e ir para a PG foi se tornando mais motivo de estresse do que relaxamento.

Para tentar controlar a situação para quando meus irmãos e eu não estávamos, foram instaladas câmeras que registravam a frequente ausência do sujeito. Apenas graças à benevolência de vizinhos, que colocavam comida através de aberturas no portão, os “meninos” foram alimentados. Instalamos bebedouro e comedouro para que não ficassem sem água e alimento. Mas uma gravação mostrava o sujeito retirar comida do comedouro para levar para o cachorro da casa onde estavam as outras pessoas do grupo. Para piorar, outra gravação mostrava o sujeito os espancando com fio elétrico. Antes mesmo que nos fosse devolvida a casa, em certa oportunidade, aproveitando a ausência do sujeito, retiramos o Fred e o Marley do local. Nossa suposição é que eles eram usados como uma espécie de prova de ocupação.

Apenas ao final do primeiro trimestre de 2021, a situação foi resolvida. A justiça nos restituiu o imóvel. Voltamos a nos assenhorar de uma casa depredada, com muitas reformas a serem realizadas. Mas o melhor foi ver renovado o sentimento de “volta para casa” da mãe.

Marley e Fred, em meados de 2020.

Curumim*

Passo pela placa fixada em uma estaca de madeira, que adverte – Perigo. É uma seta que aponta para o mar. Caminho resoluto em direção às ondas como quem conhece e respeita a força da Natureza. Por entre a horda de banhistas, avanço aos saltos por cima das vagas que se sucedem crepitosas até um ponto onde fico apenas com o meu pescoço e cabeça acima da linha d’água.

O movimento sob e sobre a superfície do mar ondulado me massageia o corpo. A água quente me faz confortável como se fosse um bebê no útero materno. Após alguns minutos, começo, aos poucos, a sentir uma vibração estranha que me percorre a epiderme e adentra por minha musculatura como um frêmito de energia pulsante. Pensei quase desmaiar e ao olhar para os lados e para trás não vejo mais ninguém.

Não sinto mais os meus pés apoiados no suave piso marinho. Mais propriamente, percebo que o meu corpo mudou e me vejo como um curumim. Eu me tornara um pequeno tupinambá. De imediato, ponho o meu corpinho a deslizar na próxima onda e chego a uma área mais rasa onde se encontram os demais curumins da nação. Eles sorriem quando me veem chegar e Taîaoba, meu melhor amigo, me diz que sou muito ousado. Ninguém daquele grupo se atreveria a ir tão longe. O meu nome é Îagûanharõ (Onça Brava), mas entre nós, me chamam de Iperú (Tubarão). Enquanto nos divertíamos à beira d’água, a bater de encontro às arrebentações, como a enfrentar îakarés, agûarás e îagûáras ou inimigos das outras aldeias em lutas de peito aberto, percebemos que se avolumavam dois ou três pequenos pontos no horizonte. Recuamos todos até a areia e percebemos com espanto se tratar de grandes caíques com uma espécie de imensos caás a brotar de seu interior, em pleno mar.

Corremos todos com nossas pequenas pernas para avisar aos outros tupinambás, mas eles já haviam percebido aquelas presenças estranhas a se avizinharem pelas águas. Os guerreiros não demonstraram nenhum temor ou fizeram alvoroço. Somente Acaninã e Jateim, as cunhãs mais escandalosas da taba, começaram a chorar como se fosse o fim do mundo. O Uvixa (Cacique) Îagûareté (Onça Verdadeira), aliás, meu pai, se reuniu com velho Tesaberába (Olho Brilhante) na oca central, ficaram umas duzentas batidas de pilão para fazer quirela e saíram para instruir o grupo que iria à praia para esperar quem ou o que trazia os grandes caíques à nossa aldeia.

Aquele a quem chamávamos de O Mais Velho Que O Tempo, Tesaberába, se aproximou e disse que o aty deveria se aproximar com coragem dos visitantes. Que a nossa nação havia sido escolhida por Nhanderu para aquele momento. Que previamente já havia sonhado com aquele acontecimento e era inevitável que aquele encontro acontecesse. Aconselhou que, para demonstrar que não queriam guerra, o aty deveria ter cunhãs a formá-lo. Ele escolheu as cunhãporãs, como Moeem, Jacyara, Bartyra, Mbotyra e Poranga para estar junto aos guerreiros, o meu pai à frente e Avaré, o melhor caçador entre nós, a secundá-lo. Nesse momento, Acaninã, que até aquele instante chorava como se uma mboi tivesse lhe mordido, parou e perguntou porque ela também não poderia ir. Todos riram e isso ajudou a deixar o ar mais leve.

Os guerreiros e as cunhãs da nação tupinambá foram juntos até a faixa de areia para ficarem à espera do momento do encontro com os forasteiros. Nós, os menores, tivemos que ficar na taba. Eu, curioso que só, consegui fugir à vigilância da velha Jaçanã e me esgueirei pela mata até uma ypê onde pudesse presenciar, sem ser visto, a chegada dos estranhos. Percebi que, dos grandes caiques, os avas (pelo que pareciam) entraram em caíques menores. Aqueles eram seres estranhíssimos, cobertos por ajukus que lhes tapavam o corpo todo. Usavam akãs que alguns retiraram da cabeça quando aportaram. Parecia que estavam a quase desfalecer por algum motivo. Alguns tinham a cabeça raspada e quase caí do galho quando vi que tinham longos cabelos no rosto, como os cahys que roubavam a nossa comida, aqueles espertinhos. Só que esses eram enormes. Vários empunhavam pedaços de ybiracy com um desenho muito bonito que deve ter tido muito trabalho para fazer. Não se desgrudavam deles.

O encontro demorou bastante. Já dava para ver Guaracy quase ir descansar de um lado e Jacy a surgir, do outro. Os tupinambás parecem ter conseguido se entender com os maíras. Eles olhavam muito curiosos para as cunhãs, como se nunca tivessem visto seres tão formosos. Vi quando dois dos nossos mais valorosos guerreiros, Abaré e Ka’ioby, embarcaram sem receio com os ava-cahy em direção ao caíques maiores. O resto do aty voltou para a taba, a confabular sobre aquele extraordinário evento.

Eu desci rapidamente da árvore e fui em direção aos caíques. Já quase anoitecia e cheguei o mais perto que pude daquela incrível construção feito uma gigantesca ayacá. Fiquei quase submerso e voltei a sentir o meu corpo vibrar como se estivesse a receber um endijá de Tupã. De repente, comecei a ouvir uma algazarra perto de mim e pessoas de todas as cores, menos a minha, estavam a me rodear. Fiquei atarantado a ponto de engolir água salgada pela força de uma onda mais violenta. Havia despertado da imersão. Percebi que a minha viagem terminara. De alguma maneira, fora transportado para bem longe dali, para muito tempo antes. Uma experiência que me deixou bastante desconcertado. Se fora pela energia do elemento que me acolhia, se fora pelo poder do sangue que corre em minhas veias, se fora pela herança atávica que carrego, por algum tempo, fui um curumim.

Ao sair do mar, me sentia pesado, como a carregar toda a História nas costas. Apesar de estar com os olhos marejados, ainda pude ver, fincada na areia, a seta a apontar para o Oceano Atlântico: “Perigo”…

*Texto de 2017

O Descanso*

A Penélope descansou. Seu enorme coração parou de bater nesta madrugada. Fiquei ao seu lado até o ultimo suspiro. Sua respiração foi ficando cada vez mais ofegante, até diminuir e cessar. Seus olhos, os mesmos que estavam embaçados pela idade, porém que ainda assim buscavam divisar qualquer sinal de petiscos em nossas mãos, se fecharam para sempre. Durante o tempo todo, segurei a sua cabeça e a acarinhei. Enquanto isso, lembrava que chamegos na cabeça e nas costas eram as únicas coisas que gostava mais do que comida. Esses afagos era como se lhe alimentassem a alma. Ela gostosamente se espichava toda e dava o “sorriso” que lhe caracterizava.

A sorridente “Penelopão” chegou ainda nova em nossa casa, mas já grande o suficiente para ocupar um espaço importante na vida da Família Ortega. Ela acompanhou o desenvolvimento das três adolescentes – RomyIngrid e Lívia – até as moças ficarem cada vez mais ausentes, ocupadas com os seus afazeres adultos. Os dois últimos anos foram os mais difíceis e houve episódios em que pensávamos que ela nos deixaria a qualquer instante. Diagnosticado o câncer, tomamos medidas para que fosse mantida em casa, com assistência e cuidados constantes para minimizar o desconforto e as dores, com a orientação da Tânia.

Nesse período, as patas não conseguiam mais sustentar seu pesado corpo com eficiência, mas ainda encontrava forças em algum lugar para se erguer e ir de encontro às pessoas que chegavam, as quais recebia – qualquer uma – com a cauda a dar lhes darem boas-vindas. Ultimamente, reclamava quando ficava sozinha na sala, cozinha ou quintal. “Para, Penélope! Estamos aqui!” – Depois de reclamarmos da “véia”, lá íamos ajudar a insistente a se levantar e caminhar até onde estávamos. Tomávamos precaução para não apertar seu corpo em algumas partes mais doloridas.

Esse ser, todo amor, deixará como legado a paciência com a qual recebia aos novos moradores caninos, que logo se afeiçoavam àquela labradora que protegia as novatas das outras companheiras de quintal. Mãezona, era também menina, sempre disposta a brincar e a passear. Adorava banana, maçã, abacaxi, cenoura… bem gostava de quase tudo. Não dispensava um pedaço de pão, que só introduzimos na dieta para dar o remédio que precisava. Na verdade, ela tinha fome de viver.

Sentiremos falta de seus chamados-latidos. O silêncio de sua ausência será, por um bom tempo, ensurdecedor. Sua marca, em nossas vidas, eterna… 

*Texto de três anos antes. A constatação é que talvez não haja dia que não a citemos ou que não lembremos de sua presença.