Projeto Fotográfico 6 On 6 / Portas Dão Samba

Eu me lembro de um samba de Luiz Ayrão pelo qual me apaixonei assim que eu o ouvi. Ainda que fosse uma canção dedicada a Escola de Samba da Portela e eu fosse um fã da Império Serrano; ainda que eu fosse um garoto de 12 anos, inexperiente e tímido, me identifiquei com a imagem do coração escancarado: “Pela porta aberta / De um coração descuidado / Entrou um amor em hora incerta / Que nunca deveria ter entrado / Chegou, tomou conta da casa / Fez o que bem quis e saiu / Bateu a porta do meu coração / Que nunca mais se abriu”. Portas são para isso — servem para entradas, saídas, poemas, romances e canções.

Igreja de São Benedito – São Bento de Sapucaí / MG

Em uma brincadeira antiga se perguntava: “Por que um cachorro entra na igreja? Ora, porque a porta estava aberta”. Não mais, em muitos lugares. A igreja era terreno sagrado tanto para os malfeitores quanto para os vampiros. Diante do aumento da violência, mesmo em cidades pequenas, há horários específicos para que seus portais sejam abertos e fechados. Atualmente, as orações tem tempo marcado. No começo de outubro, fui cumprir um contrato pago antes do advento da Pandemia de Covid-19. Foi o primeiro evento depois de meses inativo. Realizou-se em lugar aberto, com poucos convidados, no Sul de Minas, onde registrei a imagem acima. Cumprimos todos os protocolos de segurança e estou aqui para contar a história.

Pórtico de um hotel no Centro de São Paulo

Há pórticos, portas ou portais que não precisam serem abertos para nos mostrar o exterior. Envidraçados ou vazados, a visão externa se nos apresenta em recortes como telas de cinema, a vigiar os passos de quem passa pela ruas. Carros passeiam pelo leito carroçável e desconhecidos se tornam personagens de comédias ou dramas mudos. A luz projeta sombras e para quem viaja nas linhas de versos ou prosas, criam caminhos de infindáveis labirintos nos quais acabo por me encontrar…

Prédio do início do Século XX reformado – Rua Santa Ephigênia / São Paulo

Portas que fazem igualmente a função de janelas, já que a saída não lhe dá uma saída viável, a não ser você seja um pássaro ou um suicida. A possibilidade de sair sem ir a lugar algum não é uma deferência de portas em varandas elevadas. Muitas vezes, ao sairmos, não temos para onde ir, mesmo que tenhamos liberdade para isso. Portas, diríamos, exigem que as usemos. Que saiamos por elas. Mas nem sempre que retornemos…

Residência de Elton John & Irmãs Kardeshian

Trabalhei nos últimos meses no Yellow Brick Road Garden. Ao fim do caminho dos tijolos amarelos, montamos a residência do galo e galinhas garnisés Elton John, Kim, Kendall e Kyllie. Eu abro a portinhola pela manhã e fecho depois que se recolhem — questão de proteção. Durante o dia, fazem recreação em seu jardim particular, vedado à entrada dos bichos peludos de quatro patas, que observam os bichos penados de duas com o olhar atencioso de quem gostaria de ficarem bem mais próximos do que ficam.

A porta da minha sala…

Para viajar, costumo fechar as portas da minha sala ao mundo exterior. Abri-la não me atrapalharia, supunha. Até que percebi que a minha atenção era presa fácil de borboletas, pássaros ou aviões, folhas farfalhantes ou cachorros com olhares amorosos. Ou qualquer outra coisa. Tenho tentado exercitar a minha atenção o máximo que posso. Não apenas para escrever. Quero sinceramente me esforçar para estar no presente da conversação, da ação, do acontecimento. Valorizar quem está comigo — o tempo em comum. Creio que essa seja a porta de entrada para viver. Ou a saída para não morrer em vida.

Um dos túmulos do Cemitério da Consolação

Certo dia fiz uma incursão ao Cemitério da Consolação. Uma enorme concentração de portas especiais — portas para a Eternidade. E a paz. Foi o que encontrei por lá… Não cruzei com quase nenhuma pessoa. As alamedas entrelaçavam-se em um emaranhado de caminhos para o passado — presente em cada conjunto das obras tumulares. A antiga família mais poderosa de São Paulo tem o maior jazigo da necrópole, feio feito um pesado prédio soviético. Acho estranho que quisessem causar admiração dos vivos, ainda que mortos. Vaidade além do túmulo. No entanto, as que mais gostei foram aquelas que jaziam em ruínas. Como a da imagem acima.

Participam desse projeto:
Lunna GuedesMariana Gouveia e Darlene Regina

Bambino & Eu

Bambino & Eu

EU

Eu não tenho escrito tanto quanto gostaria, ainda que os temas passem diante dos meus olhos em todos os sentidos, como citadinos caminhantes nos amplos calçadões do Centrão. Eu já testemunhei cachorros mais conscientes de seu destino do que algumas pessoas. Entre elas, estaria eu. Aos outros, os observo, os absorvo, mas não os testifico em tela ou papel. Tenho me dedicado mais a realizar projetos caseiros, a montar e desmontar coisas, fazer exercícios de permanência material, erguer um jardim, pintar ou destruir uma parede. Leio esparsamente. Quando paro diante do computador, comento aqui e ali nas redes sociais. No ano passado, tomei estranhas decisões, como enviar saudações de aniversários a todos que nasceram em outubro — mês do meu aniversário — depois de ficar um tempão sem prestar atenção a isso. Foram desafios inúteis, mas inescapáveis, sob o risco da sensação que sofreria uma pesada represália (seria do deus Zuckerberg?): delírio pandêmico?… De toda a forma, estou preso a meus pés e minhas mãos não me libertam…

BAMBINO

A minha mãe foi para um lugar distante chamado Bahia. Ela me deixou com o meu avô. Eu gosto dele, mas além de mim, ele tem que cuidar das outras filhas e netas. Na casa de minha mãe, eu era tratado como um rei. Na verdade, lá, sou chamado de “Princeso”. Será que isso se deve ao fato de eu ter sido castrado? Ou por que sou delicado e assustado? Quando vim para cá, vomitei quatro vezes no carro. O meu avô ficou comigo o tempo todo com um saco para que não sujasse o banco. Ao chegar, ainda vomitei mais uma vez. Mas agora estou bem, mas parece que quem não está é ele. Eu o vejo triste, caminhando de um lugar ao outro, sem se demorar em cada canto. Muitas vezes, quando para, sem muito entusiasmo, fica diante de um objeto estranho, dando dedilhadas espaçadas. Antes, ficava um tempão batucando naquilo. Quando terminava, apresentava um sorriso no rosto…

Quanto ao medo de andar de carro, minhas tias e ele, os ouvi tentando interpretar a razão desse meu sintoma. Especularam que seria pelo fato de ter sido abandonado pelo antigo cuidador, que me deixou na estrada, após eu ter dado um passeio que achava que fosse para o parque. Eu não sei… esqueci. Assim como é uma lembrança vaga o canil em que estava ter sido atacado por uma onça… Malditos gatos!

O amor é um curativo muito bom para essas coisas…  

Café Da Manhã No Alvorada

Palácio da Alvorada

Alvorada, num dia desses do ano passado…

JB teve que acordar cedo para realizar a reunião com aqueles caras que tanto desprezava, apesar (ou por isso mesmo) de ter convivido com eles por quase trinta anos no Congresso. Alçado “quase sem querer, querendo” a chefe de uma estrutura bem maior do que a quadrilha que comandava antes, tinha que negociar em situações que, se pudesse escolher, resolveria com a execução de alguns, pura, mas não tão simplesmente. Para dar exemplo e por prazer, adoraria torturá-los antes. Para aplacar um pouco o seu desconforto, imaginava que estava indo a uma de suas pescarias, como as que fazia antes, em que praticava seus pecadilhos na moita, sem a presença dos holofotes para iluminar seus passos tortos. No máximo, era multado pelos fiscais do IBAMA por pesca ou caça ilegal. Está vingando-se exemplarmente, com a ajuda RS, no esvaziamento do órgão que, mais um pouco, conseguirá extinguir.

Diferentemente, aquela seria uma pesca legal, ainda que aparentasse ser ilegítima. De qualquer maneira, como marca registrada dos últimos governos de coalisão, a negociação giraria em torno de cargos e verbas em troca do benefício da adesão. Um dia antes, a pretexto de resolver detalhes sobre a nomeação do candidato a uma cadeira no STF, JB encontrou-se em um almoço que se tornou um jantar, com DT, ex-presidente do Supremo e amigo do poder — com Lula e agora com ele. Esse encontro causou a fúria de muitos correligionários do mito que antes havia chamado a turma de becas negras de corja de impatriotas. Ele sabia que para muitos que o seguiam até aquele momento, todas as estratégias eram viáveis e que o gado aceitaria o que se jogasse por suas goelas abaixo ração ou capim.

Agora, com RM era outra história. O gordinho com trejeitos delicados era uma raposinha. JB sabia que ele controlava as pautas que deveriam ser discutidas e votadas pelo Congresso, incluindo os pedidos dos processos de Impeachment. Com RM, ele teria que ser cauteloso. Não era um EC ainda, mas era perigoso. Quando jogasse a linha, daquelas resistentes, de pescar marlim em alto-mar, o anzol com uma isca bem gorda, sabia que deveria puxar no momento certo. Desconfiava que o peixe, esperto como uma traíra, esperaria ultrapassar o último dia de 2020 para colocar em movimento o plano de derrubá-lo. A partir de 1º de janeiro, caso sofresse o Impeachment, sabia que HM não duraria muito devido às investigações do TSE e caberia ao Congresso escolher o seu sucessor. O Centrão, amorfo e inconfiável, se tivesse uma oferta mais robusta, o abandonaria à sua própria sorte, em nome da moralidade pública, probidade administrativa ou qualquer outro pretexto. Ele mesmo já transitou pelo baixíssimo clero, à espera de sobras, modificando votos não importando o partido no poder, feito uma rêmora. Sofreria uma tempestade de acusações. Sua carreira política se pareceria ao deserto amazônico ou ao Pantanal — nova área de caatinga. O pior cenário seria ver a si e seus filhos encaminhados a Bangu 8.

Esse café da manhã seria decisivo. Se percebesse que não houvesse saída institucional, conclamaria às armas as milícias e as tropas do Exército, fidelizadas com cargos nos ministérios. Seus pensamentos foram interrompidos pelo assessor:

Senhor, os peixes chegaram. Já estão no lago…

Atualmente, se sentindo um tubarão, no “lago” JB encontrou Gordinho já em (conversas) preliminares com o General R, chefe da Casa Civil. De si para si, dava risada todas as vezes que lembrava ter colocado um general nessa função. No “lago”, RM e o Senador MB, que o acompanhava, pareciam dois peixinhos à espera de comida. JB estava prestes a dá-la. Depois de tentar seguir a trilha indicada por OC, viu que daquela maneira não conseguiria proteger seus filhos-comparsas e aliados milicianos. Agora, fingiria se aliar aos “democratas” do Centrão e se afastar momentaneamente dos extremistas à direita da direita da direita.

A chegada de JB interrompeu a conversa de RM com o GR. RM estava ali para, oficialmente, coordenar a discussão do orçamento para 2021. Mas o real motivo era o de aparar arestas. Já havia se reunido com PG e agora pretendia levar JB no bico o induzindo a acreditar que morderia a isca lançada por aquele péssimo pescador. Sua intenção era manipulá-lo até ter condições de retirá-lo do poder. Em último caso, o deixaria o tempo suficiente que se desgastasse tanto que não conseguiria se eleger nem como deputado. JB era tão obtuso quanto ambicioso, o que o tornava o pato ideal. Precisava tomar cuidado com as investigações do AM a respeito de notícias fraudulentas, denunciações caluniosas, ameaças ao STF e a seus membros, que poderiam chegar ao JB, precipitando a sua saída antes do final do ano. A sua preocupação maior, no entanto, era com relação à investigação da rede de fakenews criada para eleger a chapa JB/HM. Todos sabiam que isso tinha sido fundamental para a eleição do Bolsa. Ele não desconhecia que o achavam, de certo modo, inexperiente e sem os atributos ardilosos de EC, mestre dos mestres. Porém, com esse seu jeito de menino desajeitado, conseguiu chegar à presidência da Câmara. O céu era o limite.

Gordinho! E com o PG, fez as pazes? — RM engoliu em seco. Tomou um suco de laranja. Ele desprezava aquele desgraçado petulante e enganador. Um jogador do mercado financeiro que agora, como ministro, estava especulando diretamente no centro do poder. Mas fazia parte do jogo se mostrarem mais próximos. Uma cartada para JB acreditar que estava dominando o jogo.

— E aí, Bolsa! Que jogada de mestre a de sábado com o DT e DA. Agora, você está entendendo como a banda toca.

— Eu sempre soube, mas sabe como é que é… Sou das armas. Meu negócio é matar. Esse negócio de negociar não é comigo. Mas vou fazer o possível para controlar a situação como vocês querem.

— Você só tem a ganhar, Bolsa!

Todos ali estavam tentando mostrar intimidade, ao mesmo tempo que mentiam. JB fingia que pescava. RM, que jogava cartas. Sendo em lago ou mesa de pôquer, aquele café da manhã prometia ser indigesto. Mas muito menos do que os cafés da manhã dos brasileiros nos últimos dois anos e dos próximos que se seguiriam até o futuro incerto. O pescador amador se sentia inquieto em ter que lidar com negociações políticas. Surgia no horizonte a possibilidade de brigar com uma perigosa baleia amestrada no futuro. Teria que evitar isso para impor seu projeto de destruição dos atuais paradigmas para a construção da nova ordem com ditames da antiquíssima ordem, que não contemplava a observância de direitos sociais e sequer preconizava contestação às elites. Seria instaurada com a ajuda do cardume dos cidadãos médios — eternos lambe-botas do Poder.

Não Consigo Falar De Amor

Eu queria falar de amor,
mas meu amor foi embora…
Depois disso,
o meu amor me deixou.
Porque o amor morre antes em nós
e nossos amores,
como flores sem água,
ressecam,
escurecem
e vemos suas pétalas deixarem  
suas hastes e nossos braços.

Nossos abraços
deixam de aquecer o corpo-solo,
as nossas mãos
não fertilizam mais carinhos,
os nossos olhos
não vislumbram mais o sol
na manhã orvalhada.

Quando isso aconteceu?
Foi da noite para o dia?
Ou fui sendo envenenado pouco a pouco,
minha alma a se desertificar
até se tornar terreno pedregoso,
ácido
e impuro?

O que sei é que quando olhei ao redor
só percebi padecimento e ignorância,
violência e ódio,
morte e desdém.
Doenças e falsas crenças,
o mal a grassar de graça —
desgraça e trapaça —
povo contra povo,
o tentacular polvo
do poder a provocar
a confundir,
a maldizer,
a mentir,
a matar…

Antes, eu conseguia proteger
o meu jardim…
Afastava
predadores e pragas,
me abrigava
de palavras negativas,
frequências de indecências
em ultrajantes vagas
dos corruptores do espírito…
Conseguia ultrapassar as nuvens escuras
de tenebrosas ameaças
e ver a luz.
Conseguia pôr a cabeça
e respirar para fora do lamaçal —
esgoto
de merdas,
merdinhas
e merdaças.

Porém a luta insana me esgotou.
Cansado,
submergi sob a influência do homem mau —
mitológico e orgulhoso representante
do Medo
e do Mal-feito.
O meu amor me deixou
e não consigo mais falar de amor —
boca que se calou
em campo de cultivo inóspito-asfaltado,
rumor de lembrança boa,
falta que magoa —
dor fantasma de membro amputado…

O garoto de coração partido…


Viagem Aos 70

Jairzinho, na Copa de 70, agradecendo após um gol

A viagem que pretendo fazer não é aos meus 70 anos de idade, no futuro, mas aos anos 70 do século passado — XX. Mais propriamente, a 1970, tecnicamente, o último ano da década de 60. Ao ver uma reportagem sobre os 50 anos da Copa de 70, não deixei de me arrepiar. Emoções à flor da pele, explosão de sentimentos marcado pelo coração acelerado são prenúncios de que a paixão se faz presente e é irrefreável.  

Por mais que soubesse que vivíamos os anos de chumbo, sendo o meu pai um dos perseguidos pelo regime de exceção democrática (ainda que essa fosse a regra desde a instauração da República), os lances protagonizados pelos jogadores daquele timaço realmente me emocionou. Cheguei a me sentir um bobo. Mas o efeito físico não deixava dúvidas sobre a importância daquele fato em minha vida.

Ao ouvir e ver o depoimento emocionado de Gilberto Gil, ele também um perseguido pela Ditadura, me lembrei que ainda que estivessem privados de sua liberdade, os homens e mulheres em suas celas ouviam a transmissão radiofônica e comemoravam os gols e as vitórias da “Seleção Canarinho”. Para ajudar a tornar aqueles dias oásis de relativa alegria no deserto de ódio, entremeados por gritos de dor e choro, por causa dos jogos não ocorriam os chamados “interrogatórios” — alegoria usada para retratar a ocorrência de “torturas” — onde o objetivo não era o de obter informações, mas o de construir uma narrativa imposta para configurar o ataque ao Estado (que havia), mas não na proporção que estabeleceram. Além disso, as torturas serviam para quebrar o espírito dos acusados-encarcerados. Os mais resistentes, eventualmente sobreviviam. Outros, desapareciam…

Na Copa do Mundo de Futebol do México, em 1970, eu tinha de 8 para 9 anos. Foi a primeira transmitida pela TV para o Brasil. Tínhamos um televisor Bandeirante de 14” PB, porém estranhamente a minha memória dos jogos é colorida. Obviamente porque os revi várias vezes no padrão que entrou em operação no Brasil apenas em 1972. Ou porque a criança vê tudo colorido. Mas nem sempre. Eu me lembro do meu pai, ainda que tivesse um carinho especial pelas coisas da União Soviética, ao me convidar a ver a descida do homem na Lua, em 1969, transmitido pela televisão (ou talvez fosse uma das outras missões), ficou chateado por meu desinteresse em relação ao evento, já que a movimentação era lenta, a imagem granulada e a emoção dos filmes de ficção ajudaram a sabotar o meu olhar para a realidade que presenciava.

Mas hoje, ao rever as jogadas dos jogos da seleção, um arrepio perpassou por minha espinha e se espraiou por meus braços e pernas. Cada lance era perfeito em si. Os passes eram precisos, as ações consequentes, a movimentação era coreografada como se fosse um balé, os gols eram obras primas, mesmo aquele em que Jairzinho errou o chute depois da bola bater em seu joelho e entrar direto. O “Furacão da Copa” — epiteto dado pelos mexicanos, que entendem de furacão — protagonizou lances de força, destreza e rapidez. Tostão, mesmo depois de uma cirurgia no olho, parecia enxergar o jogo feito um ninja vendado. Félix, o goleiro, para mim era inseguro. O capitão Carlos Alberto, um portento de lateral-atacante. A defesa formada por Brito, forte como um touro, e Piazza, um médio-volante recuado que atuava como líbero, era completada por Everaldo, mais postado na retaguarda para dar liberdade ao meio de campo formado por camisas 10 em seus times: Gerson, no São Paulo e Rivelino, no Corínthians, além de Pelé, no Santos. O médio-volante Clodoaldo jogava como os atuais meias mais modernos. Na final contra a Itália errou por preciosismo no gol da “azzurra”, porém no quarto gol, iniciou a jogada com quatros dribles antes do meio de campo, deixando os italianos tontos. Foi um dos protagonistas do gol mais bonito de todos os tempos pela formação da jogada, pela participação de quase todos os jogadores do time em campo e pelo desenvolvimento do meio para a esquerda até o meio para depois chegar à direita na entrada da área adversária culminando com o gol de primeira de Carlos Alberto, com o passe com o toque de mestre de Pelé.

Pelé, hoje é uma figura controversa por questões que envolvem a sua vida particular, como não ter reconhecido a paternidade de uma filha fora do casamento ou por ter se relacionado preferencialmente com mulheres brancas. Na vida pública, por nunca ter se pronunciado claramente contra o racismo. Pessoalmente, disse que nunca se sentiu discriminado, o que causou revolta pelos engajados politicamente na luta pelos direitos das minorias. Para mim a rejeição a Pelé envolve distorções por parte de quem a sente. O menino de Três Corações, criado em Bauru, vindo ainda garoto para Santos é preto, porém os pretos se sentem apartados de sua história. Muitos brancos não perdoam a sua genialidade e protagonismo numa sociedade racista. Os da direita até concedem que tenha existido, os da esquerda se ressentem que não fosse como um Cassius Clay / Mohamad Ali, assertivo em sua militância ou que dissesse frases de efeito como Maradona, morto recentemente. Este, um maravilhoso jogador que fazia com uma perna só o que a maioria não faz com as duas, se envolveu com a Máfia italiana, tornou-se usuário de drogas pesadas e era alcoólatra. Causou muitas confusões e alimentou polêmicas. Porém, também era charmoso, se posicionava à esquerda em suas declarações e foi festejado como um herói nacional argentino. Isso nunca acontecerá com o atleta mais completo que já existiu no mundo para a função de futebolista. Os brasileiros têm a estranha mania de desvalidarem os seus filhos proeminentes. Alguns nem chegam a ser reconhecidos como tal, a não ser que o sejam antes no exterior. Pelé só foi jogar fora, nos Estados Unidos, depois de ter ido à falência por responsabilidade de um sócio capcioso. Lá, conseguiu viabilizar o “Soccer” como esporte e negócio. Os Estados Unidos, apesar do time masculino ainda não ter se destacado, no feminino é considerado um dos melhores do mundo, sendo o atual campeão mundial.

Se tivesse acabado como Garrincha, pobre e com problemas de saúde causado pela bebida, talvez dessem ao melhor jogador de Futebol de todos os tempos (incluindo os que virão) o benefício de ser um homem comum, que erra tanto quanto acerta. Ao contrário de muitos incríveis criadores que têm a sua genialidade ligada à condição de serem péssimas pessoas, sendo incensados, Pelé é condenado porque, sendo tão especial, não deveria errar. Quando estava em campo, no entanto, não há como deixar de perceber que pelas quatro linhas correu um semideus.