Vivo quase o final da minha quinta década. Estou, como nunca antes na minha vida, me sentindo em plenitude. Não que tenha tanto fôlego quanto antes, porém nunca tive, como agora, consciência de minhas limitações. Além de certeza de minhas possibilidades… Sei que sou falível. Por isso, me cuido mais e cuido mais de quem está a minha volta. Tento não deixar nada ao acaso. A não ser quando sinto que é o acaso que deva comandar a trama. Como disse alguém deste sertão, “a felicidade se acha nas horinhas de descuido”… Então, antes de voltar para a realidade do sonho, sem cuidado, saltei para a precariedade da vida real. Só não esperava que o mergulho nessas águas sem termo fosse tão profundo, que talvez não possa retornar…
Passou por mim um rapaz muito alto que caminhava de fora inusitada. Usava chinelos gastos, talvez pequenos demais para os seus grandes pés, que escorregavam toda a vez que pisava a calçada. Apesar da discrepância de seus passos com o padrão comum, que fazia com que chamasse a atenção para si, somado a alguns risos, percebi certa composição jazzística, uma nota de harmonia assimétrica em seu andamento. Configurava-se como uma dança imprecisa e contundente, que o fazia seguir muito mais rápido do que eu, com o meu andejar regular e simples. Os braços subiam e desciam uniformemente em contraponto ao movimento criativo, propiciando equilíbrio e coesão, como a compor um contratempo na surda canção que parecia ouvir. Eficiente, o rapaz muito alto vencia os metros diante de si com um avanço impiedoso de quem coreografava o seu percurso com um destemor do incomum. Atuava, como caminhante, de forma diferente da maioria. Com um simples ato de andar, destoava da multidão que marchava ao lado. Bailava enquanto se deslocava. Com as suas pernas compridas e seu corpo desproporcionalmente grande para o seu rosto de menino e, muito provavelmente, inconsciente de tal fato, acabava por revolucionar o mecanismo de trasladar o espaço. Rápido, isolou-se à minha vista e ganhou uma distância suficiente para dobrar uma esquina em alguma rua adiante e desaparecer, sem que eu soubesse onde, exatamente. Restou o registro de minha memória e uma foto roubada daquele caminhador. Uma imagem que registra um milésimo de segundo congelado, a demonstrar como a vida pode ser ludibriada por instantes isolados e incompletos da nossa visão.
O meu amor gosta de Bukowski e eu amo Augusto dos Anjos. Se Augusto dos Anjos tivesse sido influenciado por Bukowski, talvez não tivesse existido o poeta como o conheço. O preto, se se conformasse em se ater ao seu destino proclamado — marginal, apesar de ser maioria, palavra difícil de ser decifrada em meio a vocábulos fáceis de serem compreendidos, não chegaria a mim — menino da periferia — que me encantava com a palavra complexa que feria.
Se abraçasse o enunciado do americano — bêbado que vomitava durezas de descrente, leoninamente egoico, dogmaticamente estoico, adepto da simplicidade de expressão — não seria grande além do tempo, o paraibano. Dos Anjos era palavra quase inacessível. Fosse fiel às prisões do imediato e do lugar, se filiaria a obviedade e ao possível.
O americano, necessário, porém perplexo, o paraibano, imprescindível, contudo sem aparente nexo, não se confrontam em meu coração, que eu sinta. Um, eu leio e deixo minha rebeldia extemporânea satisfeita. Outro, eu leio a mim e me encontro incompleto, a tentar alcançar lonjuras. O ébrio, ainda que espalhafatoso, morreu velho. O professor que era poeta, morreu aos 30. Não se encontraram a não ser diante dos meus olhos — os versos de um embriagam e me deixam de porre, os do outro suplantam meu corpo e dilaceram minh’alma. Bukowski, brincava com o perigo de existir. Dos Anjos, fazia de companhia a morte que não o enlutava, mas celebrava.
Bukowski, foi ele. Dos Anjos, sou Eu. Enquanto que o egoísta não quis mostrar a ninguém o pássaro azul no peito, o centrado revelou a “frialdade inorgânica da terra”. Enquanto um soltou crônicas de amor louco em ereções, ejaculações e exibicionismos, sendo incensado; o outro, incompreendido em seu tempo, renegou a religião como resposta e proclamou que ninguém doma o coração de um poeta — sendo amaldiçoado.
Sou palavra difícil. É compreensível que não possa ser entendido. Mas acho triste não ser lido ou ouvido por quem diz me amar. Começo a duvidar da minha expressão. Não deveria me derramar? Deveria ser prosaico ou antes, calado? Ao me revelar, deverei ser contido? Deverei reverberar a palavra fácil, complacente? Erradicar a minha fala de estranha vertente? Ser Bukowski e seguir a inóspita franqueza? Ou ser Dos Anjos e violentar meu cotidiano dos termos óbvios e tiranos? A única simplicidade a qual me rendo é dizer que a amo e disso não me arrependo…
Da ponte, a trama Da cidade, o drama Dos campos sem grama Dos rios de lama Da vida em programas Dos corpos em chamas Da luta pela fama Do império da grana Que aos corações inflama.
Por conta do calor, além da falta de paciência em deixar os meus cabelos rebeldes razoavelmente alinhados, decidi raspar o teto. Os meus cabelos, com o passar do tempo, acabaram por formar um grupo revoltado, constituído por membros cada vez mais finos, que um a um, abandonaram a minha cabeça, como a prenunciar uma época em que deixarão o alto do meu corpo quase que totalmente desertificado.
Ao fim da raspagem, Marlos — o cabeleireiro — ao passar o espelho por trás, como faz habitualmente quando faz um corte, foi revelada a velha cicatriz. Como um arqueólogo que descobre uma nova pedra de roseta que em vez de uma escrita, apresentava apenas uma linha, que fez relembrar uma história inteira. A origem daquela cicatriz foi como um mergulho nas águas dos tempos, mais precisamente (ou imprecisamente?), aos meus cinco ou seis anos de idade quando, minha família e eu, vivíamos na Penha.
Morávamos na parte de baixo da casa (ao qual chamávamos de porão) da minha Tia Raquel e Tio Zé Gomes, alugada por eles. Devia ser muito conveniente para os meus pais, pois a fábrica de componentes flexíveis para carros dos meus tios, na qual eles trabalhavam, ficava no mesmo terreno. Não sabia, então, que essa “facilidade” de certa forma escondia uma guerra surda no espírito de meu pai, que se sentia extremamente dependente dessa situação em que família e ganha-pão se misturavam de maneira promíscua.
Quanto a cicatriz adquirida, eu diria, de forma simplificada, que se deu por causa de ciúme entre irmãos. Certa ocasião, os meus tios e primos viajaram e os donos da casa permitiram que nós pudéssemos, durante as noites que passariam fora, assistir à televisão de muitíssimas polegadas os programas favoritos da época. Para uma criança tudo é muito maior, porém em confronto com a nossa de 14″, a diferença era memorável. A simples existência de uma sala de televisão, com amplos sofás e distância adequada, sem improvisação de cadeiras ou camas para sentar deixava que nos sentíssemos em um mundo novo de conforto.
No último dia de nossa imersão, pedi para o meu pai me levar de cavalinho, como ele fazia com o meu irmão menor. Já devia ser pesado demais para isso, mas ele acedeu graças a minha insistência. Para irmos até a parte de baixo da casa, tínhamos que descer uma escada composta de ladrilhos que, devido à uma chuva fina, estava por demais escorregadia. Ao final dos últimos degraus, o meu pai escorregou e eu acabei por bater a minha cabeça. Muito sangue e choradeira depois, curativos e dengos me acalmaram naquele momento e por anos.
Os meus cabelos cresceram o bastante para soterrar a lembrança marcada por aquele fato, no entanto sobrou o consolo da cicatriz que me fez lembrar de um momento de carinho do meu pai, que quis atender os reclamos chatos de um menino enciumado. Doeu, mas valeu!