Amor Barato

AMOR BARATO
O amor não custa caro…

Nesta época do ano, em que se fala muito do amor universal, talvez não se perceba que a carência humana nos assalta em todos os sentidos, incluindo os sentidos físicos. Esta parede em ruínas fez parte de um conjunto de pequenos prédios que foram demolidos para dar lugar a um projeto cultural, na região da Avenida Duque de Caxias, perto da Sala São Paulo, no Centrão. Com o tempo e as mudanças na administração municipal, o que seria um centro de arte, transformou-se em conjunto residencial.

Datada de 2014, fico a imaginar o ambiente da qual essa construção fazia parte, imerso à meia-luz, em que homens buscavam o amor material oferecido de forma tão direta. Gosto muito da pintura, apesar de tosca, em que o braço da moça, de fisionomia tristonha, cabelos longos-encaracolados e peito pequeno, indica o caminho para a satisfação dos desejos mundanos.

Descortinada à luz do dia, desprotegida aos olhos dos passantes, afigura-se ainda mais frágil a se considerar as tenebrosas condições às quais ela e suas colegas ficavam expostas. Eu me lembro que relutei em fotografar-capturar sua imagem antes que se tornasse pó, como se invadisse sua intimidade. Agora, permanece viva em minha imaginação e a ela rendo minhas homenagens.

O Capítulo Perfeito

Alice
Criatura & criadora

“… “quantos anos são necessários para se sentir velho?”

Janeiro, normalmente chuvoso e abafado, é um mês que na minha área de atuação, as atividades diminuem. Época propícia para realizar tarefas postergadas em outros dias que se amontoaram no calendário como se tivessem formado um lapso no espaço-tempo. Se não fosse pela imposição necessária pela organização das tarefas marcadas a ferro, fogo e escrita, mal saberia dizer o que fiz no ano que passou.

Este Janeiro tem me saído um pouco mais penoso devido a uma persistente dor nas costas pela hérnia de disco. Há três anos não faço exercícios resistidos e a saudade das dores gostosas provocadas pelas atividades físicas tem sido repetidamente adiadas por questões alheias a minha vontade. Além disso, minha mente parece estar em recesso, como se tivesse cercada por uma espessa parede branca.

Para o WordPress, tenho reeditado textos antigos, antes apresentados no Facebook ou não lançados na Rede. Um assunto atual ou outro me instiga a comentá-lo. Porém, alguns textos de anos ganham atualidade porque percebo claramente que repetimos muitos erros e reeditamos poucos acertos em nosso cotidiano preguiçoso de criatividade. Estranho mesmo é vermos suceder “novas” vetustas, de décadas que já deviam ter sido superadas.

Hoje, ao ler um capítulo de “Alice”, de Lunna Guedes, chorei em pleno vagão do Metrô que me conduzia ao Paraíso. Por algumas estações, estive em Teodoro, cidade fictícia criada pela autora. Nos capítulos anteriores, nos é apresentada a personagem que nomeia o livro. Nós a descobrimos ferida por dentro e por fora, assustada e fechada em si, sem saber exatamente o que ocorreu. Na página 83, Lunna, sem revelar exatamente os motivos de sua dor, nos faz intuir (pelo menos àqueles que já conhecem tantas casos-situações parecidas) o drama que se desenrola em sua vida-alma.

Foi difícil conter uma lágrima traiçoeira que insistiu em descer pelo rosto barbado-antigo. Lembrei de todas as mulheres que vivenciaram as mesmas vicissitudes, próximas e distantes, mas unidas no mesmo processo de desintegração da personalidade até se tornarem tão aplainadas que poderiam ser confundidas com qualquer pano de chão. Puído. Lembrei de minha mãe que, no entanto, um dia soube dar um basta.

Um dia desses de limpeza da casa – papéis antigos, lixos eletrônicos, objetos descaminhados de suas utilidades – encontrei uma carta ditada por Dona Madalena que eu mesmo havia passado para o papel. Por algum motivo, não lembrava dela. Na carta, minha mãe faz uma prestação de contas ao meu pai e pede uma ajuda para entregar o nome dele limpo, já que ela havia solicitado, em pleno setenta anos, o divórcio, que foi adjetivado pelo Sr. Ortega como “uma punhalada nas costas”, depois de trinta anos de separação de fato. Durante todo esse tempo, ele manteve um relacionamento estável com outra mulher.

Alice”, o livro, está apenas no meio do caminho percorrido por mim. A vida dela agora me pertence, no melhor sentido que há – com liberdade de ser. Eu a leio, me identifico, sinto necessidade de lhe dizer palavras que lhe bafejem ares de amor. Com certeza, as repudiaria, acostumada que está, a esta altura da história, com a mão pesada das bofetadas – ilações que faço agora.

Ao encontrar a autora hoje, a parabenizei por criar-reproduzir uma Alice que poderia ser tantas. Fazer uma resenha de um capítulo apenas parece estranho, mas esse que termina na página 93 me surgiu perfeito. Resume uma vida inteira em suas linhas. Proclama o desamor e faz inspirar amor, cuidado, atenção aos pormenores e ao sentido de ser-estar-ir-partir. Continuarei com Alice em mãos e, agora, no coração. Vou cuidar dela com todo o desvelo, sabendo que vivi em sua casa antes que soubesse que lhe pertencia.

Circular

Circular

O círculo é um dado constante no Universo. Bilhões de estrelas, como o sol que nos ilumina, tem a forma circular. Ciclo é algo diferente, mas podemos explicá-lo como uma sucessão de fatos circulares, que representam a transformação de um sistema a voltar a seu estado inicial. Culturas antigas tentaram, e muitas conseguiram, determinar um padrão que serviram de base para a sustentação de suas civilizações, como, por exemplo, os Maias – mal sabiam eles que confusão criariam em 2012, centenas de anos depois de montarem um calendário agrícola.

O que é interessante para mim é que apesar de todos vivermos existências circulares (como o sangue que percorre o nosso corpo), procuramos entender a volta ao ponto inicial como algo diferente, colocando um número ou um nome para consubstanciá-lo, estabelecendo, dessa maneira, uma nova idade ou tempo. É como se as forças externas, normalmente constantes, fossem travestidas de novas identidades para torná-las reconhecíveis como novas e, com boa sorte, renovadoras.

Mais constante que o círculo e o circular, no entanto, estamos nós, que os vivenciamos. Mais constante ainda é a transformação que se opera em nós a cada giro da roda. Quando ela volta para o ponto inicial, a nova estação encontra alguém mudado, uma pessoa “nova”, porque mais experiente e, curiosamente, mais antiga, já que cumpriu o eterno ciclo vital de nascer, crescer e fenecer. Ainda que ideias mortas ressuscitem de tempos em tempos, como a transformar a Terra em um planeta plano.

Pois, neste ponto, devemos operar a grande magia – apesar de sermos mais experientes e estarmos mais velhos – buscarmos bravamente nos renovarmos a cada ciclo cumprido. E estarmos aptos para essa renovação. Portanto, desejo a todos nós apenas uma pequena mudança na ordem do dia e das palavras – Feliz novo em você em 2020!

O Governante Supremo (Vaidade)*

7 PECADOS

O Governante Supremo lhe aprazia tudo uniformemente organizado. Desde jovem percebera que o seu talento era o de utilizar o talento alheio para alcançar os seus objetivos e, mesmo sendo alguém de aparência comum, nem feia nem bonita, porém equilibrada, conseguia impor a sua presença por ser exatamente simples. Sempre comedido em seus gestuais e palavras, começou a se tornar referência de comportamento. A sua palavra principiou a ser buscada para a solução de impasses e dúvidas entre grupos antagônicos, sem saberem que, muitas vezes, fora ele a incitar a discórdia sub-repticiamente. Logo, tornou-se um líder.

Sabendo equilibrar as diversas forças que se rivalizavam na busca do poder – primeiro nos domínios sociais mais básicos, até os de maior alcance – chegou à unanimidade como voz representante de todas as tendências daqueles que viviam naquele mundo. Relativamente em pouco tempo, tornou-se “O Líder”.

Continuamente a impor a sua forma generalizadora de governança, durante o seu período de dominação, fez progredir as ciências de forma exponencial, em todos os campos. Porém, a sua menina-dos-olhos era ligada à manipulação genética e estudos relativos à neurologia. Criou grupos de estudos específicos ligados à área inventiva do cérebro. O seu sonho dourado era promover um nivelamento médio sustentável que garantisse maior chance de controle sobre os cidadãos, sem nuances, picos de excelência, altos e baixos.

Durante a última década, o nascimento de crianças pelo método natural fora praticamente abolido, sendo quase totalmente substituído pela produção artificial. Havia ainda grupos rebeldes à orientação central de controle de natalidade, mas estavam sendo paulatinamente isolados ideológica e fisicamente. A grande maioria acabou por concordar que o novo sistema era o ideal para a preservação da sociedade em nível mediano, com a correta e desejável bitola oficial.

Uniformizou as formas de expressões artísticas das mais variadas vertentes – Música, artes plásticas, dança, teatro, literatura – pouco a pouco, o Governante Supremo conseguiu impor a universalização de padrões dessas manifestações criativas de acordo com requisitos que permitiam certa liberalidade. Até o momento em que viessem a apresentar ameaça à ruptura do sistema de ordenação metódica que compôs ao longo dos vários anos que ficou no poder.

Contudo, uma forma de expressão lhe escapava a compreensão e ao mecanismo de controle – a literatura. Sabedor de sua limitação quanto às Letras, as tinha como inimiga do bem-estar social. Ao contrário do que se propagava – que uma imagem valesse por mim palavras – intimamente sabia que uma só palavra poderia equivaler a mil interpretações diferentes. Como evitar que a comunicação não fosse corrompida por pensamentos espúrios quando se escrevesse ou lesse a palavra “amor”, por exemplo?

Conseguiu convencer a população de que a aplicação de substâncias que harmonizassem a Área de Wernicke** do cérebro as tornariam suscetíveis a diretrizes que formariam futuras crianças mais aptas a atenderem as necessidades do grupo como um todo. O futuro seria auspicioso! Segundo a propaganda dos órgãos ligados ao Governante Supremo, isso garantiria a utilidade e consequente adaptação das pessoas ao Sistema.

O Governante Supremo já antecipava, com frêmitos de prazer quase físico, o tempo em que qualquer coisa que fosse pensada, escrita ou falada não ultrapassaria a excelência do padrão médio de comunicação. Chegaria o momento em que para completar a tarefa ingente de adequar todas as medidas de interpretação de texto, os livros criados até então, e que até então ganharam a alcunha de “clássicos”, seriam deixados de lado e, no máximo, serviriam para aquecer as noites de inverno em fogueiras organizadas pelo Ministério da Criatividade…

* Capítulo que compõe Sete Pecados, lançamento da Scenarium. (2015) – Diversos Autores

**Área de Wernicke é uma região do cérebro humano responsável pelo conhecimento, interpretação e associação das informações, mais especificamente a compreensão da linguagem. Graves danos na área de Wernicke podem fazer com que uma pessoa que escuta perfeitamente e reconhece bem as palavras, seja incapaz de agrupar estas palavras para formar um pensamento coerente, caracterizando doença conhecida como Afasia de Wernicke.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Por Onde Andei…

“Por onde andei
Enquanto você me procurava?
E o que eu te dei?
Foi muito pouco ou quase nada…” (Nando Reis)

6O6-20-1

Ano viçoso, de novo que é, em seu sexto amanhecer – Dia de Reis – me fez querer falar por onde andei nestes últimos tempos. Lembro que era comum iniciarmos o ano letivo com redações a discorrer sobre o que havíamos feito durante as férias. Naqueles anos, restávamos rememorar eventuais idas às casas dos tios ou descidas à Praia Grande, onde minha avó paterna tinha uma casa. Nessas viagens rumo à praia, comecei a desenvolver um relacionamento íntimo com o mar. Mesmo que, por algumas horas, em intervalo de trabalho em Caraguatatuba, no último dia de 2019, tive um encontro com as águas salgadas do tempo. Mergulhei em mim…

6O6-20-2

Passei o Natal com os familiares da Tânia, em Arrozal, Distrito de Piraí-RJ. Desde que comecei a visitá-la, mudou bastante – ampliou o número de residências e moradores – mas não deixou de apresentar características de Interior – pessoas que se cumprimentam na rua, mesmo sem se conhecerem, casario antigo e movimento muito menor do que em qualquer bairro paulistano. No entanto está cada vez mais tornando-se uma extensão do Rio e seus problemas. Ainda resta quem adorne seus jardins de flores e luzes, observáveis através de muros baixos.

6O6-20-3

Fiz uma caminhada por Arrozal, a revisitar pontos que não via há três anos. Busquei novos ângulos, tentando encontrar referências perdidas na memória do lugar, como se buscasse seu espírito antigo. A cada lugar, me ausentava do presente e tateava as paredes desbotadas para ouvir histórias que me contavam. Passei frente ao portal da Igreja de São João Baptista e, respeitosamente não entrei com os sapatos sujos de meus preconceitos e descrença. Apenas apontei a câmera do celular para registrar a simplicidade do altar. Quando fui postar a foto, divisei a presença de uma fiel, nos bancos à esquerda. A nave, aparentemente vazia, estava plena da verdadeira comunhão de quem crê e ora…

6O6-20-4

No segundo dia de caminhada, logo cedo, tive a companhia de um jovem cachorro que se juntou a mim quando passei pela praça central. Não era por minha causa, mas pela Bethânia. Vim a descobrir que, mesmo castrada, ela ainda pode liberar o odor que atrai os machos da sua espécie para o acasalamento. Ela estava irritada com o assédio. E o tipo não ousava se aproximar tanto, não apenas por mim, mas também pela rejeição da donzela. Em uma das ruas, me detive uns dez minutos. Observei um belo cavalo que se alimentava do capim do terreno baldio. Ao me aproximar do gradil, Pi (o chamei assim devido ao símbolo que carregava no corpo) também se aproximou de mim. Não demonstrou medo e aceitou meus afagos em sua majestosa cabeça. Em tempo, eu não monto. Certa ocasião, tirei uma foto em cima de um cavalo manso, no qual as crianças subiam como se fosse o meu antigo cavalo de vassoura dos tempos pueris de cowboy. Depois do registro, logo que pude, desapeei. Terminada a troca de olhares e palavras mudas com Pi, voltei à praça, na tentativa de me livrar do acompanhante indesejado. Deu certo. Ao perceber que estava em um lugar com cheiros familiares, ficou a observar por um tempo nos afastarmos, como a decidir se deveria correr atrás de seu amor de verão ou não. Voltou o dorso e se foi.

6O6-20-5

No último domingo de 2019, fomos, Tânia, Romy, Niff (um amigo) e eu, ao Bar Estadão, típico ponto culinário da cidade. Aberto 24 horas por dia, serve ao povo paulistano desde 1968, com movimento assíduo de boêmios, músicos e trabalhadores da noite e do dia – de empresários a empregados, em ambiente democrático. Estacionamos o carro em uma rua próxima e caminhamos através de uma feira livre em pleno Centrão. Estava no final do expediente. A turma da xepa se fazia presente, assim como os que estavam simplesmente atrasados. A aparente discrepância entre as tradicionais barracas de frutas e legumes e o fundo recortado por espigões, apenas acrescentava charme à esta cidade que amo. Mais tarde, subi à Paulista, fechada ao trânsito de carros. As pessoas, fora de seus veículos, carregavam os mesmos erros de bom comportamento na fluidez dos seres. Muitos desconhecem o Princípio da Impenetrabilidade, amparada na chamada Lei de Newton, que ensina que “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo”.

6O6-20-6

Em minhas idas e vindas por estradas e caminhos, meu olhar passeia pelos cenários de forma mais rápida que os meus sentimentos possam objetivar. Porém, em suma, percebo crescer em mim um êxtase quase religioso pela Natureza. De horizontes a perder de vista a flores que me perfumam a imaginação; dos pássaros que voam livres na matas e montanhas, aos seres que pisam e rastejam na terra úmida ou dos que evoluem em rios e mares – tudo e todos merecem a minha reverência de coadjuvante que sou em uma jornada na qual estamos todos imersos. Que em 2020, possamos fazer crescer a consciência de unicidade e respeito à vida em todos os seus níveis. Sentimento crescente, principalmente quando parece que há grande interesse em crestar o chão e poluir as águas do planeta.

 

Também andaram por aí…

Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Mariana Gouveia — Lunna Guedes