… ou eu só queria perceber o invislumbrável… porque só querer perceber é uma coisa eu querer (só) perceber é outra a primeira acho mais fácil é quase como só fosse se exercitar para tal a segunda é quase um talento refinado adquirido de só perceber o invislumbrável mais simples dizer que é a capacidade de vislumbrar a simplicidade ou perceber na simplicidade o deslumbramento que é ser simples contido reto inteiro perfeito e eleger apenas o que é belo assim como é amar o amor eleito…
… e fico entre escolher escrever palavras casuais ou limpar a nebulosidade e descerrar a paisagem que já conheço de sobra prefiro manter a expectativa de que por traz da cortina úmida haja algo novo um horizonte diferente ampliado profundo em dimensão um mundo recém descoberto uma ideia de de que os objetos se dissipam que a realidade se desintegre em muitas outras realidades queremos ver a novidade de ser de estar de revelar que tudo pode ser melhor por trás das vidraças nebuladas o estranho e o estranhamento de estarmos vivos negligenciados pela estupidez humana encontrar o segredo da vida na imaginação que alcança a verdade…
passava quinze minutos depois da meia-noite a carta chegou colocada por debaixo da porta do quarto estava acordado e percebi uma sombra se afastando pelo corredor do hotel não era a primeira vez e me levantei do sofá a tempo de ver alguém dobrando a esquina era mais um texto quase indecifrável porque a letra era trêmula e oscilante não sei qual a pretensão do autor ou autora do texto mas entendi se tratar de um aviso sobre a minha esposa que ficou em casa o fato de ser uma carta tradicional deu um tom de coisa solene e grave feito um drama de novela de amor daqueles com sobressaltos e revelações de traição e denúncia de amores não correspondidos ciúme e dor nada disso eu senti sabia que mariana tinha alguém com quem se reunia nas minhas ausências por viagem de negócios eu mesmo deixei de amá-la há algum tempo mas não tenho ninguém apenas casos avulsos encontros fortuitos mulheres que são amigas e com quem tenho identificação mariana de saber aliás ciúme já não há levamos a vida dessa maneira solta sem ataduras compreensão de nossas faltas e predicados amigos casados e satisfeitos com a desunião de corpos…
estou em casa sentado no sofá ao lado de amigos que apenas desejam estar junto a mim sorrio um sorriso tímido de que quem se sente amparado por afeição genuína e ciúme de tanta atenção por outros seres o prazer se deixa espraiar pelo dia sonolento e morno de primavera não falar nada é também um doce aliado ao som da chuva que começa a me dizer que é tempo de prosperar folhas novas galhos mais grossos frutas maduras ar renovado mente acalmada alma acalentada…
… para quem tem telhado para se abrigar porque as casas são modelos nas cabeças das crianças mesmo as mais pobres as desenham em folhas sujas em noites escuras à luz de velas bruxuleantes sendo tão pequenas acreditam em bruxas voando seus telhados molhados mas os monstros estão por perto são humanos armados de ódio e maledicência não gostam dos desvalidos não suportam a ideia de que tenham residência um lugar para ficar ainda mais perto de si querem distância de tudo que revele a sua pequenez seres abjetos em suas mentes carregam dejetos mas pela eternidade crianças continuarão a desenhar em folhas de papel suas casas de telhados molhados…