não lembro não era não entendo quem fui
não tenho permissão para ver
descaminho por aí passado a limpo
descompassado nas trilhas do limbo
são íngremes ladeiras deserdadas beiras
quanto mais subo mais desço
para o vale dos paralelepípedos das lamentações
de tristezas e de desalentos
as ruas desatentas de seus transeuntes
enquanto anjos vingadores de cinza armados
observam pares trios quartetos de deserdados
deitados em papelões em posição fetal
quando abrirem olhos voltarão ao deserto de seus corpos
desabastecidos de vibração dementados
somos um grupo unidos na perdição
nem sei quando foi a última vez que chorei
porque me vou sem querer desperdiçar
qualquer coisa do meu poder de não sentir
moo minhas emoções chove chovo lavo
meu odor de urina fezes rotas roupas
sou um ninguém entre tantos todos
nulidades ausências pouco peso ignorados
vivemos para abastecer a morte em vida
somos como recados dados aos passantes
apesar de seus calçados é um povo a tudo alheio
à nossa presença dedicada em demonstrar
que tudo é passageiro não temos
ponto final apenas esvaímos
tênues seres feitos fantasmas…
Projeto Fotográfico 6 On 6 / #EntardeSer
Sangue Na Tarde
O Inverno anuncia tardes
derramadas em delírios…
Mal podemos perceber
que o tempo seco nos arranca
a umidade da pele
arrepiada ao toque do frio…
Os olhos desejam
que se torne espelho a beleza
que se apresenta,
enquanto vemos que a paixão
do Sol pela Terra
vertida em sangue…
É tarde, mas tão tarde!
Porém, ainda não é noite.
Ainda não sinto o açoite
da escuridão que me parte!
distraído de mim me sinto no início dos tempos
fuma a terra bruxuleiam as plantas dançam ao sabor dos ventos
animalzinhos se escondem de predadores que se aproximam
enquanto dragões expelem fogo antes da noite que se derrama…
em São José Dos Campos ainda há campos mais abertos
a Via Dutra caminha em seu percurso até o Rio
a cidade entardece em intenso movimento de autos e pessoas
floresta de torres de energia substituem às árvores no horizonte
o vento espalha as nuvens que desenham ramos imaginários
em tons de amarelo abóbora rosa que serão devoradas
por luzes artificiais logo mais…
quando entardece a suavidade enternece nossos olhos
as cores se degradam à aproximação do fim do dia
as casas erguidas sobre os montes invadem o horizonte
interrompem o sonho de o mundo não tem fim…
as silhuetas desenhadas no quadro da tarde denunciam
a cidade que o homem desanda a pintar em dor e pouca cor
mais de perto o duvidoso perfil de linhas retas são recortadas
nelas seres se adaptam em jaulas e aceitam a condição de animais…
Participação: Lunna Guedes / Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Silvana Lopes
Dia De Casar*
Eu estava atrasado e decidi não tomar banho. Apesar de ter acordado cedo, parecia que o relógio decidira acelerar o seu andamento e a hora programada para o casamento chegava ao seu termo rapidamente. Estava confuso, parecendo estar em um filme em que eu era o ator e o espectador ao mesmo tempo.
Tinha ido buscar os familiares da Tânia no Terminal Rodoviário do Tietê e fiz uma confusão tão grande no retorno para a minha casa que deviam estar imaginando o péssimo negócio que ela estava fazendo ao se casar comigo, já que os “conduzia” de Metrô e ônibus porque não tinha carro por falta de grana para isso, como nem sequer tinha habilitação para dirigir (como, aliás, até hoje), por motivação “ideológica”.
Assim, logo passado esse episódio, nem sei se comi alguma coisa e já se aproximava o momento em que deveria vestir o meu terno branco. Sabia que a Tânia estaria com um vestido rosa. Passados vinte e seis anos da ocasião, já não me lembro se o vira antes da cerimônia ou não, mas me recordo que o achei muito bonito ao vê-lo em seu corpo, que ainda não denunciava a gravidez de seis meses da Romy.
Conquanto fosse normalmente magra, ela acabou por manter o mesmo peso, devido ao um terrível e constante enjoo que a acompanhou durante a gestação. No entanto, naquele dia, irradiava um belo sorriso e eu me percebi estranhamente bem, para alguém que vivia a cultivar certa melancolia existencial. Além disso, o termo precariedade poderia caber bem em minha situação financeira naquele período, já que me encontrava desempregado. Os meus pais pagaram todas as despesas do enlace. Nunca os vira tão unidos em prol de um objetivo — a realização da cerimônia e da festa.
O meu pai convidou um famoso harpista paraguaio, Luís Bordon, juntamente com o seu filho, para tocarem na entrada dos noivos e os meus irmãos escolheram a gravação em fita-cassete de “Smoke Gets In Yours Eyes”, com The Platers, para a saída. A minha mãe fez questão de pedir ao Juiz de Paz que proferisse todas aquelas palavras dos discursos realizados pelos padres. Na oportunidade, quando este pediu para que eu repetisse a passagem “na saúde e na riqueza”, decidi introduzir um toque pessoal e emendei: “na riqueza e, muito mais provavelmente, na pobreza”… Quem assistia, riu, e acho que consegui deixar todos mais a vontade durante um ato que parecia tão solene.
Quando chegou o final do dia 13 de maio de 1989, aos 101 anos da Lei Áurea, trocamos os áureos anéis em cada um dos nossos dedos anulares. Quando deitamos em nossa cama, estávamos tão cansados que apenas fechamos os nossos olhos e dormimos pesadamente. O casamento já estava consumado há algum tempo. A verdadeira aliança de nossa união igualmente descansava no ventre da minha mulher, então oficialmente desposada…
*Texto de 2015
Lua De Sangue*
LUA DE SANGUE
Tenho um horário irregular de sono devido à minha atividade profissional. De sábado para domingo, fui dormir às 7h30 e acordei às 13h. Tentei segurar o máximo que pude, mas dei uma fatídica cochilada por meia hora antes de me deitar, o suficiente para me fazer perder o sono. Como a 1h da madrugada ainda não havia encontrado Morfeu, fui ver o céu. E foi ótimo! O espetáculo natural foi lindo e, ainda que tentasse, não consegui registrar devidamente toda a beleza da Lua de Sangue. Durante meia hora fiquei imerso nas pequenas oscilações dos efeitos da sombra avermelhada da Terra sobre o nosso satélite no céu limpo até que as nuvens toldassem a Lua. Logo depois, deitei e dormi profundamente. Por meu turno, acho excelente que em vez de acidentes ou fatos escabrosos, as pessoas voltassem seu olhos e registrassem mais vezes os fenômenos do Universo e da Natureza da qual fazemos parte de maneira quase desprezível, mas o suficiente para estarmos destruindo um planeta inteiro com a nossa sanha inescrupulosa…
* Texto de Maio de 2022, mas que serviria para qualquer época.









