BEDA / Tudo Passa?

Por uma dessas coincidências estranhas, encontrei pelo meu caminho dois motociclistas que apresentavam uma tatuagem no pescoço escrito “Tudo Passa”. As duas estavam tatuadas abaixo dos capacetes de tal maneira que dava para lê-las claramente. Nas duas ocasiões, as li porque estava sentado no carona de veículo que me conduzia. Portanto, do lado esquerdo do motociclista. Cheguei a pensar que fosse o mesmo motociclista, mas os pontos de contato ocorreram em distâncias díspares. Um, na Marginal Pinheiros — de trânsito parado — e outro no meu bairro, na Zona Norte, igualmente.

Para não apostar que o que fosse coincidência parecesse uma espécie de mensagem enviada pelo Destino, imaginei que a frase fosse uma espécie de divisa que os motociclistas usassem como uma referência da profissão de entregadores de aplicativo. Eu mesmo a usava e a projetava mentalmente para conseguir superar os períodos de trabalho pesado quando era funcionário de uma banda atuando “roadie”. Mas o que poderia perguntar é: “o tempo passa?”. Seria como um rio em que me posiciono num ponto e o tempo seria como a água que passa por mim? Ou sou eu que apesar de estar parado passo pelo tempo? Quando eu passei pelos motociclistas me tornei o tempo instantâneo em que gravei a frase “tudo passa”? Ou passamos juntos pelo tempo em que o trânsito estava parado?

Devaneios… pelos quais passo. Quem passa pelo o que? O que eu aprendi é que o tempo como uma espécie de fotografia a qual pode se acessar a imagem não tem exatamente esse poder de eternizar o seu significado. Não apenas porque o observador é diferente um de outro. Além disso, por trás do que se vê, há os movimentos invisíveis, a verdade oculta, o fato real que a construiu. Disso, eu sei…

Foto por Domenico Adornato em Pexels.com

12 / 12 / 2025 / O Mar

uma terça-feira perdida da semana no início de dezembro — um inesperado dia solar
empurrado pelo vento vindo do interior me encaminhei em direção ao Mar
pela previsão do tempo à tarde choveria como choveu
mas para mim não importa eu não busco o Sol
vou em direção ao líquido amniótico como a criança com saudade do útero da mãe
as águas límpidas já prenunciavam a chegada da frente que baixaria a temperatura
e revolucionaria o movimento das ondas em desencontros
como se um gigante balançasse um copo descomunal
sabia que mais tarde as águas estariam mais interessantes para quem busca o embate
líquido que me jogaria de um lado para o outro como acontecia com a criança fui-sou-serei
porque sei que assim morrerei
não que me considere jovial mas porque continuo a ver a vida como novidade
caminhando olhando para os lados com imensa curiosidade
um garoto perdido em corpo envelhecido…

02 / 02 / 2025 / As Deusas Das Águas

Hoje se comemora o dia da Rainha das Águas, Yemanjá. Em Pindorama, os originários da terra tinham Yara, como Mãe d’Água. Com a chegada forçada dos escravizados africanos, Yemanjá ganhou protagonismo, mesmo porque as lendas indígenas foram sendo obliteradas pouco a pouco com o genocídio das diversas tribos. Yara estava mais vinculada aos rios, lagos e lagoas no interior do continente, o que corresponde a várias lendas em todos os continentes no mundo todo.

Uma amiga que trabalha na China, em uma das suas publicações, mostrou o monumento de Guan Yin do Mar do Sul de Sanya, de incríveis 108 metros de altura. Essa entidade é venerada na China, Coreia, Vietnã e de Japão. O traço comum entre todas essas entidades ligadas à agua é o fato de serem femininas, normalmente ligadas à geração e proteção da vida. No sincretismo religioso brasileiro, Yemanjá foi associada à Santa Maria, mãe de Jesus, em suas várias denominações.

A orixá africana incorpora vários aspectos que a tornam uma das entidades mais populares. Na Bahia, é famosa a festa que a homenageia. Essa celebração tradicional chega aos 103 anos neste 2 de fevereiro de 2025. Celebrado por uma multidão de baianos e turistas em Salvador, o Dia de Iemanjá é marcado por fé, emoção e entrega de presentes à rainha do mar. Ela se iniciou quando durante a uma escassez severa de peixes, os pescadores oraram à Yemanjá e, naquele dia, voltaram carregados de pescados. Surgiu a tradição com cada vez maior participação popular.

Na minha relação com o mar, eu a comparo como se fosse o líquido amniótico, para onde volto sempre que posso. E sinto frequentemente que há “algo de mágico” nessa relação. Como se estivesse em meu elemento, brinco com as ondas e me torno um com as águas. Ciente que somos muito mais água do que qualquer outro elemento, me junto à bilhões de seres humanos que já caminharam pela Terra.

BEDA / Anhangabaú*

Vindo do norte, rumo ao sul, adentro o túnel do Vale do Anhangabaú e tudo parece adquirir um tom imaginário no crossover de luzes, metais e cimento. Originário do Tupy-Guarani, Anhangabaú vem de anhanga-ba-y, que significa rio dos malefícios do diabo. Os povos originários da região acreditavam que aquele riacho de águas escuras provocavam doenças físicas e espirituais. Provavelmente, devido ao fato de serem um tanto paradas, as águas eram propícias como criadoras de mosquitos.

Ainda hoje, na época das chuvas, o antigo rio, mesmo canalizado, retoma a sua antiga rotina de atormentar a vida dos moradores de São Paulo das Terras de Piratininga, inundando e impedindo por carro a passagem subterrânea de um lado para o outro da cidade.

*Foto e texto de 2011.