Março

março das águas
mar aço
mar interno que extravasa
para os poros
dos olhos de quem é água
como eu
visualizo partes de mim
em todo lugar…

APAIXONADA

ela é uma mulher apaixonada pela vida
e se apresenta apaixonada por mim
mas não sou toda a sua vida
e nem quero que seja
quero acrescentar não completar
duvido de mim eu não me sinto suficiente
ciente que estou de meus vazios
minhas faltas minhas incompletudes
mas com ela me sinto bem quase outro
esse outro é bem melhor
chego a sentir ciúme dele…
ainda que seja eu em pele
carne osso pensamentos perfil
estrada calçamento meio fio
do caminho que desejo trilhar
ainda que seja no meu terço final
quero alcançar o arco-íris
multicolorido feito casario colonial
navegar com os olhos pelas águas
da veneza tropical
submergir na cultura do lugar
meu coração ao compasso pulsante
em pífanos cantos violas enluaradas
maracatu caboclinhos coco-de-roda
ciranda samba afoxé frevo
caminhar por boa viagem
reconhecer a mim o que ama amante
aquele que se atreve a ser
e ao tê-la em meu braços
me ter…





Inundação

Piscinão Guaraú

São Paulo cresceu entre córregos, riachos e rios. Alagamentos fazem parte de sua história antes da invasão dos portugueses a nomearem a esta região, feitos novos Adãos, com o nome do apóstolo mais controverso de Jesus.

Com o tempo, deixamos de ocupar os lugares mais altos e seguros e fomos nos assenhorando das áreas mais próximas das margens de rios e suas várzeas. De tempos em tempos, as águas, alheias ao fato de nos considerarmos seus donos, retoma seus antigos domínios.

Onde moro, já enfrentei muitas enchentes. Com o advento do Piscinão Guaraú, nos últimos 15 anos, o bairro deixou de sofrer com alagamentos. Mas como é uma região com topografia acidentada, com morros e vales, a preocupação se volta para os deslizamentos. Principalmente por causa de ocupações irregulares, em qualquer cantinho que se possa pendurar uma habitação.

Nesta imagem, mostro o Piscinão Guaraú, cheio como nunca vi. A água da chuva que entra pelas “bocas de lobo” (nome incrível) chega aos bueiros passam pelas tubulações até desembocar no piscinão. Até alcançar o limite, os milhões de litros d’água ficam retidos até desaguarem no Córrego Guaraú para, então, chegarem ao Rio Tietê, que despeja seu volume d’água no Rio Paraná até desembocarem no Rio da Prata, na lejana Argentina, os eflúvios pluviais e fluviais no Atlântico Sul.