Eu queria falar de amor, mas meu amor foi embora… Depois disso, o meu amor me deixou. Porque o amor morre antes em nós e nossos amores, como flores sem água, ressecam, escurecem e vemos suas pétalas deixarem suas hastes e nossos braços.
Nossos abraços deixam de aquecer o corpo-solo, as nossas mãos não fertilizam mais carinhos, os nossos olhos não vislumbram mais o sol na manhã orvalhada.
Quando isso aconteceu? Foi da noite para o dia? Ou fui sendo envenenado pouco a pouco, minha alma a se desertificar até se tornar terreno pedregoso, ácido e impuro?
O que sei é que quando olhei ao redor só percebi padecimento e ignorância, violência e ódio, morte e desdém. Doenças e falsas crenças, o mal a grassar de graça — desgraça e trapaça — povo contra povo, o tentacular polvo do poder a provocar a confundir, a maldizer, a mentir, a matar…
Antes, eu conseguia proteger o meu jardim… Afastava predadores e pragas, me abrigava de palavras negativas, frequências de indecências em ultrajantes vagas dos corruptores do espírito… Conseguia ultrapassar as nuvens escuras de tenebrosas ameaças e ver a luz. Conseguia pôr a cabeça e respirar para fora do lamaçal — esgoto de merdas, merdinhas e merdaças.
Porém a luta insana me esgotou. Cansado, submergi sob a influência do homem mau — mitológico e orgulhoso representante do Medo e do Mal-feito. O meu amor me deixou e não consigo mais falar de amor — boca que se calou em campo de cultivo inóspito-asfaltado, rumor de lembrança boa, falta que magoa — dor fantasma de membro amputado…
Raul retornava de sua jornada pautada pelo refrão de “Telegrama”. Pela janela da casa antes da sua, era observado por Carla em seu primeiro dia de férias que imaginava, horas antes, ser para sempre. Raul passou pelo pequeno portão e antes de entrar, retirou a máscara, deixando que ela pudesse observar um homem bonito de barba longa e revolta, assim como os cabelos, pontuados por fios brancos. Devia ter a sua idade. Parecia sorrir. Ela não sabia, porém ele voltava de sua última parada, na Casa de Pães, onde esteve com Joaquim, um português da Província de Algarve, que viera já moço para o Brasil, a convite de um primo. Deixou as praias do Mediterrâneo rumo a cidade desconhecida e descomunal em tamanho e complexidade. Imediatamente, se apaixonou por São Paulo. Padeiro desde garoto, montou o negócio que começou pequeno, mas que cresceu bastante em prestígio a ponto de se tornar um ponto de degustação “gourmet”. Suas criações eram apreciadas por muitos que faziam questão de vir de todo lados da cidade para participarem dos lançamentos — um programa imperdível.
O caso de amor com os pães, tornou Raul um frequentador assíduo. O interesse em conhecer histórias e pessoas diferentes, o aproximou de Joaquim há alguns anos. Tornaram-se amigos. Este, vivia preocupado com “Rauzito”, continuamente cabisbaixo, açoitado que era por sua sensibilidade à flor da pele. Quando a Casa de Pães foi visitada por ele, pelo amigo de Raul e sua noiva, não gostou do jeito da moça, mais atenta ao outro rapaz que propriamente a ele. Quando foi deixado por Flor, foi Joaquim que o amparou. Fez questão de dividir algumas taças de vinho do Porto a portas fechadas com o amigo arrasado. Devido á amizade, Joaquim não se surpreendeu com o chamado de Raul a um dos balcões e sem dizer palavra, pegou a sua mão, a aproximou do peito e lhe desferiu um beijo estalado no rosto, ambos mascarados. Sabia que aquele gesto significava algo importante, ao qual explicaria quando pudesse.
É claro que entrar em casa e não encontrar Miau sentado em seu trono-sofá era sempre algo que o surpreendia como se a partida do amigo não tivesse acontecido. Mas sentiu que o vazio era compensado com o enorme amor que deu e recebeu durante mais de uma década. Ele o encontrou dentro da casa que acabara de alugar quando chegou de Bragança para dar aula na faculdade. O pequeno ser deve ter entrado por uma fresta da janela traseira que dava para um pequeno quintal. Devido ao muro alto, ele achou que o pequeno felino tenha sido jogado. Foi sua companhia desde então. Sequer viajava muito tempo para não o deixar só, o que exasperava Flor. O estranho é que tenha partido logo depois dela tê-lo deixado. Provavelmente não havia conexão, mas a sequência dos fatos, quase encavalados, foi demais para ele. Saudoso, se deitou no sofá forrado de lembranças em pelos de Miau e, como há muito tempo não acontecia, pegou no sono. Sonhou com o amigo sentado no braço de sofá de nuvens. Ele o olhou como da vez que perdera as forças para continuar vivo. Pediu para que atendesse a um pedido, a qual Raul respondeu: “Eu prometo!”…
Carla, ainda mais agora que o vira rapidamente, não tirava Raul da cabeça. Francisca ainda fazia o seu serviço, enquanto ela pesquisava pela Internet pessoas próximas com o nome de “Raul”. Francisca estranhou que estivesse tão calada. Todas as vezes que vinha, ela falava o tempo todo como se precisasse desabafar. Relatava as situações pelas quais passava, muitas das quais não compreendia. Sabia que só de a ouvir já ajudava àquela mulher tão complicada quanto bonita. Boa gente, sem dúvida, mas que devia ser um “pé no saco” de conviver, enquanto pensava nos homens que conhecia, os quais nem a deixavam completar uma frase inteira. A maior parte, só valia pela foda, aliás muitos, nem para isso. Poucas vezes vira a Carla (que fazia questão que a chamasse dessa forma) conversando com alguém no celular que não fosse para chorar e se dizer arrependida. Palavras entrecortadas por colossais lágrimas que banhavam seu lindo rosto.
— Ah, Francisca! Isso nunca me aconteceu antes, mas estou obcecada pelo vizinho do lado. Ele se chama Raul. Parece ser um fantasma. Não há nada parecido com o perfil dele nas redes sociais. Não tentei isso antes, mas já ouvi falar. Localização remota. Encontrei gente que eu conheço que nem sabia que morava por perto.
Sem citar que se suicidaria uma hora antes de sua chegada, que se deu antes do normal, Carla contou o que aconteceu anteriormente a Francisca surgir como um anjo salvador.
— Você não disse que ele voltou para a casa? Por que não chama o cara?
— Será que ele não achará uma intrusão?
— Quem se meteu na sua vida, foi ele! Conversa e veja se vale a pena investir…
Investir? Parecia que Francisca falava de uma transação financeira. De repente, Carla percebeu que ela fazia algo parecido — investimentos em possibilidades sempre acima das expectativas. Percebeu que buscava no outro a compensação por gastos emocionais que afundavam a relação mesmo antes de começar. Se deu conta que ela só teria “sucesso” se não sentisse necessidade de encaixar o outro ou a outra em suas necessidades. Não era o caso de se desvalorizar, mas pelo contrário — o de se sentir tão autônoma que não precisasse de outrem para se sustentar como pessoa. Por que temer ir conversar com o vizinho? Isso era ridículo para uma mulher que estaria morta se não fosse a intervenção de Raul.
O vizinho acordou com a campainha. O sonho com Miau, apesar das características estranhas, sentiu como se fosse real. Acordou em paz. Sabia que o amigo estava bem e que voltaria a encontrá-lo quando fosse o tempo, ainda que o nosso tempo não fosse o do plano no qual Miau estava. Foi até a porta e viu uma mulher usando máscara a chamá-lo no portão. Ela pediu que se aproximasse. Esquecido de que estava sem máscara, Raul caminhou pelo caminho de tijolos amarelos, até ficar a um metro dela.
— Oi, Raul, como está?
— Eu a conheço?
— Ah, desculpe! O meu nome é Carla! E você me salvou, hoje…
— Achando que ainda estivesse sonhando, Raul sorriu timidamente…
Ao perceber que tinha dito mais do que pensava em fazer e de maneira tão franca, Carla tirou a máscara.
— Sou a vizinha à esquerda. Você me deu bom dia, de manhã…
Sim, aquela era a bela vizinha que fez com que perdesse o rebolado, o empurrando em direção ao outro portão antes que ela dissesse algo. “Eu a teria salvado de que?” — pensou. Mergulhou no sonho como se fosse a realidade e respondeu:
— Não estou entendendo…
— Olha, perdão! Acho que falei demais!
— Não, não falou… Talvez você não acredite, mas lhe desejar bom dia, me salvou, também…
Carla estava definitivamente envolvida por aquele homem. Adulto, sim, mas ao mesmo tempo parecendo ser tão desprotegido quanto um menino.
— Este dia está sendo tão inesperado, ainda mais porque nem estaria o vivendo neste momento…
Tomado pela coragem de quem estaria morto, Raul perguntou se ela não gostaria de entrar. Carla aceitou, observada pela janela por Francisca, que exibia o seu maior sorriso, que torcia pela amiga…
Ao entrar na casa de Raul, Carla percebeu que era gêmea da sua em espaço interno, como devia ser a do Fábio, o outro vizinho. As três compunham um cenário de interior àquela rua movimentada de Santana. Poucos móveis, uma mesa central, com quatro cadeiras desarranjadas, uma velha televisão a um canto, um sofá de três lugares e outro junto à janela, ambos cheios de pelos de gato. Do lado do sofá menor, uma mesinha redonda com um frasco de tranquilizantes. Procurou pelo bichano e não o viu. Mesmo assim, perguntou:
— Como é o nome do gato?
— Miau… Conversei com ele um pouco antes de você me chamar. Mas ele não está mais aqui… Ele partiu há alguns dias…
Sem se importar com os tempos verbais divergentes, Carla percebeu, pela porta entreaberta, que a cama do quarto estava arrumada, enquanto o sofá apresentava uma depressão no formato de um corpo. Há um mês, desde que Flor o deixara, Raul não usava a cama de casal, que comprou justamente para o dois. Dormia com o gato no sofá. E, depois, sem ele…
— Quer uma água, suco? Tenho uma garrafinha do de laranja.
— Você teria vinho?
Carla não acreditava no que estava dizendo. Quem era aquela pessoa que tomou conta de seu corpo? Raul, da mesma maneira, se sentia perfeitamente à vontade como quase nunca acontecera antes. Parecia estar presente diante de uma velha amiga… ou de uma antiga namorada.
— Por acaso, se é que existe acaso, tenho um vinho do Porto, me dado por um amigo querido. Ele disse para que eu o tomasse numa ocasião especial. O que seria mais especial do que celebrar renascimentos?
Aquelas palavras impactantes, ditas tão naturalmente, deixaram os dois como que paralisados um diante do outro. Carla, que ao voltar colocá-la, ainda não havia retirado a máscara, mostrava os olhos fulgindo em faíscas. Raul se afastou relutante e se dirigiu até o armário da cozinha, de onde retirou o vinho. Ao lado, perfilavam exatamente duas taças. Alguns pratos e poucos copos completavam a composição que denunciava o ambiente de um homem sozinho, abandonado a si.
Raul puxou a mesinha redonda, a pôs em frente ao sofá, abriu o vinho, encheu as taças com a mão trêmula. Deixando-se levar por ondas de inebriamento em que o vinho apenas vinha a realçar, ele e Carla, tendo os seus quadris assentados sobre as lembranças de Miau, conversaram abertamente sobre tudo. Discorreram sobre gostos e gozos, música, teatro e cinema, percalços, avanços, retrocessos e estagnação no lodo humano no qual todos chafurdávamos. Viajaram para países que nunca viram, divagaram sobre a profundidade da existência e de como sofriam por verem como eram todos conduzidos para a insensatez coletiva, a ponto de não conseguirem lidar com aquela realidade. Descreveram todas as quedas dentro da queda no abismo, todos os desvios do caminho da lucidez, a extrema transparência de suas personalidades fragilizadas, os abraços sempre adiados com a morte, incluindo as mais recentes, que os uniu em vida. E se deliciaram em perceber como Zeca Baleiro os salvou, com “Telegrama”.
Enquanto conversavam, os seus corpos foram magneticamente se aproximando até estarem tão próximos que os hálitos se confundiram. Os olhares venceram os limites da retina e adentraram à alma de cada um, como se trocassem de matéria. Atendendo ao desejo da pele, desmascarados de artifícios, se desvestiram de seus casulos de proteção e se entregaram à pequena morte, intensamente. Mudaram de plano e se reconheceram suados, descabelados, untados de fluídos corporais. Sorriram um para o outro em bocas unidas. Só, então, Raul falou sobre a promessa que fez a Miau quando falou com ele, em sonho. Miau pediu para que deixasse o coração aberto para a vida.
— O meu amigo sabia de sua chegada, Carla…
Deixaram cair lágrimas de agradecimento ao Todo. Tarde da noite, exaustos, adormeceram abraçados.
Quando Raul acordou, o trânsito na rua já começava a se intensificar. Carla não estava. Tomou um banho, se vestiu rapidamente com um agasalho de corrida e saiu, ansioso para chamar a vizinha e lhe dar bom dia. Em sua porta estava pendurado, colado com adesivo um papel que dizia:
“Telegrama
Nego, sinta-se feliz Porque no mundo tem alguém que diz Que muito te ama Que tanto te ama Que muito, muito te ama Que tanto te ama”.
Raul se sentiu um homem em sua plenitude. Não chegou a dar volta até o portão e nem apertou a campainha. Pulou a mureta que separava as duas frentes e bateu à porta de Carla. Em pouco tempo, surgiu a mulher que achou ainda mais linda do que antes. O sol matutino incidia sobre seus olhos e boca, irradiando alegria para toda a Santana. Raul esticou o braço em sua direção:
Hoje, aniversario. Completo 59 anos desde que vim à luz do Sol. Não queria sair do conforto do mundo em que vivia — quente líquido em que me banhava e me alimentava de amor. Estava invertido, brincando de percorrer o meu espaço. Após ao procedimento da fórceps, fiquei em uma incubadora por alguns dias. Bem cedo, o menino que fui preferia ficar a um canto desenhando ou vendo TV. Após me alfabetizar, “perdia” horas lendo qualquer coisa que caía em minhas mãos. O futebol era a única coisa que me salvava de ficar parado-isolado. Por essas e por outras, por anos a fio, o meu pai dizia que eu era tão preguiçoso que até nascera sentado. Homem de natural talento manual, ele não compreendia a minha incapacidade nesse campo, excetuando desenhar e fazer pequenas esculturas em barro. Dizia que prendia as coisas com barbante e colava com cuspe. Se fui assim tão sarcástico com vocês, minhas filhas, me perdoem.
Até os 12 anos, eu era impetuoso e brigão. Na dura vida de menino que não era muito grande, nos entreveros com os outros garotos, batia primeiro e perguntava depois. Quando mudei de escola e de iniciei novos relacionamentos pessoais, decidi mudar a minha atitude de impor respeito pela violência, herança indireta do Sr. Ortega na minha criação. Comecei a tentar empreender o caminho inverso. Se quisesse ganhar o respeito de alguém, não seria pela força. Ao mesmo tempo, iniciei um processo de internalização quase irreversível. Quase que paralelamente, fui ficando cada vez mais míope e a minha personalidade ganhou óculos.
Ainda que tenha sido batizado e feito a Primeira Comunhão, não abracei o catolicismo. Após uma fase ateísta, me tornei franciscano. Sei que São Francisco me permitiria essa rebeldia. Ele mesmo se rebelou contra o que era imposto como regramentos que o impediam de vivenciar o que o seu coração mandava. Homem do mundo, foi transformado pelas experiências do mundo. A violência, a fome, a precariedade da vida, todas essas facetas vividas enquanto servia em uma das guerras de ocasião, o transformaram. O herdeiro de família rica, começou a se conectar consigo mesmo, a se abrir para as coisas tangíveis e intangíveis, a ouvir vozes interiores e exteriores — expressões para quais normalmente fechamos os sentidos d’alma, ainda mais quando estamos embotados pela materialidade. Francisco teve coragem para empreender a viagem mais árdua, àquela que quando se inicia, não há volta — ser pequeno.
Um dia, pensei em seguir o seu caminho. Desejei seguir os mandamentos da Igreja para tal percurso. Fiquei dois anos sob orientação. Cheguei a visitar um seminário franciscano que me influenciou de maneira decisiva. Gostei do ambiente, dos estudantes, dos objetivos propostos, mas… ainda mantinha dúvidas sobre qual sentido seguir. Lá mesmo, em um canto dos muitos corredores do prédio, estava uma maquete que mostrava os vários caminhos para chegar a Deus. Um desses caminhos era a formação de família.
Eu tinha 26 anos e desde os 16 havia enveredado por uma profunda religiosidade, que não respeitava limites doutrinários. Estudei o Cristianismo, o Maometismo, o Hinduísmo, o Budismo, as demais filosofias orientais, as crenças africanas e tudo mais que dissesse respeito à transcendência do corpo e proeminência do espírito. Constituí uma amálgama de crenças que só fazia sentido para mim. O que fizesse o meu coração bater mais forte, a isso eu me identificava. Percebi que a Verdade tem muitas facetas, tal qual um diamante que reflete uma luz diferente a depender da forma que a luz o toca.
Naquela altura da minha vida, eu estava dividido entre a vida monástica e o conhecimento do mundo que havia rejeitado até então — a familiar. Sabia que enfrentaria grandes obstáculos para manter o controle sobre a minha sanidade ao escolher tanto um quanto outro caminho. Hoje, depois de estabelecer uma profissão, conhecer a minha companheira, Tânia; conceber as minhas três filhas — Romy, Ingrid e Lívia — construir uma casa, cuidar de cães, passarinhos e plantas – formei um lar.
É um desafio constante manter o equilíbrio entre tantas demandas pessoais, profissionais e a paixão pela escrita, mas creio que tenho caminhado cada vez mais para dentro de mim na senda do autoconhecimento e para fora do meu próprio corpo, agregando pessoas em meu entorno. É como voltar da guerra todos os dias e me metamorfosear. Sei que sou, fundamentalmente, um franciscano em meu procedimento. Desde que ouvi o chamado de Francisco de Assis, nunca deixei de ser, idealmente, um frade menor sem hábito…
Eu não acredito em alma gêmea. Ou melhor, não acredito que a nossa vida deva se fundamentar na busca de alguém com a qual venhamos a se identificar a tal ponto que nos dê prazer apenas por ser igual a nós. Considero que isso seja uma espécie de masturbação. Eu acredito no crescimento mútuo das pessoas pelo embate de ideias, pela diversidade de sentimentos, pela diferença de posturas, pelo confronto de mundos. Eu acredito tanto nisso que me permito ser o outro, vez ou outra. Cada vez mais… Chamaria isso de compaixão – quando nos colocamos completamente na situação que o outro ser está vivendo. Essa viagem para outro é perigosa, conquanto não tenhamos certeza total de quem sejamos (se é que a temos alguma vez). Enfim, essa transitoriedade deve ser buscada com cuidado para que não nos percamos no caminho.
Em uma brincadeira interna da Scenarium Plural, chamam de “Eu Lírico” o empreendimento de ser outros. Eu, meio que cainho de paraquedas, sugeri que seria igualmente um “Eu Rico”. Graças a essa a personalidade lírica, podemos cometer pecados, dentro da escrita, buscar experiências, fazer quase uma peregrinação extracorpórea para construir histórias nas quais viajamos. Assim é quando escrevo. É comum eu me colocar no lugar de alguém que permite se apaixonar na caça de outra pessoa com a qual se identifique.
Passo por altos e baixos em minha própria auto avaliação, mas creio que tenha um ponto fulcral, uma linha mestra que me conduz que me permita dizer: “esse sou eu”. E esse ser não consentiria ferir quem quer que fosse ao buscar aventuras para, um dia, se comprazer em se encontrar, ele mesmo, em outra pessoa. No entanto, aceito igualmente a possibilidade de que o indivíduo acredite que isso seja possível e tente empreender esse encontro. Eu me vigio em minha prisão ética, mas não quero deitar normas para o amor. Liberdade para os amores!
Há, dentro de mim, uma briga Momentos em que o meu coração grita Debate-se dentro do peito Com o pulmão se atrita Rebela-se contra os órgãos que abastece de sangue Autoritário, tenta impor as suas certezas Rumar contra as correntezas Chega a sugerir que sonhe a mente Mente que não aguentará outras aventuras Que sofrerá com outra aversão Confia na sua característica demente A da mente que se engana facilmente Porque sabe que ela não se exprime Para além dos sentidos Aprecia pela visão Enternece-se pelo som Subjuga-se pelo toque Submete-se pelo gosto É uma mente limitada Ao mundo que apreende pelas demandas do corpo Porque é mais simples buscar o sentido de tudo Pela experiência sensorial? Onde está a minha alma, Que não assume a posição de senhora? A tentar reencontrar a consciência perdida Pelas vidas afora A cada manhã e aurora De mim, para mim Amém?