Michelle Pfeiffer (Lea De Lonval) & Rupert Friend (Chéri), em Chéri, de Stephen Frears
Eu era moço Ela, uma senhora E senhora de si Se enamorou de mim… Logo, me buscou E, nela, me encontrei E com ela aprendi a ser Senhor de mim…
Aprendi a abrir portas A usar a língua Para falar e amar Aprendi a amá-la…
E, através dela Amei a todas as mulheres Amei as feias e as belas As fortes e as frágeis As boas e as más As sãs e as loucas Amei muitas e muito Todas, nela…
Certo dia, ela me deixou Sentiu que fosse a hora Porém, nunca saiu de mim Ela me fez um homem Que ama mulheres Que ama amá-las Que a ama eternamente Nelas…
Eu quero ser lido, mas jamais decifrado… Eu quero ser saboreado, mas nunca perder o gosto… Eu quero ser rio manso para ser navegado e mar revolto que afunda embarcações… Quando me mostrar indômito, buscarei a comunhão… Quando estiver sereno, quero causar perturbação dos sentidos e dos sentimentos… Quero ser seu e emancipado de mim, quando estiver consigo… Barco jamais ancorado, conduzir e ser conduzido… Navegar e amar…
O meu amor gosta de Bukowski e eu amo Augusto dos Anjos. Se Augusto dos Anjos tivesse sido influenciado por Bukowski, talvez não tivesse existido o poeta como o conheço. O preto, se se conformasse em se ater ao seu destino proclamado — marginal, apesar de ser maioria, palavra difícil de ser decifrada em meio a vocábulos fáceis de serem compreendidos, não chegaria a mim — menino da periferia — que me encantava com a palavra complexa que feria.
Se abraçasse o enunciado do americano — bêbado que vomitava durezas de descrente, leoninamente egoico, dogmaticamente estoico, adepto da simplicidade de expressão — não seria grande além do tempo, o paraibano. Dos Anjos era palavra quase inacessível. Fosse fiel às prisões do imediato e do lugar, se filiaria a obviedade e ao possível.
O americano, necessário, porém perplexo, o paraibano, imprescindível, contudo sem aparente nexo, não se confrontam em meu coração, que eu sinta. Um, eu leio e deixo minha rebeldia extemporânea satisfeita. Outro, eu leio a mim e me encontro incompleto, a tentar alcançar lonjuras. O ébrio, ainda que espalhafatoso, morreu velho. O professor que era poeta, morreu aos 30. Não se encontraram a não ser diante dos meus olhos — os versos de um embriagam e me deixam de porre, os do outro suplantam meu corpo e dilaceram minh’alma. Bukowski, brincava com o perigo de existir. Dos Anjos, fazia de companhia a morte que não o enlutava, mas celebrava.
Bukowski, foi ele. Dos Anjos, sou Eu. Enquanto que o egoísta não quis mostrar a ninguém o pássaro azul no peito, o centrado revelou a “frialdade inorgânica da terra”. Enquanto um soltou crônicas de amor louco em ereções, ejaculações e exibicionismos, sendo incensado; o outro, incompreendido em seu tempo, renegou a religião como resposta e proclamou que ninguém doma o coração de um poeta — sendo amaldiçoado.
Sou palavra difícil. É compreensível que não possa ser entendido. Mas acho triste não ser lido ou ouvido por quem diz me amar. Começo a duvidar da minha expressão. Não deveria me derramar? Deveria ser prosaico ou antes, calado? Ao me revelar, deverei ser contido? Deverei reverberar a palavra fácil, complacente? Erradicar a minha fala de estranha vertente? Ser Bukowski e seguir a inóspita franqueza? Ou ser Dos Anjos e violentar meu cotidiano dos termos óbvios e tiranos? A única simplicidade a qual me rendo é dizer que a amo e disso não me arrependo…
O dia começa quando ela desperta.
O sol irradia luz para clarear o seu caminho.
Decide seus passos à revelia dos obstáculos.
As portas se abrem quando ela se aproxima.
Os espelhos disputam o seu reflexo quando ela passa.
A festa acontece quando ela aparece.
O DJ toca as suas músicas preferidas.
Na dança, ela comanda a coreografia.
Mares e brisas de mil anos contam segredos
quando pede que seu amor se entregue.
Quando nasceu, aceitou nascer todos os dias
em partos dolorosos,
pelo poder de viver mínimas alegrias,
poucos momentos de paz e prazer,
riso, paixão e nexo.
Por isso, vive…
Por que tudo é assim?
Esse é um enigma que não desvendei.
A resposta, não sei.
Não saberia, ainda que fosse o rei.
Ainda que percebesse o contexto.
Escritor, queria escrever outro texto
que pudesse mudar o destino,
arquitetar outro roteiro.
Queria que ela vivesse à larga,
bebesse o vinho tinto da melhor safra,
a caipirinha da mais apurada cachaça.
Ainda que não fosse alguém que ela amasse,
que eu não fosse feito de carne, mas de doce cassis.
Que meu corpo não tivesse ossos, mas giz.
Que eu estivesse em outro país
ou que não a tocasse por um triz,
que não apreciasse seu perfume pelo nariz
ou que ela viesse de outra raiz,
queria ver alterada a diretriz.
Que pudesse escolher entre ser o condenado ou o juiz,
cumprir a dura pena ou decidir que ela fosse, apenas, feliz…
Já que não tenho como a proteger
da necessária passagem do tempo e do sofrer,
me resta somente lhe perguntar:
de que maneira eu melhor posso lhe amar?
O primeiro amor pode ser o definitivo…
O último amor pode ser o definitivo…
Entre o primeiro e o último amor
poderá haver o amor definitivo…
Quaisquer amores,
imensos ou menores,
são definidores…
Importante é amar…
Definitivamente,
bem aventurados
os que amam…