B.E.D.A. / A Grande Periferia

Depois de meses, voltei a me locomover por ônibus. Readquiri a condição de voyer da vida externa para além dos muros da cidadela periférica onde vivo. Em caminhadas na minha região, ao olhar mais de perto expressões da discrepância entre riqueza e pobreza, passei a valorizar muito mais a facetas variantes desta última por suas soluções arquitetônicas criativas. Em vez de feiura, juro que cheguei a ver beleza.

Sei que, se pudessem, os moradores de residências mais simples e improvisadas, prefeririam viver em uma casa padrão, sem se socorrerem de gambiarras claudicantes. A minha admiração pela força vital que demonstram, no entanto, não deixa de se manifestar. Fico a imaginar o quanto não faríamos como Povo, se nos fosse disponibilizadas as condições básicas para que progredíssemos na caminhada para a plena cidadania.

Porém, sei que não é desejo da Dona Zelite que assim seja. O projeto desde sempre foi o de cercear o desenvolvimento de nossas capacidades, subjugar o populacho que ousa buscar ascender. É como se houvesse a crença de que a riqueza sendo “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Ou porque não se suporte a ideia de igualdade entre as gentes, pura e simplesmente.

Sem querer me alongar nessa eterna discussão, o que observei é que a Periferia se expandiu. Imagens de catadores de recicláveis e lixo, tendas de lona ou mini barracos em praças, vendedores ambulantes de panos e doces nos semáforos se multiplicaram.

Um senhor com um carrinho de supermercado, recolhia o que podia nas lixeiras feito gôndolas. Acho que buscava o que comer. Contrastava com os tênis largos em seus pés e a calça puída, o paletó antigo que vestia, surpreendentemente conservado e limpo. Talvez guardasse em seus bolsos os últimos resquícios de esperança. O seu andar era firme e digno. Eu me senti tão pobre… 

Participam do B.E.D.A.:

Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Darlene Regina / Cláudia Leonardi / Adriana Aneli

BEDA / Pescador

PESCADOR

Estou junto ao mar, na praia, em veraneio. Estou retirado do resto da família, a terminar o projeto do meu livro de crônicas¹ que deverá ser lançado pela Scenarium, em março². Cheguei cedo, antes do aumento do movimento prometido para este sábado de sol. À beira d’água, pescadores amadores ainda posicionam as suas varas antes da maior afluência de banhistas.

Pouco a pouco, a areia vem a ser ocupada por coloridos guarda-sóis e brancas tendas, erguidas por turistas de tez coloridas, constituídas por vários tons de branco (como o branco-escritório, por exemplo) e outras colorações.

À minha frente, um alegre grupo de senhoras jovens há mais tempo fazem uma inaudita algazarra. Parecem meninas a sacanear umas às outras o tempo todo. “Olha o salva-vidas! Que lindo! Vem me salvar meu bem! Quero respiração boca a boca!” – Todas riem…

Um pouco mais à direita, duas pequenas gêmeas, de presumíveis três anos de idade, reagem quase ao mesmo tempo e do mesmo modo aos mesmos estímulos. Ao ouvirem as músicas que vem do palco onde se apresentam instrutores de dança, fazem a coreografia em simetria. Gritam em uníssono ao verem os super-heróis: “Olha o Batman! O Homem-de-Ferro! O Homem-Aranha!” – Não sei se perceberam que não são os originais, muito diferentes em tamanhos e formas físicas daqueles. Também devem achar perfeitamente natural que estejam a vender algodão-doce. À passagem de um Batman mais parrudo, as senhoras festeiras pedem para tirar fotos com o “defensor da justiça”. Ele não vende o seu produto, mas ganha cachê por isso.

Vejo passar mais vendedores ambulantes, a pé e com carrinhos; catadores de latas de alumínios e outros a percorrerem as mesmas trilhas desenhadas por pequenos tridentes – marcas das patinhas das centenas de pombas que recolhem restos alimentares. Eu já desconfiava, mas fiz um teste. Joguei perto de mim um pequeno pedaço de maçã, justamente a parte central, que contém as sementes. O pedacinho de fruta foi ignorada solenemente por todas as pombas que se aproximaram do petisco. Tanto quanto os humanos, elas parecem preferir junk food.

Vez ou outra, passam acima da linha d’água aviões com propagandas em longas faixas. Não deixei de me perguntar se esse era o sonho do garoto que um dia queria ser aviador a se cumprir – realizar viagens de trajetos tão curtos quanto repetitivos, em uma rotina de voar em rumo certo.

A intervalos regulares, vou para a água, ao encontro às ondas, íntimo do mar, a brincar com aquele elemento. Às vezes, deito de bruços no raso, a esperar as ondas chegarem, como fazia quando tinha a idade de várias outras crianças que fazem o mesmo que eu, ao meu redor. Chego a perder a noção do tempo…

Na volta do meu penúltimo mergulho, antes do momento que escrevo esta crônica, não encontrei o meu guarda-sol e minha cadeira sob ele. Fui até a tenda-móvel do Paulo, onde tenho comprado as águas de coco e sucos que tomo eventualmente. O Arles me indicou um ponto à frente dele, para onde deslocaram o meu acampamento. Um grupo bem grande quis aportar junto a uns amigos e, dada a intimidade adquirida durante a semana que estou por aqui, trocaram a minha posição de lugar. Acostumado com situações estranhas causadas pela miopia e pelo alheamento em diversas situações, brinquei com o pessoal que quase não estranhei que não estava onde deveria estar. Estou acostumado a me sentir deslocado.

Por sorte, antes do meu translado, pude capturar mais um peixe. Quando me estirei na cadeira, com os óculos escuros no rosto, pude acalmar os meus sentidos e, excepcionalmente senti diminuir o volume da massa sonora que me açoitava por todos os lados. Atrás de mim, já havia visto um casal de namorados, quase a encostar os pés na minha sombra. Conversavam em um tom baixo, mas os meus ouvidos puderam ouvir o que diziam. Eles eram amantes (vim a saber), casados com outras pessoas. Eles me entregaram uma história quase pronta – Os Outros. Escrevi uma variação que não entrega ninguém. Ou, por outra, pode vir a entregar muitos amantes…
¹https-scenariumlivrosartesanais-wordpress-com-2017-03-10-realidade
²Escrita em Janeiro de 2017

Estátua Viva

Saio de dentro da terra à luz destes últimos dias de verão, tendo a Igreja e o Mosteiro de São Bento à frente. Caminho pelo Viaduto Santa Efigênia em direção à igreja do mesmo nome que, durante o tempo do erguimento das paredes da Catedral da Sé, se tornou o principal centro católico da cidade. Durante o trajeto, de um lado e de outro, admiro a selvageria motriz do Vale do Anhangabaú, enquanto ambulantes, músicos e outros artistas da sobrevivência brincam de esconde-esconde com a chuva e o sol sobre o piso erguido no ar.

Nas primeiras lojas da rua encontro o que necessito e retorno. Entre os itens eletrônicos, me encanto e compro um guarda-chuva-arco-íris. Porém, logo que saio da loja, o sol está à pino. O que dura dois minutos, se tanto, e meu adereço colorido se mostra útil. Na minha passagem de volta, avisto uma estátua viva quase ao mesmo tempo que volta a chover. Como a observo fixamente, ela deve imaginar que faria alguma contribuição e aguenta os pesados pingos. Passo direto. A chuva aumenta. Arrependido, olho para trás e vejo a estátua se cobrir com uma capa plástica, enquanto estou protegido por meu arco-íris particular.

Passo rapidamente pela 25 de Março, compro o que desejo e faço uma incursão pelas ruas em torno da região da Sé. Busco o passado presente em pedra – formas em paredes, portas e janelas, gente e estátuas “reais”. Um contrassenso em si, já que estar vivo em carne e osso é algo tão real quanto estar vivo na eternidade em bronze, como José de Anchieta, na Praça da Sé. Muitos transeuntes caminham alheios a um dos fundadores de São Paulo. Em contraponto, um contingente grande de pessoas permanece imóvel, sentadas ou em pé, como se fossem comentários ao monumento onde se faz alusão ao seu trabalho de evangelizador. “Apóstolo do Brasil”, o jesuíta fez, de consciência limpa, o que considerava correto – catequizar os gentios da terra. Ainda assim, teria feito a coisa certa ao tentar incutir sua fé baseada na culpa e no arrependimento do pecado original em pessoas livres desses grilhões?

Caminho entre ruas de passos antigos enquanto novos seres repassam velhas angústias. Ainda assim, vejo a cidade sorrir na boca de jovens esperançosos de sonhos imediatos que não se cumprirão. Na parte final de minha caminhada, passo pelo Largo de São Francisco, onde décadas antes cortejei a vida franciscana com o uso do hábito. Mesmo sem ele, ainda tento me orientar pela palavra do Homem de Assis. Atravesso o Viaduto do Chá em direção à Praça Ramos, do belo Teatro Municipal – mais uma travessia sobre o vale do canalizado “anhanga-ba-y” – rio dos malefícios do diabo. Os naturais da terra acreditavam que as águas do Anhangabaú provocavam doenças físicas e espirituais…

Em frente ao antigo Mappim, cachorros de moradores de rua apresentam aquela confiança de quem se sente amado, apesar do estilo de vida precário de seus cuidadores, espalhados pelo Calçadão. Encontro Lobo, um “cão coletivo”, grande, enfeitado com “chokers” e adereços no pescoço livre de amarras, doce como um cordeiro. Paro e olho em seus olhos. Deve ter identificado minha empatia. Vem em minha direção e se oferece às minhas carícias, que faço sem medo.

Afortunadamente, reencontro a estátua que se recolocou em frente da passagem subterrânea desativada ao lado do Shopping Light. Posso finalmente contribuir com a sua arte estática. Em sinal de gratidão, a estátua move o braço e indica uma caixinha com pedras sintéticas a seus pés. Apanho uma delas – sinal de gratidão. A vida se revela uma metáfora em fantasia em concreto e plástico – marca a carne viva de nossos corpos que envelhecem passo a passo na cidade que consumimos em movimento – enquanto ela nos consome engessados em nós mesmos…