O Ar

Quantas montanhas tiveste que escalar

Para chegar até aqui e agora, neste patamar?

Por quantos vales tiveste que passar?

Por quanta lama tiveste que chafurdar?

Quantas mentiras tiveste que revelar?

Quantas verdades tiveste que relevar?

Quanto amor tiveste que reivindicar?

Quanto amor tiveste que recusar?

Para ser o que és, quanto ódio tiveste que provocar?

Quanto ódio tiveste que aceitar?

Quantas vezes pintaste a boca de carmim para beijar?

Quanta boca carmim procuraste para borrar?

Quantas vezes tiveste o bom senso de evitar

O desejo que te condenaria ao eterno regurgitar?

Quantas vezes tiveste a loucura de se entregar

Ao fogo que te salvaria do instante perpétuo de amar?

Quanto ar tiveste que respirar

Para simplesmente, no fim, o expirar?

Por Cem*

Apesar de saber que a vida é feita de porcentagens — somos 70% água, 10% meia calabresa, meia atum, mais ou menos e, por aí, vai — hoje, eu me irritei quando alguém citou, sobre determinada situação, a porcentagem de 99,9% como provável.

Por algum motivo obscuro para mim, como já que proclamei em certa ocasião, sou um digno representante do “Talvez“, acordei a querer ter certezas. Queria para o resto do dia que tudo se definisse 100%. Queria a absoluta convicção, sem a intermediação de advogados a citar contestações em latim: data venia

Queria a fé dos quem erram com perfeição:

“São bandidos, sim!”

“São pessoas corretas, com certeza!”

“Não é amor, é apenas paixão!”

“Droga não faz bem, ainda que recreativa!”

“A minha vida é uma droga!”

“Sou feliz prá caraleo!”

“Você é uma besta, mas eu o amo!”

“Eu adoro arroz e feijão, tanto quanto odeio bacalhau!”

Não queria cores intermediárias nem o cinza, mas o preto e o branco perfeitos. Queria saber para onde estou indo e para onde vou. Queria saber quem sou eu. Queria amar e o amor sem dúvidas. Queria ter a certeza de que todos morremos para as outras certezas da vida… pelo menos, por hoje.

*Texto de 2017

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Caixa De Fotos

Retirei da minha Caixa De Fotos, registros com os companheiros da espécie Canis, tão especiais que não sabemos se seríamos como somos se não fizessem parte de nossa história. O que sei é que somos melhores por eles e com eles.

2024

Bethânia é daquelas que quando está dentro, quer sair. E quando está fora, quer entrar. Atenta a tudo ao seu redor, orelhas levantadas para captar sons para nós inaudíveis; olhos em direção ao objeto de interesse, ela gosta de latir para o mundo, por puro gosto e direito de expressão.

2023

Lolla Maria é tão pequena quanto possessiva, ela inteira. Sobrevivente de percalços que apenas supomos, antes de seu encontro com a Família Ortega, quando a sua mãe tem que se ausentar, já procura quem estiver em casa para se aproximar e alcançar recompensas.

2022

Bambino, meu neto, vivia entre mulheres que não perdiam a oportunidade de acarinhá-lo a todo momento. Quando estava comigo, não queria outra coisa senão cafunés e passa mãos.

2013

Esse amor chama-se também Penélope. Enquanto esteve fisicamente presente, só despertou os melhores sentimentos em todos os seres que a rodearam. Como uma estrela, em torno de si agregava amigos-planetas. Não sei quando deixou de estar entre nós, porque nunca percebemos que nos deixou.

2012

Essa é Dominique. Ela entendia o que eu falava e tinha como principal talento responder com os olhos. Expressivos e belos, quando chegou a nós, estava sem metade dos pelos, pintava de verde, para a diversão de brutos. É outro ser especial que fez nossa existência mais rica.

BEDA / Penetrante

Quando, pela noite adentro, eu a penetro
Não sou eu, nem de longe, nem de perto
Eu sou outros, eu sou diversos, eu sou forte
É meu tempo, é cedo, é tarde, eu sou a morte

No corpo dela, eu me recordo, eu me visito
Estou em meu espaço, eu gozo, eu grito
Também sou eu, sou dela, eu suo, eu me sujo
É um mundo de pureza para qual eu fujo

Assim, eu, ser penetrante pela noite escura
Busco de peito aberto, a minha sorte futura
Por mim, para mim, com ela, por ela, para ela
Para, juntos, amarmos em realidade paralela…

Foto por Adalat Naghiyev em Pexels.com

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.

Love

Onde eu estava trabalhando, encontrei o amor. Durante o dia, lá estava ele em letras grandes o suficiente para serem notadas. Algumas pessoas buscavam fazer registro junto ao amor encontrado assim, tão resolutamente visível, estável, “instragamável”, amável. O céu nublado, arrefecia o calor deste verão, mas sabemos que o amor resistiria se viesse uma chuva um pouco mais forte ou mesmo uma tempestade. Acontece. Mas é um tanto raro. Normalmente, há pessoas que fogem do amor à primeira garoa. Imaginam um mundo em que o amor não sofrerá percalços, não enfrentará mau tempo, que permanecerá incorruptível à passagem do tempo. Que viverá ileso às atrações do circo da vida, com trapezistas, palhaços, mágicos, equilibristas, bailarinas a exercerem à sua arte de seduzir. Porém, isso não impedirá que o amor continue sendo ofertado a você, além do outro. Na estrutura de exclusividade, ditado por um sistema que preconiza estabilidade empregatícia numa união dita romântica, as confusões costumam trazer dissabores por contrariar à “lógica” da posse. Por isso, buscam acordar mediante documentos oficiais que assim será. E o meu trabalho é festejar esse momento de juras e promessas, que apenas tem sentido no momento que são proferidas. Depois, anoitecerá. Mas a boa notícia é que, muitas vezes, o amor brilha no escuro, noite alta, com estrelas no céu (quase) aberto…