Retirei da minha Caixa De Fotos, registros com os companheiros da espécie Canis, tão especiais que não sabemos se seríamos como somos se não fizessem parte de nossa história. O que sei é que somos melhores por eles e com eles.
2024
Bethânia é daquelas que quando está dentro, quer sair. E quando está fora, quer entrar. Atenta a tudo ao seu redor, orelhas levantadas para captar sons para nós inaudíveis; olhos em direção ao objeto de interesse, ela gosta de latir para o mundo, por puro gosto e direito de expressão.
2023
Lolla Maria é tão pequena quanto possessiva, ela inteira. Sobrevivente de percalços que apenas supomos, antes de seu encontro com a FamíliaOrtega, quando a sua mãe tem que se ausentar, já procura quem estiver em casa para se aproximar e alcançar recompensas.
2022
Bambino, meu neto, vivia entre mulheres que não perdiam a oportunidade de acarinhá-lo a todo momento. Quando estava comigo, não queria outra coisa senão cafunés e passa mãos.
2013
Esse amor chama-se também Penélope. Enquanto esteve fisicamente presente, só despertou os melhores sentimentos em todos os seres que a rodearam. Como uma estrela, em torno de si agregava amigos-planetas. Não sei quando deixou de estar entre nós, porque nunca percebemos que nos deixou.
2012
Essa é Dominique. Ela entendia o que eu falava e tinha como principal talento responder com os olhos. Expressivos e belos, quando chegou a nós, estava sem metade dos pelos, pintava de verde, para a diversão de brutos. É outro ser especial que fez nossa existência mais rica.
Quando, pela noite adentro, eu a penetro Não sou eu, nem de longe, nem de perto Eu sou outros, eu sou diversos, eu sou forte É meu tempo, é cedo, é tarde, eu sou a morte
No corpo dela, eu me recordo, eu me visito Estou em meu espaço, eu gozo, eu grito Também sou eu, sou dela, eu suo, eu me sujo É um mundo de pureza para qual eu fujo
Assim, eu, ser penetrante pela noite escura Busco de peito aberto, a minha sorte futura Por mim, para mim, com ela, por ela, para ela Para, juntos, amarmos em realidade paralela…
Onde eu estava trabalhando, encontrei o amor. Durante o dia, lá estava ele em letras grandes o suficiente para serem notadas. Algumas pessoas buscavam fazer registro junto ao amor encontrado assim, tão resolutamente visível, estável, “instragamável”, amável. O céu nublado, arrefecia o calor deste verão, mas sabemos que o amor resistiria se viesse uma chuva um pouco mais forte ou mesmo uma tempestade. Acontece. Mas é um tanto raro. Normalmente, há pessoas que fogem do amor à primeira garoa. Imaginam um mundo em que o amor não sofrerá percalços, não enfrentará mau tempo, que permanecerá incorruptível à passagem do tempo. Que viverá ileso às atrações do circo da vida, com trapezistas, palhaços, mágicos, equilibristas, bailarinas a exercerem à sua arte de seduzir. Porém, isso não impedirá que o amor continue sendo ofertado a você, além do outro. Na estrutura de exclusividade, ditado por um sistema que preconiza estabilidade empregatícia numa união dita romântica, as confusões costumam trazer dissabores por contrariar à “lógica” da posse. Por isso, buscam acordar mediante documentos oficiais que assim será. E o meu trabalho é festejar esse momento de juras e promessas, que apenas tem sentido no momento que são proferidas. Depois, anoitecerá. Mas a boa notícia é que, muitas vezes, o amor brilha no escuro, noite alta, com estrelas no céu (quase) aberto…
há crenças mesmo para quem não crê em nada o que já é uma crença há quem acredite de acaso no amor que se transforma em caso quando o encontro se dá há quem não acredite no amor seria uma série de episódios esparsos envolvendo sinais ações visões versões de fatos afeições transitórias e fátuas os corpos não ajudam atrapalham quando se tocam reagem quimicamente os pelos se eriçam as peles se pelam de calor fulgor de fogo paixão querência desejo falta versus falta a se completarem as bocas respondem as línguas caladas mas ativas os sexos a buscarem satisfação os sentidos em explosão busca de sentido que perde sentido e direção as horas se perdem dos ponteiros não creio em acaso mas nele boto fé os dados sendo jogados à revelia de nossa sofreguidão se encontrando em linhas de aparentes paralelas contra todos os prognósticos dois corações começam a bater no mesmo ritmo desenfreado concorrendo para que um instante se torne eterno marcando memórias recorrentes mesmo que apartadas no tempo e no espaço viver é viver de lembranças encontros desencontros o amor um caso de acaso criado pelo destino de nossos egos tontos…
Na imagem, atrás da Bethânia, quase despercebida, a carinha da Indie, que foi doada.
Ciúme, o seu nome é Maria Bethânia. Quando começo a acarinhar as outras, ela logo se põe a protestar veemente. Chega a morder a minha mão e atacar fisicamente as demais do grupo, não importando os tamanhos dos alvos, diante de sua contrariedade desmedida.
Quando quero chamar a sua atenção ou quando a chamo e ela não me atende imediatamente, uso sempre o expediente de passar a mão pelas cabeças das amigas, o que é suficiente para transformá-las em oponentes, vindo em nossa direção, a enfrentá-las, ainda que saiba que são maiores e mais fortes do que ela.
De onde deriva esse ciúme, afinal? Sou aquele que não deve dividir a minha dedicação e zelo com mais ninguém? Ela se sente minha proprietária? Um sentido de territorialidade natural exacerbada talvez explicasse a sua reação, no entanto, o seu cuidado não se estende tão fortemente à sua cama nem ao pote de comida, aliás, quase nada.
A contrariar o fato aceito de que somos a nós a possuí-los (a determinar-lhes o destino), quem decide levar a cabo os melhores cuidados a esses seres especiais, sabe que somos nós a sermos possuídos por eles. Será que chegam a ter consciência que seja um pecado sério dispensar atenção a mais alguém além deles, da família dos canídeos e de outros seres humanos?
O meu desejo de expressar em palavras as minhas suposições foi motivada por um episódio. Quando fui à casa da minha irmã, que mora ao lado, logo na entrada acarinhei a Vitória e a Dominique. Qual não foi a minha surpresa ao ouvir um latido lastimoso vindo da minha varanda. Lá estava a Bethânia, a demonstrar o seu desacordo em relação à minha afetividade por aquelas que conheço há anos. O seu olhar era quase desesperado. As suas orelhas eriçadas quase tocavam o céu!
MariaBethânia foi resgatada da rua por uma das minhas filhas humanas a pedido da minha companheira, Tânia. Em direção ao trabalho, ela a viu a correr sem rumo por nossa vizinhança e quase entrar debaixo de seu carro, condoeu-se de sua condição. Era um sentimento novo para ela, que nunca foi tão achegada aos cães. A experiência de acompanhar a Dorô em sua jornada de combate ao câncer que finalmente a vitimou, lhe trouxe a inesperada percepção da nossa imensa conexão com esses seres únicos.
O meu interesse pela origem do ciúme de MariaBethânia é quase antropológico – no sentido que o cão é um ser que tem, ao longo dos tempos, adquirido comportamentos assemelhados ao do Homem. De modo geral, além da inteligência básica, são seres-repositórios de emoções e sentimentos puros e sem medidas. Amor e ciúme, sem dúvida, estão entre eles. Nos cães, a força da irracionalidade se expressa, então, de maneira mais acintosa. Amor, ciúme, posse — onde começa um e termina outro?
Há a eterna discussão se o amor é uma construção sociocultural ou uma condição intrínseca aos seres humanos; se a sua base é espiritual ou físico-química; se é algo substancial a ponto de ser verificado expressamente ou uma ilusão mental… Creio que a ligação que desenvolvemos com os outros animais, principalmente os mais próximos de nós, “aculturados”, possa dizer muito sobre a própria condição humana. Talvez possa vir a desvendar se amor e as suas emoções subsidiárias, como o ciúme, revela-nos animais básicos ou, basicamente, que somos animais confusos demais para sabermos o que sentimos, quando sentimos…
*Texto de 2017, constante de meu primeiro livro de crônicas lançado pela Scenarium — REALidade