BEDA / POR CEM

Por Cem

 

Apesar de saber que a vida é feita de porcentagens – somos 70% água, 10% meia calabresa, meia atum e, por aí, vai – eu, que já vivi situações em que o 0,1% se impôs, me irritei quando alguém citou, sobre determinada situação, a porcentagem de 99,9% como provável.

Por algum motivo obscuro para mim, já que cheguei a proclamar ser um digno  representante do irritante “talvez”, acordei a querer ter certezas extremadas. Quero que tudo se defina 100%. Quero a absoluta convicção dos loucos, sem a intermediação de advogados a citar contestações em latim: data venia

Quero a fé dos quem erram com perfeição, sem as frações cambiantes. Não quero cores intermediárias, nem o cinza. Quero o preto e o branco perfeitos. Quero saber onde estou e para onde vou. Quero saber quem eu sou. Quero receber amor e poder amar. Eu quero ter a mesma indubitabilidade da morte – certa e irremediável.

BEDA / Amor E Sangue

Amor E Sangue

Aquela parecia ser mais uma história como muitas outras que eu já lera em revistas ou livros ou já vira na televisão em filmes ou novelas. Eu era um garoto tímido que se entretinha a escrever poemas para amores sonhados e perfeitos, vividos em paisagens perfeitas, enquanto à minha frente escorria o esgoto a céu aberto na rua de periferia na qual morava.

A diferença é que, enquanto me divertia com o distanciamento seguro que mantinha dos contos de amores fictícios, houve uma época que passei a sentir dor física por amar. Como em um típico enredo juvenil, amava a uma colega de classe. A mais linda. Ou era o amor que a tornava mais linda. Eu amava cada gesto com o qual feria o ar e enchia o momento de beleza perante os meus olhos de garoto míope. Os seus olhos verdes se confundiam com a luz vestida de verde por causa das árvores do entorno do pátio da escola onde fazíamos o recreio. Quando os seus cabelos, à linha do ombro, brincavam com o vento, eu segurava a respiração ao ver os longos dedos de suas mãos tentando manter alinhados os fios castanhos do alto até as pontas, que terminavam em semicírculos naturais. A sua boca sorria por graça e de graça porque tudo era motivo de alegria naquela idade de descobertas.

Eu me admirava de como ninguém percebesse que tamanho encanto existisse e o mundo não parasse para vê-la passar. Ao mesmo tempo, a recusa em correr atrás da bola improvisada com papel, saco plástico e elástico com a qual eu e outros meninos jogávamos na quadra, no período entre as aulas, começou a gerar suspeitas entre os colegas. Obviamente, estava doente… Ou apaixonado. O que terminava por ser o mesmo, todo mundo o sabia, mesmo naquela idade. Só restava saber por quem. A tentativa em disfarçar o objeto de atenção talvez até soasse mais eloquente do que quisesse fazer entender. Porém, nem para o meu melhor amigo revelei o seu nome e o guardei tão secretamente que hoje não me lembro realmente qual fosse. O que torna a história ainda mais autoral, pois posso escolher qualquer um.

Contudo, essa história não foi totalmente platônica. Houve um momento de aproximação e sangue. Aconteceu o que era mais comum do que seria bom para a imagem de alguém que quisesse parecer forte, que o meu nariz começasse a sangrar. Sem mais, nem menos, lá estávamos nós, os alunos, reunidos para alguma atividade, quando, rubra como a minha vergonha, se deu a hemorragia. Colocava a cabeça para trás e quase me afogava com o grande fluxo do líquido de origem arterial que não cessava de vir à tona quando, no momento mais crítico, vejo, meio nebulosamente, pois tirara os óculos, a figura da minha amada, bem próxima do meu rosto.

“Olha”, disse, “pega isso!”

Ela, gentilmente, me oferecia um lenço branco, que eu quis recusar, alegando que o mancharia. Ela retorquiu que aquilo não tinha a menor importância e insistiu que o pegasse. Aceitei, meio envergonhado e, meia-hora depois, consegui fazer cessar o sangramento. Não me lembro direito como evoluiu o nosso relacionamento, mas o mais provável é que a minha vergonha por não poder devolver o lenço, manchado de vermelho paixão, impediu que eu fizesse algo a mais do que esperar que o ano letivo terminasse, deixando que o tempo se incumbisse que eu a esquecesse. O que se pode perceber que não aconteceu…

BEDA / Cabelos Brancos

Cabelos Brancos
Moça dos cabelos brancos,
caminhante por campos
de pecadores e santos…
São Paulos, Caetanos,
Andrés, Bernardos,
Vitos e Franciscos
a lhe desejarem,
enquanto salta entre nuvens macias
e palcos duros…
Dança a dança da vida
e da morte-norte-sorte
de todos nós.
Nunca será esquecida – viverá
pelos olhos-lembranças dos que lhes assistem,
aplaudem,
suspiram
ou invejam…
Moça dos cabelos brancos,
que eu possa lhe admirar os passos
mais uma vez…
Adivinhar os quereres
e lhe ofertar prazeres
simples e mundanos…
Beijar seus pés
subir às estrelas,
alcançar a luz,
fechar meus olhos
e gemer de dor
a perda de seu amor…

BEDA / Dia De Pais

Dia de Pais
Eu e Sr. Ortega
Sobre este domingo comemorativo, quis permanecer longe da voragem causada pela artificialidade de uma data instituída pelo mercado para alimentar o comércio. Manipular sentimentos é a melhor maneira que existe para estimular a compra de objetos que demonstrariam o quanto somos agradecidos a quem deveríamos homenagear. No mínimo, ajuda a amenizar a culpa que sentimos por alguma falta que cometemos a quem presenteamos.
No entanto existem datas que calam fundo, como a dos dias das Mães e a dos Pais. Essas datas acabam por expressar a ideia simples porém completa de início de tudo. Qualquer ser de organização celular mais complexa vivente neste planeta foi gerado por um(a) genitor(a). Pegos, assim, de uma forma tão primária em nosso âmago, não há como deixarmos de expressar algum tipo de emoção quanto a estes dias.
O meu sentimento é contraditório. Tenho filhas que me realizam como gerador de vidas que fizeram, faz e, tenho certeza, ainda farão diferença na existência de quem tiver a boa sorte de encontrá-las. Eu as amo por isso e porque as amo independentemente de qualquer coisa. Quanto ao meu pai, a dubiedade se aplicava de maneira exemplar. Quando estava vivo, ficava meses sem vê-lo. Morávamos perto, caminhava por lugares que eventualmente passava, entretanto quando estávamos juntos, sentíamos certo distanciamento.
Quando houve a cisão definitiva entre ele e minha mãe, que fisicamente também já passou, deixei de tê-lo mais por perto. Com a deterioração de seu estado de saúde e eventual proximidade de seu desenlace, comecei a pensar muito nele e nos momentos que me lembrava (não foram tantos assim) em que vivemos certa comunhão emocional, a maior parte de cunho negativo. Sentia que ele não estaria fisicamente muito mais tempo entre nós e intencionava visitá-lo, ver como estava. Talvez para protagonizarmos outra e possível última discussão. Não conseguia evitar me indispor com ele e preferi não fazê-lo. Fui vê-lo apenas morto.
Frequentemente digo para alguns que o utilizo meu pai como um exemplo a não ser seguido, principalmente quanto a ser um pai presente. Se bem que presença pessoal nem sempre seja indicativo de qualidade. Agradeço a ele que tenha proporcionado subsídios para que eu e meus irmãos tenhamos casas onde morar. Contudo filhos são exigentes e querem sempre mais. Desejava que não quisesse me ver como um mero apêndice de seus ideais e vontades.
Ele esquecia-se que ou não aceitava que, apesar de filhos da carne, não somos compulsoriamente filhos do espírito. Que ele não visse que honrar pai e mãe não era pensar o mundo como ele projetava. Que a partir do momento que os trazemos ao mundo seres aos quais damos suporte – casa, comida, vestuário, escola, educação (algo diferente de escola) e (hipotético) amor –, ao mundo eles pertencem. Lugar comum, todavia verdadeiro.
Por poucos anos, tive uma convivência normal com o Sr. Ortega. Ele era um homem elegante, com tez amorenada e os olhos puxados, devido a sua ascendência indígena. Eu me pareço mais com meu avô, “Seu” Eustáquio Humberto, mas não são poucas as vezes que o vejo em mim, no espelho, e o ouço reproduzido em minha voz. Ainda que afastado de nós, desejava que meu pai que estivesse bem consigo mesmo, já que essa fora sua escolha desde o início. Presente em minha mente-tempo-espaço, o homenageio, mesmo que de modo torto, como progenitor da família que formamos um dia.

BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / É Noite, Tudo Se Sabe

É Noite

Durante alguns anos, dos 8 ou 9 até os 13 ou 14, eu tive um radinho de pilha japonês, com o qual ouvia programas logo de manhã e antes de dormir. Durante todos aqueles anos era um garoto auto recluso, que preferia músicas nem tão populares de Nat King Cole, Ray Charles, Frank Sinatra, Soul Music dos grupos negros americanos, além de MPB. A minha emissora favorita era a Rádio Panamericana AM, de São Paulo. Na maviosa voz de Ana Maria Penteado, a partir das 22h, tendo ao fundo o tema de ”Summer Of 42”, de Michel Legrand, era anunciado: “É noite, tudo se sabe” – frase que reverbera até hoje em minha mente. A sentença consegue dizer tanto sem revelar nada, porque não precisa. Se não sabemos, intuímos, o que é, muitas vezes, mais poderoso do que propriamente sabermos.

 

É Noite, Tudo Se Sabe (4)Muito do que se intui da noite é suscitado pelo luar. É quase sonho de leite a boiar na negritude do café adoçado de estrelas. Hora se mostra, hora se esconde por entre ramos e nuvens, vãos e desvãos de nosso lugar de observação. Há certas ocasiões que não somos nós a observá-la, mas ela a nos encontrar apartados de nós e de outros em imenso espaço vazio. Quando parece crescer, é para se fazer presente e mais próxima por piedade de nossa solidão.

 

É Noite, Tudo Se Sabe (10)

A noite é o tempo preferido para amar. A escuridão, que a muitos assusta, serve de cobertura para os amantes. Os encontros se dão após um dia inteiro de labuta, mas nada impede que ocorra na hora do almoço ou happy hour. Eu trabalho quase sempre em eventos festivos noturnos, se bem que a preparação se dê ao longo do império solar. O registro acima foi feito em São José dos Campos, onde estava a trabalho, com a visão do vale em movimento incessante de carros pela Dutra e vias vicinais. Em sugestivo lilás, um grande motel se destaca ao centro. No Brasil, motéis ganharam a conotação de lugar para encontros sexuais. Em um país de progressiva mentalidade repressora, imagino o dia em que templos como esse serão combatidos pelos defensores de templos concorrentes, aqueles que alegam professar outro tipo de amor, naturalmente a soldo. É o mercado das almas…

É Noite, Tudo Se Sabe (9)

Minha filha canina, Betânia, gosta de vigiar a vizinhança, tanto de dia quanto de noite. Seus latidos emitidos em função de quaisquer coisas que se movam ou produzam algum tipo de som, continuam ainda que a admoeste. Equilibrada em beira de laje ou na mureta, ela olha para mim, percebe que fico no mesmo lugar e volta a latir pelo puro prazer de se expressar contra a natureza do invisível. O que me resta é registrar a imagem, como faria um pai babão com as artes e artimanhas de sua criatura.

 

É noite, estrada

O negrume pelo caminho é riscado por luzes em formas variadas. Ainda que saibamos se tratar de automóveis – carros de passeio, vans e caminhões – seriam perfeitamente reconhecidos como objetos voadores-movediços não identificados, pela ilusão que causam ao passarem por nós, em qualquer sentido. O som contínuo do motor parece o de uma máquina de perpetuum mobile, monocórdico e entediante. O cansaço e o sono ajudam a produzir a sensação onírica de viagem astral. É noite, tudo se sente…

 

É Noite, Tudo Se Sabe (8)
Prédio Caetano de Campos, na Praça da República

Vivo em São Paulo. Quase não passo por algum ponto que não esteja minimamente iluminado. A luz artificial se faz de tão modo presente que sua ausência é razão de desconforto, como se faltasse algo a nos completar. Precisamos desses sóis particulares para nos identificarmos como seres. Não bastaria sabermos disso, temos que confirmar nossa condição de habitantes da pólis banhada em claridade. A noite nos pertence como tema, atrativo e contraponto – somos entes da luz emprestada e da sombra permanente. Sei disso, porque vivemos em noite eterna…