BEDA / A Amante Da Luz

MINHAS NOITES (6)

A amante
da Luz recebe em seu corpo
os oblíquos raios solares
desta manhã outonal…
Ela ama o calor que aquece
mas não queima…
Que preenche os seus lábios,
cabelos
e olhar
de amor luminar,
a escorrer por seu colo,

peito

e umbigo…

A amante
da Luz vive, também,
o Outono de sua vida…
Já foi Primavera,
Verão…
Os seus olhos já viram
muito mais do que verão…
A amante da Luz sabe,
e, mais do que isso,
deseja,
não ver chegar do Inverno,
a escuridão…

BEDA / Amor, Amar, Amores

AMOR

Tenho a tendência de esquematizar todas as experiências que vivo. Experiências como ensaios, experiências como experimentos, experiências como tentativas. Que normalmente induzem a erros. E erros cimentam o meu caminho. São erros repletos de boas intenções. Portanto, irei direto para o Inferno. Sendo ensaios, me pergunto para quê ensaio, afinal. Apresentarei, ao final de tudo, um grande espetáculo, sem erros? Para quê, se durante os ensaios, acabo por ferir tanta gente, que finalmente me levarão ao ostracismo? Terei ainda muito tempo para ensaiar? E esse espetáculo, quando estreará? Se estrear…

A questão do Tempo é primordial, mas especulo que a Eternidade seja um conceito fora do tempo. Teorizo, ainda, que seja um sentimento de plenitude absoluta, em que sendo alcançando dentro do Tempo, contudo se separa dele, permanecendo no repositório das coisas infinitas – ad eternum. O Amor, por exemplo, poderia ser depositado na caixinha do Infinito? Pareço abarcar o Infinito e o Eterno no mesmo ramalhete, como flores nascidas no mesmo campo. Mas o que é infinito pode não ser eterno ou o que é eterno pode não ser necessariamente, infinito. Porque quando amamos profundamente, esse é um sentimento que será lançado na torrente da Eternidade. Porém, quando direcionamos o amor a algo ou alguém que deixamos de querer, esse amor deixa de ter a qualidade da infinitude. E, ainda, um amor que vivemos intensamente, apesar de ter esfriado com a vivência, pode conter momentos depositados nesse repositório.

Ouço pessoas dizerem o quanto é extraordinário falar sobre aquele amor como se fosse uma história vivida por outros personagens que não fossem elas. Acho muito interessante presenciar pessoas que continuam juntas apenas pela simples lembrança de quando se amaram profundamente. Quando se tem frutos desse amor – filhos – os pais chegam a amá-los mais do que a si mesmos, ainda que sejam a personificação dos ex-companheiros, os quais muitas vezes não somente deixam de amar, como a odiar – o que vem a ser um sentimento-flor pútrido nascido no mesmo campo do perfumoso Amor, tendo como símbolo um anel de metal que ainda une o casal.

Filhos seriam, naturalmente, amáveis para os pais assim como deveria ser também os pais pelos filhos. Contudo, desde os primórdios dos relatos bíblicos, percebemos que essa é uma relação tempestuosa. Considero que também aprendemos a amar aos nossos filhos, bem como o contrário também ocorre. Conquanto, quando o sentimento amoroso se dá em profundidade, ele é Amor – une-se à Eternidade – quando esse sentimento se condiciona às condições externas de tempo e lugar, ele é apenas amor… E amores vêm e vão…

Podemos nos perder em reproduções baratas de algo grandioso que vivemos um dia ou que se ouviu falar alhures. A saudade que fica de um relacionamento intenso poderá ser vista, na distância, como presença na ausência, na falta de uma definição melhor. Quando conseguimos superar a falta que alguém nos faz, podemos alcançar, com o fluxo do tempo, um sentimento de constante comparência do ser ausente, tornando-o, estranhamente, presente.

É dessa forma que sinto a presença, por exemplo, de minha mãe. Não só a sinto espraiar as suas ramificações genéticas sobre o meu corpo, como “converso” com ela o tempo todo. São diálogos mentais, com uma sensação consciente de existência espiritual. Ajudou-me bastante o fato de sonhar com a Dona Madalena, com os seus belos cabelos brancos e sorriso largo. Ao lhe perguntar como estava, me respondeu: “Estou em paz…”. Bastou-me para acordar a partir desse dia com um sentimento de perene saudade sorridente.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Meus Ingredientes – Tortilha De Arroz

Quando executamos uma receita, daquelas que tem cheiro e gosto de saudade, viajamos para os lugares, os tempos, as circunstâncias e as companhias que a tornaram tão especial. É o caso da prosaica tortilha de arroz, que Dona Madalena lançava mão quando não tínhamos alternativas no cardápio, o que era comum acontecer na época de dificuldades financeiras da minha família – mãe lutadora, pai perseguido pela Ditadura e crianças alegremente ignorantes de tudo o que acontecia. Com o passar dos anos, mais do que algo que substituísse a falta, era motivo de alegria termos tortilha para o café da tarde ou almoço acompanhado de feijão.

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Tudo depende da quantidade de arroz – aquele que sobrou de um dia para outro ou até dias. Estando em bom estado, não importa quanto tempo foi feito. Acrescento farinha de trigo. Apenas uma porção, talvez 1/3 da quantidade de arroz. Salpico sal e cebola bem picada, para que possa se misturar na massa. Lembrando que o arroz já tem um pouco de sal, mas que deixa de ser tão efetivo devido ao acréscimo da cebola.

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A depender do gosto, pode ser acrescido queijo parmesão ralado, muçarela ou qualquer um que estiver à mão. Quanto mais salgados, menos sal deve-se colocar. No caso de hoje, como só havia queijo tipo padrão, o cortei em pequenos pedaços, que ajudam a compor uma textura interessante, em que o queijo fica derretido no meio da tortilha. Logo após, coloco ovos. Começo a misturar até conseguir obter uma massa, ainda um tanto “seca”, esfarelada.

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Acrescento leite aos poucos, o suficiente para deixar a massa homogênea, após a mistura. Na falta de leite, pode ser usado água. Era o que acontecia muitas vezes quando eu era garoto. A massa tem que ficar de tal maneira que possa ser separada por uma colher de sopa, que dará o tamanho ideal ao salgado.

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Esqueçam o regime quando quiserem comer a minha tortilha de arroz – ela é uma fritura. Hoje, uso um tipo de óleo melhor e tento usá-lo apenas uma vez. Menino, quando comecei a comê-las, a minha mãe não tinha alternativa a não ser reutilizar bastante o óleo com duas ou três frituras anteriores. Muitas vezes, isso as deixava com um gosto diferente – com toque de peixe, galinha ou carne bovina – o que era mais raro.

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Ao final de tudo, quando as faço, quase nunca deixo de perceber algo especial. Introduzi a tortilha no cardápio da família que formei com minha companheira. Minhas três meninas aprenderam a gostar delas e a pedir de vez em quando. Com as suas reações, devido às formas inusitadas que as tortilhas apresentavam após a fritura, revisitava meu próprio encantamento sonhador. Quando decidi fazê-las pela primeira vez, simplesmente compreendi como as heranças passam de uma geração para outra – assimilação empírica-emocional. Além dos ingredientes – alguns mágicos-invisíveis-palpáveis – as porções simplesmente não são calculadas em números, mas em “quantum” de amor…

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O Jogo

JOGO

Amar é como se fora um jogo. Normalmente, entre dois jogadores apenas. Porém esta é uma imposição por quem nunca percebeu que o jogo do amor é incriado e não apresenta regras formais. Pessoalmente, creio que o desejo de amar seja tão grande, deseja-se tanto participar do jogo, que ninguém sabe porque joga, como não sabe se ganhou ou perdeu quando acaba, já que muitas vezes, os participantes não percebem quando a partida acabou ou apenas se ilude que não, tentando prorrogá-la ad eternum.
 
Outras tantas vezes, os jogadores mal sabem quando a peleja começa. Outros, declaram que não estão participando da sempiterna peleja, tornando-se dessa forma, um jogador muito procurado, com passe muito valorizado. Se isso é uma arguta tática de jogo ou apenas inocência, o fato é que é comum este craque marcar gols decisivos. Vencedores, quem o seriam? Como não há regramento, poderíamos dizer que não haja vencedores e vencidos. Mas na aparência, pode até haver, já que os próprios “atletas” estipulam placares pessoais e serão justamente esses que se sentirão derrotados ou vencedores quando fizerem a auto avaliação. São os jogadores profissionais.
 
Eu, pessoalmente, acho que sempre ganhamos ao jogar. Como não há regras, podemos querer jogar (amar), quantas vezes quisermos, com uma companheira ou um companheiro, separadamente ou com muitos ao mesmo tempo (jogo perigoso!) ou com o mesmo ou a mesma a vida (campeonato) toda. Este é um jogo tanto ou mais perigoso quanto a outra modalidade. Para sentirmos que estamos jogando bem é necessário que nos reinventemos o tempo todo, buscando novas jogadas, estimulando a parceira ou o parceiro a melhorar o seu jogo, sabendo que mesmo que estejamos com a sensação de perda, será sempre possível revertermos a situação.
 
Melhor pensando, chego à conclusão (momentânea) que o sofrimento será uma boa medida de nossos ganhos e que se sentirá vencedor aquele que acumular maiores perdas, porque amou demais. Esse é o amador, para mim, o melhor jogador…

Projeto Scenarium 6 Missivas / Fev-19 / Carta A Uma Amiga

S…, como me dói lhe escrever como amigo, apenas. Apesar de nunca imaginar que isso viesse a acontecer, afinal dizia, caso terminássemos, nunca seria seu amigo… Mas não consigo deixar de lhe falar, saber do que acontece em sua vida. Ainda que venha a conhecer seu novo amor, gostaria ao menos que me colocasse em sua estante de amigos favoritos, como os livros que ama tanto. Afinal, você me lê tão profundamente…

Talvez tenha sido por isso que tenha me deixado. Não tenho mais mistérios a serem desvendados, surpresas a lhe oferecer. Eu achava suficientemente surpreendente que meu amor se mostrasse tão cristalino. Mas não se preocupe. Nunca mais perguntarei porque não me deseja mais. Imagino que seja algo que aconteça, ainda que eu não alcance a razão… Sei que o amor não tem razão. Começa e termina porque o coração quer, porque não quer mais… Apenas não me lembro de quando não a amei. Ou se amei outra pessoa na vida…

De vez em quando, gostaria que me chamasse para ouvir música como fazíamos durante tardes inteiras – Zizi, Gal, Bethânia, Elis… Juro que nunca mais a tocarei, a não ser para um abraço terno. Por alguns instantes, quero ouvir seu coração batendo em meu peito. Quando precisar de mim, pode me chamar – dia ou noite – até por sinal de fumaça, se a Internet não funcionar ou tudo mais falhar. Contudo, não quero parecer um intruso. Por este momento, sei que quer se distanciar de mim. Aceito. Não, sem dor, confesso…

Como a amo tanto, não quero que fique só, como disse que faria. Eu me sentiria muito mal que prefira a solidão a ter a mim como amante. Mas me esforçarei para entender que queira se entender sem mim. Caminhar sem ter meus passos ao lado dos seus, minha sombra a se confundir com a sua… Que queira se sentir única em vez de unida a alguém… ainda que esse alguém seja eu.

De seu antigo amor e, agora, amoroso amigo…

D…

https://www.youtube.com/watch?v=Z3v-K0YQ4vI

Projeto Seis Missivas Em Seis Meses — Scenarium
Participam: Mariana Gouveia, Lunna Guedes