BEDA | Prazer E Dor

Prazer & Dor
Dúbio e bifurcado…

Houve uma época em minha vida que busquei intensamente escapar da dualidade prazer e dor. Era bastante jovem, de 16 para 17 anos. Ainda que de forma precária, sem tantas informações, avesso em participar de grupos, estudei as soluções orientalistas, com milhares de anos na senda do autoconhecimento. Decidido a me interiorizar cada vez mais, fui me apartando das pessoas ao meu redor. Apenas a paixão pelo futebol – já que para jogar é preciso de companhia – me “salvava” do ostracismo total. O termo salvar é dúbio, obviamente, porque a minha intenção primordial era me salvar de mim mesmo ou, melhor dizendo, de vivenciar a eterna polarização entre prazer e dor, firmemente ligada ao ego.

Ego eu chamava àquele “eu” reconhecível ou que supunha conhecer e que carregava os desejos, sentimentos, emoções e expressões externas de ser o Obdulio. O interessante que focava fortemente na abstenção da sensação de prazer. A dor eu a tinha como condição natural. Talvez até buscada como expiação por possíveis pecados que tivesse cometido. Inclusive, em intenção.

Adolescente em época de efervescência sexual, renunciava ao conhecimento prazer por essa via. Eu me tornei abstêmio de carne em um período que a oferta de alimentos e alternativas vegetarianas não eram tão amplamente difundidas. Fiz um estudo sobre os valores energéticos, proteicos e vitamínicos de folhas, grãos, legumes e frutas. Comecei a evitar o açúcar. O radicalismo me levou a perder mais de 15Kg. Normalmente de cabelo farto, adotei a prática de raspar a cabeça. Decisões coincidentes com o surgimento da Síndrome Imunodeficiência Adquirida, alguns começaram a supor que estivesse doente. Ouvi de uma pessoa que eu parecia um refugiado de campo de concentração.

Concomitantemente, vivia uma relação difícil com os meus pais, principalmente com o Sr. Ortega – o chamava dessa maneira. Com a minha mãe, o amor que eu sentia por ela era obliterado pelo “desejo” de não o expressar – parte de um plano canhestro em demonstrar autocontrole com relação aos sentimentos e às emoções. Ou seja, estava absurdamente confuso. O prazer reservava à escrita, cada vez mais importante. Chegaria o momento que até esse regozijo igualmente deixaria de viver. Mas essa, é outra história.

O certo é que fiquei dependente de minha dor, como se isso significasse que estava no caminho certo para a independência dos atributos mundanos de ser um humano – a busca da felicidade ou prazer (que muitos confundem) como condição ótima de vida. Crescentemente, o desamor por mim mesmo me abasteceu os dias. A auto sabotagem deve ter surgido aqui e ali. Medo de amar, com certeza, por receio de sentir a verdadeira dor. Diante de tantas incongruências, não foi surpresa as diversas vezes que adoeci fisicamente. Mentalmente, já estava. Tanto que suspeitava que sentia prazer em sentir dor.

Consegui sobreviver para poder falar sobre isso. Algumas vezes, sinto saudade daquela pessoa extremamente inocente, ao mesmo tempo que ainda continuo a me pasmar diante de muitas coisas. Tenho “o pasmo essencial”, como Pessoa já o disse. Isso, gosto em mim. Porque, apesar de narcisista, eu não sinto me amar. Portanto, não sou totalmente inocente… ainda.

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | MM

MM
MM

Corria o início dos Anos 80. Estava em Nova Iorque, para fazer um intercâmbio. Jovem escritor de 22 anos, há um mês na cidade, encontrei MM enquanto fazia compras no supermercado. Diante de estupenda surpresa, deixei cair o saco de papel que embalava as maçãs que carregava. Uma delas, foi parar junto aos seus pés. Marylin Monroe se agachou, sorriu o seu sorriso de estrela e m’a devolveu. Gaguejei um agradecimento e, como permanecesse estupefato, provavelmente com o olhar vidrado de alguém que estivesse em choque, ela perguntou se eu estava bem…

Balbuciei: “Você está viva?”…

MM deixou de sorrir e disse:

– Você deve estar sonhando… É quase a única maneira de poder me alcançar da maneira que fui…

– Sei que não estou sonhando. Acordei cedo, dei comida para o gato da família que me hospeda, fiz ligações para o Brasil, falei com a minha mãe e vim ao supermercado. Estou alerta e sei que você é Marylin Monroe!

– Se você não estiver sonhando, então passou por alguma portal interdimensional. Isso é raríssimo! E sorriu…

– Portal interdimensional? Você conhece essa possibilidade física?

– Esta Marylin não é mais aquela, que morreu em 1962*… Apesar da energia antropomorfológica manter as mesmas feições, para quem é da dimensão que você e eu (ela) vivemos. Sou outra pessoa, mais complexa. No entanto, curiosa sempre fui… Como eu, que tem consciência da existência dos mundos paralelos, só alguns. A maioria, passou pela quase morte e sobreviveu.

– A quem devo agradecer esta oportunidade em tê-la encontrado?

– Agradeça a você mesmo! Não permitiriam que percebesse esta dimensão paralela e me visse, se não tivesse preparado.

– Você é uma referência, para mim… Sempre ouvi dizer que nós, escritores, não devemos ter contato direto com as nossas musas. Isso acabaria por afetar a nossa inspiração, já que, de idealizadas, transformam-se em seres comuns. Li livros sobre você, os textos que escreveu, vi as suas fotos, os seus filmes, busquei a sua essência…

– Meu caro, nenhuma das fontes que teve acesso, poderia me revelar. Eu simulava quase o tempo todo… Vamos fazer um seguinte… Quer tomar um café?

Permaneci calado um instante. Uma das minhas musas estava me convidando para estar junto a ela e fiquei hesitante, como sempre nessas situações cruciais. Por fim, percebi a incrível chance de captar diretamente da fonte a força de uma mulher que, por mais que tenha se exposto, permanecia indecifrável para muitos, a incluir a mim, que tentava construir um quebra-cabeças apenas com as suas referências indiretas.

– Um café interdimensional? Sempre sonhei com isso! – Respondi, finalmente.

MM riu gostosamente. Deixamos as nossas compras de lado e fomos conversar, o que fizemos pela tarde toda. A Marylin interdimensional, lembrava-se de toda a sua vida até 1962, quando quase morrera. Do outro lado, a outra versão não conseguiu escapar. Não quis me revelar se fora induzida ao óbito ou se tinha intencionalmente abusado da medicação. Nesse momento, uma dúvida me sobreveio.

– O fato de ter sobrevivido aqui, não alteraria a história do mundo paralelo?

– Não, exatamente, porque eu me retirei totalmente da vida pública. Sumi. Assumi outra identidade. Mudei um tanto a minha fisionomia. De certa maneira, morri para todos. Vim para Nova Iorque. Fui morar no mesmo prédio da Greta. Com o tempo, vi os meus antigos colegas de trabalho, morrerem, um a um. Chorei, quando mataram John… Eu me mantenho afastada de James, Joe e Arthur.

– Outros, como você, também não sobreviveram às suas mortes anunciadas pelos jornais?

– Pode até ser, mas não tenho conhecimento… – Marylin olhou enigmaticamente para mim.

– Então, você é escritor? – emendou.

– Sou… Quer dizer, pretendo ser. Não tenho nenhum livro publicado. Tenho muitas ideias, mas me falta artesanato, um estilo definido e experiência de vida. Esta experiência que estou vivendo, de tão incrível, creio que será quase indescritível e minimamente crível…

Nesse instante, MM me olhou com os seus imensos olhos esverdeados como um campo no verão em dia de chuva, diferentes do azul do tamanho da Terra vista do espaço que conhecia na antiga Marylin, e perguntou:

– Você me ama?

– Eu… cheguei até você… Deve significar que a amo…

– Então, venha!

Marylin Monroe me pegou pelas mãos e me levou ao seu apartamento, no The Campanile.

Chegava a noite e ela mesma me preparou o jantar. Depois que comemos, conversamos mais um pouco e ela decidiu se despir diante mim, peça por peça, na ampla sala de estar. Quando vi a sua cicatriz no abdômen, me aproximei lentamente, tirei os meus óculos e a beijei delicadamente. Subi os olhos para o seu rosto e demonstrei espanto por ter em minhas mãos aquele corpo com a estrutura de trinta e poucos anos, apesar dos quase sessenta que deveria ter. “Como isso é possível?” – me perguntei intimamente e ela respondeu, como se tivesse me ouvido:

– Porque é assim que você me quer, Ob… Vou fazê-lo sonhar!

Até o começo da madrugada, fizemos amor. Atordoado de sono, adormeci. Quando acordei, logo no café da manhã, ela me pediu para ficar, definitivamente. Aceitei de imediato, conversei com os meus hospedeiros, argumentei que iria para a casa de um colega da faculdade e me mudei.

Comecei a viver o período mais incrível da minha vida. Marylin era sábia e nada fazia lembrar a personagem avoada que representou no seu trabalho passado. A diferença de idade não impediu que nos casássemos e tivéssemos um filho. Eu a amava cada vez mais e me surpreendia com a paixão que nos envolvia e que não esmorecia, mesmo com o passar dos anos. Consegui um trabalho como roteirista de comédias na NBC e fui convidado para escrever o meu primeiro roteiro de cinema – uma comédia romântica.

Um dia, ela me pareceu mais triste do que o normal. Era comum MM ficar longas horas a olhar para o East River sem dizer palavra. Em uma dessas ocasiões, levantou os seus olhos mutantes, sorriu com meiguice demorados segundos e disse: “Vou lhe libertar…”. Se aproximou e me beijou a testa. Adormeci… e acordei velho e aturdido, sem musa e sem chão. Eu me recordei que ela vivia a repetir que a verdadeira arte se faz com sofrimento… Agora, resta-me escrever inspirado na dor e na perda do amor…

*Marylin Monroe morreu oficialmente em 05 de Agosto de 1962.

 

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Lágrimas Leves

Lágrimas Leves
Olhos de maré alta…

Eu já disse que sou um tolo? E um tanto louco? E que tento formular uma concepção pessoal do mundo através da minha escrita? Que me pretendo arte-sanar a palavra – ser um artista?

Quando fui ao cinema, em família, assistir La La Land, desde o início me surpreendi vivendo a história, saindo a cantar e dançar pelas ruas e ambientes do filme. Eu, que não canto (a não ser no banheiro) e nem danço (tristemente).

Gostei de tudo e suspeitei que provavelmente alguns odiariam tudo. “A música é simplista”. “O estilo é repisado”. “As canções são óbvias”. Sim, pode ser. E é assim que se pode contar uma história de maneira a atingir o que guardamos de simplicidade no coração. Aliás, esta última frase parece ter saído de livro de autoajuda.

Narrar histórias de desencontros amorosos é mostrar o quanto nos enganamos e acertamos ao longo de um relacionamento. E que toda forma de amar vale a pena, ainda que fiquemos à distância. De certa maneira, não ficar junto a quem amamos, muitas vezes, é a melhor maneira de eternizar o amor.

A produção que concorreu ao Oscar no ano passado, foi coparticipante involuntário de um dos maiores embaraços já ocorrido em uma cerimônia. Anunciado erroneamente como vencedor na categoria de melhor filme – em vez de Moonlight – por Warren Beatty e Faye Danaway. Quase os vi apresentarem o mesmo olhar antes de serem fuzilados como em Bonnie e Clyde, na produção de mesmo nome, de 1967.

A razão de discorrer sobre algo que supostamente parece estar boiando entre temas mais cotidianos é que quando preciso chorar, recorro ao infalível tema cantado por Emma Stone, com sua aparente fragilidade e olhos maior que o rosto – “The Fools Who Dream”. Invariavelmente, para acabar com o meu repositório de lágrimas, embarco no clipe de encerramento, em que Mia e Sebastian (Ryan Gosling) vivem imaginativamente a união que não se completou em todas as suas possibilidades, coalhado de referências a outros musicais, os quais amei desde quando os assistia na minha TV PB, ainda garoto.

Como para me trazer para a concretude da realidade, enquanto assistia os temas no computador, na TV a cabo passava O Menino de Pijama Listrado, ao qual quero assistir completo. Ainda assim, cheguei a ver a parte final, bastante impactante. Não derramei lágrima. A dor do que aconteceu nos campos de concentração nazistas é eterna e meu choro é n’alma. Lágrimas grossas e pesadas, impossíveis de escorrer por meus olhos carnais.

Participam: ClaudiaFernandaHanna LunnaMari

Clichê

CORAMÃO
Coramão

Moça de personalidade forte e plena de certezas cambiantes, Marinês carregava cheiro de aventura e independência de vento. A libriana provocava redemoinhos por onde passava. Inesquecível, seu nome era repetido em rodas das quais sequer participava. Gostava de se expressar fisicamente e sua linguagem corporal atraía homens e mulheres. Apesar disso, sua primeira experiência sexual se deu relativamente tarde, aos 18 anos. Quis esperar para se envolver com quem realmente se identificasse, se bem que idealmente não gostaria de se apaixonar por ninguém

Na faculdade, aconteceu de conhecer Antônio, que a atraiu francamente desde que o viu entrar na sala de aula. Veio a descobrir que aquele era um jovem de pedra. O virginiano tinha consciência cristalina de seus propósitos, planos calculados para o futuro. Havia decidido passar o curso inteiro voltado completamente ao estudo. No entanto, sentiu vir da janela, o que imaginou ser brisa, o sopro inebriante de Marinês. Suas convicções se desvaneceram e em duas semanas, já estavam totalmente envolvidos.

O primeiro semestre foi dividido por Marinês e Antônio entre estudos truncados e dias trocados por noites de amor e paixão. Tiveram notas apenas medianas, suficientes para acessarem as próximas matérias. Os dois conversaram sobre como deveriam levar mais seriamente os seus projetos e que resultaria em menos tempo juntos. Durante as férias, passariam unidos o quanto pudessem, mas depois, vida nova.

Enquanto para Antônio aquela era uma contingência necessária, que não implicaria em separação definitiva de Marinês, para ela fazia parte de um projeto pessoal. Quando decidiu começar a sua vida sexual, a ideia inicial era que não ficasse com apenas uma pessoa. Antônio foi um acidente de percurso. Apaixonar-se como aconteceu não era desejável. Achava um baita clichê ficar com o primeiro que fodesse. Namorar, noivar, casar, ter filhos… Toda aquela baboseira, como dizia sempre, nunca foi o seu desejo. Queria conhecer muitos homens e mulheres, novos e velhos. Absorver o máximo de cada relação para se conhecer e conhecer a vida.

Terminado o período de férias, Antônio esperava reencontrar Marinês após a semana que estiveram separados. Concordaram que não se comunicariam nesse período para que pudessem resolver questões particulares, cada um em sua respectiva cidade. No retorno, estranhou que não conseguisse voltar a entrar em contato com ela. Não a encontrou na faculdade e não obteve nenhuma informação pelos colegas mais próximos. Alguns dias depois, uma amiga mais íntima de Aline disse que ela viajou para o Canadá. Sem avisá-lo. Passado um mês, percebeu que ela o havia deixado. Completamente arrasado, chegava a imaginar que ela não tivesse existido. A brisa refrescante transformou-se em furação. Sentia-se terra arrasada.

Marinês conseguiu, a muito custo emocional, deixar o Brasil de Antônio. Respirando novos ares, implementou seu objetivo de livrar-se das amarras sociais que condenam as pessoas a um jogo de cartas marcadas, em que todos perdem. As pessoas pelas quais passou a sentiam quase amorosa, quase alegre, quase inspiradora, quase real. Quase a amariam, se não fosse a desconfiança que nunca teriam acesso a seu coração…

 

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Quem Sou Eu…

8
Família Ortega

Eu sou eu e muito mais. Sou elas  — companheira e filhas. Quando penso na minha vida sem a família (mais próxima), por mais imaginação que tenha, não consigo conjecturar. Talvez, não queira. Por elas, me salvei de mim. Agora que são não mais “minhas”, mas delas mesmas, me proponho seguir sem minhas filhas como desculpa para não me enfrentar. Escrever me ajuda. Sei que amam ao pai e ao marido, apesar de meus defeitos. Alguns, cultivo com cuidado de quem sabe que precisa deles para se identificar. Quando for perfeito, morrerei. Ou melhor, finalmente morto, me tornarei perfeito.


13
Turma da Scenarium Plural

Sou escritor. Sou da SCENARIUM PLURAL. Encontrei a minha turma. Mas são escritores. São bichos arredios. Mundos á parte. Universos feitos de letras, linhas, sinais, palavras…  — textos. Só os encontro oportunamente. Congregamos em igrejas profanas. Geralmente regadas à café. A Pastora-Editora Lunna nos reúne, nos une e nos decompõem em unidades propulsoras de histórias. Lume na noite escura, pelo caminho podemos ver os reflexos do brilho lunar em nossas criações. Agradeço e oro orações coordenadas e subordinadas adjetivas, adverbiais e substantivas. Torno-me substancial…


12 São Paulo: Paulista, Tiradentes, Matarazzo, Largo do Japonês e Marquês de São Vicente

Eu sou (de) minha cidade. Mas São Paulo não se permite pertencer a ninguém. Quem a quer, descobre que nunca a terá. É rebelde aos afagos de qualquer um. É pedra e movimento. Esfinge, sua lógica é de devorar seus filhos-amantes e regurgitá-los como se fossem resultado de uma ressaca homérica. Vive em delírio, louca cidade, que amamos. Múltipla e de personalidade cambiante, essa é sua condição permanente. Provinciana e metropolitana, viajamos por estados em cada rua. Abriga ilhas de calor. É fria, de regelar. Quente, de queimar. No topo do planalto, é mar aberto para quem tiver coragem de navegá-la. E nela, morrer afogado.


14
Horizontes…

Sou também os horizontes intangíveis, como se fossem imagens de alienação. Tentativa vã de pertencer a outro estado de espírito. Retratos em imagens fixas, para não deixar escapar a substância etérea de sua impermanência. Estamos exterminando os horizontes. São “espécies” em extinção. A não ser que nos afastemos demais, não os encontramos sem que haja uma intervenção humana a sujar a paisagem com as marcas de seus dedos. Lua, sol e estrelas  — interditamos a sua visão. Um dia, cessarão de existir. Plantas, animais, espíritos da Natureza  — mataremos sem piedade com nossa ganância. E, então, juntos morreremos. Melhor dizendo, se sobrevivermos, seremos como casca sem alma…


16
Trabalhar com entretenimento – função e prazer

Eu sou o meu trabalho. Não o aceitava antes tanto quanto agora. Não gostava dos horários irregulares, das noites (manhãs) mal dormidas, dos jejuns forçados pelo tempo escasso ou falta de planejamento de contratantes e de nós mesmos. Adoeci por não conseguir controlar todas as demandas que obrigava. Até que decidi entender que, para sobreviver a ele, teria que começar a apreciá-lo como parte de minha vida, não apenas como necessidade para ganhar o meu sustento. Trabalhar não é um sonho com o qual separamos consciência e vivência. Faz parte da existência e deve ser apreciado como tal. E, afinal, trabalhar com o que se gosta é um barato.


17
Todas as idades…

Eu sou eu e muito mais ou ninguém. Já fui o garotinho a correr feliz pela praça, fui o menino tímido que se imaginava David Bowman (Keir Dullea), de Space Odissey; fui o cabeludo que não se importava com a aparência; o brincalhão, no Carnaval; o escritor intrigado com a passagem do tempo e sou o velho que pega o trem azul com o sol na cabeça. Sou todos e, em resumo, nenhum deles. Tanto quanto os replicantes de Blade Runner, tento confirmar minha existência pela captura de momentos cristalizados. Sempre me surpreendo por não os lembrar como fatos, mas como sonhos de alguém. Minha memória é divagante. Apenas não me esqueço de quem não sou…

P.S.: Ah, se tivesse que haver uma definição definitiva de quem sou, respondo  — sou Mar. Se pudessem me ouvir, ouviriam dentro de mim o quebrar das ondas a reverberar. Se pudessem me vasculhar, sentiriam os fluxos e os refluxos da água salina a passear por minhas artérias e veias. Se pudessem me navegar, perceberiam o quanto pareço um na superfície e outro em minhas profundezas. Se morresse no mar, seria doce…

https://www.youtube.com/watch?v=dpmG5fd63cg

 Participam deste projeto:

Maria Vitoria |Mariana Gouveia | Mari de Castro |Lunna Guedes  | Cilene Mansini