Clichê

CORAMÃO
Coramão

Moça de personalidade forte e plena de certezas cambiantes, Marinês carregava cheiro de aventura e independência de vento. A libriana provocava redemoinhos por onde passava. Inesquecível, seu nome era repetido em rodas das quais sequer participava. Gostava de se expressar fisicamente e sua linguagem corporal atraía homens e mulheres. Apesar disso, sua primeira experiência sexual se deu relativamente tarde, aos 18 anos. Quis esperar para se envolver com quem realmente se identificasse, se bem que idealmente não gostaria de se apaixonar por ninguém

Na faculdade, aconteceu de conhecer Antônio, que a atraiu francamente desde que o viu entrar na sala de aula. Veio a descobrir que aquele era um jovem de pedra. O virginiano tinha consciência cristalina de seus propósitos, planos calculados para o futuro. Havia decidido passar o curso inteiro voltado completamente ao estudo. No entanto, sentiu vir da janela, o que imaginou ser brisa, o sopro inebriante de Marinês. Suas convicções se desvaneceram e em duas semanas, já estavam totalmente envolvidos.

O primeiro semestre foi dividido por Marinês e Antônio entre estudos truncados e dias trocados por noites de amor e paixão. Tiveram notas apenas medianas, suficientes para acessarem as próximas matérias. Os dois conversaram sobre como deveriam levar mais seriamente os seus projetos e que resultaria em menos tempo juntos. Durante as férias, passariam unidos o quanto pudessem, mas depois, vida nova.

Enquanto para Antônio aquela era uma contingência necessária, que não implicaria em separação definitiva de Marinês, para ela fazia parte de um projeto pessoal. Quando decidiu começar a sua vida sexual, a ideia inicial era que não ficasse com apenas uma pessoa. Antônio foi um acidente de percurso. Apaixonar-se como aconteceu não era desejável. Achava um baita clichê ficar com o primeiro que fodesse. Namorar, noivar, casar, ter filhos… Toda aquela baboseira, como dizia sempre, nunca foi o seu desejo. Queria conhecer muitos homens e mulheres, novos e velhos. Absorver o máximo de cada relação para se conhecer e conhecer a vida.

Terminado o período de férias, Antônio esperava reencontrar Marinês após a semana que estiveram separados. Concordaram que não se comunicariam nesse período para que pudessem resolver questões particulares, cada um em sua respectiva cidade. No retorno, estranhou que não conseguisse voltar a entrar em contato com ela. Não a encontrou na faculdade e não obteve nenhuma informação pelos colegas mais próximos. Alguns dias depois, uma amiga mais íntima de Aline disse que ela viajou para o Canadá. Sem avisá-lo. Passado um mês, percebeu que ela o havia deixado. Completamente arrasado, chegava a imaginar que ela não tivesse existido. A brisa refrescante transformou-se em furação. Sentia-se terra arrasada.

Marinês conseguiu, a muito custo emocional, deixar o Brasil de Antônio. Respirando novos ares, implementou seu objetivo de livrar-se das amarras sociais que condenam as pessoas a um jogo de cartas marcadas, em que todos perdem. As pessoas pelas quais passou a sentiam quase amorosa, quase alegre, quase inspiradora, quase real. Quase a amariam, se não fosse a desconfiança que nunca teriam acesso a seu coração…

 

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Quem Sou Eu…

8
Família Ortega

Eu sou eu e muito mais. Sou elas  — companheira e filhas. Quando penso na minha vida sem a família (mais próxima), por mais imaginação que tenha, não consigo conjecturar. Talvez, não queira. Por elas, me salvei de mim. Agora que são não mais “minhas”, mas delas mesmas, me proponho seguir sem minhas filhas como desculpa para não me enfrentar. Escrever me ajuda. Sei que amam ao pai e ao marido, apesar de meus defeitos. Alguns, cultivo com cuidado de quem sabe que precisa deles para se identificar. Quando for perfeito, morrerei. Ou melhor, finalmente morto, me tornarei perfeito.


13
Turma da Scenarium Plural

Sou escritor. Sou da SCENARIUM PLURAL. Encontrei a minha turma. Mas são escritores. São bichos arredios. Mundos á parte. Universos feitos de letras, linhas, sinais, palavras…  — textos. Só os encontro oportunamente. Congregamos em igrejas profanas. Geralmente regadas à café. A Pastora-Editora Lunna nos reúne, nos une e nos decompõem em unidades propulsoras de histórias. Lume na noite escura, pelo caminho podemos ver os reflexos do brilho lunar em nossas criações. Agradeço e oro orações coordenadas e subordinadas adjetivas, adverbiais e substantivas. Torno-me substancial…


12 São Paulo: Paulista, Tiradentes, Matarazzo, Largo do Japonês e Marquês de São Vicente

Eu sou (de) minha cidade. Mas São Paulo não se permite pertencer a ninguém. Quem a quer, descobre que nunca a terá. É rebelde aos afagos de qualquer um. É pedra e movimento. Esfinge, sua lógica é de devorar seus filhos-amantes e regurgitá-los como se fossem resultado de uma ressaca homérica. Vive em delírio, louca cidade, que amamos. Múltipla e de personalidade cambiante, essa é sua condição permanente. Provinciana e metropolitana, viajamos por estados em cada rua. Abriga ilhas de calor. É fria, de regelar. Quente, de queimar. No topo do planalto, é mar aberto para quem tiver coragem de navegá-la. E nela, morrer afogado.


14
Horizontes…

Sou também os horizontes intangíveis, como se fossem imagens de alienação. Tentativa vã de pertencer a outro estado de espírito. Retratos em imagens fixas, para não deixar escapar a substância etérea de sua impermanência. Estamos exterminando os horizontes. São “espécies” em extinção. A não ser que nos afastemos demais, não os encontramos sem que haja uma intervenção humana a sujar a paisagem com as marcas de seus dedos. Lua, sol e estrelas  — interditamos a sua visão. Um dia, cessarão de existir. Plantas, animais, espíritos da Natureza  — mataremos sem piedade com nossa ganância. E, então, juntos morreremos. Melhor dizendo, se sobrevivermos, seremos como casca sem alma…


16
Trabalhar com entretenimento – função e prazer

Eu sou o meu trabalho. Não o aceitava antes tanto quanto agora. Não gostava dos horários irregulares, das noites (manhãs) mal dormidas, dos jejuns forçados pelo tempo escasso ou falta de planejamento de contratantes e de nós mesmos. Adoeci por não conseguir controlar todas as demandas que obrigava. Até que decidi entender que, para sobreviver a ele, teria que começar a apreciá-lo como parte de minha vida, não apenas como necessidade para ganhar o meu sustento. Trabalhar não é um sonho com o qual separamos consciência e vivência. Faz parte da existência e deve ser apreciado como tal. E, afinal, trabalhar com o que se gosta é um barato.


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Todas as idades…

Eu sou eu e muito mais ou ninguém. Já fui o garotinho a correr feliz pela praça, fui o menino tímido que se imaginava David Bowman (Keir Dullea), de Space Odissey; fui o cabeludo que não se importava com a aparência; o brincalhão, no Carnaval; o escritor intrigado com a passagem do tempo e sou o velho que pega o trem azul com o sol na cabeça. Sou todos e, em resumo, nenhum deles. Tanto quanto os replicantes de Blade Runner, tento confirmar minha existência pela captura de momentos cristalizados. Sempre me surpreendo por não os lembrar como fatos, mas como sonhos de alguém. Minha memória é divagante. Apenas não me esqueço de quem não sou…

P.S.: Ah, se tivesse que haver uma definição definitiva de quem sou, respondo  — sou Mar. Se pudessem me ouvir, ouviriam dentro de mim o quebrar das ondas a reverberar. Se pudessem me vasculhar, sentiriam os fluxos e os refluxos da água salina a passear por minhas artérias e veias. Se pudessem me navegar, perceberiam o quanto pareço um na superfície e outro em minhas profundezas. Se morresse no mar, seria doce…

https://www.youtube.com/watch?v=dpmG5fd63cg

 Participam deste projeto:

Maria Vitoria |Mariana Gouveia | Mari de Castro |Lunna Guedes  | Cilene Mansini

 

Desapego

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Matéria X Energia

Passei o dia na larga varanda revirando objetos, revisitando tempos. Estava a tentar organizar o espaço, arrumar prateleiras, dispensar quinquilharias, emudecer lembranças. Uma caneca suja, de asa amputada, na eminência de ser descartada, anunciou-se a mim: “PARA UMA SUPER NETA… Lembranças de Águas de São Pedro – SP” – presente de minha mãe à Romy. Quase imediatamente, Dona Madalena se fez presente. Ela estava ali…

Eu me senti tão bem com sua visita, principalmente porque foi natural e sem preparação. Minha mãe era assim, não impunha a sua presença, apenas tornava-se imprescindível. Recordei da ocasião que, com sua irmã mais velha, Raquel, minha tia mais odiada que amada em nossa família, foi visitar a cidade de fontes hidrominerais e voltou com aquele souvenir.

Imagino que ao avistar a caneca, tenha se sentido impelida a acreditar que aquele simples objeto demonstraria todo o amor que sentia. Pois Mamãe era daquelas pessoas que ao tocar a matéria a transformava em energia. Percebi essa verdade consubstanciada na arquitetura atemporal da caneca, agora suja e desasada. Cheguei a tremer. Talvez, uma reação carnal à eletricidade mística que transmitia. Talvez, delírio de um filho que recebia o toque suave da saudade…

Amar Em…

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Invólucro…
2040 – estamos na estação das chuvas ácidas…
O clima mimetiza as relações tácitas,
enquanto enormes exaustores de chumbo
executam a tarefa de limpar o ar imundo…

As precipitações corroem os cimentos e as ferrações.
Tampouco parece poupar pessoas, corações…
Não batem por outros seres, apenas anseiam por novos jogos,
lançamentos que são comemorados com fogos…

Brinquedos simulam vidas as quais os participantes não vivem.
Eletrodos conectados ao cérebro estimulam emoções eclodirem…
Imaginam, sem se tocarem, que amam profundamente
seus próximos, ainda que distantes remotamente…

Estou perto dos oitenta. Reformei recentemente o meu envoltório,
com as modernas técnicas científicas do território.
Cortei metade da idade, para adequar meu corpo à mente.
Revolucionário, quero amar em plenitude, como se fazia antigamente

Me apaixonar sem higiene high-tech, me embebedar de sumos corporais…
Gozar através dos meus poros, esvair por meus terminais…
Suar, ejacular palavrões, subverter este mundo do amor em decadência.
Quero borrar a maquiagem da amante, ser um herói da resistência…

Inesquecível

Romy I
Inesquecível, Romy…

Carlos, em hora vaga, decidiu entrar na cafeteria para ler um pouco e saborear um cappuccino ou dois. Aproveitou a boa sorte do caixa livre. Fez o pedido, esperou menos do que esperava e se dirigiu ao segundo segundo andar. Sentou a um canto e mal pode abrir o novo lançamento da Scenarium – SADNESS – quando assomou a sombra de alguém logo na primeira página. Ao olhar em direção ao vulto, o passado o atropelou na faixa segurança, feito um caminhão desgovernado. Um tanto desconfortável, reconheceu Regina e se ergueu em sua direção. Estava tão linda quanto à época da faculdade.

Perguntou o que fazia por ali, enquanto a beijava de leve no rosto e a abraçava com força, como a confirmar a existência do fantasma vestido de saudade que o assombrou desde que quis se desencontrar dela. Regina respondeu, com aquele eterno sorriso entre brincalhão e escárnio, que sempre a categorizou: “Passava em frente, quando o vi subir as escadas… Como você está? Pelo jeito, bem! Está bonito…”. Ele nunca soube distinguir quando ela falava sério ou brincava. Sabia que não era mal-apessoado, porém diante dela, nunca conseguiu se sentir adequado.

Fazia sete anos que não a via. A última vez, ocorreu na festa de formatura do curso de comércio exterior. Viajou, logo após. Obteve uma ótima chance de aprimorar o inglês e de tentar fugir daquele sentimento que impedia de manter qualquer relacionamento com mais alguém. Naquele momento, mais confiante em si, tentou rapidamente compreender, na fração eterna de segundos que a olhava nos olhos, porque nunca se revelou apaixonado por ela. Mesmo depois de tanto tempo, voltava a ser o moço desengonçado. Não duvidava que ela soubesse do efeito que causava nele. Sempre suspeitou que gostava de brincar com ele, como a gata faz com o camundongo.

Na Austrália – outras vibrações, outra cultura – sentiu como se fosse uma muda transplantada em novo solo. Finalmente, se reconheceu outro. Lá, conheceu sua futura esposa, outra brasileira, Anna. Após dois anos, voltaram. No Brasil, casaram. Há um ano, chegou Bianco. Montaram apartamento na Santa Cecília. Estavam bem. Vidas sem sobressaltos e sem novidades no horizonte. Até voltar a ver Regina. Lembrou de Ono, um colega que se tornou escritor. Ele lhe falava sobre a Teoria de Tempo Intenso – quando tudo parece acontecer ao mesmo tempo, com força e intensidade inimagináveis. Foi assim que percebeu o quanto ainda a amava.

Mas, pela graça da boca de canto de sereia de seu amor, ela mesmo a salvou de cometer um desatino. Enquanto conversavam sobre o passado – em que enumerou as várias ocasiões em que ficou com boa parte de seus colegas – falou sobre César, então seu melhor amigo. Este, por saber de sua paixão por Regina, prometeu que nunca teria nada com o objeto de sua avassaladora paixão platônica. Ela, aparentemente sem saber desse acordo, falou que havia traçado o seu companheiro de quarto de pensão. Muitas vezes… Lá mesmo, enquanto viajava, em momentos intermitentes. César já não pertencia ao seu rol de amigos. Deu em cima de sua atual companheira, logo que a conheceu. Anna relatou o ocorrido e ele cortou a amizade. Naquela ocasião, imaginou que, eventualmente, tivesse ficado com Regina, apesar da promessa. Contudo, aquela “novidade” o arrasou como se tivesse acabado de acontecer.

Como por encanto, os olhos de Regina deixaram de exercer a imensa atração que levou muitos marinheiros à morte. O que Carlos não conseguiu se atentar foi que ela apenas começou a falar sobre o passado de tragadora de homens, depois que revelou que estava casado, com filho novo, casa montada. Depois de se perceber deixada, sempre desejou reencontrá-lo. Com ele, sempre se sentiu especial. Para ele, reservou o melhor de seus sentimentos. Depois de muitas cabeçadas, distinguiu claramente o que queria. Era Carlos. Como ele não participava das redes sociais, foi difícil localizá-lo. Descobriu onde trabalhava e aproveitou a ocasião propícia para encontrá-lo, por um desses “acasos” do destino. Sabê-lo bem, com outra mulher, filho e lar, a aniquilou. Quis se vingar.

Ao final do encontro, o sorriso de Regina se transformou em risco enrugado. O rosto de Carlos, transparecia autoconfiança. Outro beijo, mais leve e corpos descolados em um último abraço desajeitado.  Ele disse que ficaria um pouco mais. Ela se retirou, carregando a dor pela falta que faria a perspectiva do amor do único homem que realmente já a interessou. Ele, voltaria para sorrisinho banguela de seu filho e o conforto seguro dos braços de Anna…