Filas se formam para adentrar à bolha. Desejosos por perderem os sentidos, embalados por batidas em RPMs cada vez mais acelerados, seres vivos entregam seus corpos às frequências-repetitivas-circulares. Em meio às ondas sonoras, luzes psico-estroboscópicas não permitem que se formem pensamentos, apenas reações. Conduzidos por substâncias lícitas e ilícitas, civilizados repetem antigos rituais coletivos tribais-gentis.
Mantras eletrônicos-aliciantes se sucedem em cascatas no salão de cima a baixo, lado-a-lado, para-dentro-para-fora, em frenesi que transcende o indivíduo e assume proporção de tsunami mental. Por instantes, pode-se sentir reverberar a presença do amor químico, entre suores e salivas. O mundo vibra como substância etérea. Visita à face oculta da lua.
Tudo é espontâneo, permitido, nada é sem sentido. Entregar-se a si e a outra pessoa é satisfatório, natural. Sexo sem penetração. DJ é Deus, reverenciado como tal, a ser contemplado com chupadas das meninas e meninos mais entregues, enquanto outras línguas pronunciam cânticos-grunhidos-gemidos ritmados em resposta à condução do maestro do som oscilante.
Depois de horas, exangues, fruídos personagens retiram-se do ambiente onde oraram enlevados pelas seitas pagãs-dionisíacas do movimento, em estertores de membros e cabeças. Voltam à vida comum, social-insaciável em consumação de pensamentos encadeados-ordenados em números e proporções, regras e utilidade civil… até que chegue o próximo sábado.
Formavam um casal marcante das noites dançantes dos salões de São Paulo – Ypiranga, Piratininga, Homs, Casa do Sargento. Apreciavam todos os ritmos, porém os boleros, com seus temas passionais, pontuavam a imaginação e os passos dos dois dançarinos. Entrelaçavam-se de tal maneira que quase não se distinguiam. Vez ou outra, descolavam os rostos e se entreolhavam enternecidos.
A movimentação que faziam, ao estilo carioca, permitia que rodassem a pista, de um ponto ao outro. Por onde passavam, recebiam cumprimentos e olhares de admiração pela evidente paixão com que compartilhavam a cumplicidade.
Após quarenta e três anos de baile, uma doença fulminante acamou a dama por meses. Após o que, ela veio a falecer, para a consternação dos companheiros dançarinos. Algo inédito, seu velório ocorreu em uma pista de dança. Antes da saída do cortejo, se formou uma grande roda onde todos, com os seus melhores trajes, homenagearam a dançarina com uma salva de palmas, tão comum ao final de cada seleção de canções.
Soube-se que, antes de perder definitivamente a consciência, pediu ao companheiro de vida-passos que não deixasse de frequentar os salões de baile. Desejo atendido, ainda que amigas do casal insistissem em convidá-lo às pistas, ele não consentia atendê-las.
Preferia voltear sozinho como se tivesse a antiga parceira nos braços. Alguns, se condoíam. Outros, que não conheciam a sua história, apenas presenciavam mais uma figura estranha da noite, como tantas.
Passados alguns anos, ele já não consegue erguer os braços junto ao peito e nem rodar a pista no sentido anti-horário. Restringe-se a passar compassadamente frente ao palco, de lado para outro, cabeça baixa, à espera do dia que entrará no Grande Salão. Nele, encontrará a parceira. Pedirá gentilmente que se erga e a convidará para a pista. Enfim, indissoluvelmente unidos, continuarão a dançar o Baile Eterno.
A imagem acima foi registrada por ocasião do lançamento de meu livro de crônicas – pela Scenarium Plural – Livros Artesanais – REALidade. De cara limpa, sorridente, junto àquelas pessoas que caminham comigo por tantos anos. Seres que foram se unindo ao longo do meu percurso. Na soma de tudo, resultam como se existissem desde sempre. É muito estranho-mágico quando ocorre o processo de não nos reconhecermos mais antes do momento que passamos a sofrer a influência de outros aos quais recebemos de peito franco e desejo indômito de abrir espaço para abrigar grandes amores em nosso coração.
Escritor e criaturas…
Não apenas pessoas da minha espécie interferem na minha realidade. Convivo de perto com alguns entes que definitivamente me indicam outro modo de ser. O sofá acima não pertence só a mim. As moças que me ladeiam disputam entre si, a chance de ficarem junto ao homem. Antes que venha me envaidecer por tal deferência, sinto me invadir a sensação de subordinação a esse “amor” que suponho ser incondicional. Até para viajarmos ou determinar projetos pessoais, colocamos em pauta o bem-estar desses amigos que nos acompanham pela existência. Sono figli del cuore…
In “Hollywwod”…
Não apenas pelas mãos do escritor transfiguro a realidade. Como prestador de serviço na área artística, mormente, musical, ensejo a oportunidade de criar maneiras de simular cenas visuais, pela iluminação e auditivas, pela sonorização. Neste último caso, por sorte, quase sempre trabalho com profissionais de qualidade. Porém, não é incomum termos a “obrigação” de atenuar as possíveis incorreções em interpretações musicais por cantores e instrumentistas menos aquinhoados de experiência e/ou talento. Quanto melhor o equipamento e mais eficiente a operação técnica, maior a chance de conseguirmos maquiar eventuais derrapadas. Porém, nem sempre isso é possível. Nada (para quem assiste) que uma terceira dose, não resolva…
A vida como ela é…
Encontrei uma maneira de ombrear com Nelson Rodrigues. Apenas em imagem. Quando conheci a sua obra, muito novo, ainda com travas morais baseadas na edificação de uma tessitura social que não dava margens para rompimentos, não gostei do olhar excessivamente erotizado que empregava. As tramas, me pareciam simples, ainda que perturbadoras. Só mais tarde, pude perceber que a suposta simplicidade se devia a serem familiares. Coisas que vi-não-via todos os dias. A vida como ela é… A literatura do mestre cresceu em mim durante os anos seguintes, a ponto de quase não escapar de similaridades, esmaecidas em qualidade, em minha escrita.
Perfil, o outro…
Essa foto é a do perfil do Facebook. Mostra como estou atualmente. A não ser em raras ocasiões, por questões temáticas, a atualizo frequentemente. Tento acompanhar a decrepitude constante de minha face. Contudo, sempre tento encontrar maneiras de atenuar rugas de expressão, o nariz torto, a orelha um tanto grande, a queda inexorável dos cabelos… Os óculos, objeto-desculpa pela miopia, tenta impedir que outros olhares atravessem o meu olhar enviesado, as bolsas como reflexo do tempo e pouco sono. A barba, adotei mais recentemente. Faz com que não me pareça tanto com o meu pai, se bem que o surpreenda vez ou outra em meus reflexos espelhados…
Eu, no futuro…
Essa é a criança que serei. Crescerei a sorrir. Terei amor de pai e mãe, unidos pelo amor. Minha mãe será tratada com a deferência de quem se dedica à visão que teve quando moça. Que terá honrado o seu sorriso quando adentrou à igreja com o longo vestido branco. A mulher verá seu homem voltar para casa todas as noites, depois da jornada de trabalho. O menino do futuro vivenciará os ensinamentos sem rancor do pai dedicado. Perceberá que ele o ama, assim como a seus irmãos. Acompanhará o desenvolvimento das crianças sem o laivo de frustração por não conseguir levar adiante os grandes projetos de dominação das consciências, apenas porque acredita que carrega a chama da verdade. O menino que serei, não fui. Escritores também têm direito de sonharem finais felizes, mas não conseguem escapar às suas naturezas destruidoras…
Dormi tarde, ou cedo, às 5 horas da manhã. Acordei às 9 horas, pelo som de uma chamada de celular. Após a conversa, liguei o rádio para ouvir as notícias da manhã. Dentre todas as “novidades” – de alegrias e tristezas fátuas por efeito de competições esportivas regionais às prisões de ex-presidentes por corrupção, aqui e na Coréia do Sul – uma me chamou a atenção: animais discriminados pela cor, uma manifestação que tem se tornado comum aqui e em outras partes do mundo.
Uma extensão do que já existe entre seres humanos na realidade, não se trata apenas da ocorrência de preconceito. Mas também de um pós-conceito, qual seja: a cor escura não somente evita que vários cães e gatos sejam adotados por cuidadores humanos. E, ainda mais, quando adotados, são devolvidos ou abandonados porque não ficam “bem” nas fotos…
Devido à pelagem que não absorve a luz de maneira ideal em imagens postadas em redes sociais, esses “animais de estimação” não são tão estimados ou, para usar um termo mercantil, valorizados. Tentei compreender, com todas as minhas forças e entendimento, essa justificação totalmente esdrúxula, mas não consegui. Tirante a Penélope, que chegou com pedigree pelas mãos de alguém da família (e é negra), o critério que usamos para abrigar nossas meninas é de terem sido jogadas na rua.
Fiquei a imaginar se evitaria tirar fotos com a nossa Penélope, labradora que está a chegar no termo de sua vida. Com treze anos de idade, nascida em um mesmo 9 de outubro que eu, não é apenas por essa coincidência que eu a amo ou que amamos todos nós que a conhecemos desde pequena. A alminha de olhos brilhantes cresceu e agora, a velha de visão opaca, um tanto surda, recebe com avidez todas as demonstrações de carinho e toques suaves em seu corpo dolorido. Caminha e respira com dificuldade. Apesar disso, é todo amor. Um dos melhores seres que já conheci.
O fenômeno de viver somente como imagem, elevado à suprema potência em redes sociais, não creio que seja novo entre os humanos. Apenas ganhou ênfase renovada com o surgimento da Internet e a facilidade de exposição midiática. O que surge como expressão egocêntrica é acompanhada de todos os nossos modelos referenciais – concepções às quais nos referenciamos.
A fantasia de que os robôs possam se tornar um dia nossos substitutos em várias áreas da atuação humana, creio que seja ainda menos tenebrosa do que o terror à acontecer a olhos vistos, diante de nós – a de que estamos nos tornando cada vez mais “limpos” de sentimentos – robotizados e imagéticos – basicamente, hologramas vivos…
Eu me separei…
Deixei casa – paredes, nas quais lembranças pendiam paralisadas…
Portas, por onde muitas vezes passei com desejo de amar e que,
em tantas outras ocasiões, tive urgência de sair,
com vontade de nunca mais voltar…
Janelas, pelas quais divisei paisagens, movimentos, sol, chuva, vento –
protegido das intempéries e dos olhares alheios…
Naquela casa me sentia acolhido ou albergado,
a depender dos olhares, dos humores, dos tons e frissons…
Eu me separei…
Deixei aqueles braços que acolhiam e afastavam,
que imperavam e hesitavam,
que mentiam avidez enquanto aceitavam as minhas obrigações…
Amor ainda existe, ainda nos queremos, queremos amar…
Porém, não quero que, de legado delicado,
tudo se transforme em prisão, a vermos nossas pernas atreladas a grilhões…
Eu me separei…
Mas sei que nunca serei independente do que recebi como patrimônio –
memória de paixão, cumplicidade, comunhão, vivência de amorosa divisão…
Ao perceber que o nosso amor está ameaçado de ser auto fagocitado,
não posso permitir que a incapacidade de ser menos para ser mais
devaste a nossa união…
Amor, por amor, hoje me separei…