manhã de amena insolação café na mesa
pão crocante manteiga sem sal creme de ricota mel cereja
mamão uva geleia de morango chocolate e surpresa
com toda a delicadeza você se esgueira entre os pés
do tabernáculo sagrado da refeição matinal
abaixo da elevação ouvimos o som da água
descendo em correnteza que se choca entre as pedras
retumbante em dança música da natureza de ser
livre presente em se desfazer e se reagrupar
em poças filetes remansos limpos rebeldes
aproveita que estou apenas de calção
retira a proteção fico exposto à sua adoração
eu que já adivinhava a sua intenção
já sentia intumescer aquele que pensa por si só
e você ama que ele responda mesmo depois de tantos anos
a sua boca o beija passeia a língua por onde deseja o possui
estamos ao sul de qualquer norte a luz solar a invadir
a nossa intimidade fluida inocente sem mancha
enquanto reza busca a profundeza de si geme eu urro
sem testemunhas de tamanha beleza quase choro
não é pelo gozo não é pelo prazer não é pelo vazio que me preenche
não é pelo abandono à consciência de que sou um com o todo
com a sua entrega me tem sob seu controle
apenas consigo entender que sou possuído
enquanto me sinto liquefeito mole
passeio por outros mundos vívidos
me energizo me perco me integro me entrego
enquanto você me engole…
me deixa exangue me arranca um sorriso
quando agradece: “obrigada pelo gole!”…
Etiqueta: boca
#Blogvember / Oposição
O toque suave dos teus lábios adormece em minha boca (Suzana Martins)
quando já não sabemos se anoitece
ou se amanhece
quando não sabemos se temos o céu sobre
ou sob as nossas cabeças
ou quando nada disso importa
já que em algum lugar deste planeta
uma parte dos seres
estará inevitavelmente em posição
oposta em relação à outra
mas o que eu mais queria era opormos
nossos corpos mãos a tatear nossas peles
adivinharmos no escuro nossas posições
pés sem chão no horizontal
em ponta cabeça em frenética busca do centro
do prazer abaixo do plexo de cada um
após o lusco-fusco no horizonte
de nossos sonhos acordados
enquanto o toque suave dos seus lábios
adormece em minha boca…
Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes
#Blogvember / Morte Saborosa
— minha língua sente o teu sabor e a sensação de fome se amplia (Mariana Gouveia)

calor infernal
gotejo de graça
lambuzo de suor a quem toco
sinto sede e minha língua sente o seu sabor
e a sensação de fome se amplia
desejo de bocas e becos
o ventilador do teto
espalha o ar quente pelo quarto
enquanto nossos corpos se incendeiam
como queimadas na amazônia
texturas próximas horas quebradas
entradas fendidas exploradas
líquidos se vaporizam se esvaem
para lençóis e peles
pelos unidos em tranças emaranhadas
línguas se digladiam para encontrar
a vencedora na peleja que terminará
em morte saborosa momentânea
até que o desejo volte avançar
sobre a secura do mundo inundado
de nosso amor…
Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes
#Blogvember / Viagem Interrompida
Entre sucessivos solavancos projetam veias de anil (Rozana Gastaldi Cominal)

busco me encontrar em você
que está onde?
onde eu me encontro em você?
observo às formigas que se reúnem em torno
de sua saliva que despencou da boca molhada
sou como elas tentando beber de suas afluências carnais
sou como a paleta do pintor plena de cores de meu pincel a jorrar
na tela entre sucessivos solavancos que projetam veias de anil
como se pollock incontrolável fosse a aspergir sêmen colorido
em seu corpo de ente ser pessoa mulher em fuga de mim em si
momento sentimento emoção violenta que lhe abençoa a existência
de fêmea senhora de si em mim a perfurar rasgar-me feito faca cega
que me mata me renova em revolucionários movimentos de subversão
múltiplas versões de nós espelhares — tesão
teso peso uso confuso escuso difuso intruso abuso de poder vil
sem saídas apenas entradas e bandeiras morte de etnias da terra nova
dominação e danação em invasões de tabas arrasadas
não é amor é horror de querer tanto que se quer partir e partir-se
em pedaços e espaços onde você ocuparia toda a extensão
de vazios e nadas por onde descaminho
perdido em viagem interrompida
pela via láctea derramada de flores florestas
de estrelas frias e solidão…
Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins
#Blogvember / O Vício
Sem palavras, sem verbos, sem elos (Suzana Martins)

enxerguei a bituca sem filtro
grudada na soleira
eu a agarrei e a acendi
a fumaça ainda que tênue
meu pulmão recebeu
como a uma querida amiga antiga
nunca esquecida
morto de sede
absorvi as últimas gotas do copo abandonado
na mesa do bar
me senti embalado pelo odor remanescente do álcool
todos os anos de abstinência que me impus
se desvaneceram sob o império do vício
nunca debelado
ainda que não trocasse palavras
invocasse verbos
que estivesse sem elos aparentes
compartilhei da agulha do adicto solidário
inoculei para dentro das veias a dor
bela e mortal de perder-se
a invasão do mal me alegrou
eu aquele que está à beira da morte
me senti o ser mais vivaz
o gosto de sangue
vampiro retirado e arrependido
arremeteu em minha boca –
voltei a beber
voltei a matar…
bastou reencontrá-la
bastou beijá-la…
Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Suzana Martins

