Ódiocracia

Ódiocracia 1

Um traço comum une a todos, no Brasil, à direita, ao centro e à esquerda – um ódio genuíno à Democracia, ao diálogo, à alternância do poder, à flexibilidade em relação à orientação ideológica de seu semelhante, que, como qualquer um, tem direito à voz. O consenso, por meio do diálogo, é uma quimera, uma ilusão, um ponto inalcançável no mapa – Utopia.

Hoje, ao ouvir o noticiário pela manhã – uma maneira radical de despertar – diante de tanta ignomínia à torto e ao reto, percebi claramente que, ao basear a minha perspectiva de que estávamos em busca do equilíbrio; a fugirmos da instabilidade; do defeituoso; do que causa sofrimento ao próximo se consubstanciava numa visão pessoal distorcida em relação a nossa sociedade. Sem chance para a sua pacificação. O que a maioria deseja, intimamente, é o confronto.

E esse desejo não permanece apenas na falta de compreensão, mas bandeia abertamente para a conflagração sob a desculpa de defesa de bandeiras supostamente bem-intencionadas, mas que sob a manipulação de uns poucos, disfarçam interesses corporativos escusos e/ou particulares das diversas partes, partidários e compartilhados do bem imposto, muitas vezes, à revelia de quem seria eventualmente beneficiado.

Esse cidadão hipoteticamente aquinhoado com a ajuda, a ponta fraca do elo, também não é incomum se aproveitar de sua condição de fraqueza para tentar receber o máximo de benefícios possíveis – uma questão de sobrevivência, certamente –, mas de características ardilosas. Macunaímas nunca estiveram tão vivos. Não faltarão quem os defenda sob a justificativa de que cresceram sem chances de boa educação, da obtenção de uma base para o crescimento pessoal e social. Esses excluídos são disputados como ouro e são ou serão eleitores a elegerem seus supostos defensores, os quais se utilizarão dos que entram no jogo com as melhores intenções, sendo alegremente enganados. Vivi tempos que sabia que era manejado, mas preferia fazer algo do que nada. Porém, cansei, principalmente depois de ver crescer cobras que eu suponha serem apenas minhocas fertilizantes.

Aos eleitos, muitos deles, não interessam que os seus eleitores subam de patamar. Por que perder essa manada de bons cordeiros? Aos eleitores, sem perspectiva de melhoras a curto prazo, resta a batalha diária em conseguir o ganha-pão que o sustente por aquele ou pelos próximos dias, se tanto… O famoso expediente “me engana que eu gosto” ganha, cada vez mais, contornos de sustentação para relacionamentos pessoais e sociais. Mentimos o tempo todo de nós para nós mesmos. E assim, construímos o Brasil sob a égide da infra-verdade, da pós-verdade, da pré-verdade, da mentira fantasiada de verdade festiva.

A busca pelo bem público é um sofisma, já que não há intenção que ele venha a alcançar a todos, e se assim for, não deve deixar de passar pela chancela de algum arcabouço ideológico, de posse de um grupo tal e qual populista ou popularizador. Não conheço nenhuma dessas agremiações com as quais convivemos na vida nacional que escape da minha análise ácida. A chegada ao poder de um deles se configura na chance de aparelhar o sistema para trabalhar sob diretrizes de coordenadores e atender às demandas de apoiadores e/ou investidores que rastejam no lodaçal do baixo-comércio de mentes a venda. Se detêm algum verniz intelectual, no entanto, estas conseguem uma avaliação um pouco melhor, mas nunca bem barato…

A bem da verdade, quem chega ao comando dos postos mais altos, provavelmente já construiu uma corrente tão extensa e grossa de compadrio e atendeu a tantas contingências de grupos afins que posso declarar, sem medo de errar, que um chefe político pode ser comparado a um chefe quadrilheiro – um capo mafioso. O atendimento de tantos esquemas de sustentação acaba por envenenar os corpos administrativos das cidades, dos estados e do País de tal forma, que acabamos reféns de uma doença que, enquanto progride a alimentar as suas células, por fim, mata o hospedeiro. A tendência de quem é dependente do poder central, é o de protegê-lo como um soldado escuda o comandante da tropa.

A progressão desse mal não é intrínseca a Democracia, mas no Brasil adaptou-se a ela ao longo do processo de sua adoção, através de um desenvolvimento político espúrio, que continuou a utilizar práticas antigas e jeitosas do país do pau-brasil torto. Se há possibilidade de reversão, só se dará através de medidas que envolvem a adoção irrestrita da Educação pública de qualidade, com resultados apenas a longo prazo – uma geração, talvez…

Obviamente, devido à brevidade deste texto, estipulo uma visão geral e generalizante. Há movimentos que se pretendem sérios e, em sua origem, o são, fundamentalmente. Sem a ação desses diversos grupos de cidadãos que objetivam o auxílio aos seus companheiros de jornada, tenho certeza de que o corpo social teria se esboroado há muito tempo. O problema são as patrulhas com os seus líderes e os patrulheiros, a seus serviços. Muitas vezes, mais reais que os próprios reis, a executar atividades que apenas imaginam que os seus supremos mandatários pensam. Quando não querem, eles mesmos, assumirem posturas que atraiam seguidores. A vaidade é uma poderosa aliada da conduta humana.

Outro dia, eu estava a caminhar por uma avenida do bairro e avistei uma carroça, com o seu proprietário ao lado, um catador de recicláveis, a recuperar papelões de um amontoado despejado por cidadãos inconscientes na esquina com uma rua local. Na traseira da carroça, os dizeres “DIGA NÃO ÀS DROGAS. DEUS SEJA LOUVADO” – escrito corretamente. O rapaz devia ter uns 25 anos, no máximo. Passamos por uma crise econômica mais aguda, mas fiquei a pensar que se tivéssemos implementado uma Educação pública de qualidade há 30, 20, 10 anos antes, é bem provável que esse rapaz e todos nós não precisaríamos estar a catar restos nos lixões do Sistema.

 

BEDA / Scenarium / 8 Ou 80, Revisitado

80 tiros charge

Há fatos que se sucedem em avalanche uns sobre os outros de tal maneira que mal conseguimos respirar, se a opção for a de nos mantermos atentos aos tempos que correm. Porém, o mais comum, é que esqueçamos o que se passou há uma semana, há um mês, há um ano antes. Como no caso sobre o qual escrevi em 2019, neste mesmo mês de Abril – o mais terrível dos meses – segundo o poeta T.S. Eliot. Olhando em perspectiva, podemos perceber elos que se encadeiam a explicitar o momento político-social que vivemos. A chegada da Covid-19 apenas pôs a mostra a chaga aberta no Estado brasileiro. Muitos não enxergam. Precisamos, mais uma vez, descobrir o Brasil.

Somos o País do tudo ou nada. Ou quase nada de tudo, se esse “tudo” for o melhor possível. Por outro lado, apresentamos o pior de tudo, muitas vezes.

Se podemos escolher nossos dirigentes, votamos nos mais inaptos. Se temos uma empresa entre as maiores do mundo, será uma que arranca sua riqueza da forma mais mortal e predatória. Se temos um dos maiores movimentos de emancipação GLBTQIA+ do planeta, ao mesmo tempo somos os que mais matamos os seus participantes. Se temos uma das maiores populações afrodescendentes fora da África, apresentamos as mais persistentes ações discriminatórias da Terra perpetradas por uma sociedade hipócrita ao se proclamar igualitária.

Se for para matar um homem preto, que despejemos oitenta tiros sobre ele. Oito, não bastam – a média de projéteis lançados por cada um dos dez atiradores que confundiram o alvo-negro-no-carro-branco com um suposto assaltante. Condenado por engano – se for para nos enganarmos que seja por muito – por um juízo de valor eivado de preconceitos, incompetência e poder de fogo, um pai de família foi fuzilado em plena luz do dia, diante de testemunhas, por armas que atiram projéteis 7.62 à velocidade de oitocentos metros por segundo, a uma curta distância. Fico a imaginar se houve tempo de Evaldo pensar na segurança de uma amiga e da família que também ocupavam o carro – sogro, filho e esposa – antes de ser assassinado…

Quando tudo aconteceu, há um ano, uma segunda-feira, havia trabalhado o dia todo em ambiente fechado. Soube no dia seguinte, depois de ter dormido quatro horas desde a sexta anterior. Acordei com a repercussão da notícia propagada pelo rádio despertador de cabeceira. Como muitas vezes acontece, pareceu que estava sonhando. Não era possível, mesmo para o “País do 8 Ou 80” que aquilo fosse real. A “notícia boa”, diante de tamanha gravidade foi que dos cinco alvos do alvo veículo que carregava seus ocupantes a um chá de bebê, apenas o músico foi atingido. Isso significa que a munição descarregada sobre ele não foi a esmo, mas dirigida. Os ferimentos no sogro, um efeito colateral. Luciano, um catador de papel que tentou alertar os atiradores sobre a família, também alvejado, morreu dias depois.

Em uma sociedade organizada, as funções de cada instituição são delimitadas de maneira que uma não invada a outra. Membros das Forças Armadas não deveriam exercer a função de Polícia. “O Exército tem como missão preservar e garantir a defesa da Pátria, zelar pelo cumprimento pleno da Constituição e pela manutenção da Lei e da Ordem. Em tempos de Paz, uma das principais funções do Exército é defender as fronteiras brasileiras, garantindo a Soberania nacional.” Foi o caso daquela segunda-feira?

Houve ordem de prisão contra os elementos envolvidos na ação. Só não ficou esclarecido quem teria sido o mandante do crime. Um soldado cumpre ordens. Faz parte do espírito da corporação militar obedecer a cadeia de comando, assim como existe uma natural sequência na cadeia alimentar. Vitórias e derrotas se sucedem dessa maneira. Assim como a sobrevivência das espécies. O triste é que os brasileiros parecem sobreviver caminhando sobre os corpos ensanguentados dos mais vulneráveis…

Um mês depois, os meios de comunicação anunciaram: “O Ministério Público Militar denunciou doze militares que dispararam contra o carro de uma família que se locomovia para um chá de um bebê, causando a morte do músico Evaldo Rosa e do catador de material reciclado Luciano Macedo, ferido enquanto tentava ajudar a família em Guadalupe, no Rio de Janeiro. Os militares foram denunciados pelo homicídio dos dois e pela tentativa de homicídio do sogro de Evaldo, Sérgio Gonçalves de Araújo, ferido na mesma operação. Também estavam no veículo a esposa, o filho e uma amiga do músico, que não foram atingidos.”

Em maio, o STM decidiu liberar os atiradores.

Passado um ano, após as sucessivas tragédias que vivemos, incluindo a que estamos vivenciando atualmente, Evaldo e Luciano foram poupados de verem crescer os efeitos da infestação dos vírus que tomaram conta do corpo brasileiro…

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Independência Ou Morte*

Tiradentes
Há de se perder a cabeça para se tornar herói…

Neste feriado de 21 de Abril (não tem sido todos os dias, feriados?), alusivo à Inconfidência Mineira, comandada pelo traído Tiradentes, discorro sobre a Proclamação da Independência do Brasil. Esse texto está em REALidade*, meu primeiro livro, lançado pela Scenarium Plural – Livros Artesanais, em 2017. REALidade reúne crônicas que tratam sobre fatos “maiores e menores”, a discernir sobre uns e outros em sua real grandeza, a depender de pontos de vistas individuais.

“Todos os brasileiros que frequentaram a escola carregam gravado na memória o momento em que se deu a declaração da Independência do Brasil.

Desde a mesma tenra idade, nos é ensinada a História de como tudo aconteceu. Fizeram filmes e programas de televisão, escreveram livros e pintaram quadros em homenagem àquele ato decisivo, a mostrar D. Pedro – então Príncipe Regente do Brasil, ligado à Coroa Portuguesa — com a espada empunhada, a gritar às margens do Riacho do Ipiranga: ‘Independência ou Morte!’…

A Morte, no entanto, é a única possibilidade de Independência que podemos, de fato, vivenciar em um mundo cada vez mais atado a palavra do momento: globalização… que une mercados e informações, como se fôssemos vizinhos de muro. Um espirro dado na China é capaz de deixar o mundo todo gripado. Os Estados Unidos elegem um imbecil e as Bolsas de Valores enfrentam uma onda de desvalorização. O Estado Islâmico, — ilhado em um autodenominado Califado —, menor que a maioria dos Estados brasileiros, faz explodir homens-bomba no Oriente Médio… e corpos e ideologias se espalham em ondas pela crosta terrestre. Uma criança morre afogada nas águas da costa da Europa e todas as pessoas se compadecem como se seus pais fossem.

O tráfego de notícias é tão intenso que, se fôssemos nos ater detidamente a tudo o que acontece no planeta, ficaríamos presos em nossos casulos, a sofrer… encurralados pelas dores alheias e, em algum momento, nos esqueceríamos de nós mesmos. Recentemente, o assunto do momento girou em torno das ‘fatídicas’ eleições municipais. Eu — como tantos outros eleitores — fui obrigado a escolher um representante na seara de candidatos, que se dedicaram a apresentar suas ‘fórmulas mágicas’ ao longo da campanha.

Tarefa cumprida, acredito ter feito a minha parte e, se for imitar a maioria, posso me considerar livre para reclamar: do transporte, da saúde pública, educação… o cinza que cobre o grafite, a praça arrumada com ‘obras esquisitas’.

Acredito que, realmente, seja possível escapar das circunstâncias que restringem a liberdade… mas, para isso, é necessário um exercício diário de paciência… lutar contra os condicionamentos e conceitos — e não nos limitarmos ao lugar comum. Renovar-se e estar sempre pronto e disposto a questionar o novo, e também o velho. Estar receptivo aos processos…

Não é nada fácil dar o nosso grito de ‘independência ou morte’, afinal, quando chegamos à realidade, muita coisa já ‘estava pronta’. E nos acostumamos aos valores que nos são passados — impostos — sem questioná-los: somos ensinados a apenas repeti-los, até a Morte.”

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Domingo-Domingo

Sunday

Este é um domingo que realmente é um domingo-domingo. Hoje se celebra a Páscoa, o principal dia do calendário litúrgico cristão, em que se comemora a Ressurreição de Cristo, sendo que é a partir dela que todas as outras datas importantes do Cristianismo são calculadas – Semana Santa, Quaresma, Quarta-feira de Cinzas… Efeméride religiosa que se transformou em data comercial, o motivacional consumo de ovos de chocolate poderá animar um pouco àqueles que estão dispostos a cumprir a Quarentena que se estenderá até o dia 22 de Abril, por enquanto…

Tanto quanto na Páscoa de 2013, estou sem recursos para adoçar o domingo de Páscoa da minha família com chocolate por dois motivos: estou sem grana e permaneço isolado na Praia Grande. Até talvez voltasse para Sampa, mas prefeitos da região litorânea decidiram impedir a entrada de turistas moradores de outras regiões a partir de quinta-feira, ainda que tenham imóvel por aqui. Os casos de Covid-19 cresceram muito nos últimos dias, tanto na capital quanto no resto do Estado de São Paulo. E estamos longe do pico de propagação da doença. Sem ninguém que me busque, com a escassez de transporte igualmente de ida, por aqui estou.

Mesmo para a parte da população acostumada a viver uma Páscoa mais religiosa, em recantos deste Brasil multicultural, a comemoração não acontecerá sem levarmos em conta que somos, todos nós, possíveis infectados ou agentes infectantes do novo corona vírus. As procissões em tapetes de flores seriam vistas com preocupação, se ocorressem; adentrar pelas residências para saldar em cantos seus moradores seriam consideradas insurgências contra o distanciamento social; a aproximação dos corpos em igrejas potencialmente cheias pelo ritual da missa poderiam levar muitos fiéis para mais perto do Senhor muito mais rápido do que desejariam. Porém, ontem, perto das 22h, quando prefiro ir ao supermercado (com máscara), para evitar aglomerações, procissões de compradores de ovos de chocolate pelos corredores denotava duas características do brasileiro: deixar tudo para a última hora e indisciplina.

Todos os dias surgem notícias de pêsames entre parentes e conhecidos componentes da minha lista do Facebook. Muitos não indicam a causa da morte, mas a aparente falta de informação é demonstrativa – não há como saber o motivo do óbito sem o resultado do teste. As notificações estão atrasadas ou não estão sendo identificadas. Isso pode levar a quem não tem a intenção de manter o afastamento social a crer que a doença não seja assim tão abrangente como pintam os trabalhos científicos e alertas veiculadas pelos meios de comunicação. Há uma concordância ampla entre médicos e infectologistas de todas as latitudes que vivemos uma pandemia de graves proporções ao contrário do que muitos gostariam de aceitar.

No Brasil, temos a tendência, como povo, e desdenhar da Ciência, de contrariar os estudos e os estudiosos. De refutar pesquisas, de valorizar o jeitinho e a magia do inesperado-improvisado. Quando somos chamados a cumprir um recesso de nossas atividades por um certo período a fim de evitar que a sociedade não sofra a perda de uma grande porção de seus membros, percebemos que a solidariedade e a empatia também não são características assim tão apreciáveis por parte de nossos cidadãos. Ao mesmo tempo, vemos surgir iniciativas de alguns de seus membros que nos dão a esperança de que nos tornemos um País melhor.

Tanto quanto o Pessach judaico, que inspirou o surgimento da Páscoa e representou um episódio libertador-transformador na nossa História, espero que este doloroso processo pelo qual estamos passando se transfigure em transição para algo muito maior – um novo mundo – de novas e belas possibilidades.

Feliz domingo-domingo!

P.S.: Como a brincar com nossas expectativas, vivi poucos outonos, ainda que no seu início, com dias tão bonitos quanto os que tenho presenciado. O mar, limpo de nossos corpos infectados, continua a repetir o seu eterno canto em ondas…

Beda Scenarium

 

BEDA / Scenarium/ No Mundo De 2020

2020

Soylent Green, que no Brasil foi chamado de No Mundo De 2020 e, em Portugal, de À Beira Do Fim, é um filme estadunidense de 1973, dirigido por Richard Fleischer e estrelado por Charlton HestonLeigh Taylor-YoungEdward G. Robinson. Vagamente baseado no romance de ficção científica de 1966 Make Room! Make Room!por Harry Harrison, que combina dois gêneros – policial-processual e ficção científica – trata-se da investigação sobre o assassinato de um homem de negócios rico. Em um planeta Terra com oceanos em extinção e alta umidade durante todo o ano, devido ao efeito estufa, resulta em poluição, pobreza, superpopulação, eutanásia e recursos naturais esgotados.

No ano de 2022, a cidade de Nova Iorque conta 40 milhões de habitantes. Para alimentar as inúmeras pessoas pobres e desempregadas, existem tabletes verdes chamados de Soylent Green, produzidos inicialmente através da industrialização de algas. Somente os ricos tem acesso a comidas raras, como carnesfrutas e legumes.

Quando um rico empresário das indústrias Soylent Corporation é assassinado em seu luxuoso apartamento, o detetive policial Robert Thorn começa a investigar. Ele de imediato suspeita do guarda-costas do empresário, que alega ter saído na hora do crime. Após interrogá-lo, Thorn vai ao apartamento do empresário e encontra indícios suspeitos, como uma colher com restos do caríssimo morango. Enquanto Thorn persegue o guarda-costas, seu idoso parceiro, Sol, começa a investigar os registros e papéis do empresário morto. Acaba por descobrir uma verdade estarrecedora sobre o tal tablete verde…” (Adaptado do Wikipédia).

Garotos, eu e meu irmão assistíamos em nossa TV preto e branco a filmes de todos os tipos. Os de ficção científica eram os nossos favoritos. Pessoalmente, comecei a gostar também de assistir a filmes europeus, musicais e noirs americanos. No Mundo De 2020, eu e o Humberto vimos juntos. Foi ele que chamou a minha atenção sobre o tema similar, quando o Capitão desdenhou do Covid-19, além de realçar que 90% dos abatidos pela doença seriam cidadãos acima de 60 anos, quase como a dizer que constituíam uma população “descartável”.

O personagem de Edward G. Robinson, emblematicamente em seu último papel antes de morrer, deseja se despedir dignamente da vida e adere a um programa de incentivo a eutanásia de maneira confortável e indolor enquanto revive em imagens cenas do belo mundo natural que existia antes de se tornar quase inabitável por conta do estilo de vida humano autodestrutivo que o levou ao caos.

Fica difícil cotejar o assunto do filme com a questão de os velhos serem considerados, em conjunto, um peso morto, normalmente usuários de programas assistenciais ou aposentadorias “dispendiosas” sem dar spoiler . Não o farei. O que o Capitão vocalizou, de alguma maneira, faz parte do pensamento de muitos que o elegeram. Ainda que muitos sejam igualmente velhos, que segundo discriminou, são pessoas de 60 anos ou mais. Como o dito cujo tem 65, talvez fosse ocaso dele mesmo pensar em se despedir dignamente da função que exerce por falta de condições em conduzir a administração do País.

Na pesquisa que fiz para rememorar os dados do filme sem parecer distante da mensagem que passa, acabei por encontrar várias informações interessantes. A realidade que mostra, de certa maneira, é o padrão da vida real de boa parte da população mundial – poluição, saneamento básico precário (“acostumada a nadar no esgoto”), escassez alimentar, precariedade de moradia, violência e superpopulação. Enquanto uma outra pequena parcela usufrui de uma estrutura impensável para quem está acostumado a se equilibrar entre a vida e a morte cotidianamente.

A chegada do Covid-19 parece tema de filme distópico, atingindo a todos de forma espraiada-generalizada. Porém nos Estados Unidos ela mostra a sua faceta mais grave ao avançar sobre as populações mais pobres, mormente constituídas por hispânicos e afrodescendentes. Muitos não têm planos particulares e não podem ser atendidos como ocorre no sistema de saúde brasileiro – representado pelo SUS – apesar da precariedade por causa dos escassos recursos muitas vezes desviados ou mal utilizados.

O Mundo De 2020 chegou, em muitos dos aspectos mostrados na produção de 1973, no mundo de 2020. Quando garoto, me assustei com as possibilidades tenebrosas que demonstrariam a tendência autofágica do homem moderno. Desde cedo, percebi o quanto caminhamos, por causa do sistema hegemônico que adotamos no planeta, para um estado irreversível de pobreza material de grande parte da população e de pobreza espiritual da parte que abocanha a maior porção dos recursos da Terra. Porque uns não abririam mão do poder que detêm, enquanto despossuídos almejam alcançar o mesmo poder, “decrescer” é um objetivo inalcançável nesta geração. Tenho por mim que se não desacelerarmos conscientemente, certamente seremos forçados a parar…

 

Beda Scenarium

 

Informações e análises adicionais em:
https://medium.com/ver-mais-text%C3%A3o/no-mundo-de-2020-909f3befcee5