B.E.D.A. / Veredas

Há quem garimpe a vida toda
em busca da pedra preciosa
e nada consegue,
a não ser restolhos —
poeira sem peso, pedregulhos
e o espinho da rosa.

Há quem se perca pelo caminho
e encontra a curva perfeita,
a reta para o coração,
topa com a pepita na terra aflorada,
um beijo perfumado
da inesperada boca da amada.

Há quem beba da água mais limpa,
desconhece a insipidez do ódio,
a tibiez da voz monocórdica,
desfila sem saber o que é medo,
canta a alegria e recebe amor,
mas é infeliz…

Há quem consiga fazer correr o sangue,
sabe estimular a troca e a revolução
apaixonada a bandeiras despregadas.
Quaisquer cores são suas,
o trânsito em cada rua tumultua,
segue o fluxo descontínuo,
arremeda o certo com o incerto,
mente verdades e constrói sendas
e, entre incensos, insensato,
trapaceia.
Vence.
É herói.

As veredas da existência são insinuantes,
indeterminadas, cheias de vieses
feito terminações nervosas,
crescentes na infância e na juventude,
esclerosadas na velhice.
Viver é bom. É ruim.
Como doença progressiva no coração da Terra,
somos bestiais seres da guerra.
Matamos e morremos.
No meio de tudo isso, vivemos…

Participam do B.E.D.A.:
Adriana Aneli
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Lunna Guedes
Mariana Gouveia
Roseli Pedroso

Amar Ou Se Apaixonar*

Amar é abnegação,
se apaixonar é condenação.
O amor é superador,
a paixão é transgressora.
O amor supera a dor,
a paixão cede à dor.
O amor é salutar,
a paixão é patológica.
O amor é lógico,
a paixão é louca.
O amor é bravo,
A paixão é corajosa.
O amor é aglutinador,
A paixão é individualista.
O amor soma,
A paixão divide.
Somos amor,
estamos apaixonados.
Temos o amor como destino,
perdemo-nos no caminho da paixão.
Conquanto, buscamos amar,
permanente e equilibradamente,
digam-me por que,
em sendo algo breve e temerário,
queremos nos apaixonar?

Foto: Foto por Joshua Mcknight em Pexels.com

*Poema de 2014

Renovo

Lindos sorrisos falsos, grandes abraços falsos, armados beijos falsos (sabemos que os bons beijos são inesperados e desarmados)… Enfim, chegamos ao Natal!

A sentença inicial expressei apenas para ser conforme aos revoltados de plantão que, com razão (as suas razões), querem fugir à massificação dos bons votos feitos de forma automática e sem um fundo de bom augúrio.

Eu, de minha parte, desejo realmente que possamos viver tempos melhores. Que o espírito de renovação se faça presente. Que as boas vibrações sejam perceptíveis na pele de pelos arrepiados. Que o sorriso seja acolhido com outro sorriso. Que chorar seja permitido e seja acompanhado de lágrimas companheiras e consoladoras. Que o abraço seja reconfortador. Que o beijo seja carinhoso como brisa fresca ou profundo como se quisesse explorar a alma de quem é beijado.

Sempre é tempo de renovação da esperança, do desejo de melhorar a visão do entorno ou de Raio X que busca o âmago das coisas (meu “defeito” de escritor). Da renovação do amor desgastado pelo tempo e/ou pela rotina, mas que ainda vibra dentro de nós. Da renovação do amor em nossa vida, não apenas pelas pessoas, mas pelos nossos companheiros animais, pelas plantas, pela Terra, pelos ideais e pelas causas que nos movem.

Um dia, neste mesmo planeta que habitamos, uma pessoa ousou proclamar o Amor como o Caminho. Isso foi tão revolucionário à época quanto o é ainda hoje. Todos os dias, temos provas de quanto é desafiador exortar o Amor ao próximo, de desarmar os braços para acolher. Os martirizados pululam em todos os cantos dos Continentes. O que antes ocorria na calada da noite e na distância dos lugares, hoje nos chega no mesmo momento que acontece, impactante. Imagens em vermelho-sangue, vermelho-fogo, em vermelho-choro…

Para encerrar, posto a imagem a seguir. Gosto de amanheceres, auroras são sempre bem-vindas. Mas os crepúsculos são mais desafiadores. Encerram a passagem do dia para a noite. Chega prenhe do dia que foi vencido, com dor e suor, alegria e amor. Esconde e aclara expectativas para o novo amanhecer. Os crepúsculos são luscos-fuscos da vida. Eis este, que colhi na fronteira entre São Paulo e Rio de Janeiro. O caçador de nuvens que sou lhes deseja o melhor para esta noite. E para todos nós, um Feliz Natal! Sejamos um renovo!

Proteger A Vida Verde Para Quem?*

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Em dia de ENEM, tive contato com uma informação que me deixou perplexo. Fiquei a imaginar como e quando viemos a perder a consciência de unidade  planetária. Por que muitos de nós – autodenominados, animais racionais – afirmam desconhecer o vínculo íntimo entre todos os seres viventes nos vários Reinos? Em qual ponto no meio do caminho deixamos de fazer parte da Natureza, para nos tornarmos seus algozes? E como esgarçamos a ciência de não vermos vida em uma planta?

Em resposta a uma postagem do blogue Cientistas descobriram que… “CDQ”, que cita respostas de estudantes do Ensino Médio a respeito da concepção de que as plantas não são seres vivos, postei “A Árvore – Casa 3”, de RUA 2, publicado em 2018 pela Scenarium Plural Livros Artesanais. Nesse conto, um motorista parado no trânsito conversa com uma árvore, que demonstra a sabedoria de quem faz parte de um intricado sistema vital que envolve todos os seres, há milhões de anos. Há quem dirá que minhas palavras sejam fantasiosas. Apenas aqueles que nunca se comunicaram com a vida…

“A ÁRVORE
casa 3

Entardecer… março-ainda-verão-chuva-forte-e-repentina.
O trânsito se complica.
Em vários pontos da cidade… anda-se a passos lentos.
Parado na via… o motorista olha para a árvore à sua esquerda e, aborrecido com a falta de movimento… puxa conversa:
— Estamos todos parados. Você… parece bem mais confortável.
Buzinas-cansaço-chuva-cansaço e as horas em seus movimentos de minutos-segundos… e ele ouve:
— Estou certa disso: sei quem sou, onde estou e para onde vou…
O cidadão revira os olhos… agarra firme o volante e refuta:
— Não me parece que vá a algum lugar.
— Você se prende à minha aparente imobilidade. No entanto, tenho consciência de tudo o que me rodeia. Nós, árvores, não precisamos nos deslocar para isso…
O animal paralisado funga… ao se dar conta da ironia da árvore…
— Tem consciência que foi plantada por homens e que homens podem arrancá-la a qualquer momento?
— Você também não foi “plantado” por homens? Igualmente não podem vir desplantar a sua presença no mundo, à mercê que estamos de circunstâncias incontroláveis, a todo o momento? Você sabe para onde vai?
Sentindo-se ainda mais incomodado que antes, parecia se alongar para uma pequena batalha.
— Estou tentando ir para o trabalho… acaso, sabe o que é trabalhar para sobreviver?
— Eu sou uma trabalhadora nata. O ser mais preparado para subsistir. Sou a minha própria indústria de alimento. Se me permite dizer… a questão que abordo é bem mais profunda: você sabe para onde vai, realmente?
Sem resposta, o bípede retribuiu a questão:
— E você, sabe?
— Sim… eu sei!
O ser em sua condição de criatura-pensante suspendeu a respiração por instante e ouviu:
— Eu vou para onde estou e estou onde deveria estar. Sem essa certeza, estaria desenraizada. E é daqui que os observo em movimento errático de lá para cá, a percorrer trilhas marcadas, em busca de algo que, em verdade, vocês já têm…
Boquiaberto, o humano emudeceu, mas ocorreu-lhe uma pergunta:
— Porque raios estar a falar comigo? Eu converso com plantas, pássaros, cães, gatos, mas nunca antes me responderam.
— Porque se coloca como um igual a mim. Normalmente, as pessoas sequer me notam.
— Acredito que façamos parte do mesmo ambiente, a viver o mesmo tempo… interligados.
— Parece que já conhece o caminho, amigo…”.

*Proteger A Vida Verde Para Que(m)?

Falta Ou Complemento?

Falta I
Família Ortega – Eu, Romy, Lívia, Ingrid e Tânia

Em um relacionamento, o que devemos buscar no outro? O que nos falta ou o que nos acrescenta? Qual a base de avaliação que temos para dizer o que nos falta? Qual o parâmetro para dizermos que algo nos foi acrescido com aquela pessoa que queremos ao nosso lado? Desejamos a calma da estabilidade conformada ou a trepidação de uma convivência sempre em evolução para o desconhecido? Desejamos a paz dos mortos ou o calor da ebulição dos vivos? Devemos viver a dualidade do ser – prazer e dor – ou a unidade de Ser e nos perdermos no Todo, sem identidade?

Todas essas perguntas e muitas outras, eu me fazia quando garoto, principalmente quando eu comecei a crer, por volta dos dezesseis ou dezessete anos. Eu me tornei vegetariano, decidi ser celibatário e abdicar dos prazeres do mundo. Eu nunca havia experimentado o sexo e, para mim, parecia ser natural não experimentar. Cria que evitaria me envolver em uma espiral de problemas que todos viviam sem solução aparente.

Ter família, trabalhar para sustentá-la, abrir mão de projetos individuais para projetar-se no mundo em busca de sustento, parecia não ter sentido para mim. Eu havia me tornado um monge sem hábito. Experimentava reunir palavras de todos os tempos e lugares, personagens que procuraram a Luz, livros que ensinavam o Caminho, as várias faces do Saber dos Mestres – Cristo, Buda, Confúcio, Maomé, os filósofos de todas as tendências – e erigia uma crença individual baseada na intuição pessoal, que me eram confirmadas principalmente nos momentos de solidão. Ficar sempre sozinho, fechado em meu quarto, apavorava a minha mãe. No entanto, também gostava de jogar futebol, ir ao cinema, assistir programas de televisão, ouvir música, escrever, desenhar e ler tudo o que caia em minhas mãos. Quem sabe onde encontraria o novo conhecimento que me revelaria a mim?

Quando fui visitar o Seminário de Agudos onde, eventualmente no futuro, eu faria a preparação para me tornar frei franciscano, não esperava que fosse ali que encontraria outra resposta… O resto da história, este pai de família, casado oficialmente há 30 anos, completados hoje, ainda está a contar. O caminho que tomei, foi o caminho que tomei e não exercito o jogo do “se”. Não me arrependo de nada. Festejo a vida. Beijo a face do Tempo e anseio me encontrar preparado para seguir além, quando for o tempo…