Eu Escrevi Outro Livro

Eu estava como que boiando solto no rio de asfalto paulistano, a ponto de ter mais uma crise de ansiedade de consequências funestas. Eu me conhecia. Já havia passado por isso antes. Em outras ocasiões, quase embarquei numa viagem sem volta. Cheguei a tocar o limite e quase vislumbrei ultrapassá-lo. Terminava o mês de janeiro deste ano e encontrei uma maneira de não afundar — parti para o Litoral Norte — o meu norte junto ao mar, onde busquei boiar no líquido amniótico marinho para renascer. Ao mesmo tempo, comecei a fazer um dos cursos de escrita da Scenarium, conduzido pela Lunna Guedes.  

O sincronismo entre a necessidade de escrever sobre o que acontecia comigo e o curso voltado para a produção de crônicas, encontrou ensejo na busca da união de uma linguagem íntima e a expressão do que acontecia ao meu redor, no tempo presente. A visão pessoal sobre os acontecimentos, talvez fizesse com que superasse minha condição mental precária. Como se fosse um antídoto obtido do veneno — o que via acontecer no País colaborava para o aprofundamento da minha natural melancolia — conduziu-se a produção do meu texto. Ao mesmo tempo, o contato com o Mar foi paulatinamente resgatando meu equilíbrio no embate contra o movimento das ondas.  

Curso De Rio, Caminho Do Mar é o meu quarto livro pela Scenarium — Livros Artesanais, o terceiro de crônicas, o segundo numa linha mais intimista. Páginas de papel enlaçadas com arte que me resgataram das turbulentas águas da atual realidade brasileira, buscando vieses alternativos ao vislumbrá-la. Em um momento em que precisamos alimentar o povo deixado à própria sorte, percebi de maneira clara a necessidade de também alimentar o espírito. Essa interdependência se provou indissociável para sobrevivermos ao assédio do neofascismo.

O lançamento ocorrerá virtualmente, dia 27 de novembro, sábado, às 17h, pelo canal do Instagram do selo. Quem quiser adquirir esta e outras obras, entre o contato com a Scenarium — Livros Artesanais.

B.E.D.A. / Veredas

Há quem garimpe a vida toda
em busca da pedra preciosa
e nada consegue,
a não ser restolhos —
poeira sem peso, pedregulhos
e o espinho da rosa.

Há quem se perca pelo caminho
e encontra a curva perfeita,
a reta para o coração,
topa com a pepita na terra aflorada,
um beijo perfumado
da inesperada boca da amada.

Há quem beba da água mais limpa,
desconhece a insipidez do ódio,
a tibiez da voz monocórdica,
desfila sem saber o que é medo,
canta a alegria e recebe amor,
mas é infeliz…

Há quem consiga fazer correr o sangue,
sabe estimular a troca e a revolução
apaixonada a bandeiras despregadas.
Quaisquer cores são suas,
o trânsito em cada rua tumultua,
segue o fluxo descontínuo,
arremeda o certo com o incerto,
mente verdades e constrói sendas
e, entre incensos, insensato,
trapaceia.
Vence.
É herói.

As veredas da existência são insinuantes,
indeterminadas, cheias de vieses
feito terminações nervosas,
crescentes na infância e na juventude,
esclerosadas na velhice.
Viver é bom. É ruim.
Como doença progressiva no coração da Terra,
somos bestiais seres da guerra.
Matamos e morremos.
No meio de tudo isso, vivemos…

Participam do B.E.D.A.:
Adriana Aneli
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Lunna Guedes
Mariana Gouveia
Roseli Pedroso

Amar Ou Se Apaixonar*

Amar é abnegação,
se apaixonar é condenação.
O amor é superador,
a paixão é transgressora.
O amor supera a dor,
a paixão cede à dor.
O amor é salutar,
a paixão é patológica.
O amor é lógico,
a paixão é louca.
O amor é bravo,
A paixão é corajosa.
O amor é aglutinador,
A paixão é individualista.
O amor soma,
A paixão divide.
Somos amor,
estamos apaixonados.
Temos o amor como destino,
perdemo-nos no caminho da paixão.
Conquanto, buscamos amar,
permanente e equilibradamente,
digam-me por que,
em sendo algo breve e temerário,
queremos nos apaixonar?

Foto: Foto por Joshua Mcknight em Pexels.com

*Poema de 2014

Renovo

Lindos sorrisos falsos, grandes abraços falsos, armados beijos falsos (sabemos que os bons beijos são inesperados e desarmados)… Enfim, chegamos ao Natal!

A sentença inicial expressei apenas para ser conforme aos revoltados de plantão que, com razão (as suas razões), querem fugir à massificação dos bons votos feitos de forma automática e sem um fundo de bom augúrio.

Eu, de minha parte, desejo realmente que possamos viver tempos melhores. Que o espírito de renovação se faça presente. Que as boas vibrações sejam perceptíveis na pele de pelos arrepiados. Que o sorriso seja acolhido com outro sorriso. Que chorar seja permitido e seja acompanhado de lágrimas companheiras e consoladoras. Que o abraço seja reconfortador. Que o beijo seja carinhoso como brisa fresca ou profundo como se quisesse explorar a alma de quem é beijado.

Sempre é tempo de renovação da esperança, do desejo de melhorar a visão do entorno ou de Raio X que busca o âmago das coisas (meu “defeito” de escritor). Da renovação do amor desgastado pelo tempo e/ou pela rotina, mas que ainda vibra dentro de nós. Da renovação do amor em nossa vida, não apenas pelas pessoas, mas pelos nossos companheiros animais, pelas plantas, pela Terra, pelos ideais e pelas causas que nos movem.

Um dia, neste mesmo planeta que habitamos, uma pessoa ousou proclamar o Amor como o Caminho. Isso foi tão revolucionário à época quanto o é ainda hoje. Todos os dias, temos provas de quanto é desafiador exortar o Amor ao próximo, de desarmar os braços para acolher. Os martirizados pululam em todos os cantos dos Continentes. O que antes ocorria na calada da noite e na distância dos lugares, hoje nos chega no mesmo momento que acontece, impactante. Imagens em vermelho-sangue, vermelho-fogo, em vermelho-choro…

Para encerrar, posto a imagem a seguir. Gosto de amanheceres, auroras são sempre bem-vindas. Mas os crepúsculos são mais desafiadores. Encerram a passagem do dia para a noite. Chega prenhe do dia que foi vencido, com dor e suor, alegria e amor. Esconde e aclara expectativas para o novo amanhecer. Os crepúsculos são luscos-fuscos da vida. Eis este, que colhi na fronteira entre São Paulo e Rio de Janeiro. O caçador de nuvens que sou lhes deseja o melhor para esta noite. E para todos nós, um Feliz Natal! Sejamos um renovo!

Proteger A Vida Verde Para Quem?*

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Em dia de ENEM, tive contato com uma informação que me deixou perplexo. Fiquei a imaginar como e quando viemos a perder a consciência de unidade  planetária. Por que muitos de nós – autodenominados, animais racionais – afirmam desconhecer o vínculo íntimo entre todos os seres viventes nos vários Reinos? Em qual ponto no meio do caminho deixamos de fazer parte da Natureza, para nos tornarmos seus algozes? E como esgarçamos a ciência de não vermos vida em uma planta?

Em resposta a uma postagem do blogue Cientistas descobriram que… “CDQ”, que cita respostas de estudantes do Ensino Médio a respeito da concepção de que as plantas não são seres vivos, postei “A Árvore – Casa 3”, de RUA 2, publicado em 2018 pela Scenarium Plural Livros Artesanais. Nesse conto, um motorista parado no trânsito conversa com uma árvore, que demonstra a sabedoria de quem faz parte de um intricado sistema vital que envolve todos os seres, há milhões de anos. Há quem dirá que minhas palavras sejam fantasiosas. Apenas aqueles que nunca se comunicaram com a vida…

“A ÁRVORE
casa 3

Entardecer… março-ainda-verão-chuva-forte-e-repentina.
O trânsito se complica.
Em vários pontos da cidade… anda-se a passos lentos.
Parado na via… o motorista olha para a árvore à sua esquerda e, aborrecido com a falta de movimento… puxa conversa:
— Estamos todos parados. Você… parece bem mais confortável.
Buzinas-cansaço-chuva-cansaço e as horas em seus movimentos de minutos-segundos… e ele ouve:
— Estou certa disso: sei quem sou, onde estou e para onde vou…
O cidadão revira os olhos… agarra firme o volante e refuta:
— Não me parece que vá a algum lugar.
— Você se prende à minha aparente imobilidade. No entanto, tenho consciência de tudo o que me rodeia. Nós, árvores, não precisamos nos deslocar para isso…
O animal paralisado funga… ao se dar conta da ironia da árvore…
— Tem consciência que foi plantada por homens e que homens podem arrancá-la a qualquer momento?
— Você também não foi “plantado” por homens? Igualmente não podem vir desplantar a sua presença no mundo, à mercê que estamos de circunstâncias incontroláveis, a todo o momento? Você sabe para onde vai?
Sentindo-se ainda mais incomodado que antes, parecia se alongar para uma pequena batalha.
— Estou tentando ir para o trabalho… acaso, sabe o que é trabalhar para sobreviver?
— Eu sou uma trabalhadora nata. O ser mais preparado para subsistir. Sou a minha própria indústria de alimento. Se me permite dizer… a questão que abordo é bem mais profunda: você sabe para onde vai, realmente?
Sem resposta, o bípede retribuiu a questão:
— E você, sabe?
— Sim… eu sei!
O ser em sua condição de criatura-pensante suspendeu a respiração por instante e ouviu:
— Eu vou para onde estou e estou onde deveria estar. Sem essa certeza, estaria desenraizada. E é daqui que os observo em movimento errático de lá para cá, a percorrer trilhas marcadas, em busca de algo que, em verdade, vocês já têm…
Boquiaberto, o humano emudeceu, mas ocorreu-lhe uma pergunta:
— Porque raios estar a falar comigo? Eu converso com plantas, pássaros, cães, gatos, mas nunca antes me responderam.
— Porque se coloca como um igual a mim. Normalmente, as pessoas sequer me notam.
— Acredito que façamos parte do mesmo ambiente, a viver o mesmo tempo… interligados.
— Parece que já conhece o caminho, amigo…”.

*Proteger A Vida Verde Para Que(m)?