São Jorge

23 de Abril, hoje, é Dia de São Jorge, o santo que é representado, montado em seu cavalo, desferindo um golpe fatal contra o dragão da Maldade com a sua lança. Há vários outros soldados santificados pela fé em Cristo. Santos militares, ou “santos soldados”, são figuras que serviram em forças armadas (frequentemente no exército romano) e foram canonizados por sua fé e martírio. Os mais célebres, além de São Jorge (padroeiro dos soldados), são São Sebastião (protetor contra pestes), Santo Expedito (das causas urgentes), São Martinho de Tours e São Nuno Álvares Pereira, este, um estrategista português. 

Eu, um dia, quis ser “santo”. A minha luta era contra o egoísmo, a vaidade, a falta de autocontrole. Tirante esta última característica, que consegui ir removendo aos poucos, as outras também tenho conseguido minimizar. Quanto à vaidade, fui de um ponto ao outro. Descobri que, assim como todos nós, somos míseras bactérias que pululam este grão de areia que, ainda assim, é belo e é nosso lar. Busco transcender a realidade imediata, apesar de sofrer com os efeitos que o Capitalismo e seu maior defensor — uma besta fera feito um dragão — que se encastela ao norte do nosso continente – defende desferindo rajadas de fogo com a sua bocarra.

Eu, pessoalmente, sou contra a violência, mas há certos seres que vivem por ela e é bem capaz que, por ela tenham o seus CPFs cancelados — como se diz no Rio de Janeiro — que estabeleceu o Dia de São Jorge, feirado. E o Rio é, em suma, um lugar onde há as maiores discrepâncias sociais e o império do crime organizado divididos e conflitantes, além da Milícia, que conseguiu catapultar um político ligado a ela ao posto mais alto do País. Não é apenas um, mas vários dragões da Maldade.

Eu não discuto Fé. Muitas vezes, é o único estímulo para as pessoas continuarem a caminhar. Eu não tenho fé nem mesmo em mim. Sei que sou falho. Perfeito em minha imperfeição. Mas creio na Consciência Universal em que nós e vários outros bilhões de seres espalhados pelos Universos comungam a energia de ser e de serem múltiplos. Ainda que se possa caracterizar São Jorge como uma invenção da imaginação popular não deixa de delegar à sua figura o poder de existir. Porque a mente é um dado quase tão poderoso da realidade quanto a materialidade. Intervêm na convivência de tal forma que delegamos a ídolos de pés de barro poderes sobrenaturais e os elegemos para nos levar ao precipício ou alto da montanha.

Salve São Jorge!

Foto por Nino Sanger em Pexels.com

28 / 04 / 2025 / BEDA / Ensaio

A postagem acima eu fiz em abril de 2020. Havia percebido que o projeto do grupo que assumira o poder no País era de desmontar todos os mecanismos de controle e fiscalização de governo para dominar cabalmente todo o processo de gestão do que estavam dispostos a fazer — destruir o Brasil para poder recuperá-lo nos termos que acreditavam ser o ideal — manietado pela Extrema-Direita que estipulava essa agenda e cria que sendo um país do Terceiro Mundo, tudo seria mais fácil, principalmente dado o nosso histórico ditatorial ligado às Forças Armadas.

Sabemos que não aconteceu da maneira que preconizaram, mesmo porque algumas condições e pessoas concorreram para que os planos “dessem com os burros n’água”. Essa expressão vêm bem a calhar, já que burros não faltaram nessa história. Hoje percebemos claramente que assumir o poder no Brasil seria apenas um ensaio para o que estava por vir com a chegada do Homem-Cenoura ao poder do Estado mais poderoso do mundo. Os EUA estão numa encruzilhada porque conta com um time composto por homens bilionários que apenas conseguem ver ativos lucrativos em vez de gente sendo prejudicada. Pode parecer simplista, mas é como esses seres, aos quais chamo de ultra-brancos, atuam. A cada grupo de pessoas que sofrem catástrofes pessoais, eles chamam de efeitos colaterais dispensáveis ou até, eu diria, desejáveis para tornar o jogo mais “atraente e divertido”. São seres frios e calculistas que não se importam com aqueles que não lhes alcançam, a não ser para servi-los.

Eles acreditam em regras rígidas, tendo a opressão como meio de dominação. A religião tem um poderoso papel auxiliar nesse processo, principalmente para acalmar o desejo de progresso material e ideais divergentes, visto que isso não ajuda a manter a massa alienada. Eu pessoalmente acredito na transcendência do ser humano, mas o que acontece com as religiões conservadoras (até, reacionárias) é que existe um mecanismo de adequação aos preceitos capitalistas, nada espirituais. Os ultra-brancos pretendem avançar na destruição do arcabouço sob o qual funcionou a Economia nestas últimas décadas, o que só favoreceu à China que soube jogar o jogo de forma exemplar, desenvolvendo um sistema de Capitalismo de Estado eficiente e atuante, com resultados muito acima do que se poderia esperar.

Os EUA perderam o bonde da História em seu próprio campo de atuação, no qual cria que fosse invencível. Agora, em seu comando temos um homem tão despreparado quando foi o nosso para obter os resultados que supunha alcançar através de suas ações e omissões. Mas como o mundo dá voltas e tudo pode mudar. Quem está à frente da empreitada tem recursos absurdos e supostamente inteligência, ainda que “artificial”, para reverter o curso que tem se apresentado — falho e incoerente com o desenvolvimento equilibrado das relações internacionais — para azar das próximas gerações de seres de todas as espécies do planeta, incluindo o próprio lugar onde vivemos.

04 / 04 / 2025 / “Autas” Horas

Passo em frente dessa borracharia quase todos os dias. “Inteligênte” já teve assento circunflexo, mas caiu em desuso há algum muito tempo. Como se trata de uma loja de consertos e venda de pneus de “automóveis”, supõe-se que o dono quis trocar o termo “altas horas” (nome do programa) por “autas horas” para relacioná-lo o produto em questão. Inteligência divergente ou imaginação demais? Não importa, se o resultado é um maior movimento do negócio. Estamos no Capitalismo que, em se tratando de acerto, não importa errar, mas esperteza ao fazê-lo.

BEDA / Notas De Agostos*

Para compensar o erro de tomarmos a estrada errada, nos deparamos com o outro lado do Pico do Jaraguá — o ponto mais alto da Cidade de São Paulo. Logo depois, retomamos o caminho. Quilômetros a mais, gastos a mais, fruição a mais. Muitas vezes, pagamos por nossos erros com o maior prazer do mundo… *(2015)

Sol amarelo do Super Homem, um alienígena que deu de cair no Meio-Oeste americano para confirmar o poder da grande nação do norte como líder da liberdade vigiada e do Capitalismo. *(2015)

Frio e nebulosidade. Clima de serra, por aqui… Recomenda-se o abraço apertado de seu amor. *(2014)

Jogo de Amarelinha

Há algum tempo, fiquei impressionado com uma experiência feita com porquinhos, vista pela televisão. Recém-nascidos, um grupo deles foi separado da mãe. Um outro, permaneceu com a genitora, alimentado e cuidado por ela. Os dois grupos, colocados em situações iguais, passavam por etapas semelhantes, como ultrapassar empecilhos, obtendo resultados bem diferentes. Os filhotes que ficaram com a mãe eram mais atilados, corajosos, venciam os obstáculos com coragem e perspicácia. Os apartados eram tímidos, indecisos ou até temerosos em enfrentar situações inusitadas.

Verificou-se que para estes porquinhos, seus desempenhos e desenvolvimentos individuais foram tolhidos pela separação e cuidado maternal. Entre chocado e triste, raciocinei que essa experiência não precisaria ser realizada com os pobres porquinhos. Eu via de perto a realidade a me estapear diariamente na Periferia (mas não apenas) que vivenciava o cotidiano com as famílias incompletas e dispersas. Eu, mesmo, ainda que tivesse uma mãe quase onipresente (o que nem sempre ajudava), tinha um pai, a maior parte do tempo, ausente. O sentimento que tinha por ele vivia no limite entre o temor e a admiração.

À época, acreditava que nada fosse tão determinista. Supunha que a parte racional do ser humano nos ajudaria a suplantar a falta de atenção e do cuidado na infância. Eu era bem novo, daqueles que acreditavam no País do Futuro, na raça miscigenada e superior que formaríamos, nós, cidadãos brasileiros ou quem aqui vivesse – bem-educados, evoluídos nas questões sociais – riqueza bem dividida, fome superada, assistência na saúde, oportunidades de trabalho. Ainda cria que o Capitalismo trazia dentro de si a semente que o destruiria. Que sobrevive, reproduzindo em série mentes amestradas que lutam pelo senhor invisível cultuado como se fosse o próprio Deus.

Viajando para o Futuro, ficava imaginando como passaríamos o tempo vago que teríamos. Boa parte, eu utilizaria para o lazer, para a prática esportiva e em atividades culturais. Imaginava que todos dividiríamos as funções profissionais, o que levaria ao pleno emprego, com salários e economia equilibrados. As tarefas repetitivas e perigosas. seriam realizadas por máquinas. Os romances que lia – de escritores russos, americanos, europeus e brasileiros – representariam o Passado, a nos mostrar como não repetirmos ações perniciosas que resultam em tantas mazelas em nossa Sociedade.  

Esse era o Céu na Terra que eu antecipava. Como no Jogo de Amarelinha, chegaríamos, de salto em salto ao objetivo final, por vezes nos equilibrando num só pé, se preciso fosse. Sonho de adolescente, com a experiência fui descobrindo que o mesmo cérebro humano que desenvolvia a ciência, perambulava pela inconsciência e o inconsciente. Que vários outros fatores (quase todos) eram inconsistentes e incontroláveis. nascidos no pântano da alma humana, interferindo na índole de tantos. Aparentemente, o ser humano vive a repetir comportamentos que lhe dão essa característica irrevogável de meio anjos, meio demônios. Viventes entre o Céu e o Inferno, enquanto bem-intencionados lutam para se libertarem desses sentimentos impuros tentam superar os invisíveis e pesados grilhões que seguram as passadas rumo a objetivos mais altos, outros se refestelam de ignomínias, em busca de um Presente tendo como modelos as piores ideologias passadistas – nacionalismo, fascismo, nazismo – além de autodenominados socialismos distorcidos que não passam de populismos requentados.

Numa calçada pelo qual passava, em frente a uma escola infantil, havia um Jogo de Amarelinha pintado. Diferente das antigas desenhadas no chão batido de ruas sem asfalto ou, mais tarde, com giz numa rua pavimentada, este ia da Terra ao Céu, mudando o nome do final do percurso. Talvez, por questões religiosas ou pela tendência do movimento do politicamente correto, do tradicional Inferno, o destino inicial se tornou a Terra. Como anjos caídos, voltaríamos ao Céu, saltando do meio mais material – a Terra – para o Paraíso. Filosoficamente, de certa maneira, quase se torna um tratado figurativo de nossa condição de porquinhos apartados que chafurdam na lama, sem pai nem mãe, com a Terra assumindo o papel de Inferno