primavera… pode chover a qualquer hora e o sol surgir forte em minha manhã laranja talvez ao mesmo tempo trazendo lembranças de criança chuva e sol casamento de espanhol sol e chuva casamento de viúva tão pequeno percebi que tudo virava história em mente desregrada que buscava estabilidade e rotina em casa conturbada papai fugido mamãe descolorada em manhãs chorosas paredes azuis e ocres madeiras podres queimadas para aquecer nas noites frias cheiro forte e doce de passado o espanhol seria eu imaginava esposa a viúva minha mãe que pai novo teria? me sentia desencorpado pequeno orelhudo jogava mal bolinha de gude meus pipas eram cortados assim que levantavam voo mal conseguia subir na bicicleta muito grande muito pequeno para correr atrás da bola gostava de desenhar casinhas montanhas nuvens sol árvores trepadeiras flores um rio pássaros hoje fotografo torno a buscar o menino perdi papai mamãe e os garotos que morreram em mim ficaram as imagens de manhãs laranjas…
Hoje, faz quatro luas que eu encontrei Alexandre ou ele me encontrou. Tanto quanto da outra vez, dia de votação. Votei pela vida. Decidi conversar mais longamente com aquele agora faz parte da família. Eu me encaminhei em direção ao meu entrevistado. Ele ainda bocejava quando passei a mão em sua cabeça e disse que precisava conversar com ele. Faria uma entrevista para conhecê-lo melhor. Alexandre esticou suas quatro patinhas longas e retas.
– Bom dia, papai!
Caramba! Ele me chamar daquela forma me desconcertou… Fiquei tentando observar mais de perto os seus olhos anuviados pela catarata e pude perceber que buscava também os meus. Me deu uma lambida. Voltei a passar a mão em sua cabeça e desci pelo dorso magro, mas muito mais cheinho do que quando o encontrei.
– Vamos lá?
– Sair? Aqui está tão quentinho…
– Não, não é isso. Vamos conversar. Como está se sentindo?
– Estou com soninho e com um pouco de fome…
– Vou escrever que está bem…
– Não foi isso que disse, papai…
– Não está bem, então?
– Estou feliz! Ganhei uma caminha quentinha, carinho de todos, fiz amigas, principalmente a Bethânia, mas vou devagar com ela. Tem muito ciúme do papai.
A cada vez que ele me chamava de papai, eu ficava desconcertado. Voltei a lembrança para as primeiras vezes em que as minhas filhas humanas me chamaram de “papai” – uma emoção que não há igual.
– Mas também estou com fome…
– Daqui a pouco, vocês todos irão comer…
– Depois tem biscoito?
– Sim, mais à noite. O que eu queria perguntar é: se lembra da sua família antes de chegar aqui?
– Eu sonho com ela, lembro do cheiro da casa. Parece que mamãe tinha sumido, não me dava mais comida. Fiquei fuçando atrás de um cheiro bom. Mas não estou enxergando como antes. De repente, estava sozinho. Quando percebi, não conseguia voltar. Fiquei muito tempo sem comer, fiquei vagando atrás de comida. Quando papai me encontrou, tinha sido expulso da feira de domingo. Fui caminhando sem destino…
O tom de seu pensamento não era de tristeza, exatamente, mas de resignação. Ele citou a mesma feira em que hoje comprei mexericas na volta da votação. Subi pela mesma ladeira na qual o vi caminhar à esmo, cheirando o asfalto.
– Onde você dormia? Houve dias que fez bastante frio…
– Ah… eu ficava enroladinho nalgum buraco. Numa graminha mais alta. Na escadaria de alguma casa. De manhã, saía para encontrar algum saco de lixo com restos de comida humana. Mas sempre tinha um cachorro maior na minha frente. Quase não sobrava nada.
– Nós não entendemos o tempo como vocês, humanos. Aliás, fico curioso com o que vocês tanto fazem de lá para cá. Não param um instante! É tão gostoso se deitar ao sol, na caminha, nas almofadas. Comer uma comidinha gostosa! Beber uma aguinha fresca…
Como explicar para o Alexandre que fazemos o que fazemos muito por causa dele e dos outros? Melhor não saber. Não valia a pena…
– Espera… vou pegar… olha aqui! Está cheio de buraquinhos. Imagino que você morda por ansiedade… Achávamos que você era mudo. Por que você ficou duas semanas sem latir?
– Eu tinha medo de que as meninas me atacassem. Agora, me sinto em casa. Gosto de ficar latindo para quem passa, quando vejo. Ou só faço coro para elas.
– Como está a sua visão?
– Quase vejo bem com o meu olho direito. O esquerdo parece que tem um pano na frente. Eu me assusto com sombras e movimentos rápidos.
– Quando o vi pela primeira vez, você quase se metia debaixo dos carros…
– Estava com muita fome. Eu me dirigia pelo olfato. Não me importava com mais nada!
– Ah! Foi quando decidi resgatá-lo. Peguei você no colo, que retribuiu com xixi no meu casaco…
– Estava assustado e fraquinho, mas quando colocou a minha cabeça junto ao seu peito, ouvi o seu coração bater e me acalmei um pouco…
– E você me disse que se chamava Alexandre…
– Eu achei que fosse o Alexandre, por isso, falei seu nome… mas ele sumiu antes de mamãe…
Em Maio de 2016*, escrevi: “Assim como o homem ganhou o espaço dos pássaros e aprendeu a voar, no solo adaptou ensinamentos dos companheiros que habitam este planeta para sobreviver. Basta força de vontade, força física e mental. Eu e o Humberto estávamos descarregando o equipamento para o evento de sábado na região da Faria Lima quando avistamos uma grande carroça, com uma tenda adaptada, a se aproximar lentamente, puxada por um homem. Aquela rua sem saída devia ser o local onde estacionavam.
Dentro dela, percebi a movimentação de pelos menos duas pessoas e um cachorro… Imediatamente, entendi que ali estava, além da casa onde aquela família morava, o ponto onde armazenavam o que recolhiam nas ruas da região. O que foi corroborado pelo movimento que presenciei logo depois, quando descarregaram o material reciclável recolhido… Já ouvi se dizer algumas vezes que é feliz o caramujo, que carrega a sua casa nas costas… E o homem, seria também?…”.
Para além da aceitação de um estilo de vida alternativo, o aumento recente dos moradores em situação de rua é devido a perda do trabalho e renda, obrigando-os recorrer a trabalhos ocasionais, os chamados “bicos” ou até, mais radicalmente, a expedientes que os marginalizam, como furtos e assaltos mediante ameaça. Há poucos que, conscientemente, decidem estabelecer a rua como moradia permanente, mas há. A decisão se dá por conflitos familiares ou por uso de entorpecentes que gradativamente os afastam do núcleo familiar.
Eu me lembro que o pessoal da carroça citado no texto se sentia bem à vontade nas condições da sua “moradia”. Mas como sabemos, aprendemos a viver dentro de determinados parâmetros, os piores possíveis, por questão de sobrevivência. A independência tem o seu preço a cobrar, ainda que seja difícil crermos que pouco dinheiro seja imperativo para a liberdade seja bem vivida. Ficar ao largo do Sistema, mesmo que vivendo de suas sobras, acarreta consequências.
Eu me lembro que quis um dia viver fora dos pressupostos que a Sociedade estabeleceu como o ideal — casa, esposa e filhos, trabalho — com férias remuneradas uma vez por ano. Aos 17 anos, quando me perguntavam o que eu seria profissionalmente, respondia pura e simplesmente: Lixeiro. Eu já estava, no final dos anos 70, bastante envolvido nos movimentos que buscavam uma civilização humana mais consciente do destino de Gaia. Anos antes, na primeira vez que li que as florestas eram “recursos econômicos”, fiquei horrorizado por essa visão mercantil que tratava as árvores apenas como material consumível, não como vidas que constituíam biomas, ecossistemas, organismos desenvolvidos.
Sabia, mesmo tão novo, que o Lixo era um recurso inestimável. Apenas não havia interesse empresarial em investir na transformação desse bem de capital em bens de consumo. Atualmente, recolher resíduos recicláveis tornou-se a atividade de um grande número de pessoas que constituem um elo importante na corrente que levará à transformação de nosso estilo de vida predatório para um menos agressivo. Fico a imaginar que, naquela carroça, poderia estar eu e minha pequena família caso eu tivesse enveredado radicalmente pela rua como moradia.
“Hoje, volto para São Paulo e me despeço deste meninão, Fred. Jovem, três ou quatro anos, já passou poucas e boas – atropelamento, tentativa de homicídio – mas segue em frente, com sua voracidade de viver. Saía à noite com ele para andar junto ao mar e para explorar as redondezas. Farejava cada recanto e marcava a sua passagem com seu cheiro (não sei de onde retira tanta urina). Não gosta de outros cães e muito menos de carros e motoqueiros, demonstrando seu ressentimento contra essas máquinas – lembranças de seu sofrimento. Porém, gosta de gente que encontra à pé, portanto, desarmada. Foge de casa sempre que pode, mas volta tempos depois de dar as suas voltas, às vezes machucado por brigas com outros cães. É um ser contraditório como todos nós, humanos. Como dois solitários que estávamos ou somos, passamos a nos compreender. Até a volta, meu amigo!”.
Atualmente, Fred é meu vizinho em São Paulo. Mora na casa ao lado, com a minha irmã, Marisol. Tanto ele, quanto Marley, que se juntou a ele no ano seguinte, foram trazidos-resgatados da casa que estavam – nossa própria casa – ocupada por invasores. A propriedade da Praia Grande contém duas casas. Nós ficávamos na casa de trás. A da frente estava sendo ocupada por um pessoal que não admitia sair depois que solicitamos a sua devolução. Deixaram um sujeito dormindo no local para demonstrar que alguém do grupo residia ali. Como o caso foi parar na Justiça, não a deixariam até que fosse assim decretado.
Eu voltava sempre que podia, uma tradição pessoal que se repetia nos três primeiros meses do ano, desde a minha adolescência. Minha mãe, a deixou equipada da maneira que sempre quis para receber a família no verão. Ver aquele espaço profanado com desdém pelos invasores era não apenas difícil, mas bastante ofensivo. Porém, com a Pandemia e as resolução que impedia o despejo de imóveis nesse período, tínhamos que esperar que tudo passasse.
Em meados de Março de 2020, quando cumpria mais uma suposta pequena temporada na Praia Grande, desta vez durante a vacância causada pelo que supúnhamos ser um momentâneo intervalo no cronograma de nos nossos eventos pela Ortega Luz & Som, foi decretado o controle de idas e vindas de pessoas e veículos entre as cidades. Acabei ficando mais tempo do esperava, o que acabou sendo bom para o Fred e o Marley. Voltei em outras oportunidades nas quais aproveitei para andar bastante de bicicleta, fazer caminhadas, escrever e cuidar dos dois. Nesses períodos, eu alimentava os “meninos” e eles dormiam comigo dentro de casa. Eram momentos de escape da rotina interminável de serviços caseiros entre acordar e dormir. Mas o entrechoque com os invasores foi aumentando e ir para a PG foi se tornando mais motivo de estresse do que relaxamento.
Para tentar controlar a situação para quando meus irmãos e eu não estávamos, foram instaladas câmeras que registravam a frequente ausência do sujeito. Apenas graças à benevolência de vizinhos, que colocavam comida através de aberturas no portão, os “meninos” foram alimentados. Instalamos bebedouro e comedouro para que não ficassem sem água e alimento. Mas uma gravação mostrava o sujeito retirar comida do comedouro para levar para o cachorro da casa onde estavam as outras pessoas do grupo. Para piorar, outra gravação mostrava o sujeito os espancando com fio elétrico. Antes mesmo que nos fosse devolvida a casa, em certa oportunidade, aproveitando a ausência do sujeito, retiramos o Fred e o Marley do local. Nossa suposição é que eles eram usados como uma espécie de prova de ocupação.
Apenas ao final do primeiro trimestre de 2021, a situação foi resolvida. A justiça nos restituiu o imóvel. Voltamos a nos assenhorar de uma casa depredada, com muitas reformas a serem realizadas. Mas o melhor foi ver renovado o sentimento de “volta para casa” da mãe.
Não importava o cenário — uma escadaria imponente de um clube antigo do interior; ou o palco com os dançarinos na pista como fundo; ou a parede simples, desencarnada de adereços — ele assumia a mesma pose: braços cruzados sobre o peito, as pernas levemente afastadas em gesto de confiança e um imenso sorriso. Se pudesse dar um apelido a ele, ainda que não esteja mais fisicamente entre nós, seria João Sorriso.
Conhecido como João Soares, nós, da Ortega Luz & Som — Humberto e eu — o acompanhamos nos últimos quatro anos, juntamente com Tânia Mayra, Cláudio Albuquerque, Rafael Ortega, Vagner Mayer. E Marcos Oliveira e Edu, como bateristas (entre outros) na empreitada de levar a Banda Ópera Show para todos os recantos onde éramos chamados a atuar, desde a grande São Paulo,Interior e Litoral. E assim foi até a chegada da Pandemia de Covid-19, em março.
Os eventos caíram um a um e ficamos à espera de que as coisas voltassem ao normal logo mais. O que nunca aconteceu, como sabemos, apesar de muitos se iludirem a respeito. Em determinado momento, percebi que o “novo normal” não seria o antigo normal sem que a vacinação ocorresse. E que isso não será se efetivará rapidamente. Principalmente porque não houve planejamento para isso, o que fará que demoremos para voltarmos aos eventos com grande público antes que os riscos sejam diminuídos substancialmente. E entreter o público é o que o João sabia fazer de melhor e teve que deixar.
Entre os vários cursos que eu fiz, houve o de Marketing Pessoal. Uma das tarefas previa que eu fizesse “Lives”, uma por mês, projeto que seria levado avante em 2021. Uma delas, intitulei: “Setembro: Histórias De Um Cantor Profissional Que Não Faz Sucesso Na ‘Mídia Oficial’” — com o cantor de bailes de salão, João Soares. Esse “Live” não se realizará. João representa uma classe de muitos e talentosos artistas que não ganham acesso a grande mídia atualmente, cheia de personagens inventados, sem lastro. A sua história foi rica. Participante de grandes bandas e de programas de auditório de anos passados, nos encantou desde cedo através da televisão. Até que um dia, o encontramos como companheiro de trabalho. Isso, há 30 anos, em que nos contratou para diversos eventos. Desde o final de 2016, retomamos o contato mais estreito.
Em um mês, a Banda Ópera Show chegava a realizar de seis a dez bailes, com um público médio de 500 pessoas, às vezes mais, às vezes menos, a depender do tamanho do baile. Ou seja, a voz de João Soares chegava a ser ouvida por cerca de 12.000 pares de orelhas por mês que recebiam o tom grave de sua entonação. A sua vibração, faziam corpos de casais se movimentarem em coreografias em que imperavam boleros, sambas, cha-cha-chas, entre outros ritmos. Os que apenas permaneciam sentados, ao ouvi-lo, eram transportados para outros tempos, sentimentos e emoções. Eu mesmo, acostumado a acompanhá-lo na parte técnica, a depender da canção, ficava arrepiado com as suas interpretações.
Um dia antes dele ir para a Bahia, em 1º de novembro, o encontramos em sua casa. Ele nos chamou para tomar um café e conversarmos sobre o futuro. Anunciou que pararia com o projeto da banda, já que além da escassez de eventos, os valores que já eram baixos, haviam caído ainda mais. De certa maneira, foi um alívio para nós já que só permanecíamos a atendê-lo por sermos amigos de longa data. Seria complicado continuar como o mesmo cachê diante da defasagem econômica — insumos para a manutenção de equipamentos e transporte, alimentação, combustível e pagamento de auxiliares.
Ele Estava bem, aparentemente. Disse que gostaria de rever os familiares — painho e maínha — já idosos. Tinha orgulho da família, todos bem postos, incluindo a irmã médica. Foi a ela que recorreu por causa de uma dor persistente no abdômen há alguns meses. Realizados os exames, ela não gostou da imagem e pediu uma ressonância magnética que revelou câncer no Pâncreas, com metástase no fígado. Em um mês e meio, o quadro evoluiu até o óbito que se deu na madrugada de hoje.
O menino de Chorrochó, que veio para São Paulo buscar o seu sonho, foi vendedor ambulante, chegou aos programas de calouros da TV, gravou um disco de forró, conseguiu agregar amigos e construir uma sólida carreira na noite paulistana, com quase 50 anos de estrada, cantou para quem quisesse ouvir, encantou plateias, testemunhados por vídeos de fãs e frequentadores encantados com o seu talento. Entre eles, eu. Agora, está trilhando outra estrada, abrindo com o seu vozeirão o caminho para a eternidade.
*Texto de 20 de Dezembro de 2020, por ocasião do passamento de João Soares.