BEDA / Se Deus Quiser

“Se Deus quiser!” — ouvi pelo menos três vezes em pouco tempo. Fiquei a imaginar a que Deus essas pessoas se referem. Duas delas a proferiram olhando para o alto. O “Céu” supostamente é onde estaria o Paraíso e, nele, se sentaria um homem de imensas barbas num trono emitindo uma luz dourada. Eu já desacreditei há algum tempo nesse deus humanizado, feito Zeus, com sentimentos e inclinações humanas, como ira e sentimento de vingança. Desde os 16 anos fui me inclinando a “sentir” algo que escaparia a imagens bíblicas, de influência judaico-cristã. Percebi que as religiões ou filosofias orientais refletiam as minhas ideias mais conectadas à energia espiritual do que à materialidade.

No passado o Céu era interditado ao acesso humano. Com o advento dos veículos que nos levaram em direção às nuvens, passamos a perceber que a morada divina de fato passou a se estabelecer em lugar incógnito, a não ser para quem crê que tudo não passa de algo interpretativo. Para mim, em crendo na transcendência do espírito, os olhos físicos não alcançam a plenitude da energia cósmica. Todos nós, em se estabelecendo que a criação do Universo se deveu a uma explosão inicial (voluntária ou não) somos seres que, no mínimo fisicamente, temos uma origem comum. Em se considerando que desenvolvemos consciência sobre a vida e a vida sendo a medida que indica consciência de existirmos, estabelecemos um ciclo que se fundamenta na fluidez energética, em sua variabilidade universal.

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O Céu

Hoje eu acordei com a impressão de que “céu” havia perdido o acento. Que a Reforma Ortográfica que extinguiu até o trema em “extingüiu” havia invadido o Céu. Nesse caso o seu som se assemelharia a “seu”. É comum as pessoas, por exemplo, retirarem o chapéu de “você”. Eu não gostaria que se tornasse um você sem chapéu em que você não seria você, mas outra pessoa.

Diante de um tempo em que as palavras estão sendo distorcidas em suas feições e muitas vezes em seus significados originais, talvez eu esteja delirando, já que a palavra é um item essencial na comunicação entres os seres humanos e atacá-las em suas raízes talvez seja uma maneira pensada de desacreditá-las.  É um método que já foi denunciado em “1984”, o livro, que ocorreria, com a Novilíngua.

Ainda que Orwell utilizasse o Comunismo como antevisão, o Capitalismo cooptou o arcabouço primevo do regime imposto por Stalin aos russos e aos povos adjacentes para incrementar a dominação do povo sob sua direção. O método não é tão violento em aparência, mas os resultados são igualmente perniciosos.

Assim é que como existiam os dirigentes comunistas ocupando postos inacessíveis para os comuns dos mortais, vivemos em uma sociedade em que o acesso a um padrão de vida equilibrado é vedado à maioria da população. E haja barreiras para interditar que as pessoas mais simples alcancem um padrão igualitário a todos.

Há também uma espécie de reação das classes oprimidas, determinando um vocabulário distorcido em os erros crassos ganham evidência e alcance atingindo o vernáculo de morte. Mas essa é uma constante no desenvolvimento da comunicação, a depender da influência externa como foi o francês antes e o inglês correntemente. Assim como quando o latim e o grego na Antiguidade determinaram a origem de várias expressões devido à dominação de suas culturas durante séculos.

Houve uma época que o Tupy foi a língua dominante durante dois séculos no Brasil Colonial, superando o Português no litoral e no interior até meados do século XVIII. Há várias expressões derivadas de sua utilização. A língua é viva e apesar de eu ser avesso a determinadas ingerências inadequadas que empobrecem a comunicação, continuo a acreditar no poder da palavra bem expressa, com conhecimento de causa e entendimento claro.

E que o Céu continue a ter acento para que saibamos que ele é o espaço ideal de nossas ideias aladas.

Aliás, tomei a liberdade de colocar um “y” na palavra Tupy, como era escrita antigamente.

Lua De Sangue*

Tenho um horário irregular de sono devido à minha atividade profissional. De sábado para domingo, fui dormir às 7h30 e acordei às 13h. Tentei segurar o máximo que pude, mas dei uma fatídica cochilada por meia hora antes de me deitar, o suficiente para me fazer perder o sono. Como a 1h da madrugada ainda não havia encontrado Morfeu, fui ver o céu. E foi ótimo! O espetáculo natural foi lindo e, ainda que tentasse, não consegui registrar devidamente toda a beleza da Lua de Sangue. Durante meia hora fiquei imerso nas pequenas oscilações dos efeitos da sombra avermelhada da Terra sobre o nosso satélite no céu limpo até que as nuvens toldassem o seu corpo. Logo depois, deitei e dormi profundamente. Por meu turno, acho excelente que em vez de acidentes ou fatos escabrosos, as pessoas voltassem seu olhos e registrassem mais vezes os fenômenos do Universo e da Natureza da qual fazemos parte de maneira quase desprezível, mas o suficiente para estarmos destruindo um planeta inteiro com a nossa sanha inescrupulosa…

*Texto de de Maio de 2016

14 / 06 / 2025 / Antes À Tarde*

Porque a tarde sangrou
feito saudade…

Eu,
que não vivo de esperança,
verso sobre o que passou
como alguém que sabe que já viveu
tudo o que tinha para viver —
da negação à entrega,
da dor de não amar ao amor
e a dor de amar.

Entre as estações,
não há vida,
apenas um segundo de noite infinda.

Fui feliz,
ainda que tarde,
antes à tarde que nunca
sob o céu que nos protegia…

*Poema de 2021

02 / 04 / 2025 / BEDA / Serra Do Mar*

Fico sempre encantado quando subimos para o Planalto ou descemos para o Litoral, ao passarmos pela Serra do Mar, onde podemos encontrar ainda parte da Mata Atlântica preservada.

Ao mesmo tempo, resta sempre o assombro ao saber que, para alcançar o interior do País, Homens do passado venceram tremendos obstáculos em nome de viver uma vida nova…

Um caminho feito de sangue, suor e lágrimas, que o tempo escondeu sob o azul celeste do céu e sobre o verde da mata.

*Texto de 2016