BEDA / O Sol E A Água*

Se há alguém que gosta do Sol, sou eu. Quando era garoto e tentava entender o significado de divindade, olhava para o céu, como fizeram bilhões de homens antes de mim. Como eu, eles também entenderam que sem a luz solar a vida sobre a Terra não existiria. Antes que algumas civilizações impusessem a humanidade como a verdadeira representante de Deus, a estrela em torno da qual este planeta girava em torno, já era reverenciado como tal pelos simples de coração. Do alto de sua predominância, ele não deve ter se importado com as crenças que surgiram posteriormente que o colocava apenas como um coadjuvante no firmamento dos arrogantes seres humanos em suas fainas…

Porém, abro espaço para as nuvens escurecidas. Inauguro, em minha página, o gosto pelo céu fechado. Quero que o planeta Água, que o homem chama de Terra porque quer, volte a ter o fluídico elemento como o centro de sua atenção. Vivi uma época em que São Paulo ainda era a Terra da Garoa, que os mais novos sequer imaginam como era e somente chegam a confundir com uma chuva leve. A garoa era como se fora um lençol úmido que nos abraçava, aponto de umedecer as nossas roupas sem percebermos. Era como se fora o ar feito água, que respirávamos como alimento de nossa identidade.

Atualmente, vivemos apenas duas estações – a do calor abrasador de Sol em asfalto, cimento e vidro. Ou a do frio de metal cortante em nossa carne mole. Perdemos as árvores, perdemos os rios, perdemos a nossa conexão com a divindade da Natureza, nos perdemos. Talvez, com a seca chegando à cidade mais desenvolvida economicamente deste país, o que já era urgente, se torne irreversível – voltarmos um tanto para trás, no bom caminho.

Participam do BEDA: Darlene Regina / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Gouveia / Suzana Martins

Inundação

Piscinão Guaraú

São Paulo cresceu entre córregos, riachos e rios. Alagamentos fazem parte de sua história antes da invasão dos portugueses a nomearem a esta região, feitos novos Adãos, com o nome do apóstolo mais controverso de Jesus.

Com o tempo, deixamos de ocupar os lugares mais altos e seguros e fomos nos assenhorando das áreas mais próximas das margens de rios e suas várzeas. De tempos em tempos, as águas, alheias ao fato de nos considerarmos seus donos, retoma seus antigos domínios.

Onde moro, já enfrentei muitas enchentes. Com o advento do Piscinão Guaraú, nos últimos 15 anos, o bairro deixou de sofrer com alagamentos. Mas como é uma região com topografia acidentada, com morros e vales, a preocupação se volta para os deslizamentos. Principalmente por causa de ocupações irregulares, em qualquer cantinho que se possa pendurar uma habitação.

Nesta imagem, mostro o Piscinão Guaraú, cheio como nunca vi. A água da chuva que entra pelas “bocas de lobo” (nome incrível) chega aos bueiros passam pelas tubulações até desembocar no piscinão. Até alcançar o limite, os milhões de litros d’água ficam retidos até desaguarem no Córrego Guaraú para, então, chegarem ao Rio Tietê, que despeja seu volume d’água no Rio Paraná até desembocarem no Rio da Prata, na lejana Argentina, os eflúvios pluviais e fluviais no Atlântico Sul.

B.E.D.A. / Projeto 52 Missivas / Não Sei Se Irá Chover Ou Não

Minha cara,

nestes tempos, nunca estive tão ciente de uma afirmação que assumisse a plena ignorância sobre algo. A moça do tempo “marcou” para esta sexta-feira a chegada da água vinda dos céus, feito promessa, dessas que fazemos sem saber que se cumprirá. Como estou escrevendo esta missiva na noite de quarta, não cometeria a fraude intelectual de editar o texto para caber em algum argumento. O que estou percebendo é que cada vez menos as previsões sobre o tempo têm sido acertadas e o erro é, basicamente, humano. Ou porque a metodologia não tem sido a correta ou porque o que servia antes para nos alertar sobre os movimentos do clima está sofrendo alterações pela intervenção humana no bioma.

Eu amo a chuva! Principalmente aquela que eu costumo chamar de criadeira. Essa palavra, que no Português não tem no masculino, é perfeita em si. Esse tipo de chuva é aquela que cai forte e precisa no tempo-quantidade adequado, como se fosse um grande regador que ajuda a fecundar a terra, faz brotar as sementes e nesta cidade imensa lava o piso do quintal, banha os edifícios do Centrão, limpa as calçadas da Paulista, umedece o asfalto das Marginais, não inunda as várzeas e não faz desmoronar as encostas das ocupações precárias e irregulares da Periferia. Quem da janela a vê cair percebe sua cadência, admira a sua energia aquosa e seu tamborilar ritmado sobre os telhados. Deixa um beijo nas folhas das árvores conferindo um brilho especial a esses seres fascinantes.

Quando eu era menino, jogador dos times do bairro nos campos de várzea, quase sempre sem gramado, adorava jogar quando chovia. Chegava em casa sujo de lama e de alma lavada. Nada nos impedia de continuar a partida. Sempre mais importante que nossas vidas por eventuais raios que pipocassem. Sabíamos que os trovões anunciavam que o raio já havia caído. Fim de perigo.

O tempo seco não prospera apenas no meio ambiente. Vejo as pessoas passo a passo a transportarem essa secura para dentro de si. Seus interiores ressequidos sofrem com a escassez da chuva criadeira. Temos vistos plagas desertificadas nas quais caminham seres desumidificados. Sequiosos pelo poder emitem palavras secas, conflagram falas estéreis, reproduzem histórias áridas. Temo que se o chão vier a abrigar algum líquido será o do sangue que jorrará dos habitantes nas veias abertas das urbes e dos campos. Sinceramente, espero que essa previsão de homem inconformado do tempo não se cumpra.

Participam do B.E.D.A.:
Darlene Regina
Mariana Gouveia
Darlene Regina
Roseli Pedroso
Lunna Guedes
Adriana Aneli

#projeto52
Anna Clara de Vitto – Mariana Gouveia – Lunna Guedes
Roseli Pedroso – Suzana Martins

BEDA / Tempestade E Bonança

As cachorras estão dentro da morada
Lá fora, a chuva cai forte e constante
Elas se deitam pelo chão refrescante
Da sala, da cozinha, em frente à escada

O outono se faz presente e atuante
Deita as folhas secas pelo quintal à fora
Sinto que não preciso de nada, agora
A não ser que o tempo pare de ir avante…

Nada como um minuto após o outro…
Cessada a chuva, abriu-se a paisagem clara
O sol a descortinar a sua luz de ouro
Comprovou que o tempo não para…

Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Alê Helga / Roseli Pedroso /
Darlene regina / Adriana Aneli / Claudia Leonardi /