BEDA / A Ilha

Ilha

Saindo da academia, eu caminhava de volta à minha casa pela larga avenida de duas pistas, separada por uma ilha ajardinada. Logo, encontrei aqueles três que formavam aquela família cambaleante. Um homem, uma mulher e um cão, envelhecidos e cansados. Aparentemente, eram moradores de rua, usavam andrajos, estavam sujos e caminhavam cambaleantes e… cansados, os três.

O homem estacou o seu passo, o cão, grande, mas muito magro, também parou, bem junto ao companheiro. Ambos olharam para trás, esperando a mulher cansada se aproximar. Todos juntos, novamente, ameaçavam atravessar a pista naquele passo lento e indeciso, de cansaço e embriaguez, dois deles; de cansaço e fome, o outro. Comecei a temer que os três não conseguissem ultrapassar a cortina de carros velozes que pareciam aumentar a velocidade ao perceberem a intenção do grupo.

Tão cansados pareciam os três que cheguei a me perguntar – por que simplesmente não paravam e descansavam? Vi-me com a mesma barba desgrenhada do homem, apiedei-me do cabelo hirsuto e despenteado da mulher, alcancei os sintomas da perplexidade do cão. A intenção de atravessar talvez fosse para isso mesmo – chegar à ilha central, onde deitariam à relva e à sombra, entre as pedras, os seus cansaços e desapegos.

Fiz-me outra pergunta – por que não decidiam descansar, permanentemente? O que os mantinham caminhando a esmo pelas ruas e canteiros de jardins? Vivendo de recolher restos de comida ou latas de cervejas e refrigerantes jogadas nas calçadas pela pouca educação dos seus semelhantes, para trocá-las por poucas moedas? Julguei que por amor, solidariedade ou companheirismo, os três seres, mesmo tão cansados, permaneciam vivos e unidos. Ele a ela, ela a ele, o cão aos dois, caninamente…

Finalmente, de forma periclitante, chegaram à divisa verde que separava o rio asfáltico. Nessa ilha, dormiriam (sonhariam?) e lamberiam as feridas, os três, tão cansados…

BEDA / A Traição

Traição
“Julgamento da Inconfidência”, de Eduardo de Sá – 1921

Ontem, foi feriado. Não por ser um domingo de Páscoa, mas pelo Dia de Tiradentes, efeméride que é comemorada no dia de sua execução, a 21 de Abril de 1792. Em paralelo à Paixão de Cristo, é interessante notar que as imagens que conhecemos de seus últimos dias faz referência a um tipo parecido com o homem crucificado há mais de 2.000 anos – barba e cabelos longos. Além disso, o Mártir da Inconfidência, traído por um dos seus seguidores, ao assumir toda a culpa, deu a vida por sua causa. Foi enforcado e esquartejado.

Há quatro anos, em uma reportagem televisiva realizada sobre um maior acesso à documentos relativos à Inconfidência Mineira, em Ouro Preto, o que mais me chamou a atenção foi a leitura da citação feita à época pelo responsável em reportar a prisão de Joaquim José da Silva Xavier, acusado de conspiração contra o Reino de Portugal. Nesse texto, o prisioneiro era descrito como “feio e espantado”, quando fora levado à ferros.

Feio, eu não duvido que Tiradentes fosse, ainda mais para um escriba que via ali alguém que ousava querer derrubar o sistema que lhe garantia o seu modo de vida. Porém, ao colocar o termo “espantado”, creio que ele conseguiu resumir muito bem o sentimento daquele homem que estava diante de seus olhos.

Não deixo de me compadecer daquele sujeito feio e idealista, que talvez não pudesse acreditar que fora traído por um de seus pares. Ontem, no dia do Enforcado, 227 anos depois, nossas esperanças de um Brasil mais justo e igualitário em oportunidades e direitos para todos estão sendo progressivamente esquartejadas. Mas tudo começou antes. Nada acontece sem causa – iniciou-se com os desvios dos seduzidos pelo poder pelo poder – meus companheiros de causa. Quando vi acontecer, devo ter ficado com um ar tão espantado quanto ficou o Alferes que extraia dentes.

Para alguns desses companheiros, até talvez se possa conceder o benefício da dúvida. Homens e mulheres que se iludiram no início. Que fizeram o que fizeram apenas como um meio para alcançar suporte para o projeto de propiciar a melhoria de vida do Povo brasileiro. Talvez, no início…

Mas, passado algum tempo, quando o monstro se apresentou em todo seu esplendor, em vez de o rejeitarem, se afeiçoaram a ele e, agora, iludem a quem os segue, que o convidaram para eventos, que compartilharam o mesmo espaço, que tiraram fotos ao seu lado e viveram “la vida loca”, bem amparados por contas não contabilizadas, se bem que oficializadas.

Mas Deus sabe que a minha ilusão foi bem-intencionada, como Deus sabe que o caminho para o Inferno é pavimentado de boas intenções. Se hoje pareço um homem descrente do brasileiro e do Brasil, ao mesmo tempo revelo que consigo, para além do espanto, encontrar, em dias mais ensolarados, o calor da esperança queimando em fogo baixo, bem dentro de mim. Eu sou daqueles que ainda acredita no trabalho, na educação, na beleza e na arte, sem nenhuma contradição ou juízo de valor.

Hoje, mergulho profundamente na História para me sentir totalmente identificado com o Inconfidente feio e espantado do final do século XVIII…

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Nós Dois / Nós Todos

Nós dois fomos muitos. Todos vocês, seres especiais que estão ou passaram por minha vida, desde Tarzan, Cloé e Fofinha, me tornaram uma pessoa melhor. Tive envolvimento pessoal com cada um de vocês, amigos naturais. Saberia reconhecê-los se ou quando nos reencontrarmos, com personalidades memoráveis sob manifestações diferentes?

Nós Dois (2)
Betânia

Betânia, pequena tão presente como se fossem vinte ao mesmo tempo. Ciumenta, banguela de um canino, a lhe conferir um sorriso involuntário, quase de escárnio, chega a ser simpática. Grandes orelhas, desproporcionais à pequena cabeça, chegou em casa menor ainda, uma “ratazana” abandonada. Com o tempo, mais experiente, está deixando de confrontar a autoridade das mais velhas, substituindo o comportamento belicoso por outro, mais conciliador… às vezes. Da espécie “Cat-Dog”, sobe com facilidade a mesas, telhados e muros, sobre os quais passeia com a agilidade de uma felina e a curiosidade de uma alcoviteira. Minha companheirinha de escrita e leitura, igualmente, troca rapidamente minha atenção por qualquer movimento inusitado denunciado por algum som vindo de fora. Através de sua “irmã”, Romy, está ganhando notoriedade nas redes sociais com a alcunha de “Cu Preto”. Inquieta, antes de dormir, emite um longo suspiro digno da inocência em pessoa.

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Frida

Frida, nós dois vivemos tantos momentos juntos… Agora que a chama que lhe animava o corpo se foi, está mais presente do que nunca. Resta a falta que faz seus olhinhos de avelã, sua timidez, sua invisibilidade. Sim, porque você conseguia se esgueirar silenciosamente por entre os obstáculos e se postar debaixo dos pés das cadeiras e mesa de jantar ou no canto terá sido apenas a irresponsabilidade de alguém que descia a cem por hora em uma rua de bairro? Frida – ainda que permanentemente invisível – estará sempre em meu coração.

Nós Dois (3)
Domitila

Domitila um dia caiu em uma vasilha de comida das cachorras de casa. Não sabemos como se deu. Apenas encontramos um bicho com sarna, banhado de tinta por obra e arte de crianças ou adultos descerebrados. Tão feinha, com a pele toda enrugada, que a apelidei de “Etezinho”. Ganhou o nome de Domitila. Nunca imaginamos que ficasse tão garbosa. Cresceu linda e forte, a ponto de chamar a atenção do Sultão, o altivo galã-cachorro da nossa rua. De seu caso de amor, nasceu alguns filhotes, entre elas, Frida. As duas, inseparáveis. Ao fazer carinho em uma, teria que fazer em outra. Um hábito que desenvolveu foi se acercar de mim assim que eu começava a varrer o quintal. Como a afastava com chamegos, associava uma coisa a outra. Sem problema. Atrasava minha tarefa, mas ganhava meu dia com sua alegria de criança crescida. Estes últimos dias, tem estado mais quieta com a falta da filha-amiga.

Nós Dois (4)
Penélope

Penélope foi o ser mais amoroso que conheci. Bem… talvez gatos não pudessem dizer o mesmo. Mas ela amava tanto aos humanos que eu tentava encampar a mesma visão. Em vão. Mas sou imperfeito. Ela era perfeita, da cor negra perfeita, sempre disposta a brincar e receber a contrapartida em massagens no dorso e pescoço. Recebia os novos membros do grupo, nesse caso, sempre alguma cadela rejeitada por aqueles que levam seus preconceitos muito a sério, com a guarda protetora de uma mãe. A Rainha da nossa família viu minhas filhas crescerem e doou-se com amor e dor para tornar nossa vida mais terna possível. Já velhinha, nos causou preocupação de membro da família. Fizemos todos os esforços possíveis para tornar seus últimos dias mais confortáveis. Nós a queríamos entre nós. Talvez fosse egoísmo – amor egoísta. Ela nos amava e sabia que faria a falta que faz. Resistiu o quanto pode. Quando finalmente se entregou, eu estava ao seu lado… foi tão pouco por tanta dedicação que devotou a nós.

Nós Dois (5)
Lola

Lola gosta de dormir. Interesseira, não importa com quem. Quer apenas encostar seu corpo do lado de alguém e se sentir protegida. Apesar de seu egoísmo, basta olhar para nós – olhos nos olhos – para nos rendermos. Encerra sua chantagem com lambidas para garantir sua conquista. Em sua atual fase preguiçosa, nem parece que foi encontrada por minhas filhas correndo de um lado para o outro da avenida, totalmente desorientada, em desabaladas carreiras. “Corra, Lola, corra!”. Ganhou seu nome. As meninas a trouxeram para cuidarmos um pouco dela para depois doá-la. Na época, uma delas namorava um rapaz que a quis como mascote. Decidimos que ficaria com ele. O casal – minha filha e ele – a tratava como a uma filha. Quando se separaram, como seu cuidador foi para outro Estado, ela começou a passar parte do tempo conosco e uma parte na casa da “avó”, mãe do rapaz – guarda compartilhada. Hoje, vive conosco e faz visitas ocasionais à outra família. Lola é uma sobrevivente.

Nós Dois (6)
Sandy & Dona Madalena

Sandy viveu conosco desde pequena. Quer dizer, ela nunca cresceu o suficiente sequer para um poodle, raça da qual devia descender. Fazia visitas a casa ao lado até que decidiu não voltar mais. Como a passagem de um terreno para o outro era livre, não foi difícil. Na verdade, os dois terrenos pertenciam a nossa família. Nós morávamos em uma casa, em outra, minha mãe. Ardilosamente, Dona Madalena foi cooptando a Sandy através de subornos na forma de comidinhas, petiscos e muito, muito amor. Minha mãe era um ser que tinha o dedo verde, falava com as plantas, amava os animais. Ao mesmo tempo, conseguia reunir em torno de si pessoas que apenas em sua presença conseguiam se tolerar. Sandy, aos poucos foi se tornando tão territorial que tentava impedir que os próprios filhos humanos beijassem a mãe. Quando Dona Madalena adoeceu definitivamente, após um tempo de internação, veio a falecer. Durante esse período, ela passou todo o tempo junto ao portão, esperando a sua volta. Certo dia, ela desapareceu. Apesar de nossas buscas, nunca mais a vimos. Foi em busca de seu grande amor…

Nós dois (8)
Dorô

Dorô – Dourada – amor de todos nós, da Família Ortega. Não podia deixar de falar de você. Sim, vale infringir as regras e ultrapassar a postagem das seis fotos para homenageá-la. Filha única da Lua – sua mãe – como que surgida por magia da noite, foi a nosso xodó, antes mesmo da Penélope. Amiga-filha-irmã, ajudou a Tânia a encontrar sua conexão com os cães, quando adoeceu, já velha. Tânia começou a entender que esses seres se expressavam de uma maneira diferente, por gestos sutis e olhares profundos. Isso a comoveu definitivamente. E se tentamos, todos nós, compreender qual seria o papel (em nossa mentalidade utilitarista) dos cães, suponho que seja a de nos ensinar a amarmos sem entender o porquê. Amor, sendo amor, por amor…

Participam dessa interação

Ale Helga | Maria Vitória | Mariana Gouveia | Lunna Guedes