Quando acordo, ele se olha no espelho.
Por alguns segundos fica a especular se fará ou não a barba.
Como não quer parecer um ser mais monstruosamente feio do que é, raspa os pelos hirsutos e branqueados que lhe daria uma aparência de velho monstruoso.
Não bastasse ser envilecido.
São tantos os defeitos que enumero mentalmente que me torna ridículo e maledicente,
que desisto de contá-los. Se o fizesse, seria por pura vaidade:
a especular se há alguém pior pessoa do que eu?
Sou meu monstro favorito.
Desvendado o segredo da vida, insisto em me afastar do meu bem-estar.
É como se eu sentisse que não merecesse ser melhor e feliz.
E, por isso, vou morrendo por dentro, tornando tudo um deserto inóspito.
Só pedras e areia fina, quase componentes do ar.
E são lindas as pedras — pontiagudas, afiadas e duras feito diamantes — minha verdadeira fortuna.
Quem por esse terreno vier a andar — meu peito atravessado de mágoas — certamente ficará ferido, com as artérias carregadas de pó, respiração ofegante e degenerada, quase uma tuberculose, com catarros espessos e corrosivos.
Ponho a roupa mais leve possível, pois o deserto que eu sou me faz suar e me reduzo a um ponto seco no canto obscuro no assento da cozinha, onde tomo café e alimento uma pessoa comum…e má…
Foto: arquivo pessoal.
Etiqueta: comum
Descaminhos Comuns
Uma incomum quer para si um homem comum para amar.
Um que não destoe dos comuns da comunidade.
Para ela, o regular é bom ̶
confiável, confortável, controlável.
Um incomum a ama, mas é indomável,
ciente de si, sem o senso
dos comuns anos pensos,
sua vaidade é incontornável.
De certa maneira, o incomum não sabe
onde termina a vacuidade
e onde começa a necessidade
de ser invulgar, sem se julgar.
O incomum vaga de lada a lado,
comumente a demonstrar sua raridade.
Se considera ser mais do que um.
Se sente especial ̶ algo tão comum…
Quer ser querido por extrapolar
a si mesmo, a ultrajar o usual.
Quer ser reconhecido por ser ele ̶
o bom demais a bem querer.
Descaminhos do desejo e do afeto,
Ainda que a amante deseje o incomum,
almeja um amor simples, porém raro,
simples e desmedido, sem anteparo.
Entre a força da paixão inútil, mas vital
e a estabilidade da prática calma e cândida,
ela decide pela sensatez da paz,
que a paixão revira e volteia,
torna a vida incapaz
e desnorteia.
