
no coração da amada…
B.E.D.A. — Blog Every Day August
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

no coração da amada…
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A chefe de redação me designou para fazer uma matéria sobre Tarot. Sabendo que eu era avesso a jogos de adivinhações e sortilégios, achou que seria interessante contrapor a minha descrença a algo que ela acreditava. Na verdade, ela cria em Madame Blue. De antemão, a consultou antes sobre a reportagem em que submeteria seu trabalho a um escrutínio materialista. Madame Blue não apenas aceitou como se sentiu especialmente impelida a demonstrar a conexão com o intangível para um céptico. Eu, por meu turno, adoro um desafio e lá fui encontrar a velha senhora que consultava em uma casa em Moema, numa dessas ruas com nome de pássaro.
A linda residência era uma das muitas da região que ainda não havia se transformado em espaço comercial, se bem que eu considerasse essa coisa de jogo de Tarot uma atividade que visava arrancar dinheiro de incautos. Apertei a campainha e me atendeu um homem alto e bonito, um tipo africano com a tez negra como a noite sem luar. Anunciou-se como Maurice e me levou até a sala onde Madame Blue já me esperava. Não se tratava de uma velha senhora, porém uma mulher que devia ter a minha idade, uns 35 anos, se tanto. Seu nome se fazia entender pelos profundos olhos azuis que me fulminaram assim que entrei.
Sem dizer muitas palavras, me pediu para sentar e que tocasse as Cartas do Destino, as embaralhasse, as dividisse e as reagrupasse. Após o que sacou uma a uma ̶ “Mundo, Temperança, Sacerdotisa, Carro”. O que significava? Segundo Madame Blue, o retorno de uma mulher de minha vida que se afastara no tempo. Normalmente, eu não ligaria para aquele presságio, se não fosse o tom estranhamente grave empregado pela atraente vidente. Durante uma pausa que pareceu bastante longa, fiquei especulando sobre qual mulher seria, dentre tantas que conhecera. Retroativamente, fiz minha memória retornar do último afeto, meses antes, até às anteriores. Meu passeio pelo passado foi interrompido pela voz de Madame Blue que me chamou até sua presença azulada. Perguntou se, após a demonstração pessoal do seu afazer, não gostaria de realizar o questionário que preparei.
Ainda um tanto perturbado com o que a vidente dissera, continuei a perscrutar a minha lista bastante grande de antigos amores. De fato, apenas uma, dentre todos os bem-quereres, eu gostaria de reencontrar ̶ uma menina do tempo de escola que havia me tocado especialmente. Uma que, como Madame Blue, tinha o céu nos olhos. Um pouco depois, apesar de certo temor inspirado pela figura a minha frente, mergulhei no mar de seu olhar. Nesse momento, foi a bela mulher que pareceu se incomodar. Parece ter visto algo que não esperava e me senti como que atravessado, como se ela buscasse algo atrás de mim. Perguntei o que estava acontecendo. Ela respondeu que via uma estrada de terra, longa e sinuosa, através da parede. Respondi que havia uma estrada de terra como essa na cidade onde nasci, no interior de São Paulo.
— Eu a percorria para ir à escola todos os dias. A minha casa ficava em uma de suas entradas. Eu estava justamente me lembrando dela agora. A sua predição da volta de uma mulher que amei me levou de volta à Dourado ̶ a “Cidade Coração”.
Madame Blue pareceu ficar um tanto desconcertada. Baixou os olhos e repetiu: “Cidade Coração…”.
— Sim! O pessoal da região chama Dourado dessa maneira. Ela fica no centro geométrico exato do Estado.
— Você amou uma moça de lá?
— Não amei… Eu a amo. De certa maneira, o que disse sobre a volta de uma mulher importante me fez pensar a respeito. Dentre todos os relacionamentos que tive, apenas o que senti por minha vizinha de sítio valeria a pena reviver. Era um amor puro. Éramos muito jovens. Praticamente crianças. Mas foi tão intenso… Foi por causa dela que comecei a escrever. Quando vim para São Paulo, trocamos algumas cartas, porém fui me desfazendo dos meus laços com Dourado. Quando voltei para o funeral do meu pai, dez anos depois, Valquíria já havia partido para destino desconhecido.
Eu, enquanto falava, me ausentei de tal maneira que não havia percebido que os olhos de Madame Blue haviam se transformado em espelhos d’agua. Estranhei seu comportamento. Perguntei se estava passando mal. Ela acenou afirmativamente e perguntou se não poderíamos continuar em outra ocasião. Respondi que sim, que teríamos tempo. A reportagem estava programada para uma semana depois. Marcamos para dois dias adiante.
Na data marcada, fui recebido novamente por Maurice. Desta vez, seu rosto de deus africano estava iluminado por um sorriso indescritível. Caminhei até a sala que estava bem diferente da primeira vez que a vi. As amplas janelas estavam totalmente escancaradas, deixando a mostra um belo jardim interno. Madame Blue estava em pé, de costas, olhando para ele. Eu a chamei e ela se voltou lentamente. Sorria um sorriso familiar. O cabelo, solto e despenteado, me lembrou uma pessoa. A mesma da foto que ela me passou assim que me aproximei — me amor douradense. Ainda que tentasse me conter, meu coração desembestou feito o alazão Corisco com o qual brincávamos. Lágrimas desceram feito as cascatas do Rio Boa Esperança. Valquíria e eu nos abraçamos. Nossas bocas com gosto salgado nos lábios se embebedaram de nós. As cartas haviam cumprido sua previsão, resgatando o meu passado e inaugurando o meu futuro…
*Texto derivado do Curso de Narrativas Em Primeira Pessoa, de Lunna Guedes.
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Não há problema em esperarmos mais um pouco, meu bem querer… Se pensarmos bem, estamos fazendo amor desde a última vez que estivemos juntas, quase sem parar, despertas ou adormecidas, ainda que tenhamos apenas nos beijado. Nosso encontro despertou em mim a capacidade de vivenciar sonhos — na imaginação, tão poderosa quanto a satisfação — ultrapassei quase todas as barreiras da realização e a amei. Consumaremos algo que já se aconteceu em nossas mentes — um déjà-vu — uma dança antiga, rememorada. Na escola, a aula de Biologia versava sobre o fluxo sanguíneo e os batimentos cardíacos na atividade física. Naquele mesmo instante, o meu coração saltava como ginasta e o meu sangue viajava célere pensando em você. Estamos apaixonadas pela oportunidade de estarmos unidas, concretizando a fantasia de nos perdemos. Isso é tão forte que qualquer coisa que venhamos a viver já foi sublime. Como sabe, você será a minha primeira…
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Ontem, no ônibus, vivi uma cena de cinema ou um trecho de livro de ficção. Não foi um acidente, uma correria, tiros de arma de fogo ou explosão, uma luta coreografada ou um beijo impetuoso e desavergonhado. Mais próximo de uma história ficcional, o acontecimento foi proporcionado por dois jovens pretos, vestindo chinelos, calções e camisetas, sentados lado a lado no banco à minha esquerda. Ouviam, provavelmente, um rap no celular – o que só pude depreender pelo acompanhamento ritmado de seus pés – visto que os dois dividiam os fones de ouvido, o que, por si só já era um fato inesperado, porquanto o mais comum de acontecer é depararmos com indivíduos que fazem questão de partilhar o seu gosto musical com todos a sua volta em volume acima do aceitável.
O mais jovem, que talvez tivesse 12 anos, perguntou como se fosse personagem de romance, de forma clara e pausada: “De onde será que vem tanto ódio?”. Ao que o mais velho, que aparentava ter um ou dois anos a mais, talvez seu irmão, respondeu: “Não sei, acho que do coração!… Do coração…”. Após uma pausa, o mais novo, devolveu: “Eu não odeio ninguém! Não tenho isso no meu coração!”.
Desconcertado por esse diálogo deslocado, que mais caberia em um livro de ficção infantil, quase perdi o ponto em que desceria e certamente deixei para trás dois protagonistas inconcebíveis de serem criados por mim, principalmente nesta fase de descrença pela qual eu passo. Esses dois garotos extraordinários, que avançavam a cidade adentro, ouvindo um rap de versos raivosos, são como os anjos imolados todos os dias, que sofrem a influência do meio que vivem, das mazelas humanas que os cercam, dos cultivadores das dores já vividas, que tentam semear em seus corações o ódio que sentem ou o efeito da frustração do que não viveram.
Em vez de tentar construirmos um mundo melhor daqui para frente, muitas vezes com a intenção de denunciar, tentamos reviver o terror daqui para trás. Temos esse direito de transformar seres de corações virgens em rossios semeados de ódio? Quando decretamos que o mundo é ruim e sentimos a necessidade de prepararmos os nossos filhos para ele, não cometemos um erro em deixarmos escorrer veneno nessa orientação e com isso reproduzimos outra pessoa igual a nós, que carregará uma herança maldita desde então? Será que queremos montar um exército de crianças soldados de uma luta já perdida por nós?
*Texto de 2012
Rap do bom…
