Coração, Mente E Alma

Há, dentro de mim, uma briga
Momentos em que o meu coração grita
Debate-se dentro do peito
Com o pulmão se atrita
Rebela-se contra os órgãos que abastece de sangue
Autoritário, tenta impor as suas certezas
Rumar contra as correntezas
Chega a sugerir que sonhe a mente
Mente que não aguentará outras aventuras
Que sofrerá com outra aversão
Confia na sua característica demente
A da mente que se engana facilmente
Porque sabe que ela não se exprime
Para além dos sentidos
Aprecia pela visão
Enternece-se pelo som
Subjuga-se pelo toque
Submete-se pelo gosto
É uma mente limitada
Ao mundo que apreende pelas demandas do corpo
Porque é mais simples buscar o sentido de tudo
Pela experiência sensorial?
Onde está a minha alma,
Que não assume a posição de senhora?
A tentar reencontrar a consciência perdida
Pelas vidas afora
A cada manhã e aurora
De mim, para mim
Amém?

BEDA / Scenarium / Furacão

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Foto por Ray Bilcliff em Pexels.com

Eu,
que sempre quis ser brisa tépida,
remanso em paisagem cálida,
surpreendo-me
por querer transpor obstáculos –
casas,
cercas,
muros
e árvores –
com a violência de um furacão…
Quero-me assenhorar das paragens,
invadir os campos cultivados,
arrancar as ramas pela raiz,
revolver a terra molhada
com a força
de meu arado alado,
a semear com o meu falo
o chão revolto
e plantar a minha descendência
de ventania

no coração da amada…

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / O Regresso*

Foto por Lisa Fotios em Pexels.com

A chefe de redação me designou para fazer uma matéria sobre Tarot. Sabendo que eu era avesso a jogos de adivinhações e sortilégios, achou que seria interessante contrapor a minha descrença a algo que ela acreditava. Na verdade, ela cria em Madame Blue. De antemão, a consultou antes sobre a reportagem em que submeteria seu trabalho a um escrutínio materialista. Madame Blue não apenas aceitou como se sentiu especialmente impelida a demonstrar a conexão com o intangível para um céptico. Eu, por meu turno, adoro um desafio e lá fui encontrar a velha senhora que consultava em uma casa em Moema, numa dessas ruas com nome de pássaro.

A linda residência era uma das muitas da região que ainda não havia se transformado em espaço comercial, se bem que eu considerasse essa coisa de jogo de Tarot uma atividade que visava arrancar dinheiro de incautos. Apertei a campainha e me atendeu um homem alto e bonito, um tipo africano com a tez negra como a noite sem luar. Anunciou-se como Maurice e me levou até a sala onde Madame Blue já me esperava. Não se tratava de uma velha senhora, porém uma mulher que devia ter a minha idade, uns 35 anos, se tanto. Seu nome se fazia entender pelos profundos olhos azuis que me fulminaram assim que entrei.

Sem dizer muitas palavras, me pediu para sentar e que tocasse as Cartas do Destino, as embaralhasse, as dividisse e as reagrupasse. Após o que sacou uma a uma  ̶  “Mundo, Temperança, Sacerdotisa, Carro”. O que significava? Segundo Madame Blue, o retorno de uma mulher de minha vida que se afastara no tempo. Normalmente, eu não ligaria para aquele presságio, se não fosse o tom estranhamente grave empregado pela atraente vidente. Durante uma pausa que pareceu bastante longa, fiquei especulando sobre qual mulher seria, dentre tantas que conhecera. Retroativamente, fiz minha memória retornar do último afeto, meses antes, até às anteriores. Meu passeio pelo passado foi interrompido pela voz de Madame Blue que me chamou até sua presença azulada. Perguntou se, após a demonstração pessoal do seu afazer, não gostaria de realizar o questionário que preparei.

Ainda um tanto perturbado com o que a vidente dissera, continuei a perscrutar a minha lista bastante grande de antigos amores. De fato, apenas uma, dentre todos os bem-quereres, eu gostaria de reencontrar  ̶  uma menina do tempo de escola que havia me tocado especialmente. Uma que, como Madame Blue, tinha o céu nos olhos. Um pouco depois, apesar de certo temor inspirado pela figura a minha frente, mergulhei no mar de seu olhar. Nesse momento, foi a bela mulher que pareceu se incomodar. Parece ter visto algo que não esperava e me senti como que atravessado, como se ela buscasse algo atrás de mim. Perguntei o que estava acontecendo. Ela respondeu que via uma estrada de terra, longa e sinuosa, através da parede. Respondi que havia uma estrada de terra como essa na cidade onde nasci, no interior de São Paulo.

— Eu a percorria para ir à escola todos os dias. A minha casa ficava em uma de suas entradas. Eu estava justamente me lembrando dela agora. A sua predição da volta de uma mulher que amei me levou de volta à Dourado  ̶  a “Cidade Coração”.

Madame Blue pareceu ficar um tanto desconcertada. Baixou os olhos e repetiu: “Cidade Coração…”.

— Sim! O pessoal da região chama Dourado dessa maneira. Ela fica no centro geométrico exato do Estado.

— Você amou uma moça de lá?

— Não amei… Eu a amo. De certa maneira, o que disse sobre a volta de uma mulher importante me fez pensar a respeito. Dentre todos os relacionamentos que tive, apenas o que senti por minha vizinha de sítio valeria a pena reviver. Era um amor puro. Éramos muito jovens. Praticamente crianças. Mas foi tão intenso… Foi por causa dela que comecei a escrever. Quando vim para São Paulo, trocamos algumas cartas, porém fui me desfazendo dos meus laços com Dourado. Quando voltei para o funeral do meu pai, dez anos depois, Valquíria já havia partido para destino desconhecido.

Eu, enquanto falava, me ausentei de tal maneira que não havia percebido que os olhos de Madame Blue haviam se transformado em espelhos d’agua. Estranhei seu comportamento. Perguntei se estava passando mal. Ela acenou afirmativamente e perguntou se não poderíamos continuar em outra ocasião. Respondi que sim, que teríamos tempo. A reportagem estava programada para uma semana depois. Marcamos para dois dias adiante.

Na data marcada, fui recebido novamente por Maurice. Desta vez, seu rosto de deus africano estava iluminado por um sorriso indescritível. Caminhei até a sala que estava bem diferente da primeira vez que a vi. As amplas janelas estavam totalmente escancaradas, deixando a mostra um belo jardim interno. Madame Blue estava em pé, de costas, olhando para ele. Eu a chamei e ela se voltou lentamente. Sorria um sorriso familiar. O cabelo, solto e despenteado, me lembrou uma pessoa. A mesma da foto que ela me passou assim que me aproximei — me amor douradense. Ainda que tentasse me conter, meu coração desembestou feito o alazão Corisco com o qual brincávamos. Lágrimas desceram feito as cascatas do Rio Boa Esperança. Valquíria e eu nos abraçamos. Nossas bocas com gosto salgado nos lábios se embebedaram de nós. As cartas haviam cumprido sua previsão, resgatando o meu passado e inaugurando o meu futuro…

*Texto derivado do Curso de Narrativas Em Primeira Pessoa, de Lunna Guedes.

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / A Primeira

Não há problema em esperarmos mais um pouco, meu bem querer… Se pensarmos bem, estamos fazendo amor desde a última vez que estivemos juntas, quase sem parar, despertas ou adormecidas, ainda que tenhamos apenas nos beijado. Nosso encontro despertou em mim a capacidade de vivenciar sonhos — na imaginação, tão poderosa quanto a satisfação — ultrapassei quase todas as barreiras da realização e a amei. Consumaremos algo que já se aconteceu em nossas mentes — um déjà-vu — uma dança antiga, rememorada. Na escola, a aula de Biologia versava sobre o fluxo sanguíneo e os batimentos cardíacos na atividade física. Naquele mesmo instante, o meu coração saltava como ginasta e o meu sangue viajava célere pensando em você. Estamos apaixonadas pela oportunidade de estarmos unidas, concretizando a fantasia de nos perdemos. Isso é tão forte que qualquer coisa que venhamos a viver já foi sublime. Como sabe, você será a minha primeira…

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