Coração, Mente E Alma

Na falta de cabelos, carrego amores perfeitos na cabeça…

Há, dentro de mim, uma briga
Momentos em que o meu coração grita
Debate-se dentro do peito
Com o pulmão se atrita
Rebela-se contra os órgãos que abastece de sangue
Autoritário, tenta impor as suas certezas
Rumar contra as correntezas
Chega a sugerir que sonhe a mente
Mente que não aguentará outras aventuras
Que sofrerá com outra aversão
Confia na sua característica demente
A da mente que se engana facilmente
Porque sabe que ela não se exprime
Para além dos sentidos
Aprecia pela visão
Enternece-se pelo som
Subjuga-se pelo toque
Submete-se pelo gosto
É uma mente limitada
Ao mundo que apreende pelas demandas do corpo

Porque é mais simples buscar o sentido de tudo
Pela experiência sensorial?
Onde está a minha alma,
Que não assume a posição de senhora?
A tentar reencontrar a minha alma perdida
Pelas vidas afora
A cada manhã e aurora
De mim, para mim
Amém?

B.E.D.A. / O Reizinho E A Rosinha

O Reizinho imperava sobre tudo ao seu redor. Mesmo não sendo dono de tudo — na verdade quase nada lhe pertencia — dispensava a todos aquele olhar de que o espaço que dividia com as outras pessoas era de sua posse. Isso era irrefutável para qualquer um que o conhecesse. Os homens, o admiravam, as mulheres, o amavam. O que insinuasse desejar, lhe era oferecido. O que se inclinasse a pedir lhe era dado. No entanto, em verdade, o Reizinho vivia a deriva de si mesmo. Não se sentia senhor de seu corpo e muito menos de seu destino. O estranho é que o olhar que intimidava provinha de seu sentido de deslocamento. O Reizinho era um estrangeiro dentro de sua casa, quando normalmente saia em viagem em busca de seu coração, em longas sessões de circunspecção sobre o nada. Fora dela, caminhava como um posseiro de mentes, seduzindo inconsequentemente a qualquer um que se aproximasse demais de sua forte presença.

Em determinada época, o Reizinho começou a gostar de jardinagem, talvez a ocupação mais próxima de uma sensação de completude que já experimentara algum dia. Dera de passar grande parte do dia a remexer na terra, a podar galhos, a plantar sementes de flores diversas e plantas próprias para a infusão — hortelã, erva cidreira, erva doce, melissa, camomila… flores

Em uma parte afastada do canteiro, viu surgir uma haste portando um botão roseado, o que achou extraordinário, visto que não lembrava de que tivesse plantado uma roseira. Ela apareceu assim, do nada, impondo a sua força leonina de dona do jardim. O Reizinho, de dominador, passou a dominado pela Rosinha. Percebera, então, que encontrara um propósito para a sua vida. Dali por diante, sua função seria a de protegê-la e adorá-la. De vê-la banhar-se à chuva que a vestia com gotículas de diamantes com a qual dançava ao som do vento vespertino e à luz do sol matutino. Dali por diante, o Reizinho e a Rosinha permaneceriam unidos — o seu primeiro olhar pertenceria a ela; o perfume que evolasse se dirigiria apenas a ele, infinitamente… Mesmo que ambos soubessem que tudo era finito.

Participam do B.E.D.A.:
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Darlene Regina
Mariana Gouveia
Adriana Aneli
Cláudia Leonardi

B.E.D.A. / Veredas

Há quem garimpe a vida toda
em busca da pedra preciosa
e nada consegue,
a não ser restolhos —
poeira sem peso, pedregulhos
e o espinho da rosa.

Há quem se perca pelo caminho
e encontra a curva perfeita,
a reta para o coração,
topa com a pepita na terra aflorada,
um beijo perfumado
da inesperada boca da amada.

Há quem beba da água mais limpa,
desconhece a insipidez do ódio,
a tibiez da voz monocórdica,
desfila sem saber o que é medo,
canta a alegria e recebe amor,
mas é infeliz…

Há quem consiga fazer correr o sangue,
sabe estimular a troca e a revolução
apaixonada a bandeiras despregadas.
Quaisquer cores são suas,
o trânsito em cada rua tumultua,
segue o fluxo descontínuo,
arremeda o certo com o incerto,
mente verdades e constrói sendas
e, entre incensos, insensato,
trapaceia.
Vence.
É herói.

As veredas da existência são insinuantes,
indeterminadas, cheias de vieses
feito terminações nervosas,
crescentes na infância e na juventude,
esclerosadas na velhice.
Viver é bom. É ruim.
Como doença progressiva no coração da Terra,
somos bestiais seres da guerra.
Matamos e morremos.
No meio de tudo isso, vivemos…

Participam do B.E.D.A.:
Adriana Aneli
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Lunna Guedes
Mariana Gouveia
Roseli Pedroso

Maria Madalena

— Mãe!… Mãe?…
— Oi, filho!…
— Oi, mãe! Como vai a senhora?
— Eu me sinto plena, meu filho!
— Que bom, mãe!
— Por que me chamou pessoalmente?… Não sabe que estou sempre com você?
— Sim! Eu a sinto o tempo todo comigo… Sabe que é… Estou vendo todo mundo postar coisas bonitas sobre as suas mães… Quis participar…
— Não precisa, meu filho! Eu sei do seu amor por mim!… Não seria vaidade de sua parte?… Por se autodenominar escritor?
— Pensei nisso… Por isso, pensei em não postar nada… Mas, para ser sincero, senti uma imensa necessidade de fazê-lo… Então, quis colocar algo que fosse seu, uma palavra ou uma frase sua…
— Tem certeza que quer mesmo, menino?… Talvez você não goste tanto do que eu venha a dizer…
— Sério? Apenas tenho seguido o meu coração, mãe… Quando eu erro, erro por amor, tanto quanto a senhora, quando estava presente fisicamente…
— O que eu aprendi vivendo do outro lado da vida é que somos seres errantes e errôneos, na maior parte das vezes… Mas errar por amor é o melhor motivo, melhor do que qualquer outro…
— Que lindo, mãe!… me sinto melhor…
— Mas, isso não é tudo, querido… Você me pediu uma palavra, talvez um conselho e vou lhe dar…
— Sim, Dona Madalena…
— Perdoe!… Perdoe e se perdoe, do fundo do seu coração!

BEDA / Intacto

Quem ama de paixão, sabe —
antes de morrermos mil vezes —
nos despedaçamos dez vezes mil…
Quem permanece intacto em uma relação —
sem perceber a falta de algum pedaço —
não está a amar…

Cabeça, tronco e membros —
nada escapa à desconstrução de nosso ser…
Quando amamos,
quem nos vê caminhar pelos lugares,
apenas se ilude que ali se move alguém integral —
a respiração foge dos pulmões
ou falta o coração —
que bate em outro peito…

Tocados pelo outro,
enquanto o sangue circula fora do corpo,
os olhos se perdem em cada nuvem que passa
e as pernas seguem por ruas
pelas quais passeiam o ser amado…

No auge da paixão
é doloroso amar,
porque não estamos onde estamos…
Desconcentrados de nós,
variamos de senso,
contrariamos o consenso,
o equilíbrio é penso,
o desejo é imenso
de estar no outro,
com o outro,
pelo outro,
pelo com pelo
peles unidas…

Quando nos perdemos em nós,
destroçados e trocados
de corpos e mentes,
ganhamos todo o Universo
— o Inferno e o Céu —
destino incerto,
a terminarmos como solitárias moléculas dementes
ou a renascermos amorosas sementes…

Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Darlene Regina / Alê Helga /
Claudia Leonardi / Adriana Aneli / Mariana Gouveia