B.E.D.A. / Nino

Nino e Armando Valsani (seu filho), em 14 de Agosto de 2016.

No dia 15 de Agosto de 2017 eu cometi uma ousadia. Ainda impactado pela passagem um dia antes de Nino Valsani, aos 84 anos, tenor brasileiro de carreira consagrada aqui e fora do Brasil, escrevi no celular um poema em sua homenagem no caminho para o seu velório, dentro do ônibus. Isso não foi ousado, mas declamá-lo frente a todos os presentes no espaço onde se encontrava seu corpo presente, sim! Fiquei imaginando onde estaria aquele garoto tímido que continuava existindo dentro de mim e que de vez quando assumia a minha personalidade…

Vários cantores líricos e músicos, conhecidos, parentes e amigos compareceram ao ato no Cemitério da Consolação. Eu, que apenas nos últimos anos havia privado de sua companhia em eventos pela aí com os Três Tenores Brasileiros, só conhecia de relance a carreira de Nino. Ela teve início em 1951, sob orientação do maestro italiano Aldo Petrioli. Na Itália, realizou vários concertos nos principais teatros, além de apresentar-se em rádios e televisões. Já no Brasil, fez parte do elenco da TV Tupi e em 1955 recebeu o Prêmio Roquete Pinto de melhor cantor de música erudita do Brasil.

As homenagens dos seus companheiros da arte do canto enchia o espaço antigo com suas vozes que ganharam ali um palco ideal, apesar do motivo fúnebre. Em certo momento, pedi a palavra e li da melhor maneira que pude as verdadeiramente mal traçadas linhas em versos pensos, muito longe de uma pretensa elegia. Mas fui sincero e isso talvez tenha ajudado em sua boa repercussão. Principalmente quando postei a homenagem no Facebook. Nessa ocasião, uma sobrinha sua chamou a atenção para a foto. Ela é de um ano antes, no mesmo dia da morte de Nino, aniversário de sua mãe, irmã dele. Foi uma estranha coincidência, sem nenhuma intenção, alheio às datas que estava.

NINO

Qual era mesmo o seu nome?
Antônio Valsani?
Eu o conhecia como Nino
O que era perfeito, já que para mim
ele não passava de um menino.
As boas qualidades da criança —
principalmente, a esperança…
E Valsani…
Esse nome dança em nossos lábios…

Ele tinha a voz da bem-querença —
a sua força nos transportava
para um futuro melhor avante,
para um lugar de beleza e temperança,
de sonho e prazer efervescente…
Sim, porque o Nino
só fazia levar emoção e alegria
por onde entoava a sua voz tonitruante.

Já no capítulo final de sua vida terrena,
que seguirá em outro plano (tenham certeza!),
ainda que lhe faltasse o ar,
as notas que emitia atravessava os mares,
derrubava muralhas…
Fico a imaginar, no passado,
o som produzido por seus pulmões,
a preencher teatros e salões,
a arrebatar mentes e corações.

Hoje, dizemos adeus ao corpo do Nino.
Deixou herdeiros e seguidores
que saberão continuar a cantar os amores,
os prazeres e as dores.
Deixaremos de ver
o olhar de soslaio e o sorriso maroto
de sábio e vivido garoto.
Daquele que nunca perdeu a fé na arte.
De seu poder em nos conduzir
pela existência afora…
Exemplo de homem e eterno menino
que ficará guardado em nosso peito
e em nossa memória…

Participam do B.E.D.A.:
Roseli Pedroso
Lunna Guedes
Adriana Aneli
Mariana Gouveia
Darlene Regina
Cláudia Leonardi

B.E.D.A. / Cão Perdido No Espaço*

Laika, primeiro terráqueo vivo a ir para o Espaço, em 1967, pelas mãos do homem.

Quando ela se foi,
silenciosa feito um raio sem trovão —
Oyá calada — comecei a cheirar o chão
pelo qual ela teria passado…

Em busca de seu cheiro —
cão perdigueiro —
perdi meu dom,
me perdi…
Fiquei sem casa,
sem dona,
sem domínio
sobre o meu caminho
de perseguidor de seu odor.

Todas as noites,
uivava para as luas
presas aos postes das ruas,
tentando alcançar as estrelas
de seu corpo,
os cometas em seus cabelos,
os asteroides de seu olhar…

Cercado de escuridão,
senti-me como Layka
só na imensidão infinita —
corpo encapsulado,
sem elo
com a Terra de onde provinha,
a não ser pela gravidade
que a ela me prendia…

Sonhei que pela poderosa atração
de seu corpo,
reentrava na atmosfera
em que ela respirava — invasão
em forma de fogo
e risco de luz — pedaço de metal
incandescente
a penetrar na pele da amada… 
Saudade que se apagava
em choque e explosão,
amor e paixão… 

A energia e o ar de meu módulo
aos poucos se esvai…
Por meus pelos,
o calor se retira da pele,
começo a sentir o frio a me invadir,
até que o frio se torna meu,
antes que deixe de respirar…
Ser sem vigor, aberta sorte,
circulo pelo Espaço a conhecer
o belo mistério da morte…

*Em 3 de novembro de 1957, um mês após a missão do Sputnik 1, os soviéticos mandaram o primeiro ser vivo ao espaço: a cadela Laika. O Sputnik 2 deu 2.570 voltas à Terra e ficou 162 dias em órbita. Queimou-se ao tocar na atmosfera terrestre em 14 de Abril de 1958.

Participam do B.E.D.A.:

Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Claudia Leonardi / Darlene Regina / Mariana Gouveia / Adriana Aneli

Espelhos*

Espelho de outros tempos, na academia…

Neste jogo de imagens
que é a vida,
o nosso corpo
é apenas uma miragem
que se desvanece
entre outras…
Todos os anos nos deparamos
com as mesmas datas
a se repetirem na folhinha,
na agenda da bolsa,
no calendário do celular,
em marcas de nossa pele…
Costumam variar os dias da semana,
mais velhos,
o Sol nos recebe cotidianamente.
Os espelhos
insistem nos mostrar
diferentes versões
de quem imaginamos ser…
Que importa?
Espelhos foram feitos
para serem quebrados
e nós,
para sermos amados,
ainda que não nos reconheçamos…

*Poema erigido de cacos de palavras ao longo dos anos 10 do terceiro milênio.

O Homem De Neve

Uma das constatações advindas pelos efeitos da Pandemia de SARS-COV-2, é de como os vários níveis de compreensão da vida se entrechocam, o que é perfeitamente normal em sabendo que não somos máquinas fabricadas em série. A Sociedade brasileira acabou por se dividir em preferências abaixo da racionalidade básica e mesmo pessoas alegadamente inteligentes, bem formadas e articuladas professam ideias que vão contra a dignidade humana.

Uma das questões, afora a desconfiança quanto a Ciência, a mesma que proporcionou que possam propagar ideologias espúrias por modernas máquinas de comunicação criadas por técnicas científicas, é quanto ao Politicamente Correto. Quem está acostumado ao comportamento engendrado pelo sistema de dominação desde a chegada dos portugueses ao Brasil pelo extrativismo, colonialismo, tráfico humano, escravidão, monoculturas, servilismo, segregação econômica, apartheid racial escamoteado se sente atingido.

Com o crescimento da conscientização das classes sociais alijadas das benesses do desenvolvimento econômico com a consequente falta de ensino de qualidade para si e seus filhos, o aumento exponencial de subempregos (bicos), a desregulamentação das leis de proteção ao trabalho, retirada de direitos sociais e várias outras medidas que visam a impedir que a Sociedade possa minimamente respirar um ambiente mais arejado, tem tornado cada vez mais distante a possibilidade da busca por equanimidade na nação brasileira como um todo.

Antes, ingenuamente eu cria que as novas gerações, na presunção de que apresentassem uma cabeça mais libertária, tivessem uma visão mais avançada da sociedade no terceiro milênio, sob a égide da democracia racial. Porém, aos poucos pude perceber que alguns ditos populares refletem a sabedoria do tempo: “os frutos não caem longe da árvore”. A saber que seja compreensível a contestação dos pais pelos filhos, é mais comum que os descendentes reproduzam o comportamento dos ascendentes.

Nesse caso, quase todos os preconceitos de origem pregressa passam para o ideário das novas gerações. Preceitos de séculos antes, desde a gênese da formação do povo brasileiro surgem como matriz do comportamento dos mais jovens. Além disso, ao longo dos séculos incorporamos tendências chegadas de fora, contrapondo às nossas características básicas, como a intensa miscigenação e a riqueza cultural daí advinda.

Outra ingenuidade da minha parte, esfacelada pelos “novos” tempos, foi a de que a classe artística como um todo estivesse unida contra a ideologia sombria que não é apenas conservadora, mas retrógrada, repressiva a antagônicos, que não admite que haja um mínimo sinal de igualdade social e muito menos protagonismo. Como disse um amigo, são apenas “tocadores de instrumentos” (trabalho preferencialmente com música) que não desenvolveram uma sensibilidade especial quanto à natureza humana.

Quando esses “novos conservadores” demonstram descreditar da perspectiva do politicamente correto, a defesa de suas posturas agridem os despossuídos, os diferentes, os mais pobres, os de identidade não conformista. Não adoto mais o termo “minoria” para a parcela da população marginalizada, já que devido à concentração de poder econômico e consequentemente político, a minoria (em quantidade) é composta por quem tem ditado desde sempre as normas práticas sob as quais vivemos, acima da lei constitucional.

O texto abaixo, foi reproduzido por um cantor e músico, bonachão, engraçado e “inteligente”, pelo que me era dado conhecer. Dado o fato do tema girar em torno dum boneco de neve através da qual é construída uma narrativa “conservadora”, que acaba por se denotar reacionária, provavelmente foi importada de uma matriz desse viés, alhures.

Ao músico, como vários outros, deixei de seguir e, por fim, cortei a “amizade” na rede social, em vez de responder na sua página. Não é porque queira criar uma bolha de aceitação às minhas ideias. Apenas não tenho tido estômago para certos posicionamentos. Cresceu a percepção, após sofrer contestações que passavam da argumentação a ataques pessoais, começam por desmerecer a minha fala por eu pertencer a tal ou qual partido, sem saberem que minhas análises não são partidárias, mas políticas, entendidas no padrão da Antiga Grécia de que a Política é arte da convivência — percebi o quanto são recalcitrantes. Não mudarão com argumentos, por mais equilibrados que sejam, aliás, muitas vezes por causa disso mesmo. A seguir, a análise do referido texto. 

“Nevou noite passada (se estivesse em Santa Catarina…).

8:00 Eu fiz um boneco de neve (boneco é boneco, assexuado).

8:10 Uma feminista passou e me perguntou por que eu não fiz uma mulher de neve (os bonecos de neve normalmente apresentam uma figura sem conotações sexuais, arredondadas. Teria acrescentado um pênis para identificá-lo?).

8:15 Então, fiz uma mulher de neve.

8:17 Minha vizinha feminista reclamou do peito volumoso da mulher de neve dizendo que ela tinha sido feita com olhar masculino (aqui pressupõe que uma defensora dos direitos da mulher odeie a forma do corpo feminino, à priori).

8:20 O casal gay que morava nas proximidades deu chilique dizendo que eu deveria ter feito dois homens de neve (‘chilique’ é um termo depreciativo. Quem é libertário, normalmente não se prende a esses detalhes, suponho. No máximo, talvez fizesse outro boneco de neve para acompanhar o primeiro, mesmo que já não fosse mais um “homem”, mas  “mulher”, lembram? Deixa pra lá, o ato falho serve ao propósito do argumento ao qual se quer chegar).

8:22 Um homem-mulher-trans perguntou: por que não fez apenas uma pessoa de neve com partes destacáveis? (mais uma vez, trabalha com a ideia de sexualizar as identidades como se elas se conformassem apenas aos órgãos específicos do corpo. Será por isso que falam tanto em cu?).

8:25 Uns veganos reclamaram do nariz de cenoura, alegando que vegetais são alimentos e não decoração (eu, quando fui vegetariano, no começo era um porre, mas nunca criticaria um detalhe pequeno como esse. Seria mais fácil, como eu adoro cenoura, comê-la).

8:28 Fui chamado de racista porque o casal de neve é branco (acho que, em se tratando de neve, isso não tem cabimento, mas serve ao discurso que se apega ao irracionalismo. No entanto, como normalmente essa turma é contra o desenvolvimento limpo e sustentável, uma neve com alto teor de poluição talvez ocorresse).

8:31 O muçulmano do outro lado da rua exigia que a mulher de neve fosse coberta (voltou a ser mulher).

8:40 A polícia chegou dizendo que alguém se sentiu oprimido por meu discurso de ódio (a Polícia como padrão trabalha a favor do status quo. Nem se daria ao trabalho de atender a essa ‘denúncia’ em relação a um simples boneco de neve).

8:42 A vizinha feminista reclamou novamente que a vassoura da mulher da neve precisava ser retirada porque representava as mulheres em um papel doméstico (sou homem e adoro varrer. Para mim, é um exercício relaxante. Como originalmente era um homem de neve, eu me sentiria representado, não atacado).

8:43 O oficial de justiça me intimou por fascismo (infelizmente, o Fascismo está entranhado em nossa sociedade, a ponto de eleger um representante majoritário e dizer que movimentos antifascistas são contra seu governo militarista e genocida).

8:45 A Globo me entrevistou. Perguntou se eu sabia a diferença entre homens de neve e mulheres de neve. Respondi: ‘bolas de neve’ e agora sou chamado de sexista (identificar detalhes anatômicos não prefigura sexismo, mas dizer que homens são naturalmente superiores às mulheres e que devem agir para mantê-las em seus devidos lugares de subserviência).

9:00 Apareci no noticiário como fascista, racista, homofóbico, sexista, machista, xenófobo, trans fóbico (ao final, resulta que vestirá a carapuça, verão).

9:10 Me perguntaram se tenho algum cúmplice. Meus filhos foram levados pelo Conselho Tutelar (esse extremismo preconizado pelos que se auto intitulam “conservadores” é o medo de verem suas posturas tornadas criminosas por si só. Ainda não são e talvez nunca o sejam, tristemente).

9:29 Manifestantes de esquerda, ofendidos por tudo, marcharam pela rua exigindo que eu fosse preso (estar ofendido ‘por tudo’ da maneira que está é o meu sentimento atual. Indignação pela situação pelo qual passa o País é, no mínimo, o que deveria ser sentido e ser demonstrado por todos).

Ao meio-dia, tudo derretia… (menos o preconceito arraigado).

Moral: não há moral para essa história. Isso é o que nos tornamos com a imbecilidade do politicamente correto pelo que, em breve, respirar ofenderá a alguém (se ‘respirar’ for para continuar a perpetrar o mal, a aumentar as mazelas, a aviltar a humanidade, a apelar para a violência, a matar os diferentes por serem diferentes, como os Nazistas fizeram, instaurar o preconceito como prática, então é ofensivo à causa da ‘paz entre os homens de boa vontade’, como está no Livro que dizem defender. Que derretam naturalmente, sob a luz da construção de uma sociedade realmente solidária).”

Foto:  Foto por Hui Huang em Pexels.com

Amor Cego

quando a toquei
cego pelo amor
desvelei os véus
da percepção humana
para além do sentido
barato e velado da visão

ultrapassei a pele
alcancei a alma
meu corpo se tornou todo potência
energia sem identidade
dor orgástica-holística prazer 
perfeita desorganização
do sentido do sentir

unidos a roçar
terminações nervosas hipersensibilizadas
drogados pelo cheiro gosto  
escuridão clarividente
paixão eterna profunda
muito mais que amor
perene platitude

consubstanciado em línguas
dedos mamas bundas genitálias
bocas mordeduras arranhões
impressões digitais
impermanentes renovadas
toques estoques vibrações

invasão de novos territórios
para além da vida penetrações
atraídos por buracos negros
onde se consomem
fótons fantasias
glúons gulosos
quarks aquartelados
neutrinos sanguíneos
constelações galáxias inteiras

suor golfo úmido rocio
em pelos vaporizados
resfolegar arpejos
brotar plena consciência
corpo epiderme campo fértil
da breve morte bem-vinda
big crunch em um último beijo
no tempo que não existe mais…