12 / 04 / 2025 / BEDA / O Traço*

Traço e som contínuos, como se não fossem terminar.
Bastaria desligar um botão – linha e grito
se perderiam no infinito apagado
e mudo…
Como se estivesse seguindo um roteiro,
espero pelo túnel de luz…
Que não se abre…
Eu me incomodo, mas nem tanto.
Estava em paz e não me importaria que permanecesse
naquele estado estável de barco a vela em mar aberto
sem vento, sol sem quentura, corpo sem frio…
Até que…
A paz começou a me inquietar…
A quietude a me oprimir…
A solidão a me assediar – um monstro branco e totalitário.
Meus olhos fechados, deslocados de meu rosto amorfo,
começam a queimar…
Ainda que não respirasse, principio a sufocar…
Me pergunto se estou no Inferno – traço de nada.
Tento rememorar minha existência passada…
Percebo que a perdi…
Não sou e nunca fui nada…
Expandido por todos os lados,
sinto falta da contenção que a minha pele proporcionava.
Sinto a ausência do fluxo sanguíneo, da saliva e dos substratos
expelidos pelo sistema excretor – sensação vital…
Ouço murmúrios, como se fosse o som de um pequeno riacho
a passar – pequenas-pedras-que-rolam-entre-margens-sem-fim…
Por um instante, volto ao mundo material…
Pairando sobre o meu antigo corpo,
testemunho pessoas a pressionar o peito do sujeito
e atacá-lo com choques elétricos…
Sei que não sou mais ele.
Entre curioso e saudoso, não impeço (como se pudesse)
que continuem tentando…
Sei que não conseguirão…
Ou não quero que consigam.
A ciência total do que me rodeia – o Infinito –
enceta me trazer felicidade…
Em contagem regressiva,
dou o passo traçado desde o início do meu tempo –
o desenlace – o traço final.
Antes de me perder no Nada pleno,
ainda ouço: “Hora do óbito – Oito e oito”…

*Poema de 2020

21 / 03 / 2025 / Cabelos Brancos

A bela da tarde continua a encantar…
A flor de girassol ainda está em seus cabelos…
Ela continua a apaixonar quem a conhece…
Ousadamente
deixa que o branco se assenhore de sua fronte
e marque presença em seu pentear.

Pela cidade onde passeia
está sempre a demonstrar o seu poder
que tem a idade do tempo que passa
O seu corpo de serpente transpira
massas de energia a ondular
o entorno
a queimar os imprudentes e o ar…

A sua figura ensolarada
transforma as paragens em tempestades de luz
reflexo direto da sua personalidade doirada
ainda que os fios leitosos avisem a sua permanência
feito um rio impetuoso
a deixar rastros de paixão enluarada
em fios caudalosos…

Foto por Anastasia Kolykhalkina em Pexels.com

13 / 03 / 2025 / Considerações Sobre O Amor

Os humanos são seres que desenvolveram civilizações buscando o equilíbrio nas condições de sobrevivência da espécie. Os primeiros grupos eram nômades e foram se tornando sedentários conforme se fixaram à terra. Implementaram a agricultura, criaram sistemas de proteção-dominação, uniram-se em grupos que separavam os seus companheiros em estâncias – famílias, amigos, colegas, subordinados, senhores. 

Desenvolveram religiões, cânones de fé – criados à suas semelhanças, aparando arestas – desenvolvendo comportamentos, tarefas e proibições. O prazer e o riso tornaram-se vigiados. Fecharam-se em grupos menores aos quais foram se amarrando em laços de afeição e rejeição, confundiram os sentimentos e as emoções. Tentaram controlar mentes, desejos, preferências, identidades, funções, destinos – o fluxo vital. 

O Amor foi se apequenando. Individualizado, cercado de nacionalidades, línguas e linguagens, significados e significantes, a maior coisa que existe tornou-se um anátema, origem de maldições e excomunhões, a depender de quem, a quem ou ao que declarasse. 

A supor que as frequências ondulantes no Nada em determinado instante se concentraram e deram origem à expansão do Universo, o Amor surgiu como uma força original – criadora e “destruidora”. Como a morte, a destruição é apenas uma faceta da sempiterna transformação. O poético é que não há fim previsível e, ainda que haja, a ciência desse fim é irrelevante. Mesmo o Nada, é Amor.

O que proponho igualmente é improvável. A minha percepção é que apesar de todo o ódio que rege a História humana, cada gota de Amor acaba por sustentar a nossa existência. Uma espécie de “cola” que cimenta a nossa permanência neste planetinha.

Que essa totalidade não pareça um milagre da Vida é muito estranho para mim. Onde veem o inóspito, eu vejo possibilidade; onde consideram deserto, eu encontro função; onde encontram sofrimento, percebo aprendizado; onde determinam a raridade, eu aceito a afirmação.

Num dado contexto de minha existência percebi que a maneira como dirigimos o nosso olhar, estabelecemos uma conexão com variadas possibilidades de ser. Há quem aceite algumas referências como irrefutáveis. O pior é quando se começam a comparar dados materiais como se fossem aferições de nível de felicidade. Neste âmbito, entra o Amor compartimentado – amores, amorzinhos, afeições, paixões, simpatias – e contrários.

O Amor é sensível quando estamos desvestidos de tantas precauções arregimentadas durante anos de vivência sob determinadas estruturas sociais – muralhas de segregação. Normalmente porque confundimos os graus da expressão amorosa. Separar o joio do trigo é quase um segredo.

Ao abrirmos o coração, sofremos reveses, crescemos em prevenção, buscamos refúgios. A busca da perfeita sintonia só se dá quando ignoramos o medo, inimigo da verdadeira entrega. Algo que a roupa que trajamos – o corpo – só atrapalha, mas que ainda é o meio pelo qual o conhecemos e o sentimos, vivemos ou morremos por ele neste mundo material.

Foto por George Becker em Pexels.com

09 / 02 / 2025 / Colonização Mercantilista

Esta postagem não terá imagem. Mesmo porque, caso a divulgasse, o sujeito que a protagonizou, conseguiria o seu objetivo — divulgar a sua marca de vestuário através da exposição de sua esposa. Para isso, compareceu ao tapete vermelho do Grammy 2025 ladeado por Bianca Censori vestindo uma espécie de véu transparente que deixou a australiana totalmente exposta em todos os seus mínimos e íntimos detalhes. Kanye West sequer permaneceu na Kripto Arena, em Los Angeles. Dali partiu para outro evento de divulgação de sua marca, em que a sua esposa-modelo-objeto mercantil utilizou outra roupa com decotes profundos.

Eu não fiz questão de ver algumas das imagens produzidas na ocasião do “desfile”, mas foi impossível não fazê-lo, ainda que inadvertidamente. Foi estampada em todos os veículos de comunicação e mereceu destaque no noticiário diário, muito por conta da ousada atitude de Kanye West em utilizar a companheira como protagonista da peça de marketing.

Mas a questão que pode ser levantada é o quanto ultrapassar certos limites para faturamento financeiro uma empresa precisa chegar para que não sejam consideradas usurpação da dignidade humana. Poderia se contrapor que Bianca Censori estava ciente do que ocorreria e permitiu que assim fosse. Talvez o mercantilismo esteja tão entranhado na sua visão de mundo que desfilar com a pele de seu corpo praticamente exposta seja algo de que poderia até se orgulhar devido à sua eventual boa forma.

Eu não vejo nenhum problema em nos mostrarmos seminus a depender da ocasião e do lugar. O que me deixa ressabiado é percebermos a mercantilização do corpo e nos tornarmos escravos dessa condição. Manipulados, todos os que presenciaram a cena reproduziram as imagens. Sinal de que passados 300 anos da escravização como negócio, continuamos a vender corpos humanos com e sem consentimento de seus donos.

14 / 01 / 2025 / Lembranças Pandêmicas

Em 2020, escrevi: “Tenho TOC. Estava acostumado a ter a disposição seis copos no repositório. Como demos alguns para a Lívia, passamos a ter cinco. Não pensei duas vezes, comprei um copo de requeijão do bom. Daqui a pouco, estará apto a ser usado. Logo mais, à tarde, passarei o que resta no pão italiano amanhecido e comerei com leite quente misturado ao café solúvel em vidro de geleia. Ah!… Apenas para constar, o meu pote de sorvete às vezes tem feijão congelado…”.

Em Janeiro de 2021, por mais que tentasse disfarçar, eu estava depressivo e percebia crescer uma imensa crise de ansiedade. Por mais que gostasse das atividades caseiras, só restava para fazer lavar louça, cozinhar, varrer o chão, passar pano, lavar-estender-recolher roupas no varal. Passei a viajar para o passado, buscando momentos que pudesse me resgatar daquele marasmo. Postei: “Devido à minha atividade profissional, ligada aos eventos artísticos no campo da música, de várias matrizes, que diminuía muito em Janeiro, eu aproveitava para descansar mentalmente e fazer minhas incursões pelo litoral paulista, normalmente à Praia Grande, onde a família tem uma casa. Mas em 2014, passei uns dias em Itanhaém, a convite do amigo Coimbra. Foram dias incríveis, dos quais apresento dois registros. Atualmente, a Pandemia de Covid-19 tornou tudo mais difícil. É preciso evitar aglomerações, o que impede que eu tenha o contato com o Sol e o Mar que tanto amo.”

Coimbra, Romy & eu…
Na Praia do Centro, em 2014

No final de Janeiro de 2021, sabia que se eu não tomasse uma atitude, eu teria outra crise. Em outras duas oportunidades, o meu corpo respondeu veemente revoltado, me levando a ficar na UTI, com graves crises orgânicas: na primeira vez, uma gastrite hemorrágica (com 6 de hemoglobina); na segunda, hiperglicemia (900 mg/dL), me levando à Diabetes. Nessa última oportunidade, fiquei quatro luas em Ubatuba. Eu me salvei. Ajudou-me escrever “Curso De Rio, Caminho Do Mar“, lançado pela Scenarium no mesmo ano.