07 / 01 / 2025 / Algo

Essa imagem é como se fosse a mistura do movimento vago com o vazio produtivo. Costumo ficar algum tempo a especular sobre o Nada, gestor de Tudo. Se não faz sentido, não é para fazer. Porque pouca coisa faz. A não ser que escolhamos brincar com as possibilidades do que forjamos como realidade. As notícias confirmam a contradição entre o que achamos que somos e o que fazemos, denunciando a mentira que nos habituamos a divulgar como perfil. Albert Camus já dizia que o pensamento falseia a nossa condição, mas as emoções não. A Alma é conspurcada pelo corpo, ao mesmo tempo que o corpo seduz a Alma. Para alçarmos voo, devemos deixar a gaiola para trás, ainda que a carreguemos. Por Medo. Nossa maior prisão.

O Falso E O Real

“O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.” (Carlos Drummond de Andrade)

Para mim, escrever sobre o que é real e não é, é muito fácil. Tudo é real, incluindo a falsidade e o que é falso. Aliás, dadas as circunstâncias, o status do que é falseado ganha a projeção de realidade incontestável. Com o advento da Inteligência Artificial, nos acostumaremos a crer em discursos de gente morta. O menino do Sexto Sentido nos diz que vê gente morta olhando dentro de nossos olhos. Só saberemos que não somos nós, os mortos, se a nossa pele arrepiar.

A pele não mente, graças a Deus! Quando estamos com alguém, o corpo se assanha com as suas respostas que reverberam enquanto decoramos a superfície do corpo que nos antepõe pelo toque de nossas mãos. A depender dos seus movimentos, entradas e saídas, bocas, línguas, dedos, palavras ditas, entrecortadas e caladas por beijos que respondem sem duvidar. Eu elejo esta última ação como o objeto real, palpável, inebriante e permanente sobre todas as outras coisas — O Beijo. Ah! E a Morte…

Foto por Pavel Danilyuk em Pexels.com

O Amor É Foda

por que não me chama?
que esta chama que me abrasa queima que dói…
nos unimos para brincar de fogo
coisa de jovens
ainda que muito mais jovens já fomos
bebemos um do outro a água
que saciou a sede mas não matou a seca
renascida a cada estação de dias
rios desviados e ventanias
ciclos de algo que não conhecemos a profundidade
sentimos que ainda não chegamos ao fim
por mais que estejamos partidos em mil pedaços
como que espatifados contra a concretude da realidade
lutamos contra as forças inequívocas da natureza
que nos moldaram os corpos fadados a desejar
em evoluções de cantos músicas danças
esperas e ânsias esperanças
quando deitamos levantamos
pernas braços membros expectativas
vontades redivivas para não morrermos em vida
que viver é morrer todos os dias
para a solidão que nunca deixa de tentar prevalecer
sobre a bola azul
resta amar é muito mar mais que terra
a boca fala e a língua diz muito tanto
as mãos tocam as peles se pronunciam
as entradas se expõem às penetrações
e abrasões com pupilas dilatadas
movimentos de placas terremotos
volta ao mundo consumação do gozo e da dor
da roda que gira e roda que roda
sem sentido e sem nexo
o sexo é sexo
mas o amor
ah! o amor é foda…


O Fantasma*

Dormi tarde
plena madrugada
às 4h
depois de um evento
(trabalho enquanto outros se divertem).
Forcei-me a acordar cedo
para ir jogar bola.
Enquanto tomava um café
sentei-me na sala
para ver um pouco de televisão
e
conversar com o fantasma da manhã.
O seu coração pulsava com vigor
no centro do corpo
e
apesar de rápido
foi um contato proveitoso —
ele me confirmou que tudo
é
Luz!

*Versos derivados de um texto de 2014

AMOR INVENTADO

“O teu amor é uma mentira / Que a minha vaidade quer / E o meu, poesia de cego / Você não pode ver” — Cazuza

Eu não acredito em alma gêmea. Ou melhor, não acredito que a nossa vida deva se fundamentar na busca de alguém com a qual venhamos a se identificar a tal ponto que nos dê prazer apenas porque seja igual a nós. Considero que isso seja uma espécie de masturbação. Eu acredito no crescimento mútuo das pessoas pelo embate de ideias, pela diversidade de sentimentos, pela diferença de posturas, pelo confronto de mundos.

Eu acredito tanto nisso que me permito ser o outro, vez ou outra. Cada vez mais… Chamaria isso de compaixão — quando nos colocamos completamente na situação que o outro ser está vivendo. Essa viagem para outro é perigosa, conquanto não tenhamos certeza total de quem sejamos (se é que a tenhamos alguma vez). Enfim, essa transitoriedade deve ser buscada com cuidado para que não nos percamos no caminho.

Podemos de chamar de “Eu Lírico” o empreendimento de ser outros. Eu sugiro que possa ser visto como “eu, rico”. Graças a essa a personalidade lírica, podemos cometer pecados, dentro da escrita, buscar experiências, fazer quase uma peregrinação extracorpórea para construir histórias nas quais viajamos. De vez em quando escrevo me colocando no lugar de alguém que se apaixona ou se permite apaixonar facilmente na caça de outra pessoa que seja alguém com a qual se identifique. Como em “Coração, Mente e Alma”.  

Passo por altos e baixos em minha própria autoavaliação, mas creio que tenha um ponto fulcral, uma linha mestra que me conduz que me permita dizer: “esse sou eu”. E esse ser não consentiria ferir quem quer que fosse ao buscar aventuras para se comprazer em se encontrar, ele mesmo, em outra pessoa. No entanto, aceito igualmente a possibilidade de que o indivíduo acredite que isso seja possível e tente empreender esse encontro.

Liberdade para os amores!

CORAÇÃO, MENTE E ALMA

Há, dentro de mim, uma briga
Momentos em que o meu coração grita
Debate-se dentro do peito
Com o pulmão se atrita
Rebela-se contra os órgãos que abastece de sangue
Autoritário, tenta impor as suas certezas
Rumar contra as correntezas
Chega a sugerir que sonhe a mente
Mente que não aguentará outras aventuras
Que sofrerá com outra aversão
Confia na sua característica demente
A da mente que se engana facilmente
Porque sabe que ela não se exprime
Para além dos sentidos
Aprecia pela visão
Enternece-se pelo som
Subjuga-se pelo toque
Submete-se pelo gosto
É uma mente limitada
Ao mundo que apreende pelas demandas do corpo
Porque é mais simples buscar o sentido de tudo
Pela experiência sensorial?
Onde está a minha consciência,
Que não assume a posição de senhora?
A tentar reencontrar a minha alma perdida
Pelas vidas afora
A cada manhã e aurora
De mim, para mim
Amém…

Foto por Yulia Polyakova em Pexels.com