quero… desejo… vou de encontro… invado… devagar…
passos silentes sobre a areia e a pedra…
o meu corpo recebe em ondas as águas mornas do abraço marinho
desta manhã que se anuncia receptiva ela também me deseja
as águas se mostram aparentemente turbas rebeldes
consigo ler a sua dinâmica de mulher apaixonada fogo em forma aquosa
os meus membros a penetram como um cavaleiro de espada em riste
em uma batalha que já perdi sei desde o início mas guerreio
fardo de homem que ao oceano ama e por ele se derrama em sal
eu o decomponho e o absorvo em minha mente
de querer amoroso marolas se disfarçam de amantes
desfaço-me em pequenas porções de moléculas de oxigênio e hidrogênio
o meu ego apartado de mim é lançado no mar profundo
me entrego ao beijo da amada no amanhecer revelador
raios de sol por testemunha
de que sou seu amor morro para esta existência em gozo
transformado em milhões de gotas
a rebater na arrebentação junto às pedras do arpoador…
Etiqueta: corpo
#Blogvember / Viciada Em Dor
Caminhei até a porta e saí para sempre (Nirlei Oliveira)

Antes do movimento final, em que caminhei até a porta e saí para sempre, várias outras caminhadas as caminhei errante, batendo a cabeça pelas paredes que insistiam em serem sólidas. Era como se não quisesse aceitar que tudo havia terminado. Mas a dor de me sentir menosprezada me fez acordar. Sabia que não devia recuar quando finalmente me desvencilhasse de sua influência, o vício de seu poder, como se fosse a luz da minha vida.
Quanto mais lhe recebia em meu corpo, quanto mais você incendiava a minha mente, mais o desejava. Deixava, de fato ansiava que me possuísse da forma que lhe aprouvesse. Onde poderia ver humilhação, eu encontrava redenção. Onde sentisse dor, eu buscava satisfação. Onde talvez me repugnasse em me ver banhada de suor e esperma, eu abençoava como se fossem água benta e oferta à santidade da foda.
Até que percebi que para você eu era apenas mais uma peça de seu jogo de dominação. Não apenas a mim você ofereceu o seu abuso desmesurado. O meu sentimento foi o de se ver revelado exatamente o acontecia – eu era um objeto de prazer fátuo – não de envolvimento profundo. Para você, marcação de pontos. Para mim, sensação de poder em realizá-lo, como se eu fosse oferta de libação religiosa ao meu deus.
Sofrerei o tempo que deva sofrer, até eu quelar seus efeitos perniciosos. Viciada na depravação de meu ser, terei que trabalhar a minha mente para que expulse de minhas veias e artérias os efeitos da droga que me guiava os passos – desejá-lo. Sei que sou melhor do que um objeto de uso e usufruto. Sei que esta mulher sairá melhor do que entrou pela porta do calabouço e altar de celebração.
Sei que lembrarei das suas mãos, dedos, seu corpo, línguas (pareciam ser dezenas), membros inferiores e seu pau. Suas ações e rituais de dominação. Mas se prisioneiros de campos de concentração conseguiram tocar as suas vidas em frente depois de tudo o que passaram, também alcançarei o livramento para além da liberdade, até que a nossa história seja mais uma como tantas, de vidas passadas e superadas.
Renascerei.
Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes
A Alma E O Mundo

“O mundo parou ali onde dói a alma e onde o silêncio é apenas aquele eco que invade os meus ouvidos surdos”, por Suzana Martins – (In)Versus
Passava eu pelos recônditos de um dos Universos, quando fui sorteado pela Consciência Total para descer de minha condição de ser pleno para surgir encarnado no corpo de um Homem – uma das muitas vertentes de seres humanos espalhados por incontáveis planetas – uma forma em que o corpo tem um centro que articula sensações, emoções, sentimentos, ideias e a imaginação para fazer avançar a abertura da Mente e a recepção e emanação da Energia.
Acessei os arquivos da CT para entrar em contato com a História e o desenvolvimento humano daquele planeta tão pequeno quanto importante. Estavam, nas condições nas quais iria encarnar, ainda ligados à mandamentos que mais aprisionavam do que libertavam o Espírito. Em lugares, aqui e ali, já existiam Avatares que haviam anunciado as possibilidades de escaparem às adversidades provocadas por desvios que o Egoísmo produzia. Mas o aprendizado era disperso e variável em repercussão. Crenças e fés se deslocavam para a matéria em vez de serem vivenciadas como vibração espiritual, em sua maior parte.
Quando encarnado, cheguei a perder um pouco de contato com a Consciência Total. Tinha somente reminiscências de minha liberdade. Conforme passava pelas fases de desenvolvimento do meu corpo, fui conseguindo recuperar a conexão com Ela. Esse isolamento, ainda que imparcial, mostrou o sofrimento atroz por qual passa quem está desmemoriado do Todo. Sempre havia algo para desviar os homens do bom caminho. Não somente os pensamentos mais baixos, mas os aqueles que se anunciavam como superiores, eram valorizados por seus movimentos circulares, acabando por se mostrarem apartados da natureza do Ser antes de ser.
Revoltados com a minha invocação ao Amor, os doutores da lei daquele pedaço de chão me enviaram à crucificação. Estavam confusos. Assim como fiquei confuso ao empreender essa missão que, sei, repercutiria por milhares de voltas que este planeta daria em torno do Sol adiante. Sofri pesadas dores físicas, mas sabia que teriam termo. Ao me colocar no lugar de quem está submisso às leis naturais, fiquei comovido por todos que não ultrapassam a condição de mortais.
Ainda no limite de minha conformação humana, fiquei triste por deixar meus familiares e amigos terrenos e em quem acreditou na mensagem que propaguei. E por tudo que aconteceria dali por diante, ali e alhures, por causa dela…
Foto por Alem Su00e1nchez em Pexels.com
Ciclos
Das voltas que o mundo dá, o solitário jardineiro encontrou uma rosa-moça
pela qual se apaixonou.
Ela, de pétalas recém-nascidas,
à luz do sol, orvalhadas,
ofereceu-se a visão do homem calejado.
A sua imaginação acossada
fez renascer o desejo no velho artesão da poda.
Sentiu-se remoçado pelos olhos-espelho
da enérgica filha da roseira.
Pareceu encanto, magia…
Fez retesar vontades e a carne
que quer se refestelar da rosa, o cerne.
Entrar por músculos, afastar membros,
conhecer o interior do corpo –
vísceras, ossos e tegumentos –
invadir câmaras em camas,
paredes, mesas, sofás, chão, tapetes.
Possuir a rosa inteira,
beijá-la pétala por pétala,
ser ferido espinho por espinho.
Por sorte incerta das eras que se embatem,
pelos ciclos que se repetem,
o jardineiro e a rosa-moça se encontraram
na vida dela, que se iniciava,
e na dele, que se acabava,
entre a tarde que se desencantava
e a noite que avançava,
em alegria e luto.
Nesse místico instante,
se amaram…
Foto por Michelle Leman em Pexels.com
Sessenta E Dois Sóis

Numa segunda-feira como esta, às 2h da manhã, eu comecei a sonhar esta vida terrena. Aos 62 anos, continuo a sonhá-la, vivendo a carregar o fardo do passado, preparando o futuro, o presente como sentido. Vivê-lo é um presente que alguns poucos conseguem receber. Ele não nos é dado. Temos que buscá-lo. Mas não é fácil. Temos que contemplar o passado como experiência, o futuro como possibilidade que, só é viável se, no presente, o direcionarmos. Tudo é presente. Construído minuto a minuto. Ou desconstruído.
O Tempo não é passível de ser descontruído, a não ser os seus efeitos. Feito um impassível Kronos a observar com curiosidade a nossa passagem, somos nós que passamos por ele… até sermos devorados. É nossa prerrogativa empreendermos essa desconstrução. Somos nós, que navegamos o nosso corpo-identidade-mente, que devemos reverter as expectativas, mudar o nosso rumo dentro do Tempo, quantificado em números, aos quais nos referenciamos.
Para confirmá-lo, é comum registrarmos a nossa presença em imagens – algo que nos exterioriza – que nos coloca presentes no mundo, ao mesmo tempo que nos coloca no passado. Ao contrário dos povos que temiam a fotografia por acreditarem que roubavam as suas almas, ela reafirma a nossa presença. A própria visão no espelho nos mostra milionésimos de segundo depois, entre o reflexo e a sua recepção.
O nosso corpo sofre a deterioração física, constantemente pressionado pela gravidade que nos puxa para o centro da Terra. Resta a nossa mente voar, quando não são através das máquinas que inventamos para fazê-lo. Certa vez, saltei de paraquedas. Sentir a vibração do corpo no abismo contra a resistência do ar, me permitiu perceber o quanto somos frágeis. Antes de abrir o paraquedas, contemplei a finitude. Mas me sentia feliz. Livre. Vivo.
Neste marcador temporal, convivo com a permanente sensação de queda no abismo. Diferente daquele salto, estou sem paraquedas. Porém, me sinto no controle da situação. O que não quer dizer que saiba quando pousarei no chão. A contradições existem, dão o tom, mas aprendi a conviver com elas. As balizas que uso para estabelecer certa normalidade se mostram cada vez mais instáveis, como se fossem feitas de areia junto ao mar.
Ser do dia 9 de Outubro é ter como companhia John Lennon e Mário de Andrade. Somente por esses dois nomes, a cota de gente proeminente já estaria preenchida. Mas não sou em vão e nem a minha vida, vã. Sei que importo para algumas pessoas. E graças a elas e por elas, oro. Orar é desejar o bem oralmente ou mentalmente. A oração é circular. Faz bem a quem pratica tanto quanto a quem é dirigida. Devolve boas energias em nosso entorno. Uma forma de amor.
Na contramão, sinto que a minha curiosidade está sendo suplantada pelo cansaço em ver tudo se repetir como novidade, ilusão criada através do uso das novas linguagens. Por mais que venha a rebuscar os termos, talvez esteja vivendo apenas uma crise de meia-idade. Ao pensar dessa forma, consigo até sorrir e esperar a chegada da liberdade da alma ao tempo do corpo fenecer como o sol que ao fim do dia vai repousar para além do horizonte. Mais uma ilusão que se desvanece…


