#Blogvember / Silêncios Pequenos

… ainda há silêncio nessas horas pequenas…
– Nirlei Maria Oliveira em palavr(Ar)

Desencontrados por anos, os dois perderam contato, ainda que a saudade fosse constante companheira de ambos.

Avesso a redes sociais e a grupos, mesmo aos do seu métier, Thiago passava a maior parte do tempo pintando, encerrado em seu ateliê no campo. Reconhecido internacionalmente pelo pseudônimo de Noé Campesino, nunca se identificou como o autor das obras que misturava variados temas e técnicas de execução, mas com uma identidade peculiar a todas elas, quase uma assinatura – o sorriso de uma boca feminina em algum canto da tela, às vezes, no centro. Muitas vezes, surgia apenas insinuada, outras, francamente exposta, identificável.

Francisca compartilhou os primeiros anos das obras de Thiago. Com o olhar arguto de quem sabia identificar a qualidade artística de seu amado, o incentivava a prosseguir em seu estudo e aprimoramento. Por essa época, Francisca entrou em contato com um marchant que se apaixonou por ela. De início, ela resistiu às investidas, mas não o afastava completamente, interessada que estava em colocar Thiago no mercado. O jovem pintor percebeu que havia uma mútua atração entre os dois, porém queria realmente que seu trabalho desse frutos materiais após anos de dedicação laboriosa. Fechou os olhos. Queria provar para o pai que a sua carreira artística poderia render mais do que ser gerente de banco, como era o sonho do velho bancário.

Montada a exposição, Thiago foi à galeria do marchant de maneira inesperada e encontrou a sua amada nos braços do expositor em beijos ardentes. Emudeceu… por dentro e por fora. Saiu e não compareceu à noite do evento que foi um grande sucesso. Seu completo sumiço só não foi total porque entrou em contato com o marchant pedindo que fosse feita a transferência do valor resultante da venda dos quadros, fora as comissões, para uma conta que foi fechada após a retirada do saldo. Nunca mais se ouviu falar de Thiago Fonseca.

O desaparecimento do artista fez crescer a cotação de seus quadros, ao mesmo tempo que criou uma aura de lenda em torno de seu nome. Thiago aplicou o dinheiro na compra de um pequeno sítio no interior e trabalhou para que conseguisse alterar seus traços e pinceladas, uso de cores e estilo temático. Incorporou nuances de grafite e avançou para o abstracionismo e imprecionismo. Reinaugurou a sua expressão, que ficou irreconhecível em comparação à anterior. Talentoso, chamou a atenção de um crítico que viu sua obra exposta num pequeno restaurante de uma cidade pequena. Questionou de quem seria aquela obra e lhe foi apontado um sujeito de cabelos e barbas desgrenhadas, sentado no fundo. Ao se aproximar, Thiago baixou os olhos, mas a fala de Ítalo Menezes, de quem conhecia a fama, o fez erguê-los e esboçar um sorriso tímido. Perguntado se tinha outras pinturas, Thiago assentiu afirmativamente e Ítalo perguntou se poderia vê-las. O resto, é história. Desde esse contato inicial, se desenvolveu uma forte amizade. Como Noé Campesino, concordou em expor e vender seus quadros, desde que jamais aparecesse como tal. Comparecia anónimo às exposições para sentir como era a recepção às suas criações.

Numa dessas vernissages, ele viu Francisca, só, sem a companhia do marchant com quem se casara. Parou diante de um quadro que mostrava um sorriso tão enigmático quanto contagiante. Aproximou-se o mais que pode para constatar a forma que as pinceladas foram feitas. De certa maneira, ela se reconheceu nas bocas sorridentes. Começou a olhar ao redor. Foi falar com o marchant, ao qual conhecia e quis saber se sabia quando o pintor chegaria. Respondeu que nunca o tinha visto. O contato era feito através de Ítalo Menezes, que não revelava quase nada do artista: se novo ou velho, homem ou mulher, alto ou baixo, gordo ou magro. Mais uma vez, olhou ao redor e, inesperadamente, soltou uma lágrima furtiva. Ela sabia que aquele sorriso era o seu. Que o pintor era Thiago. Que o seu coração ainda lhe pertencia. Que talvez nunca mais voltaria a vê-lo. Que o seu silêncio pesaria feito um paralelepípedo sobre o peito.

Apenas acompanhado de seus cães, dos pássaros que encontravam em seu sítio um refúgio, Thiago vivia em mutismo consagrado, ampliado pela diuturna escuridão da noite que o envolvia de corpo e alma. Falava com as suas obras quando as executava. Era o único relacionamento que mantinha por temporadas inteiras. Como se fosse algo que o impedisse de esquecer Francisca, ainda há silêncio nessas horas pequenas de lembranças e saudade em que suspende seus turnos e olha para o crepúsculo…

Participam: Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Lunna Guedes

De Sol À Lua

Conversei com o Sol, hoje. É comum, ao me sentir solitário, pedir que ele reflita sobre mim a sua luz mais amiga, aquela que aquece, mas não queima; a que clareia, mas não cega; a que se afoga no crepúsculo para ressurgir na aurora; a que nos ensina a viver e nos dá a dádiva de morrer. Quando escurece e parece se ausentar, ilumina a Lua, como a revelar o poder da Natureza de sempre estar presente.

Blogagem Coletiva Interative-se / Coleções / Crepúsculos

Quando garoto, gostava de colecionar coisas aleatórias como bolinhas de gude, tampinhas de refrigerante, penas de galinha (era granjeiro), álbum de figurinhas (tristemente jogados fora por minha irmã), livros velhos (quanto mais desfolhados, melhor), aos quais gostava de preencher com as minhas próprias linhas, folhas de árvores em diferentes formatos e cores, pedras e conchas. Se buscasse pinçar mais na memória, certamente me lembraria de mais coleções advindas do desejo de regrar meu mundo, resultado de um leve transtorno obsessivo compulsivo.

Quando comecei a escrever compulsivamente, gastava a tinta de diversas canetas que, à época, poderiam vir em várias cores além dos tradicionais azul, preta ou vermelha — verde, roxo, marrom, rosa. Como não tinha condições de comprá-las seguidamente, resgatava as que eram jogadas fora por aí em minhas coletas de lixo. Um dia, em um momento incrível de desprendimento, vendi todas as mais de duzentas como plástico.

Passei agora há pouco uma vista por minha biblioteca e percebi que tenho uma espécie de coleções de coleções — romances brasileiros e internacionais, de filósofos e pensadores, de enciclopédias, de revistas… Atualmente, eu coleciono entardeceres. O crepúsculo representa algo de vida e morte. A luz se esmaecendo entre nuvens, edifícios, casas, árvores, carros, montanhas, rios, pessoas, as tornando personagens do lusco-fusco.

No Inverno que morre, a inclinação do Sol varre os seres, provoca sombreamentos, reformas de imagens, banhos em vermelho e amarelo luminares. Muitas vezes, interfiro nesses reflexos despudorados de vida em morte como forma de moldar a minha visão de vida que é, antes de tudo, uma tentativa de capturar o espírito da luz. Já fotografei auroras, mas para quem tem a alma melancólica como a minha, perceber que a luminosidade apenas inicia a sua faina de calor e dor, amor e prazer, quase como se fosse interminável, me exaspera um pouco. Quero o quase fim e a promessa noturna de um novo dia… que poderá não acontecer.

Capturar e colecionar crepúsculos é como se eu caminhasse, a cada passo no chão, a marcar os meus pés nas nuvens…

Participam da Blogagem Coletiva Interative-se:
Isabelle Brum / Mariana Gouveia / Lunna Guedes

O Pancadão De Van Gogh*

Sentado numa cadeira na varanda, esperava o entardecer avançar sobre nós. Ansiava que nuvens, que até então não se faziam presentes, viessem a adornar o crepúsculo de final de outono. Sempre a provocar excitantes e variadas formas como pano de fundo que avivam a imaginação. Uma brisa fria me deixava desperto ainda que o Sol intenso me forçasse a fechar as pálpebras-cortinas do palco de 80% da minha percepção sensorial. Sobre elas, a luz dos olhos meus não competia, mas adivinhava o brilho daquela estrela que emprestava o calor gerador da vida na Terra.

Observar o entardecer era um ritual que repetia sempre que estava em casa, mas que consegui exportar para outros lugares sempre que o tempo e o horizonte aberto me permitissem presenciar o efeito da revolução terrestre que — cotidiana e silenciosamente — ocorre sem que os seres que se dizem inteligentes a sintam. Sapos, tubarões, viúvas negras, borboletas, abelhas, alces e elefantes, golfinhos e beija-flores a sabem por uma questão de sobrevivência. As aves, seres revolucionários, descendentes diretos dos senhores do planeta por milhões de anos — os dinossauros — a conhecem para poderem migrar de um ponto a outro do hemisfério ou até entre os hemisférios. Baleias, salmões e tartarugas a usam para encontrarem o lugar ancestral para procriarem. Resta a mim, como um mísero animal ignorante dessa sofisticada ciência, aplaudir os ocasos como mapas de percurso.

Como era sábado, outros rituais humanos menos silenciosos que o meu, principiavam. Para além do estímulo visual, a audição ganhava preponderância. O som de gêneros musicais diversos e seus praticantes — forrozeiros, sambistas, sertanejos e funkeiros — competiam para ver quem venceria uma batalha perdida. Era como se para se deslocarem da vida comum necessitassem de colossais massas sonoras para se transportarem. O Sol, tão distante quanto pode ser um astro-rei, se despregava de seu ponto ilusório até outro. Abstraído-encantado, me ausentava de onde estava, surdo para as brigas de casais, o molejo da morena, as descidas até o chão e arpejos de sanfoneiros — verdadeira barafunda de acordes em desacordos.

Mal pude acreditar quando pela chegada discreta da nebulosidade e do vento alto que a dispersava, a visão do entardecer se transformou em obra impressionista, em que fios de cabelos luminosos vangoguiavam a paisagem. Por mais furioso que tivesse o volume sonoro, nada impedia que me sentisse embevecido pela Natureza a reproduzir na tela rota da Periferia de Sampa, pinceladas do triste e belo pintor holandês, ao ritmo do pancadão.

*Blogagem Coletiva 
Tema: o que faz brilhar seus olhos?

Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso

Pégasos* Ao Entardecer

Cavalos alados no céu da Cachoeirinha…?

Em 2015, nesta mesma época, publiquei no Facebook: “O tema tem se tornado repetitivo — o entardecer, o sol se pondo (somos nós que nos vamos à bordo da nave mãe), as estações que se sucedem, as nuvens que brincam de formarem seres mutantes e de se desfazerem em promessas de chuva que não virão. Enquanto isso, poucos param para observá-las, porque não se importam com a mesmice da apresentação, porque não percebem a bela notícia que a rotina do cotidiano traz — o amanhã tem futuro!”.

Nos comentários, há observações, assim como a da Tânia: “Vi vários cavalos alados…”; Alessandra da Mata pôs como resposta uma música de Jorge Mautner, com Moraes Moreira — A Lenda do Pégaso. Ao que respondi: “Maravilhosa lembrança! Dessa canção, que ouvi pouco, eu só me recordava do refrão. Incrível letra do Jorge Mautner que, ao lado de Tom Zé, Jards Macalé, Walter Franco e outros ‘esquisitos’ da MPB, aguçaram a minha imaginação nos anos 70. Você, tanto quanto eu, pega o azul nos céus do Brasil!”.

Enquanto Suzy Pavlov comentou sobre o céu craquelado, Marineide de Oliveira postou versos de uma canção da Banda Pau E Corda, do álbum “Vivência“: “Quem nasceu lá e viveu / Crescendo percebeu / Viu descer o amor / No céu de cada tarde”. E confirmou: “Também vi cavalos alados!”. Stela Maris, concordou: “É verdade, somos nós que vamos a bordo da nave mãe… E sim, o amanhã tem futuro!” e ainda Cleide Sporto afirmou sobre o crepúsculo: “Nunca será repetitivo o suficiente”.

Foram retornos estimulantes a uma simples postagem de um entardecer. De alguma maneira, as pessoas consideravam importante trocar impressões, conversar sobre a tarde que se esvaía em cores, fazer as correlações entre as linguagens. Parece ter sido coisa de outra vida, quando tínhamos “tempo mental” — algo que caracterizo como um espaço não apenas temporal ou mental, mas igualmente de energia fraternal. Não que as pessoas não gostem tanto mais umas das outras.

Creio que o afastamento físico, que não era impeditivo para encontros virtuais, também tenha se tornado concreto pela perda de estímulo de algum entendimento ou desilusão. Talvez seja o formato (Facebook) que não tenha mais o apelo que tinha antes, diante de tantas outras expressões virtuais. Talvez sejamos nós, menos “inocentes”, a nos punirmos com a cegueira dimensional. Pode ser que o desinteresse pela simplicidade vital tenha crescido. Ou os temas tenham ficado repetitivos. Ou o encanto tenha se perdido… Ou a ideia de futuro tenha esquecido seu sentido…

Sabe o que é mais estranho? Ou esqueci que tenha os visto ou definitivamente nunca consegui enxergar, na imagem acima, os tais cavalos alados…

*Pégaso (em grego: Πήγασος; romaniz.: Pégasos), na mitologia grega é um cavalo alado símbolo da imortalidade. Sua figura tem origem no mito de Perseu e Medusa, nascido do sangue da Medusa quando foi decapitada por Perseu. (Wikipédia)