Bom Dia!

BOM DIA!

Creio que uma das atitudes mais salutares que há é o de dar “bom dia!” no momento que temos a oportunidade. Desejar que o dia seja bom para alguém, para os outros animais não humanos, para as plantas, para o mundo invisível, para si mesmo reforça o compromisso de que estamos aqui para melhorar a nossa condição, para que as altas vibrações se sobressaiam em relação às baixas. Porém…

Não sou ingênuo a ponto de crer que meus desejares benéficos penetrem os corações inflexíveis dos que se aprazem em viver a dor como padrão de vida. Eu sei que estados depressivos se imiscuem nossas vidas vez ou outra, principalmente quando nos colocamos tão abertos às solicitações mais insidiosas do mundo, aquelas que nos carregam como formigas operárias do mal. Mas estou me referindo aos que carregam a consciência nublada por opção.

Como oferecer o meu “bom dia!” a quem acredita que a desigualdade é a linguagem pela qual devemos nos pautar como padrão da existência? Seria o caso de jogar a minha improvável força mental como se fosse um raio redentor para tentar transmutar a natureza maledicente de gente que ama odiar? Somos, cada um de nós, como planetas que desenvolvem suas próprias leis físicas-mentais. É usual planetas regressivos se apartarem da ordem humanista e se reunirem em sistemas que adotam um sol escuro em torno do qual girar.

É habitual neste quadrante que hordas de sequazes orem pela crença no separatismo em castas, benéficos apenas para escolhidos, que creem que sejam capacitados por um deus exclusivista, que implantou a doutrina de dominação de poucos sobre muitos. Que abominam os diferentes e que fazem força para que as diferenças sejam classificadas como indicativas para qualificar os que devem viver e os que devem morrer, os que devem comandar e os que devem obedecer, que lutam para reforçar a desigualdade, para que nada mude na abençoada relação de servilismo que caracteriza a História do mundo.

Fiquei a imaginar que o comportamento dessa gente é tão repugnante que me leva a não exteriorizar o melhor de mim. Dar o meu “bom dia!” a esses tipos equivaleria em querer que continuem a se beneficiarem do mal que espalham pelos caminhos que tomam. Significaria que colaboro para que continuem em seus bancos de carros blindados a se sentirem confortáveis à paisagem exterior de desequilíbrio social, que sentem recompensados por contrapor a sua boa saúde ao mal ajambrado, ao deserdado, ao molambo. Representaria abraçar àquele que ri da morte de enjeitados, que se glorifica a cada corpo sem vida de um desfavorecido na sarjeta numa noite chuvosa ao ir jantar no restaurante da moda. Daria ensejo que fosse um bom dia para o desrespeito.

Contudo, não quero me tornar um semelhante aos que não compreendem aos dessemelhantes. Afinal, a compreensão do outro é a senda que busco desde sempre. Quebrar a barreira da incomunicabilidade para entender o porquê de certos comportamentos, buscar o mínimo sinal de humanidade no ser mais abjeto com o qual convivo. Isso não significaria absolver o que fazem ou o que dizem, o mal que querem impor como agenda diária. Aos que desejam implantar a xenofobia como prática de nossa realidade de incrível diversidade cultural e racial, a incorporando como política do País. Não lhes importa que a Ciência demonstre que as diferenças sejam mínimas entre nós. Dada a realidade, que seja derrubada a base sobre a qual pautamos o desenvolvimento humano nos últimos séculos!

Isso significa que para não me tornar um negacionista, um detrator do verdadeiro cerne do que eu acredito e me conduz que é o amor, deverei trabalhar diária e permanentemente para participar da resistência. Cansa? Cansa! Há momentos que não queremos continuar a bater a cabeça, a nos digladiar contra obtusos que vibram a cada vez que o seu representante destila diatribes e promove abusos. Para mim, são como facadas em meu coração. Mas sobreviver talvez seja a maior ofensa que possa oferecer a esses sujeitos. Portanto, também para esses, dou um “bom dia!” para mim, sabendo que, se assim for, não será um bom dia para eles…

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse

Cavaleiros

02 de junho de 2020. Tempo de Pandemia de Covid-19. Quarentena em São Paulo. Data marcada e demarcada. Momento grave no Brasil. Transição política entre o estado democrático de Direito e eventual golpe de Estado provocado por um político do baixo clero que um dia serviu de ponta de lança ao projeto fascista gestado nos ambientes limpos e degenerados de condomínios de luxo e, esdruxulamente, à beira de mesinhas de plástico, regados à caipirinhas e churrascos.

Ao vivo, bebem leite. Seu bando plagia discursos de Goebbels, brandem tochas, vociferam contra as instituições, apoiam símbolos da supremacia branca e a liberação de armas de fogo. Além dos soldados-milicianos, conta com o apoio de simples de mentes e de corações carregados de ódio. De todas as classes. Uns, crentes-descerebrados ativos, inocentes úteis, culpados por serem tão facilmente usados. Outros, isentos, incapazes de ações empáticas com o lado fraco do elo social e, de certa maneira, simpatizantes de ideias de erradicação dos doentes sem atacar a causa — a doença que os geram e sustenta o sistema.

São a favor da desigualdade econômica, das distorções que servem aos senhores de engenho e se esforçam para manter a moenda rodando. No centro de tudo, um ser tacanho. O “cérebro pensante” é externo ao corpo que o move, sem inspiração ou aspirações culturais. O abominável se alimenta do Caos. Baseia-se em modelos que aplainam a Terra, abominam o Conhecimento e a Ciência. Abdica da humanidade como medida ou, radicalmente, absorve o pior que o ser humano já produziu — elucubração de teorias de exceção racial e afirmação da eugenia numa nação que carrega o dom de ser múltipla e miscigenada. Morte de velhos, tratados como tomadores de recursos; erradicação de direitos da massa que acreditam terem nascido para servir; instauração de privilégios dos grandes empresários (“com eles, ganharemos dinheiro”); tomada dos espaços naturais como bens de consumo (“fazer passar a boiada”); (des)governo das mentiras repetidas mil vezes até se tornarem verdades; desrespeito a Democracia ̶ escada para chegar ao poder — do qual não pretende apear.

Eis um dos cavaleiros do Apocalipse — a Peste. Aquele que se diz superior, beija os pés do grande irmão do Norte e, por ele se orienta ao sul do hemisfério Sul — cucaracha de estimação, cão amestrado que lhe lambe a mão. Programa de exterminação dos bens culturais, do sentimento de igualdade cidadã e da união na pluralidade de identidades. Desejo de extirpar oposições, afastar aquilo que o inferioriza — quase tudo que o rodeia. Revela-se grande somente aos seus seguidores de seita, sem perceber que joga o País na conflagração. Satisfação máxima de quem não tem nada a perder, a não ser sua prole — iguais a ele, reprodução dos outros três cavaleiros do Apocalipse — Guerra, Fome e Morte.

Que coloquemos um basta: a tolerância não deve servir aos intolerantes.

Imagem: Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, por Viktor Vasnetsov (1887)

Transitório Permanente

O texto a seguir foi escrito em 2013 e postado no Facebook. Era um flagrante da divisão do País, inventada ou apenas constatada e, então, posta em evidência para a obtenção de frutos eleitorais e que começava a mostrar seus horrendos dentes infectados de veneno. O incrível é que vivemos um momento parecido, mas com sinais trocados. É como se a mesma personagem – a nação brasileira – tivesse feito um movimento oposto ao que professava e as nossas mazelas materiais, disparidades estruturais e desequilíbrio socioeconômico tenha criado um caldo de cultura propício ao desenvolvimento de certa esquizofrenia social.

“Todos aqueles que me acompanham, já devem ter percebido que posto escritos e fotos que tentam relatar o que chamo de ‘transitório permanente’. Se há algo que seja flagrantemente permanente é o transitório. Da corrente do transitório é bem possível colhermos o que seja representativo do eterno, na visão de muita gente. São aqueles instantâneos com os quais se identificam – alguns, porque calam fundo n’alma, por terem vivenciado algo semelhante ou por ser de alguma forma belo ou porque sinta ser real. No entanto, nem tudo que parece ser real é bonito ou seja realmente real.

Tenho amigos que construíram um mundo baseado em instantes bonitos, ideais e idealizados. Por eles, sinto uma profunda empatia, conquanto os sinta totalmente enganados, na minha visão, que poderá estar igualmente enganada. Esse sentimento se deve ao fato de ter vivenciado a mesma ilusão, em que me recusava a ver o que estava patente. O acontecimento se demonstrava por si mesmo e eu transportava a minha miopia física para a mental. Tentava sempre encontrar uma explicação viável para a circunstância. Subvertia a realidade a favor do que eu acreditava.

A Lei da Gravidade era refutada, a formalidade do movimento dos corpos celestes não existia e o homem não era filho do homem. Nessas ocasiões, quem estivesse contra o que eu acreditasse não era apenas alguém de opinião diversa. Era um opositor que não queria o bem da humanidade – um representante do mal. Tudo o que fosse falado contra a minha idealização era eivado de malícia, sem merecimento de qualquer consideração. Como os eventos não se coadunavam com o regramento do que fosse correto, as regras perdiam a validade. 

Por ter vivido essa fase, busco sempre me colocar no lugar de quem acredita em determinada situação que, a olhos vistos, não é real. Novamente, repito que posso estar iludido. Como estamos todos nós ao nos atermos ao que seja passageiro, se fiando no Passado como se fosse o Presente, crendo em um Futuro melhor sem trabalhar para isso atualmente. Prefiro crer que seja ledo engano e não, pura e simplesmente, má intenção ou, mais extensivamente, mau-caratismo.”

Há algum tempo, decidi trilhar o caminho do meio (não confundir com o centro), buscando equilibrar a avalanche de informações mascaradas de conhecimento. Percebo nossos cidadãos transitarem em zonas mal definidas que ora flertam com os radicalismos de esquerda, ora de direita. Ambos apresentam o traço comum de acolherem com alegria soluções em que a individualidade e a diversidade devam ser suprimidas em nome do bem comum. Quando um lado ou outro alega defender determinada causa, se nota a manipulação circunstancial operada por engenheiros de projetos hegemônicos. A Democracia se torna apenas um meio para isso, tornando-se ao longo do percurso, inconveniente.

Atualmente, é de minha opinião que mostramos nossa face mais pérfida. Somos um povo que celebra o mau-caratismo como se fosse esperteza heroica. Na versão atualizada,  agora que a Terra é plana, mudamos de Salvador da Pátria e decrescemos em qualidade idealizadora, se fosse possível adjetivar dessa maneira. Antes, sonhávamos com a busca de igualdade, ainda que sem lastro na realidade, o que, mais cedo ou mais tarde, se transforma em pesadelo ou sonho mal acabado, depondo contra si mesmo. Agora, elegemos celebrar a diferença meritória baseada na injustiça e reforçamos os mecanismos de desigualdade que sempre foi a base de nossa pobre identidade. Formamos um triste País…