Viajei mil anos à frente. Errei, ao digitar a data. Teclei o ‘3” em vez do “2”… Por um instante, abateu-se sobre mim certa melancolia. Em um átimo, senti, em profundidade, o peso do esquecimento do que eu fui. Percebi que ninguém se lembrará da minha existência, apesar de haver a possibilidade que a minha descendência insista em vibrar em algum corpo do futuro.
O mais certo é que, caso a Terra não seja incinerada atomicamente por seus habitantes, os átomos que formaram a minha identidade estejam espalhados por campos de plantas, patas de animais ou pela água do mar, a formar novos jogos de referência com o planeta. O fogo de minha mente, apagado, não mais aquecerá qualquer saber… Ou seria o saber que ilumina a mente?
O meu espírito, segundo acredito, espero que esteja mergulhado em Deus… Ou no Universo (para mim, a mesma coisa), a compor a Força que nos rodeia, nos penetra, nos move e vibra com o Todo. Ainda assim, por mais que queira acreditar que permanecerei (ainda que não continue a existir como eu mesmo), fiquei triste, como nunca fiquei, com o meu passamento.
Intuí que, se fosse morrer hoje, por exemplo, teria quem se lembrasse de mim – irmãos, mulher, filhas, outros parentes, amigos e conhecidos. Com o tempo, a minha imagem, o que eu fiz, o que eu disse e escrevi, se perderia aos poucos… Mas, mesmo assim, seria uma existência prolongada por mais um tanto de anos…
Mil anos, simbolicamente, é uma eternidade. São várias eternidades… Estarei irremediavelmente morto em 3022. Mas a minha energia reverberará em outra forma e identidade de Vida. E se a Terra não estiver devastada, aportado em outro planeta.
“Adão E Eva No Paraíso“, obra de Carlos Bastos (1954) / Acervo do Museu de Arte Sacra da UFBA
Solitários, em momentos de reflexão, questionamo-nos sobre Deus e o Mundo… Revoltamo-nos contra a autoridade a fundo de quem nos trouxe para a ribalta, o chão…
Todos nós, os dispersados filhos de Eva, podemos nos ressentir da mulher primeva. Perguntamo-nos, quando a dor sobrevém, de onde ela teria aprendido a oferecer o amor de mãe, se não o teve… Quando falhou ou ousou a desafiar a soberania de seu Criador?
Não será nesse momento aprofundador que os filhos mereceriam o Seu mais dileto amor? O Seu distanciamento não seria a resposta de nosso dissabor? Ou seria a melhor proposta do Pai educador — “vá e aprenda a viver pela própria dor!”?
A Páscoa traz diversos significados para mim, além da efeméride religiosa. A Paixão de Cristo sempre me emocionou, desde criança. Aqueles filmes bíblicos, exagerados em atuações e dramas, eram assistidos com avidez em minha televisão em preto e branco. As histórias em tons de cinza, carregavam todas as cores mais fortes da paleta.
No entanto, durante um tempo, passeei pelos caminhos do ateísmo. Muito novo para não entender que houvesse tarefas impossíveis, cheguei a iniciar um projeto em que reescrevia a Bíblia sob a ótica racionalista, se bem incluísse versões em que extraterrestres exerciam um papel preponderante.
Entre os 16 e os 17 anos, li um livro de origem hinduísta que mudou a minha visão de mundo. Eu, que já havia lido a Bíblia, livros kardecistas e de outras vertentes, como excertos budistas, maometanos e outros, percebi que todas as linhas de pensamento convergiam para um mesmo propósito – o conhecimento de Deus. Radicalizei e me tornei vegetariano.
O meu lado racionalista me fez pesquisar (em livros) sobre como me alimentar de forma adequada sem carne, visto que já sabia que a proteína animal era “quase” imprescindível para a sustentação do nosso organismo. Organizei um “programa de desintoxicação” progressivo e lá fui eu vivenciar a experiência de viver sem carne. De origem animal, consumia apenas ovos, leite e derivados. Não era “vegano”, portanto.
Devido às minhas várias influências, estabeleci um sincretismo em que a Sexta-Feira Santa tinha um papel especial. Nesse dia, eu fazia jejum completo. Só bebia água! E assim foi, assim durante os 10 anos seguintes, até voltar a comer carne, já que havia me casado e nascera a minha primeira filha, Romy, que assim aprendeu a gostar de comer de tudo.
Com o casamento, sabia que não poderia impor a minha postura a ferro e fogo, ainda mais que a minha esposa, Tânia, viesse de outra formação e não queria deixar a nossa filha sem o consumo daquele tipo de proteína. Além disso, achei também que tinha que abrandar a rigidez dos meus “votos”. Porém, tirante uma churrascada ou outra, não consumo carne vermelha à larga.
Mesmo sem o meu influxo direto, a filha do meio, Ingrid, adotou o vegetarianismo como estilo de vida e, como a corroborar que os nossos filhos ou filhas não somos nós, a mais nova, Lívia, não gosta de certos alimentos que fazem parte da nossa dieta familiar, bem como a própria Ingrid, que é uma vegetariana seletiva quanto a certos vegetais.
De qualquer forma, a ideia da ressurreição da Consciência Crística em cada um de nós é algo que me mobiliza ainda hoje e acho que sempre será assim. Por uma única sentença: “Amará ao próximo como a ti mesmo” – sou cristão no sentido de enveredar por esse amor que apenas mais recentemente percebi a sua dimensão ao entender que se não amar a mim mesmo, nada fará sentido. Porque Cristo morre todos os dias em nossos corações e sempre é tempo de promover o Seu Renascimento em nossas vidas.
Em minhas caminhadas matutinas, tenho circulado pelas ruas, avenidas e vilas da minha região. Ao subir por uma das inúmeras ladeiras da típica topografia acidentada da Zona Norte de Sampa, encontrei uma loja de cabelereiros. Como era cedo, talvez abrisse mais tarde. Talvez não abrisse. Estamos em fase de restrição devido à Pandemia. O que me chamou a atenção foi o lindo nome da loja – Kairós – e seu significado.
Na estrutura linguística, simbólica e temporal da civilização moderna, geralmente emprega-se uma só palavra para designar a noção de Tempo. Já os gregos antigos, tinham duas palavras para o fenômeno da sua passagem: Khronos e Kairós. Enquanto o primeiro refere-se ao tempo cronológico ou sequencial (o que se mede, de natureza quantitativa), o segundo possui natureza qualitativa, o instante indeterminado no Tempo em que algo especial acontece: a experiência do momento oportuno. O termo é usado também em Teologia para determinar o “tempo de Deus” (a Eternidade) – enquanto Khronos representaria o “tempo dos Homens“. Referência: Wikipédia.
Que se use Kairóz como nome de um “Salão de Beleza” ou Barbearia/Cabelereira é instigante quanto às possíveis interpretações. Afinal, ali se pratica uma ação que se circunscreve a algo de efeito imediato, porém efêmero. Porém, como a intenção é que alguém se apresente mais bela/belo com consequente aumento da autoestima e melhor estado de espírito – o que poderia ser considerado tão efetivo quanto uma oração – torna-se “divino”. Dessa forma, atende-se a experiência do momento oportuno, o Tempo de Deus, ainda que se decorra no tempo dos Homens.
O fato é que ainda que tenha sido de maneira inesperada, foi oportuno eu ter feito essa rota escolhida a esmo para lembrar que o Tempo só tem valor se o vivermos intensamente, não em quantidade improdutiva.
Dia de intensa chuva, ao sair para rua, vi junto ao muro um rato correndo em minha direção. Passou por debaixo do portão e subiu em uma pedra de granito junto à entrada. Fez menção de continuar seu trajeto para dentro da garagem e o impedi com o meu pé. Falei para o bicho:
– Descansa um pouco, mas nem pense em entrar. As cachorras vão lhe atacar!
Antes que terminasse de argumentar, a Dominic surgiu como um azougue e abocanhou o pobre rato! Ainda que ela o largasse quase imediatamente alertada por meu grito, logo deixou de se mexer.
Em outra ocasião, após mais um dia de chuva, a porta da sala estava aberta e vi uma barata caminhando lentamente do quintal para dentro. Enquanto escrevia, reparei que ela estava naquele estado em que a energia que movimentava as suas patinhas se esvaia. Tempo de morrer. Tivessem as cachorras acordadas, ela já teria sofrido um ataque. Baratinada, buscava um cantinho para terminar seus dias. Eu apenas a afastei de volta para o quintal e não voltou a entrar.
Vez ou outra, em situações limites, espalmo pernilongos mais atrevidos, mas na grande maioria das vezes, ligo o ventilador para que não tenham equilíbrio no voo, além de esfriar o ar em meu entorno, condições das quais o inseto não gosta. As minhas filhas preferem usar inseticidas e repelentes na pele. Tanto em relação aos pernilongos, quanto às baratas, elas não gostam que eu aja dessa forma. Respondo:
– Meninas, sou franciscano!
Certa vez, varria o quintal e uma conversa entre mim e um marimbondo moribundo, gerou um conto. Na verdade, era Deus, em uma de suas incursões pelo mundo material. Falou comigo porque o respeitei. Ainda que chame de conto, o diálogo interno realmente ocorreu.
O meu ano começou com outra conversa. Dessa vez, com formigas. Estava terminando de carregar o equipamento do Réveillon realizado num hotel em Águas de Lindóia quando fui recolher doces que havia separado e pretendia levar para o pessoal de casa. As atentas formiguinhas estavam rodeando os invólucros dos objetos de desejo de ambas as espécies. Logo que as coloquei num saco plástico, longe do alcance dos insetos. Imediatamente, o sentimento de culpa me assomou. Pedi para que elas esperassem e fui buscar possíveis restos na mesa de doces.
Tive sorte e encontrei restos deixados por humanos. Algumas pessoas abocanharam metades dos doces e os deixaram espalhados. Levei uns três pedaços que achei suficientes para alimentar o formigueiro inteiro. Nem podia imaginar onde se localizaria a colônia, assim como não sabemos de onde surgem as formigas que habitam as nossas casas. Enfim, terminado de carregar o equipamento, fui me certificar que as bonitinhas estivessem fazendo o bom trabalho de carregar pedacinhos para a turma. Satisfeito, voltei para São Paulo pensando o quanto devo parecer fora de órbita, a ponto de relutar em escrever este texto.
Esse comportamento desenvolvo desde pequeno. Minhas paredes eram habitadas por lagartixas, bichinhos que admirava. Desenvolvi, durante um tempinho, um relacionamento de confiança com uma aranha-pega-moscas. Muito inteligentes, em vez de caçarem com teia, essas aranhas saltadoras têm uma excelente memória e detectam as suas presas com a sua excelente visão. Normalmente precavidas contra movimentos bruscos, aquele bichinho em especial confiava em mim.
Conheci várias outras, desde as de abdomens mais desenvolvidos até as de patinhas mais longas. Fascinados por artrópodes, pensei até fazer o curso de Zoologia, mas como as plantas também eram atraentes por considerá-las seres (de funções) superiores, sonhei em ter um sítio para a produção de alimentos naturais, aos 14 ou 15 anos. Um livro ampliou para além da suposição a minha impressão em relação aos seres do Reino Vegetal ̶ A Vida Secreta Das Plantas. Com esse estudo, percebi que toda a vida na Terra estava interligada. Através de Gaia – Mãe-Terra – os seres viventes são potencializados pela energia material, abrigo da anímica.
Ainda sobre as aranhas, mais recentemente, tivemos uma moradora de tamanho mais avantajado – a Waleska. A visão que ela tinha do crepúsculo era a mesma que eu buscava e compartilhamos vários momentos e ideias. Viveu alguns meses na varanda e desapareceu sem deixar vestígios. Mais recentemente, surgiu uma outra, em uma área mais abrigada, a qual as meninas batizaram de Jojo Todynho. Está conosco há alguns meses e parece ter feito um lar em que comida não falta e seus descendentes podem prosperar. Se bem que o equilíbrio natural impedirá que cresçam em número.
Consciente de minha excentricidade, não posso deixar de agir como penso a existência. Somos apenas uma das espécies que vivem neste planeta. Não somos os seus únicos senhores. A Natureza parece estar mostrando que nossas ações negligentes acarretam sérias consequências, podendo nos levar à extinção. Muito cedo para nós. Muito tarde para vários de nossos companheiros de jornada de outras espécies, extintas por nós…